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41ª Mostra de São Paulo parte 4: últimos filmes

O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017), de Raoul Peck

 

Depois do aclamado documentário Eu Não Sou Seu Negro, Raul Peck retorna com essa cinebiografia correta, que aborda os anos de juventude do filósofo Karl Marx (August Diehl), quando entabulou amizade com Friedrich Engels (Stefan Konarske), com quem futuramente escreveria o Manifesto do Partido Comunista e que possibilitaria a criação de O Capital. A esposa de Marx, Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) aparece com a terceira personagem de importância e com uma trajetória interessante: a moça rica e estudada, de família tradicional, que largou tudo para casar-se com o rapaz pobre, judeu e de posicionamentos políticos controversos.

Pensadores da época cruzam o caminho, diferentes posicionamentos são apresentados, bem como o contexto político que fervilhava em diversos países. O diretor não se furta a retratar até mesmo as controvérsias, como o fato de Engels financiar as obras de Marx com dinheiro obtido das fábricas de sua família, ou seja, ser ele mesmo um capitalista lucrando com a alienação da mão de obra dos trabalhadores e com isso bancando a produção do amigo. A obra tem o estilo de um telefilme, como se fosse uma daquelas produções de época que a BBC costuma fazer, mas seus personagens fascinantes garantem a atenção do espectador.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

O Dia Depois (Geu-hu, 2017), de Hang Song-Soo

 

O cineasta coreano Hang Song-Soo tem lançado um filme atrás do outro utilizando como combustível para a criação suas próprias vivências. O diretor, com quase sessenta anos e casado, mantem um relacionamento com a atriz Kim Min-hee, com quem começou a trabalhar em Certo Agora, Errado Antes, de 2015. Como a arte espelha a vida (e vice-versa), o fato tem servido para inspirar suas obras com divagações sobre relacionamentos, infidelidades e hierarquias de trabalho e idade.

Dessa vez a história é a de um dono de editora, Bongwan (Hae-hyo Kwon), que contrata uma nova secretária, Areum (Kim Min-hee). O primeiro contato é de excesso de intimidade e já envolve convite para almoço e conversas pessoais. Ele pede que ela o trate com mais informalidade, ao mesmo tempo que espera o tratamento de “chefe”. Logo no primeiro dia de trabalho, Areum é abordada pela esposa do chefe, que encontrou um bilhete em sua casa e assim descobriu que ele mantém um caso com uma funcionária. A pessoa do bilhete era a secretária anterior, mas a esposa não tinha como saber da mudança.

Fazendo o uso de seu zoom característico, evitando cortes e trabalhando em longos planos fotografados em preto e branco, Song-Soo traz novamente ótimo diálogos, discutindo as particularidades e momentos da vida ao redor da mesa, em meio a muita comida e muita bebida. O álcool solta a língua de seus personagens, como em outros filmes, e verdades afloram. A temática do relacionamento extraconjugal de um homem mais velho com a moça mais nova emerge novamente, mas dessa vez focado no egocentrismo e na fragilidade do homem, em detrimento das mulheres ao seu redor. Trata-se de um filme fortemente baseado no diálogo e eles conseguem sustentar a narrativa de maneira fluida, permitindo que o espectador mergulhe na banalidade cotidiana daquelas vidas.

Nota: 4 de 5 estrelas

Estocolmo, Meu Amor (Stockholm, My Love, 2016), de Mark Cousins

 

Mark Cousins é um cineasta e crítico de cinema mais conhecido por sua produção sobre a própria sétima arte. É provável que seu trabalho mais notório seja o documentário serial A História do Cinema: Uma Odisseia, um delicioso compilado de 15 episódios com uma hora de duração cada, em que aborda a história do cinema de forma pouco óbvia, fugindo dos grandes clássicos e focando em filme menos conhecidos de países diversos. Em virtude de sua visão bastante particular do que caracteriza um cinema historicamente relevante, resolvi arriscar com esse filme, seu primeiro de ficção. E o resultado não foi positivo.

Ele é protagonizado pela cantora Neneh Cherry, que interpreta Alva Achebe uma mulher que anda pelas paisagens de Estocolmo refletindo sobre a sua vida, suas perdas, vivências e aprendizados, além da história da própria cidade, enquanto visita construções marcantes e locais ao ar livre. A primeira metade do filme é narrada em off em primeira pessoa sem descanso: a personagem divaga, em frases poéticas, sobre o que aconteceu na sua vida, compartilhando tudo com o espectador. Em determinado momento afirma já ter falado demais e por isso vai só olhar e escutar. Daí em diante sua voz some até quase o final do filme e só a vemos andando, enquanto frases que refletem seus pensamentos aparecem na tela sob a forma de legendas que pairam sobre as imagens. O texto de Cousins é facilmente reconhecível.

