A Cor Púrpura (The Color Purple/ 1985)

Assistido em 29/06/2012

Acho que Deus fica lixado quando passas pela cor púrpura num campo qualquer e não dás por isso.

Alice Walker- A Cor Púrpura

Alice Walker, autora de A Cor Púrpura, é mulher negra e feminista e ativista de Direitos Humanos. O livro, lançado em 1982, carrega fortemente os seus ideais. Trata-se de uma história tocante de crescimento e busca da própria voz, onde questões de gênero desempenham papéis fundamentais. A protagonista, Celie, é uma menina de 14 anos que acabou de ter o segundo filho proveniente dos estupros do homem que considerava pai. Ambos os bebês, Adam e Olivia, são levados para longe dela. Ela é entregue em casamento a um viúvo, a quem chama apenas de Sr., que já possui três filhos pouco mais novos que ela. Sua irmã mais nova, Nettie, sai de casa para fugir do avanço do pai, mas, abrigada na casa Celie,  quando o Sr. começa a fazer o mesmo, tem que partir novamente. Celie apanha do marido, faz todas as tarefas domésticas, trabalha na roça e nunca reclama de nada. Um dia Sr. chega em casa com sua amante Shug Avery, uma mulher livre, cantora, dona de seu próprio destino. Shug passa a ser uma influência positiva na vida de Celie. A sororidade delas e outras personagens também é rara de se ver em obras de ficção.  O livro é relatado através de cartas que Celie escreve a Deus e a Nettie e, posteriormente, também aquelas que Nettie escreve a ela. Embora seja bastante dramático, a maneira como tudo é relatado, em linguagem coloquial, cativa o leitor. Difícil não mergulhar na jornada de Celie em busca de sua própria vida e autonomia ao longo das décadas.

Não podes amaldiçoar ninguém. És preta, és pobre, és feia, és mulher. Raios te partam, não és nada.

Por esse motivo eu assisti ao filme querendo amá-lo.  Infelizmente tal não se deu. O diretor, Steven Spielberg, optou por diluir a força da trama. Talvez tenha a ver com o fato de tanto ele quanto o roteirista serem homens brancos. Talvez seja apenas implicância minha e ele apenas tenha seguido seu instinto para filmes açucarados.

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Um decisão acertada foi o elenco, que é primoroso. Whoopi Goldberg, em seu primeiro papel, brilha como Celie. Na cena em que Shug insiste para que sorria sem esconder os dentes com as mãos (coisa que fazia porque seu pai falava que eles eram horríveis), o brilho inocente de seu olhar é tão bonito que dá vontade de abraçá-la pela tela. Ela transmite toda a fragilidade que Celie deveria ter. Sr., interpretado por Denny Glover e Shug, por Margareth Avery também estão ótimos. A única pena é que optaram por apenas delinear a relação da última com Celie como sendo amorosa, excluindo o que no livro é expresso abertamente: foram parceiras ao longo dos anos, apoiando-se mutuamente. Oprah Winfrey como Sophia, nora do Sr., parece um pouco deslocada. Sua primeira aparição, marchando em direção a casa dele para falar que ia casar com seu filho, exibindo uma gestação avançada, é ótima. Mas por algum motivo algo em sua interpretação me desconectou dela no desenrolar da história. 

Eu comecei a pensar por que precisamos de amor. Por que é que sofremos. Por que é que somos pretos. Porque é que uns somos homens e outros mulheres.

Algo que me incomodou bastante foi o fato de os homens, todos negros, aparecerem como alívio cômico. Harpo, marido de Sophia e filho do Sr., cai do telhado incontáveis vezes e sempre parece desastrado, fraco e pequeno em comparação à esposa. Mesmo o Sr. atrapalhado pela chegada de Shug, é mostrado usando querosene para aumentar o fogo do fogão (com resultados previsivelmente ruins). Isso, aliado ao fato de que só vemos Celie levar um tapa uma vez, parece enfraquecer a violência que recai sobre ela (afinal, são apenas patetas), além de diminuir, de forma incômoda, todo um grupo de pessoas que aparece em cena.

Cá estamos nós, pensei, como dois velhos loucos que não passam de sobras de amor, a fazer companhia um ao outro à luz das estrelas.

As locações do filme são belíssimas e as tomadas nos campos funcionam muito bem. Destaco a cena de abertura, com as jovem Celie e Nettie correndo em meio às flores. Toda parte técnica, incluindo cenários e figurinos é muito boa (e esse é considerado uma das maiores esnobadas do Oscar, com onze indicações e nenhuma estatueta). A verdade é que é um filme bom e bem realizado e provavelmente eu teria gostado bem mais se não tivesse lido o livro, já que em comparação aparece pálido e diluído. Mas ambos merecem um olhar, nem que seja para conferir obras em que mulheres são protagonista, agentes e multidimensionais.

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