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42ª Mostra de São Paulo- A Valsa de Waldheim

Eleições nacionais. O candidato com passado militar exalta a moral, a família e espírito da nação. Minimiza as mortes do passado alegando que muita gente morreu naquela época. As manifestações contra ele aumentam e seus seguidores ameaçam a vida dos oponentes. Outros usam de argumentos religiosos para defendê-lo. Ele não vence no primeiro turno, mas garante 46% dos votos válidos. No segundo turno as manifestações se ampliam. A mídia internacional cobre, não sem espanto, as escolhas dos cidadãos do país e a espantosa ficha do candidato. Estes rebatem dizendo que vão eleger quem eles quiserem e que tudo não passa de um plano de esquerdistas para acabar com o democracia. Poderia ser o Brasil em 2018, mas é a Áustria em 1986.

As semelhanças entre os fatos apresentados no documentário A Valsa de Waldheim (Waldheims Walzer, 2018) e nosso próprio cenário político são assustadoras. A diretora, Ruth Beckermann, era ativista na época que o filme cobre. Ela filmou alguns protestos e, junto com imagens de arquivo, conseguiu recontar aquele momento da candidatura de Kurt Waldheim. Político de carreira, ex-secretário geral do ONU por quase 10 anos, entre 1972 e 1981, ele foi acusado de ter sido atuante no exército nazista. Arquivos de guerra revelam sua ficha militar, bem como fotos dele em campo  e documentos que provam sua filiação a organizações nazistas e serviços prestados a eles.

Em suas memórias sobre a época, costumava dizer que foi ferido em combate em 1941 e depois afastado. Omitiu o fato de ter trabalhado na Iugoslávia e na Grécia em seções responsáveis por deportar judeus para a morte. Negando veemente esses anos de serviço prestado para o 3º Reich, Waldheim apelou para um discurso populista e nacionalista, que questionava a nacionalidade a pessoas “que não eram austríacas de verdade”. Enquanto manifestantes diziam que não aceitariam essa época de violência de novo, sua constante relativização das mortes do holocausto, sempre comparadas com as mortes de alemães, levaram a discursos antissemitas inflamados da população.

Sob o escudo da moralidade, foi defendido por seus eleitores, que acusavam uma conspiração internacional para derrotá-lo. Beckermann faz uso certeiro das imagens da época, nos deslocando para os debates entre políticos, historiadores, manifestantes e partidários, descortinando o posicionamento de cada peão no complexo tabuleiro político. Embora o formato seja convencional, o filme ganha força na montagem que compõem um panorama bastante claro. O interessante é que em meio a isso tudo, não seja apresentado o candidato concorrente. Talvez porque a documentarista esteja mais preocupada em, ao mesmo tempo descortinar o absurdo daquilo tudo, mas também deixar a narrativa aberta o suficiente para que os espectadores contemporâneos possam preenchê-la com as histórias atuais de direta conservadora que, com seus nacionalismos extremistas, novamente está em ascensão na Europa. O documentário deixa bem claro que não importam as provas: a população seguirá o discurso que lhe parecer mais conveniente. O filme é o candidato austríaco para a vaga no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2019.

4,5 de 5 estrelas

P.S: O desolador é perceber que com todos os paralelos possíveis de fazer com o Brasil, ainda assim Waldheim sempre negou seu envolvimento com o nazismo. Já o candidato brasileiro da extrema-direita conservadora apoio a tortura como método, o extermínio de dissidências políticas e reverencia a história e as figuras da ditadura militar brasileira. E mesmo com o discurso abertamente violento é a preferência de grande parte da população. Waldheim venceu o segundo turno com 53,9% votos. O que nos aguarda?

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42ª Mostra de São Paulo- A Odisséia de Peter

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

A necessidade de um sentido de lar: esse é um dos temas principais de A Odisséia de Peter (Odysseya Petra, 2018), dirigido pela dupla Anna Kolchina e Alexey Kuzmin-Tarasov. O filme apresenta a transição da infância para a adolescência do protagonista (interpretado por Dmitriy Gabrielyan), um menino russo de doze anos que é informado pelos pais que irão todos se mudar para a Alemanha.