Árvores, crianças, caramujos, rios, igrejas, mesquitas, praças, risadas, pássaros, trilhas, chuva, carros, monumentos, musgo: uma sucessão de imagens que funcionam quase como slides. É quase um Rio, Eu Te Amo que ao invés de ser patrocinado por um órgão público de turismo, é realizado por alguém que almeja soar poético. “Isso é felicidade?”, pergunta a legenda. Se depender do estado de espírito ao assistir ao filme, definitivamente não.

Nota: 2 de 5 estrelas

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41ª Mostra de São Paulo parte 3: candidatos ao Oscar

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

 Candidato islandês a uma vaga no Oscar do ano que vem, esse filme mistura o drama com o humor de maneira eficiente tendo como fio condutor uma família suburbana. Primeiro conhecemos o filho, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), que precisa voltar a morar com os pais depois que sua esposa descobre que ele ainda guarda (e se masturba assistindo) filmes pornográficos feitos com uma namorada anterior. Comportando-se como vítima da situação, o rapaz persegue-a e tem comportamento violento.

Sua mãe, Inga (Edda Björgvinsdóttir), age de forma passivo-agressiva com o casal de vizinhos que pede para que apare a árvore de seu terreno, que faz sombra no quintal deles. Já o pai, Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) é incapaz de se posicionar diante dos acontecimentos da vida e parece preferir fugir para o ensaio de seu coral a qualquer sinal de conflito.

A trilha sonora martela suspensa enquanto a trama flerta de forma cada vez mais intensa com o absurdo. Desde o começo somos apresentados às imperfeições dos protagonistas e a polidez das relações entabuladas no subúrbio vai aos poucos revelando as pequenas obsessões pessoais, as loucuras e frustrações, que explodem de forma catártica no terceiro ato.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Happy End (2017), de Michael Haneke

A imagem na vertical: Eve (Fantine Harduin), de 13 anos, filma cenas cotidianas por meio de seu celular, em um aplicativo similar ao Snapchat. Reclama do comportamento da mãe, tortura seu hamster de estimação. Câmeras de segurança em uma obra flagram o momento em que um muro de contenção desmorona. Fazendo uso de diversos planos longos, com câmera parada e muitas vezes distantes do que se desenrola, a ponto de o espectador sequer ouvir os diálogos, em Happy End, Haneke continua interessado na forma em que as pessoas interagem com o vídeo e nos seus múltiplos desdobramentos.

Os protagonistas aqui são uma família de classe média encabeçada por Anne Laurent (Isabelle Huppert). Conflitos, divergências e todo tipo de hipocrisia vêm à tona, mostrando as incoerências e a frieza que perpassam os relacionamentos. Nesse sentido o filme dialoga muito bem com Elle, de Paul Verhoeven. Mas o diálogo é mais complexo com as obras do próprio autor, como Caché e Amor. Com esse último, o filme cria um universo compartilhado, com o qual Haneke parece brincar. Além das tensões internas à família, existe uma de caráter racial que é abordada tangencialmente, como um breve comentário. A sensação é que muito do filme funciona dessa forma: breve, superficial. Mesmo os personagens principais são adicionados aos poucos, e próximo ao final não há tempo de desenvolvê-lo satisfatoriamente. As dinâmicas que entabulam são interessantes e o humor, essencial para a trama, é bastante ácido e afiado. Rir do desconcertante é inevitável, mas não há espaço para muito mais que isso.

Embora lide com a temática das tecnologias da comunicação, a crítica presente na obra é rasa: Haneke desloca o uso de tecnologias de captura e compartilhamento de imagens para o campo do que é negativado, como se elas criassem distanciamento entre as pessoas e as transformassem em voyeurs de um lado e animais de laboratório de outro, mas não parece entender os mecanismos de compartilhamento e a recompensa em forma de interação que obrigatoriamente se fariam presentes. Se Eve compartilha sua rotina, quem a assiste, quantos likes ganha e que comentários recebe? O compartilhamento pelo compartilhamento é vazio, existe a expectativa de um público, mas Haneke não parece se interessar por esses processos: na visão pessimista típica da década de 1990 que apresenta, filma-se para ninguém e o resultado fica no vácuo. Happy End não é dos seus melhores trabalhos, mas comenta diversos aspectos da sua filmografia de forma divertida e tem, provavelmente, o melhor uso de Chandelier, da Sia, no cinema.

