A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars/2014)

Ao chegar em casa após ter assistido A Culpa é das Estrelas, do diretor Josh Boone, lancei um questionamento ao twitter: “Seria o Augustus de A Culpa é das Estrelas o primeiro manic pixie dream boy?”. Meu amigo Breno prontamente responde que essa pedra já havia sido cantada por Matt Patches, da Vulture, em um ótimo artigo seu.

Pois bem, todos os sintomas estão lá: Gus (Ansel Elgort) é engraçado, bem-humorado e parece ter como único objetivo de vida motivar Hazel (Shailene Woodley), enquanto esta passa por um pesado tratamento em seu câncer terminal (chegando mesmo a ocultar dela seus próprios problemas pessoais). Nós sabemos que ele também se curou de câncer, não sem ter perdido uma perna, que tem um grande amigo, Isaac (Nat Wolff) também com câncer e até chegamos a ver seus pais, embora estes pareçam não ter papel nenhum em sua vida. O fato é que ele jamais chega a ser um personagem definido e plenamente desenvolvido, funcionando apenas como complemento a Hazel. É uma alma livre, como uma “manic pixie dream girl“, mas resume-se a isso: um artifício narrativo utilizado para gerar reações na protagonista. Enquanto ela tem uma visão bastante pragmática da vida, ele a incentivará a experimentar coisas novas, sendo um namorado docemente mandão, levemente stalker, presente em tantas obras adaptadas da literatura Young Adult, como bem frisa Patches.

Não há nada de errado em apaixonar-se e viver intensamente. Menos ainda quando são pessoas que não podem contar com o dia do amanhã. Mas Hazel começa o filme com uma narrativa em off que diz que este não seria um daqueles romances perfeitos, em que tudo se resolve (outra ferramente narrativa, aliás, já utilizada pelos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber em 500 Dias com Ela). Mas não é? Hazel é linda, mora em uma casa bacana, tem os pais mais compreensivos do mundo, encontra o namorado tão-perfeito-que dá-medo, faz sua viagem dos sonhos e segue a lista. Ah, tem a doença terminal, não é mesmo? Mas com exceção de uma mochila com tanque de oxigênio que precisa ser carregada sempre com ela, essa parece pouco lhe afetar o cotidiano.

Acrescento a isso outras coisas que me incomodaram. Devo dizer que toda a sequência na casa de Anne Frank foi de extremo mau gosto e mesmo desnecessária. Qualquer comparação entre estar doente, por mais grave que seja a doença, e ser um perseguido do regime nazista, é extremada. O beijo e os aplausos que se seguem só funcionariam no universo da fantasia. Essas pessoas nunca viram um beijo antes? O comportamento em relação a ex-namorada de Isaac é no mínimo repreensível. A garota não tem direito a ter controle sobre seus sentimentos e sua vida? Além disso, me parece emocionalmente abusivo pedir para uma pessoa que escreva o discurso que fará em seu enterro para que possa ouvi-lo antes de morrer.

Apesar de toda a inverossimilhança, me deixei envolver pela história e até me emocionei, embora sempre cônscia de que estava sendo manipulada pela narrativa. Achei interessante a escolha das roupas de Hazel. A figurinista Mary Claire Hannan vestiu-a quase sempre em calças capri ou com as barras dobradas de maneira a ficarem mais curtas. Aliadas as camisetas básicas da personagem, passam uma ideia de que sua vida realmente parou aos 13 anos, quando seu tratamento começou. O tempo passou, ela cresceu, mas é como se ainda vestisse as roupas dos seus 13 anos, agora curtas demais. Em três momentos ela veste calças longas e são aqueles em que ela leva sua vida adiante. São eles (spoilers): o embarque para a Holanda, o dia em que beijou Gus pela vez e o dia em que este lhe contou que seu câncer havia retornado. Este último também é marcado pela única vez em que seus jeans não estão acompanhados por camisetas, e sim uma camisa de botão com estampa delicada e um casaco vermelho sobre ela, conotando o momento ao mesmo tempo sensível e intenso que se desvelou.

Shailene Woodley mostra-se novamente uma ótima atriz, carregando a personagem principal com grande carisma. A história é até bonitinha, só não consegui encontrar no filme o que haveria de tão revolucionário nela, para tantos clamarem que agora o surpreendente em Hollywood parte da literatura YA.

culpa das estrelas

 

 

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