Em alguma década passada, a Rússia idílica de sua memória é filtrada pelo amarelo da luz do sol, aparentando calor e acolhimento. Peter corre por campos verdes, brinca com adagas de madeira,  faz guerrinhas com um amigo no mato e se banha no rio na companhia de uma amiga e com ela troca um primeiro beijo. Sua mente fervilha de criatividade, que explode no papel sob a forma de desenhos, que embora ainda rudimentares, demonstram o talento do garoto. Além de todas as beleza da terra natal, Peter ainda tem o carinho de sua vó, que o acolhe e incentiva.

A motivação dos pais para se mudar jamais é revelada: o menino não participa da decisão e o acompanhamos em seu desconhecimento, bem como no posterior estranhamento. A escola nova tem animais empalhados: seres estranhos, que parecem vivos mas não estão de verdade. O desejo de desenhar se foi. A Alemanha é cinza e fria, tem uma língua estranha a ele, rapazes hostis e um inverno sem neve que não parece casa. Em um determinado momento a mãe pergunta a ele como está a escola. “Normal”, ele responde. Se os adultos não compartilham de suas conversas, ele também não fala com eles e dureza do distanciamento marca essa falta de conexão.

Os percalços do garoto tomam vida em sua própria imaginação e os limites da realidade se borram em sua trajetória. Nesse sentido, embora não muito contextualizadas, um dos pontos altos do filme são as sequências oníricas, em que Peter se espelha na história de Homero e imagina sua própria trajetória para a Rússia. Entre mulheres-pássaro e um grupo de refugiados que que mora em um caminhão, a pergunta “um dia voltaremos para casa?” ecoa. O filme se sai bem, justamente, ao misturar a noção de pátria e lar com a própria nostalgia da infância, criando um imagético mergulhado em doçura.

Nota: 3 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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42ª Mostra de São Paulo- El Creador de Universos

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Nesse documentário uruguaio, escrito e dirigido por Mercedes Dominioni, somos apresentados ao jovem Juan, que tem grande interesse por telenovelas. Fascinado com o mundo de narrativas rocambolescas, vilões marcantes e reviravoltas, trata, ele mesmo, de escrever roteiros para suas histórias. Quem embarca nessa aventura de fantasia junto com ele é sua avó, Rosa, que tem mais de 90 anos de idade. Juntos, com o auxílio de uma pequena câmera digital, perucas e alguns adereços, constroem suas próprias narrativas dia após dia.

A dinâmica das cenas é interessante, nos deslocando para a mente inventiva do garoto, que teme, por exemplo, fazer dezoito anos porque então poderia ser preso falsamente acusado por alguém. Os demais membros da família também tomam parte da brincadeira em certos momentos, mas é o laço entre neto e avó que se fortalece no exercício criativo. Juan se envolve tanto com sua estética de telenovela que, diante da equipe do próprio documentário, por vezes parece estar sempre atuando, ampliando seus gestos e falas com dramaticidade.

O que o filme delineia sem jamais abordar diretamente é que Juan é diagnosticado com Síndrome de Asperger e como suas criações ajudam-no a colocar ordem sua própria vida, com dias certos para cada atividade da filmagem. O que está, sim, constantemente presente, é o afeto entre avó e neto, que guia as atividades.

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42ª Mostra de São Paulo- Culpa (2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Com passagem por diversos festivais mundo afora, Culpa (Den skyldige, 2018) é o candidato dinamarquês a uma vaga no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2019 e também é o primeiro longa metragem de seu diretor, Gustav Möller. Seu protagonista é Asger (Jakob Cedergren), que à princípio sabemos ser um policial afastado das ruas, aguardando julgamento e que está alocado, temporariamente, na central telefônica da polícia, atendendo a chamadas de emergência.

Asger não é um pessoa empática: as primeiras ligações mostram um homem duro e ríspido, pouco acostumado com negociações ou conversas apaziguadoras. Ele claramente não está confortável na função que está ocupando e, entre piadas com colegas, deixa claro seu desejo de voltar para a anterior. O foco dado à aliança em seu dedo, em determinado momento, também dá pistas que há algo em sua vida pessoal que não foi revelado.

O desleixo com que cumpre suas funções muda quando recebe um chamado de Iben (Jessica Dinnage), uma mulher desesperada que foi sequestrada pelo ex-marido, Michael (Johan Olsen). Sem poder ir aos locais apontados, Asger pode contar apenas com seu telefone e seu computador para investigar o caso.