Nota: 3 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Canção de Granito (Song of Granite, 2017), de Pat Collins

 Cinebiografia do cantor de músicas folclóricas Joe Heaney, o filme é o candidato indicado pela Irlanda ao Oscar 2018. Com uma bela fotografia em preto e branco registra diversos momentos da vida de seu protagonista, interpretado, também, por três atores diferentes, desde sua infância até a maturidade. Espelhada em sua trajetória, acaba sendo possível captar o papel que os judeus ocupam naquela sociedade tão tradicionalmente católica. A paisagem do campo também é apresentada como um elemento de força.

Joe tem contato com a música desde a infância e sua relação com ela é de quase devoção: quando canta, fecha seus olhos e praticamente entre em transe. O formato é experimental e além das recriações dramáticas, mescla o uso de filmagens documentais. Infelizmente, para além da criatividade artística ou da beleza visual, o filme não consegue engajar na sua trama, que intercala músicas muito parecidas umas com as outras com imagens quase paradas. A sensação pode ser de repetição constante.

Nota: 2 de 5 estrelas

Loveless (2017), de Andrey Zvyagintsev

 Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes e candidato da Rússia a uma vaga para o Oscar de melhor filme estrangeiro, Loveless tem muito a dizer sobre as relações entre pessoas naquele país e a situação dele mesmo. Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin) estão se divorciando. Ela já tem um namorado mais velho e bem de vida, que mora em um apartamento grande e moderno; e ele arrumou uma namorada mais jovem, que está grávida e mora em um apartamento apertado com sua mãe. O apartamento deles mesmo, espaçoso, mas escuro e confuso como um labirinto, está à venda, para que possam dividir o dinheiro. As arquiteturas referenciam as relações. No meio disso tudo, quem sofre é o filho de ambos Alyosha (Matvey Novikov). O pai quer se livrar da responsabilidade e diz que ele tem que ficar com a mãe. Esta argumenta que ela quer seguir com sua vida tanto quanto ele. Ninguém quer ficar com o menino, que chora apavorado com as constantes brigas, escondido atrás da porta. Até que, sem amor, foge de casa.

A montagem paralela nos mostra que nesse meio tempo cada um dos pais estava com seus respectivos parceiros e ninguém se importou de cuidar do menino. A paisagem é nevada e na televisão anuncia ainda mais frio chegando. Daí em diante foca-se em encontrar a criança. A polícia diz que pouco pode fazer. Voluntários se oferecem. Alyosha tem um único amigo, que indica onde costumavam ir: se o lar do menino ruiu, o esconderijo deles é um conjunto de habitações abandonadas.

A mãe parece se importar mais com o conforto financeiro que adquire com o novo parceiro e com sua própria aparência. O pai, covarde, não consegue ficar só, e repete com a nova namorada os erros que já havia cometido antes. Utilizando um estilo frio, mas deslumbrante, Zvyagintsev revela os medos e egoísmos que pautam a estrutura falida da família tradicional que sustenta a economia. Boris não pode nem mesmo ser divorciado, senão perderia o emprego. Um colega de trabalho especula sobre o apocalipse, como que em um vislumbre das mudanças que irão acontecer.

Mas os pais não são de todo odiosos e também entrevemos suas fraquezas. Ela se faz presente especialmente próximo ao final, quando o destino dos dois é selado de maneira ambígua com um grito de dor, ficando a cargo do espectador decidir o que aconteceu.

Reestabelecida a rotina, mais uma criança cresce para ser negligenciada. E se as relações pessoais são decadentes, elas refletem as internacionais entabuladas pelo país. Na televisão, comenta-se sobre a crise na Ucrânia, a guerra, o mal comportamento do exército russo. Ao ar livre Zhenia encarna a própria Mãe Rússia, que literalmente corre sem sair do lugar. Loveless é um filme difícil de digerir, duro e pesado, mas extremamente poderoso.

Nota: 4 de 5 estrelas

O Motorista de Taxi (Taeksi Woonjunsa, 2017), de Hoon Jang

O candidato sul-coreano a uma vaga no Oscar de 2018 é baseado na história real do massacre de Gwangju, ocorrido em 1980 na cidade de mesmo nome. O levante lutava pela democracia, contra o ditador Chun Doo-hwan, mas a mídia local ocultava os acontecimentos, enquanto o exército reprimia violentamente os manifestantes. Peter (Thomas Kretschmann), um jornalista alemão, entre no país vindo do Japão, se passando por missionário, com a proposta de filmar o que aconteceu e levar essas imagens ao mundo. Para isso ele precisa de um motorista que o leve de Seul, a capital, até a outra cidade. A oferta em dinheiro é grande: o valor que Kim (Song Kang-ho), um motorista de taxi viúvo e com uma filha, deve de aluguel.

