A Datilógrafa (Populaire/ 2012)

Assistido em 30/11/2012

America for business, France for love.

Dirigido por Régis Roinsard, A Datilógrafa é um verdadeiro deleite para os olhos. Com cores e tomadas bonitas, tudo no filme remete à estética do período retratado, 1958. Os créditos de abertura são de uma beleza impressionantes, lembrando o trabalho de Saul Bass e outros grandes artistas da época. A história abre com um travelling que se aproxima da vitrine de uma lojinha onde repousa uma máquina de escrever com a marca “Triumph”. Literalmente o triunfo da protagonista vem da máquina. Rose Pamphyle (Déborah François) sonha em sair de sua cidade e durante as noites treina datilografia. Ser secretária era uma das poucas opções de trabalho para mulher valorizadas nas classes médias urbanas nessa época. Candidata-se para uma vaga, surpreende o chefe Louis Échard (Romain Duris) pela velocidade com que bate um texto e é contratada. Muito rapidamente ambos percebem que Rose é atrapalhada para as funções de secretária, mas pode ter destaque como datilógrafa. Louis a inscreve em um concurso regional de velocidade na datilografia. Ele a trata de forma condescendente, chamando-a de “mon cher” todo o tempo (o que lembra Tootsie).

O uso de cores é bastante interessante. Verde remete a sua casa, onde seu pai e sua amiga sempre vestem roupas na cor. Após começar a trabalhar, Rose passa a vestir cinza, porque essa cor remete às roupas de Louis e também para deixar claro que as atividades não lhe tocam a alma verdadeiramente. Quando Rose e Louis passam a noite juntos pela primeira vez, o quarto é banhado de neon vermelho e azul que vem do lado de fora. Quando Rose, já campeã nacional, passa a fazer propaganda de uma máquina de escrever rosa, a Populaire do título original, ela mesma também passa a usar a cor, auto-referenciando seu nome. Aliás a propaganda da máquina lembra muito a sequência musical “Think Pink” em Cinderela em Paris.

Ao longo de todo o filme Rose sempre negou os cigarros a ela oferecidos. Passa a aceitar após o campeonato, quando Louis a abandona, marcando uma certa perda de inocência da personagem. O que mais incomoda no filme é justamente como ele a julga o tempo todo. Embora esteticamente bonito, ele parece demonstrar saudosismo de uma época que não era realmente boa para as mulheres. Quando Rose retorna, campeã e famosa, para sua cidade natal, sua amiga lhe fala “você tem tudo que uma mulher moderna pode querer”. Mas Rose fica pensativa. Na verdade ela não queria ser campeã. Ela não precisava do título, estava satisfeita com qualquer performance sua, nem mesmo fazia questão de ser secretária. Ela queria o amor de Louis e ele sim, insistia em que ganhasse. Ele, que lhe esbofeteou quando descobriu que ela não era virgem. Ao final, ambos se reúnem quando ela é finalista no campeonato mundial. Após o término da rodada, Louis invade o palco e a beija, no mesmo momento em que o resultado é liberado e ela é revelada campeã. Ele ofusca os ganhos dela, e é ovacionado ao seu lado no palco. Porque afinal, tudo que uma mulher moderna quer ou precisa é um homem para chamar de seu. Mesmo que ele lhe bata.

O filme se propõe a ser uma comédia romântica que colore o passado em tons pastel e talvez eu tenha lido demais no que foi proposto, mas é difícil ignorar o que aparece em tela. Se fosse um filme realmente realizado na década de 1950, levaria em consideração o contexto da época, mas em se tratando de uma produção de 2012, os responsáveis deveriam estar bem conscientes do que estavam fazendo. A pretensa ingenuidade da personagem esconde um discurso nocivo e mesmo perigoso. Mesmo assim, é um filme que vale a pena ser visto, por seu visual belíssimo.

Para ler uma análise mais detalhada do figurino desse filme, juntamente com Hairspray e Uma Vida em Preto e Branco, acesse aqui.

Mademoiselle-Populaire