E aí a direção mostra toda sua eficiência ao construir uma tensão quase sólida, de tão palpável, em torno da trama. A fotografia destaca a luz vermelha que rodeia o personagem, cada vez mais presente e mais sufocante, conforme o cenário encolhe, tornando-se mais limitado e mais escuro. A linguagem adotada diz muito com muito pouco. A câmera captura cada expressão facial do ator, com grande proximidade. Asger está trancado na sala da central telefônica e a atuação de Cedergren, nesse sentido, é essencial para o filme e ele transmite com precisão desconforto, medo, ansiedade, raiva: cada etapa pela qual seu personagem passa, limitado em suas ações.

Por isso a mixagem de som tem um peso importante no filme: ela consegue deslocar não só o personagem, mas o próprio espectador, para locais que não são visíveis. É possível ouvir os carros, perceber o desamparo de uma criança, sentir a chuva que cai e com isso, de certa forma, ampliar o espaço daquelas paredes, ainda que diante da frustração de não poder saber efetivamente o que ocorre lá fora.

Por fim, é importante destacar que, como muitos filmes escandinavos contemporâneos e seguindo outros do subgênero nordic noir, o filme trata de maneira transversal de diversos temas sociais, que passam pela violência doméstica, adicção, despreparo das forças policiais, presença de pessoas muçulmanas na Europa e saúde mental. Mas entre reviravoltas que deixam que assiste na beira da poltrona, quase sem espaço para respirar, nada é simples em Culpa.

4,5 de 5 estrelas

 

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42ª Mostra de São Paulo- A Caótica Vida de Nada Kadic (2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Uma geladeira quebrada, os alimentos colocados para gelar do lado de fora da janela. Os objetos jogados, fora de lugar. A pressa, os sapatos diferentes, que não formam par. A escola que não mais aceita os atrasos constantes. “Caótico” parece um adjetivo perfeito para a vida retratada. Dirigido por Marta Hernaiz Pidal e escrito por ela em parceria com Aida Hoffman, A Caótica Vida de Nada Kadic (Kaoticni Zivot Nade Kadic, 2018) mostra a rotina de Nada (Aida Hoffman), que mora em um pequeno apartamento com sua filha, Hava (Hava Dombic). A câmera distante, posicionada fora dos cômodos, ressalta a pequenez do lugar. Seu trabalho também é em um cubículo. Sua vida se espreme entre esses espaços e as necessidades da menina. Hava não fala. Os médicos dizem que a menina está situada no espectro do autismo, mas é jovem demais para um diagnóstico definitivo. Sem o diagnóstico, Nada não pode ganhar o benefício público e as contas de casa estão longe de fechar.

Nessa rotina sufocante, mãe e filha são retratadas por trás de elementos de transparência: ora é um vidro martelado, ora é uma porta, sempre destacando uma posição de distanciamento do que há ao redor. Entre os gritos agudos da menina e todas as atribulações, a mãe só consegue algum respiro quando faz o que chama de hipsone, que é ligar a televisão para distrair a criança. A turbulência da rotina é expressa em uma câmera subjetiva que mostra a visão embaralhada de Hava sobre as coisas, bem como com uma montagem frenética e fotografia extremamente colorida. É fascinante reparar como esses elementos de linguagem são utilizados de maneira a deslocar nossa percepção para a mente agitada de Hava, intensa como seu par de botas vermelhas.

A casa é deixada de lado e o filme se torna um road movie em que mãe e filha, deslocando-se em um velho automóvel Yugo, em contraste com as Mercedes e Hondas novinhos das ruas, partem em viagem pelo interior da Bósnia e Herzegovina e de Montenegro, conhecendo curiosos personagens e encontrando silêncio e alento. Embora o espectador sinta o cansaço do fardo cotidiano dessa maternidade real, o carinho e cuidado são também presentes e constantes e a calmaria das paisagens rurais e dos lugares bucólicos realçam a tranquilidade atingida nesse momento. Indicado ao prêmio de Melhor Primeiro Filme no Festival de Berlim, A Caótica Vida de Nada Kadic é um belo e imersivo filme de estreia.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

 

 

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