O repórter havia contratado um motorista de uma empresa particular, mas ouvindo a oferta, Kim ocupa a vaga, sem saber ainda qual seria o trabalho e suas consequências. Serve como contrapartida humorística ao peso da história: ele é tolo e despolitizado. Cai em um turbilhão de violências promovidas pelos militares e só assim se dá conta da escala do que está presenciando. Junto com ele, o espectador se inteira da realidade do que está acontecendo naquele momento. O Motorista de Taxi é muitas vezes melodramática, mas é simpático e envolvente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

The Square (2017), de Ruben Östlund

 O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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41ª Mostra de São Paulo parte 2: mais dirigidos por mulheres

Mais uma leva de filmes dirigidos por mulheres conferidos na 41ª Mostra Internacional de São Paulo.

Visages, Villages (2017), de Agnès Varda e JR Um grande muro com uma foto gigante de um cabra colada sobre ele. Na sua frente, Agnès Varda e JR, diretores do filmes, fazem chifrinhos com os dedos

 Agnès Varda é sem dúvida uma figura cativante. Aos 89 anos, dos quais mais de sessenta foram dedicados ao cinema, a diretora vive uma fase de reconhecimento pleno e em breve será homenageada com um Oscar honorário por sua trajetória, fato que ironiza, uma vez que mesmo esse seu filme mais recente foi realizado através de financiamento coletivo, como pode ser conferido logo nos agradecimentos dos créditos de abertura. Mas a incansável senhora de cabelo bicolor é uma colecionadora de pessoas e suas histórias, transformando-as em suas deliciosas narrativas audiovisuais.

Em seu novo documentário firmou parceria com o fotógrafo e artista JR. O jovem costuma viajar em seu furgão devidamente adesivado com a imagem de uma câmera fotográfica na lateral e tirar fotos de pessoas comuns, que são impressas e muitas vezes aplicadas a grandes elementos verticais, como muros e paredes, criando murais. Varda resolve acompanha-lo pelos vilarejos do interior da França e coletar os rostos das pessoas que conhece pelo caminho, enquanto entabula diálogos com elas.

A primeira, Jeannine, é uma senhora que mora em um antigo conjunto de casas de mineiros, profissão exercida por seu pai. Ela diz que não pretende sair da casa, por mais que seja pressionada, sendo a última moradora (como uma Clara em seu Aquarius). É homenageada com um painel que cobre toda a fachada. E esse é só um exemplo: Varda está interessada nos pequenos detalhes das vidas das pessoas, mas traz também momentos da sua própria, além de um olho treinado para a visualidade, que compõe cenas belíssimas, com humor e sensibilidade sempre presentes, das pessoas, das obras, das paisagens e de sua combinação.

JR é um bom contraponto a ela: às vezes pesa um pouco a arrogância e o excesso de certezas da juventude, mas seu desejo de embarcar integralmente no projeto se mostra efetivo. Além disso, apesar da diferença geracional, a comunicação entre os dois é bonita de se observar. Mas no final das contas, o filme funciona essencialmente por causa de Varda. Essa figura simpática e carismática, que produz encantamento por onde passa e, apesar de algumas limitações físicas, ainda se preocupa com o criar. O resultado é um filme leve, que faz rir e chorar e a reafirmação de seu talento. O mundo precisa de mais Vardas: pessoas com alma intensa, que respiram arte e sabem transmiti-la.

Nota 5 de 5 estrelas

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

Construindo Pontes (2017), de Heloísa Passos

Dentro de um carro, Heloisa Passos, a diretora, dirigindo, e seu pais sentado no banco de passageiro

 Sem ler nada a respeito do filme, apenas confiando na direção de Heloisa Passos (fotógrafa do recente Mulher do Pai), após as primeiras cenas me peguei pensando que se tratava de um documentário sobre grandes obras de engenharia, especialmente hidrelétricas, e no impacto que elas acarretam, especialmente nos modos de vida tradicionais. Não poderia estar mais errada. Mas certa também.

As pistas entendidas de maneira errada vieram de gravações caseiras com que a diretora foi presenteada que mostram a ação dos explosivos nas cachoeiras de Sete Quedas, no que viria a ser a Usina de Itaipu. Depois vemos a atual área alagada, com um trabalho de som que sobrepõe essa paisagem com o barulho das máquinas que um dia trabalharam no local.

Mas essa introdução serve para localizar o espectador nas pontes que realmente precisam ser construídas: Heloísa é filha de um engenheiro que trabalhou nos grandes projetos dos governos da ditatura militar no Brasil. Seu pai defende que esse foi o único momento em que o país teve um projeto nacional de desenvolvimento. Pessoas foram mortas, sim, mas isso é outra coisa, segundo ele. E aí é que se cria um abismo que separa pai e filha há décadas, afinal, conforme a narração da própria diretora “família é o não dito”.

