A Época da Inocência (The Age of Innocence/ 1993)

Assistido em 03/04/2013

Depois de ter feito filmes como Touro Indomável, Taxi Driver e Os Bons Companheiros, Scorsese nos estrega um filme que, segundo ele, é o seu mais violento. Violento na paixão e nos sentimentos. Piegas? Talvez, mas há que se perceber que se trata de um melodrama, com os sentimentos à flor da pele e uma beleza no visual como há algum tempo não via.

A temática do filme já fica clara nos créditos de abertura, quando com certa sutileza vemos, acompanhadas pela bela música orquestrada, flores desabrochando e se abrindo, numa metáfora clara à perda da inocência. A cena inicial se passa em uma ópera na Nova York de 1870. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) encontra com sua noiva, May Welland (Winona Ryder) e a lembra que eles precisam avisar o resto da sociedade a respeito de seu noivado. É um mundo de regras e convenções e ele as segue da maneira adequada. Ao mesmo tempo a plateia comenta a ousadia da família de May ao trazer junto sua prima, Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recém-chegada da Europa  separada de seu marido. Todos no teatro usam seus binóculos, mas não para ver melhor a peça e sim para observar uns aos outros. Newland, que é advogado, sabe que tem que apoiar Ellen, para minimizar os estragos da sua imagem e, consequentemente, poder casar com menos escândalo, em uma família com uma imagem menos manchada. Com a convivência entre eles, ele passa a perceber que May é aquela esposa ideal inventada pela mãe e pela sociedade e que Ellen tem a personalidade e a originalidade que o atraem. Muitas coisas se passam no plano do desejo, quase tudo fica subentendido com delicadeza e certo erotismo velado por parte do diretor. Decisões difíceis têm que ser tomadas, especialmente quando May demonstra não estar tão alheia ao que acontece ao seu redor.

Ellen e Newland no parque

Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

Tanto a fotografia como todo o design de produção do filme são fantásticos! Há uma cena lindíssima em que homens vestidos de preto andam na rua em um dia de vento, todos com as cabeças abaixadas, segurando seus chapéus. Ela não possui conexão direta com nada na história. Parece que Scorsese nos lembra que ele também conhece os clássicos e sabe como utilizá-los. Os cenários são exuberante e o figurino é riquíssimo em cores e detalhes. Ellen ousa vestir roupas com cores vivas, às vezes puxando para o vermelho sem perceber como isso fere o decoro que deveria ter, dada a sua situação, enquanto May veste-se quase sempre de branco. Assim como na cena inicial vemos uma ópera, o teatro em geral pontua momentos do filme, deixando claro que todos naquele ambiente estão atuando. As cartas e bilhetes trocados entre os personagens também sempre aparecem, com closes e efeitos de iluminação, transmitindo a importância das palavras. Mas o mais interessante de tudo são os quadros que enchem as paredes das casas de todos os personagens. Cada um transmite a personalidade de seus moradores, do conservador ao excêntrico ao arrojado. É interessante como Newland fica intrigado com a pintura de uma moça sem rosto num quadro impressionista (um tanto quanto anacrônico, mas serve ao propósito do filme) na casa de Ellen. É o tipo de modernidade expressa que contrasta com os quadros românticos, rebuscados que vemos em outras casas. Nesse post no flickr há uma série de screenshots de alguns quadros. Recomendo: é muito interessante. O impressionismo ainda se manifesta em várias cenas, como uma à beira do mar, perto de um farol, com o sol batendo na água e outra sequência no parque em que a câmera desliza para mostrar o entorno e temos a impressão de ver um quadro de Seurat.

Eu sei que na época o filme teve recepção mista e confusa, por se tratar de uma mudança de temática do diretor. Mas devo dizer que pelo menos eu achei uma experiência visualmente impressionante e um filme que não deve passar batido.

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