Anna Karenina (2012)

Assistido em 22/06/2013

Quando assisti esse trailer ano passado eu sabia que Anna Karenina seria um filme para não deixar passar. O diretor Joe Wright (do perfeito Desejo e Reparação) optou por filmar a história toda em cenários, a maioria dentro de um teatro, de modo experimental. Não sabia se tal coisa daria certo ou não, mas não deu para deixar passar despercebida a força visual que isso imprimiu no trailer. Assim, decidi que leria o livro antes de ver o filme. Foram necessários dez meses para vencer as mais de mil páginas em uma tradução antiga (tendo a leitura entremeada por outros livros, claro). E ao final, um livro com personagens fascinantes, embora com uma narrativa um tanto quando irregular.

Os dois protagonistas se contrapõem e se equilibram. De um lado temos Anna Arkádyevna Karenina, uma mulher urbana que é casada com Aléxis Karenin e apaixonada pelo conde Aléxis Vronsky. Ela vive uma vida cheia de riquezas e de uma forma que a sociedade da época julgava imoral. Já Constantine Lévin é um idealista de uma família de riqueza antiga e rural, mas vive com simplicidade, ceifando as lavouras junto com seus camponeses, em busca de um sentido para a vida e do amor de Kitty Scherbátsky. Mas ele também tem seus defeitos: separa as mulheres entre as “para casar e as da vida”. A vida de Anna ainda é contrastada pela de seu irmão, Oblonsky, casado com Dolly (irmã de Kitty) e um infiel inveterado. É interessante como Anna é julgada e condenada por seu amor, enquanto seu irmão sai ileso aos olhos da sociedade e mesmo Vronsky pode continuar vivendo sua vida como se nada acontecesse. A história, pertencente à escola do realismo, é absolutamente cínica nos seus comentários à sociedade russa.

No filme, Anna é Keira Knightley, Karenin é Jude Law, Lévin é Domhnall Gleeson e Vronsky é Aaron Taylor-Johnson. Esse último me parece um pouco jovem demais para o papel.

Como citado, a história toda se passa praticamente dentro de um teatro cenográfico, incluindo os bailes e corridas de cavalo. Joe Wright afirma que a decisão partiu em parte por falta de verba para produzir os cenários integralmente e em parte para simbolizar a sociedade da época, onde todos interpretavam o tempo inteiro. A estética que resulta dessa escolha é muito interessante: as transições entre cenas, com cenários sendo deslocados ou portas se abrindo para outro lugar são muito bonitas. Por outro lado, ao colocar músicos tocando em cena e momentos com personagens coreografados, ele passa a sensação de que se trata de um musical ou ópera. Faz lembrar Moulin Rouge (de Baz Luhrmann) e não combina com o tipo de narrativa. Lá tinhamos uma história que não só era musical, como ambientadaem um teatro (e de forma teatral). Aqui, perde-se o tom realista e ácido ao exagerar-se. Isso acontece principalmente no núcleo de Oblonky. Apesar disso, a produção, do cenário ao figurino, passando pela fotografia, é muito bonita.

O filme humanizou bastante Karenin, tentando fazer o público ter pena dele. Ele é interpretado como um homem formal, mas está longe de demonstrar a forma burocrática como trata a vida e a esposa. Já Vronsky aparece como um galanteador e sedutor, sempre um apaixonado, mas, por outro lado, também fica pouco evidente sua imaturidade. Ela só parece na cena da corrida: o que dizer de um homem tão obstinado em ganhar que acaba por matar sua mais perfeita e querida égua? No livro é difícil entender como Anna, uma mulher que parece ser adorada por todos, quando resolve não mais se manter presa a um marido detestável, escolhe um amante mimado e infantil para acompanhá-la. Parece que apenas ela idealiza a situação (pelo menos essa foi minha percepção). A história não tem tanto o tom de melodrama de amor como no filme.

Um ponto forte do filme foi saber cortar as partes certas da trama. Uma boa parcela do meio do livro lida com questões camponesas, agricultura mecanizada versus tradicional, necessidade ou não de escolarizar pobres e mulheres, política das províncias e os inúmeros gabinetes que eram criados sem função nenhuma, guerra nos Bálcãs, entre outros assuntos, alguns interessantes, outros arrastados, mas que em menor ou maior grau não são necessários para a narrativa principal.

O livro é uma leitura fascinante. O filme vale a pena ser assistido pelo seu visual: mesmo que essa desmanche o tom da narrativa, é deslumbrante.

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  • Adoro quando vc escreve sobre um filme e fala tb sobre o livro! Eu também procuro ler/assistir os dois (aham, falou A culta) e é legal perceber como isso influencia (ou não) a percepção dos filmes, mesmo que signifique “trabalho” em dobro, não? 😉

    • Poxa, eu também gosto de ler o livro e escrever sobre os dois juntos. Mesmo sabendo que são duas mídias diferentes, eu acho que fica mais completo. 🙂 os posts que eu mais gosto de fazer são os que têm o livro junto ou que comparo o filme novo com o antigo, por isso. Hehehe

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