Com a câmera parada, o cotidiano doméstico e familiar é retratado com certo distanciamento. Talvez o maior problema do documentário seja que não consegue estruturar uma linha de raciocínio por parte dos debatedores. A diretora rebate as falas do pai e ele faz o mesmo com ela, mas nenhum dos dois apresentam argumentos sólidos para seu posicionamento e muitas vezes a sensação é de estar presenciando uma discussão parecida demais com aquelas das redes sociais.

Por outro lado, a impressão de proximidade pode ser muito grande. Provavelmente diversos espectadores verão a si e a seus pais, mesmo que de outras maneiras e em graus diferentes, retratados nos diálogos que se apresentam ou nas tentativas frustradas de levá-los adiante. Em tempos de fortalecimento de discursos extremistas, devemos nos preparar para o diálogo. Ou, dependendo do contexto familiar, para lidar com os silêncios.

Nota: 3 de 5 estrelas  

Praça Paris (2017), de Lúcia Murat

Sentadas uma de frente para a outra estão Glória à esquerda e Camila à direita. Há uma mesa entre as duas, que esticam os braços e unem as suas mãos.

 Glória (Grace Passô) é ascensorista em uma universidade na cidade do Rio de Janeiro. Dos prédios de arquitetura marcante onde trabalha, é possível ver a favela onde reside: são duas cidades em uma só, dois territórios com leis diferentes e com diferentes perspectivas de trajetória para seus moradores. Glória convive com a violência, na forma do abuso sexual impingido pelo seu pai, desde muito cedo. Hoje visita sempre o irmão, Jonas (Alex Brasil), na cadeia, onde cumpre pena pelo seu envolvimento com o tráfico, levando a ele uma marmita com comida caseira que prepara com carinho.

Devido às grandes dores que carrega consigo, Glória passa a se consultar semanalmente com a psicóloga Camila (Joana de Verona), uma portuguesa que veio ao Brasil para pesquisar os efeitos da violência. Seu cotidiano é justamente preenchido pela violência, seja no tiroteio que a impede de voltar para casa, seja na surra levada da polícia, que sabe do papel que seu irmão ocupa, mesmo encarcerado. Mas a conexão entre as duas é difícil: nada que Camila já tenha vivido abarca as experiências de Glória. Em cima de sua mesa é enquadrado um livro sobre psicanálise e empatia, mostrando sua vontade de criar canais de comunicação. Mas ela mesma se descobre perdida, espelhando sua avó, sempre presente, na beira do abismo.

A relação entre as duas, descompassada, não é pautada só nas diferenças étnico-raciais e de classe, mas também em um certo olhar colonial da estrangeira que anedoticamente ainda pensa no Brasil como um lugar exótico de hábitos bárbaros, como confrontada por um comentário de seu namorado. As trajetórias das duas protagonistas se entrelaçam, ao mesmo tempo que se distanciam nos mínimos detalhes: nas roupas, nos meios de transporte, na configuração de suas casas.

O elenco todo é competente, mas Grace Passô se destaca: o que ela consegue fazer apenas com o olhar não é para muitos, especialmente quando transmite os momentos de doçura da personagem. Ela merecia mais espaço na trama, em relação à outra protagonista, igualmente necessária, mas menos interessante.

O filme flerta com o cinema de gênero, construindo suspense na paranoia branca da psicóloga. Ao conviver com os relatos de Glória, passa a acreditar que ela mesma será envolvida por aquelas violências. Não consegue entender os contextos relacionais que os levam a acontecerem. Trancafiada em seu consultório, suando com o ventilador ligado e o ambiente repleto de fumaça de cigarro, vive um noir tropical. A beleza está no fato de que o suspense só é possível se o espectador comprar o discurso que está sendo vendido, como se ao ajudar as pessoas que morem na favela, invariavelmente algo de ruim se voltará contra você. Utilizando no limite estereótipos que podem ser perigosos, o filme se segura na direção para que eles não se confirmem, apoiando-se, também, na cumplicidade de quem o assiste.

Nota 4,5 de 5 estrelas

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra

À esquerda está Clara, sentada em sua cama reclinada com as costa na cabeceira. A blusa levantada mostra a barriga de gestante. Clara, sentada à sua frente, coloca na barriga um aparelho usado para auscultar o bebê

 Juliana Rojas e Marco Dutra já há muito mostram que em se tratando de cinema de gênero, eles sabem o que estão fazendo. Os curtas já eram um indício, mas o longa Trabalhar Cansa foi a confirmação, bem como os trabalhos solo em Sinfonia da Metrópole e Quando Eu Era Vivo. Sempre mesclando o terror com outros gêneros, aqui trazem uma fábula sobre trabalho, cidade, relacionamentos e, claro, maternidade: temas que já haviam sido trabalhados em filmes anteriores.

