Aguirre e Fitzcarraldo: delírios amazônicos de Herzog

Existem filmes que quando assistimos, sabemos que estamos presenciando um grande feito. Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes, 1972) e Fitzcarraldo (1982) são dois deles. Dirigidos pelo alemão Werner Herzog, ambos compartilham a megalomania de suas produções, o ator Klaus Kinski no papel do personagem-título e o cenário: a floresta Amazônica. 

Aguirre é um personagem louco a ambicioso, que participa de uma expedição em busca do El Dorado e quando os líderes desta decidem desistir, provoca um motim para seguir em diante. Kinski é uma verdadeira força da natureza, intenso e tresloucado. A mata que envolve a todos é o cenário ideal: linda e opressiva, comprovando que Herzog estava certo e só seria possível filmar ali. A trilha sonora casa com perfeição com as cenas. Talvez seja clichê dizer isso, mas Aguirre, a Coléra dos Deuses é mais que um filme: é uma experiência visual inexplicável e inigualável.

Fitzcarraldo, por sua vez, pode até ser um filme mais falho em certos aspectos (e o ritmo é um deles), mas ainda ainda assim é uma experiência que impressiona. O filme abre com o personagem-título chegando a Manaus e uma breve descrição da loucura de riqueza sem fim que foi o ciclo da borracha na cidade (com direito a uma pequena participação de Milton Nascimento). Fitzcarraldo era obcecado pela ideia de construir uma ópera em Iquitos, um vilarejo no Peru. A realização do fato passaria pelo deslocamento de um grande navio à vapor por terra entre dois rios próximos. Novamente a mata é um personagem à parte, mas o que impressiona  mesmo é a escalada produção em meio a um local que não possui estrutura alguma para filmagem: tudo o que vemos foi realmente realizado em cena para o filme.

Por este motivo, o documentário Burden of Dreams (1982), dirigido por Les Blank, é um complemento perfeito para filme. Relata os anos de pré-produção, a série de problemas que aconteceram , a saída de atores e por fim, os conflitos com a equipe como um todo, isolados no meio do nada para as filmagens. É interessante perceber que Fitzcarraldo tem ambições que superam o bom senso e explora mão de obra indígena para conseguir o que quer, e Herzog… Bem, ele tem ambições que superam o bom-senso e explora a mão de obra indígena para conseguir o quer. Fitzcarraldo é como um alter-ego de Herzog nesse filme em que ficção e realidade se fundem diante de nossos olhos. Mas dessa vez, métodos questionáveis à parte, a teimosiado diretor provou-se acertada e trata-se de uma grande obra.

Tanto Aguirre quanto Fitzcarraldo são o tipo de filme que, após assitir, deixam o desejo de falar ao mundo para que façam o mesmo. Ainda bem que existem gênios loucos.

 

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