Ana (Marjorie Estiano) é uma mulher que já passou da 20ª semana de gestação e está em busca de uma babá. Com treinamento em enfermagem, Clara (Isabél Zuaa) acaba sendo a candidata escolhida. Ao chegar para a entrevista já é alertada  para utilizar o elevador de serviço. O emprego é um em que acumula funções: precisa cozinhar e limpar enquanto a criança não nasce. Como Ana é mãe solo, também a acompanha nas consultas médicas e assim as duas descobrem que ela está com a pressão alta e deve se abster de carne até o parto.

A relação entre ambas as mulheres, encaixadas em um sistema de hierarquias étnico-racial e de classe, é complexa e complexificada ainda mais pela posição de patroa e empregada que paira entre a convivência, que obrigatoriamente traz o afeto e a intimidade e, por fim, o romance. Dado o pôster do filme, acredito não ser spoiler dizer que Ana gesta um lobisomem, embora nem ela o saiba. Clara logo percebe que algo está errado, entre o sonambulismo e o desejo por carne manifestado por Ana, e tenta minimizar os problemas acarretados por isso.

Trata-se de um filme que abarca dois filmes diferentes em si. O primeiro inclui tudo o que foi comentado até aqui e é simplesmente primoroso. A segunda metade foca em maternidade, infância, folclore e na artificialidade da vida na cidade, marcada por suas fronteiras. Aqui a realização torna-se irregular, especialmente prejudicada pela limitação no que tange aos efeitos visuais e ao ator mirim, mas ainda assim com uma qualidade que impressiona.

Além das atuações, outros elementos que se destacam são o uso das músicas que subitamente levam a película para o campo do gênero musical (obrigada, Rojas!) e o bebezinho animatrônico, que nos conquista logo a um primeiro olhar.

Ousado, sem medo de misturar gêneros, interessante, divertido e emocionante, As Boas Maneiras é um passo à frente no amadurecimento do cinema de gênero produzido no país.

Café com Canela (2017), de Ary Rosa e Glenda Nicácio

É difícil traduzir em palavras a sensação de assistir a esse filme, mas assim que acabou a sessão eu peguei o lápis, desenhei um coração no caderninho que levo para anotações e fechei-o. Certas coisas da subjetividade são difíceis de captar e materializar em palavras. A história é centrada em torno da vida de duas mulheres, Margarida (Valdinéia Soriano), uma ex-professora que se tornou reclusa após a morte de seu filho; e Violeta (Aline Brunne), uma jovem cheia de vida que vende coxinhas que ela mesma faz de porta em porta e cuida de sua avó idosa. Vizinho de Violeta, ainda conhecemos Ivan (Babu Santana), que vive com seu marido e o cachorro chamado Felipe. Na laje da casa de Violeta esses e outros personagens se encontram e conversam sobre suas vidas, a morte e o seguir em frente.
A dupla novata de diretores é saída da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e é lá na região que tudo se passa. O sotaque, as casas, as roupas: tudo nos desloca para um interior repleto de tranquilidade, memória e carinho. Enquanto a casa de Margarida temos café, cigarros e moscas, na de Violeta há barulho e há amor. Margarida esconde os espelhos, Violeta a quer fazer enxergar.
Pequenos gestos cotidianos têm grande significado, como aqueles provenientes das religiões afro-brasileiras praticadas pelas personagens. A ancestralidade está presente de forma marcada. Purificar-se antes de entrar em casa é um rito rápido, mas que é captado com grande beleza. Já a tormenta e a efervescência são capturados com estilo aronofskyano: ferve o café, apaga o cigarro, frita a coxinha, encolhem as paredes. Nem tudo são flores, claro, na trajetória dessas duas mulheres e em certo momento surge um diálogo carregado com a mão dos diretores-roteiristas, explicando de forma didática porque o cinema é tão intenso. Mas apesar disso o filme conquista por sua intimidade sincera. Trata-se de cinema de afeto.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent, 2017), de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

 Posso muito bem na vida e também na pintura privar-me de Deus, mas não posso, sofrendo, privar-me de algo maior que eu, que é a minha vida, a potência de criar. (Van Gogh)

Esse filme é de um trabalho que impressiona: logo na abertura somos informados que ela foi realizada à mão com a pintura de mais de cem artistas, sendo considerada a primeira animação feita com tinta a óleo da história. O estilo emula as próprias pinturas do personagem retratado, Vincent van Gogh, o trágico pintor que faleceu aos trinta e sete anos sem jamais ter vendido um quadro.

A premissa é bastante banal: o carteiro Joseph Roulin, seu amigo, entrega ao deu filho, Armand, uma carta de van Gogh que não foi entregue ao seu irmão Theo. Armand, então, retorna à vila onde o pintor passou seus últimos dias e conversas com as pessoas que conviveram com ele (e eventualmente povoaram suas pinturas). Para ficcionalizar a história, levanta-se a possibilidade de que sua morte não teria sido suicídio, mas sim assassinato. Os argumentos são apresentados por meio de flashbacks em preto e branco. A forma como tenta-se transformar em uma história investigativa acaba não sendo interessante.

O que realmente funciona no filme é seu visual: não é à toa que van Gogh se tornou o pintor famoso que é depois de sua morte. Seu estilo único, nem impressionista nem expressionista, faz explodir cores e, logo, sensações na tela. O filme destaca essas qualidades técnicas e artísticas e demonstra que fazer arte é trágico e inevitável. Viver e senti-la também.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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Filmes assistidos em outubro

Toda vez que eu percebo que acabou mais um mês eu levo um susto. E foi-se outubro! Com ele vieram muitos filmes revistos, mas também muitas coisas lindas descobertas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Essa foi a minha primeira e aos poucos vou postando aqui os texto que produzi. Seguem abaixo os filmes assistidos no mês com suas respectivas notas subjetivas. Não esquece de me seguir no letterboxd!

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Happy End (2017) ★★★

Scary Mother (2017) ★★★★

Jericó: O Infinito Vôo dos Dias (Jericó: el infinito vuelo de los días, 2016) ★★★½

Mulheres Divinas (Die göttliche Ordnung, 2017) ★★★★

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017) ★★★★

Canção de Granito (Song of Granite, 2017) ★★

O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017) ★★★½

Zama (2017) ★★★

Esplendor (Hikari, 2017) ★★★

Um Dia Depois (Geu-hu, 2017) ★★★★

Visages Villages (2017) ★★★★★

Construindo Pontes (2017) ★★★

Praça Paris (2017) ★★★★

Estocolmo, Meu Amor (Stockholm, My Love, 2016) ★★

As Boas Maneiras (2017) ★★★★ ½

Café com Canela (2017) ★★★½

Loveless (2017) ★★★★

Operações de Garantia da Lei e da Ordem (2017) ★★★★

Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent, 2017) ★★★★

Amante por um Dia (L’amant d’un jour, 2017) ★★★½

The Square (2017) ★★★★

 

52 Filmes por Mulheres

Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011) ★★★★

 

Projeto de podcast

O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet, 1957) ★★★★★

 

Psicose (1960) ★★★★★

 

Lançamentos

Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) ★★★

Blade Runner 2049 (2017) ★★★

First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers (2017) ★★★

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017) ★★★★

O Formidável ( Le Redoutable, 2017) ★★★

 

Demais

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) ★★★★★

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) ★★★½

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2, 2017) ★★★

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes , 2017) ★★★½

Tatuagem (2013) ★★★★

Confiar (Trust, 2010) ★★★

 

35 filmes assistidos

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41ª Mostra de São Paulo parte 1: dirigidos por mulheres

Entre os dias 19 de outubro e 1º de novembro, São Paulo recebeu a 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema. Ao todo foram 394 títulos, entre longas, curtas e até mesmo 19 obras de realidade virtual, exibidos em 31 salas diferentes. As obras são variadas e a seleção inclui temáticas contemporâneas como relações de gênero, a questão dos refugiados e os problemas ambientais. Dentre as obras selecionadas, 98 são dirigidas por mulheres, incluindo 21 diretoras brasileiras. A cineasta belga Agnès Varda foi homenageada com o Prêmio Humanidade e recebeu uma retrospectiva com 10 filmes sendo exibidos. O diretor francês Paul Vecchiali também foi agraciado com o Prêmio Leon Cakoff e teve oito longas restaurados em exibição, além de seus três últimos lançamentos.

Nos próximos dias postarei os textos elaborados sobre os filmes que assisti, começando por aqueles dirigidos por mulheres. Seguem os primeiros:

Scary Mother (2017), de Ana Urushadze

Com ar preocupado, uma mulher com cabelo solto e bagunçado caminha por uma espécie de ponte. Só é visível o corrimão, mas é possível ver as construções abaixo.

Scary Mother é um filme que abraça as penas da criação, o insuportável processo de criação. Manana (Nato Murvanidze), a protagonista, é uma mulher em torno dos 50 anos, casada e com três filhos. Com postura fechada, ombros curvados e os cabelos sempre soltos caindo sobre o rosto, ela tem dificuldade de conciliar sua escrita com a convivência familiar. As expectativas dos demais parecem ser o que lhe coloca o peso sobre os ombros. O marido diz que uma mulher deve se cuidar e pintar os cabelos. Os filhos não entendem seu silêncio. Seu mundo de imaginação é uma aberração: como consegue ver figuras nos azulejos do banheiro? A mãe é assustadora: claro que é. Assusta ao não se cumprir com os acordos silenciosos da convivência familiar

Quando um homem se isola para criar, ele é um gênio. Quando uma mulher, faz o mesmo, deixando de lado os papéis sociais e domésticos que dela se espera, é louca. O que a família acarreta na trama é o desrespeito pela sua obra, considerada vulgar, profana, inadequada. Literatura e realidade se sobrepõem e se fundem, desconcertando quem a rodeia. Scary Mother é o primeiro trabalho da cineasta Ana Urushadze, que o constrói de forma rígida e intensa, frio e nublado como o clima retratado e intrigante como sua protagonista.

Jericó: o infinito vôo dos dias (Jericó: el infinito vuelo de los días, 2016), de Catalina Mesa

Uma senhora de costas, com cabelos brancos, olha para uma coleção de esculturas de santos perfiladas sobre um armário

 O documentário se passa em uma pequena cidade de mesmo nome na Colômbia. O breve poema escrito em homenagem a ela que aparece na abertura tem como autora uma mulher que compartilha o sobrenome da diretora. Não é explicado, mas talvez daí saia a conexão entre a criadora e o ambiente retratado

As casas, com fachadas multicoloridas, escondem as histórias de suas moradoras já idosas ou chegando lá. Daquela que ainda moça foi aos Estados Unidos e acabou ficando porque “o melhor dinheiro é viajar” àquela que cujo noivo hoje é padre pois sua família, branca, a considerou “negra demais para permitir o casamento”. Relacionamentos, devoção, família e pequenos causos de vida são relatados entre uma atividade cotidiana e outra.

Abusando de planos de estabelecimento preenchidos por músicas regionais, o filme, que tem apenas uma hora e dezessete minutos de duração, poderia tranquilamente ser convertido em um programa de televisão com uma hora de duração. Falta uma estrutura que o guie, mas é compreensível que com personagens tão ricas e histórias tão variadas e saborosas em suas mãos, a cineasta não tenha deixado mais nada de fora.

As Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung, 2017), de Petra Volpe

Uma mulher está em pé em frente ao microfone, com ar temeroso, segurando uma folha de papel como que prestes a discursar. À sua frente três longas mesas cheias de gente que não prestam atenção a ela.

Suiça, 1971: o letreiro inicial do filme relata que, de forma impressionante, as mulheres do país ainda não possuem direito ao voto. O movimento sufragista intensifica sua campanha e nós acompanhamos suas atividades sob o ponto de vista de Nora (Marie Leuenberger), uma dona de casa casada e mãe de dois filhos, moradora de uma pequena vila, que não tinha envolvimento anterior com política, mas não se opõe a ideia de conseguir novos direitos. Seus problemas começam quando seus recém adquiridos desejos políticos entram em choque com a rotina estabelecida para as mulheres.

Nesse momento é possível perceber que o próprio movimento trabalhista local, composto majoritariamente por homens, mas também por uma mulher que se coloca em lugar diferenciado, se opõe à ampliação dos direitos femininos porque isso abalaria o status quo. Mas as mulheres se unem em torno da causa, prontas para desestabilizar o que for preciso.

Pense Estrelas Além do Tempo e Guerra dos Sexos com uma pitada de Orgulho e Esperança: As Mulheres Divinas é um desses filmes bem realizados que não são tecnicamente ousados, mas que acalentam pela força da narrativa e pela importância de seu tema, vindo na esteira de obras que obrigatoriamente nos deixam com um sorriso no rosto e o coração aquecido.

Zama (2017), de Lucrecia Martel

um grupo de cavaleiros atravessa um charco em meio a palmeiras.

 Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho) é um funcionário da coroa espanhola na Argentina, a quem foram prometidas riqueza e honrarias que jamais se concretizaram. Morando em um local ermo, tenta manter a aparência europeia com uma peruca desgrenhada, utilizada apenas quando necessária, e uma casaca mal cortada. A solidão e o ridículo são suas companheiras, enquanto constantemente solicita poder voltar para casa. Os planos são trabalhados com academicismo e o desenrolar da história é lento.

O personagem-título é retratado como uma figura sem grandes méritos e o empreendimento “civilizatório” da colonização aparece fracassado, perdido na inutilidade da função burocrática de seus responsáveis. Curiosamente, apesar desse posicionamento marcado, pouca voz é dada aos povos de outras etnias retratados: pessoas negras e indígenas perpassam a trama sem agência real ou como a confirmação dos medos e preconceitos trazidos da Europa.

Filmes recentes, como O Abraço da Serpente e Z: A Cidade Perdida, apesar de também terem seus problemas, especialmente no que tange à exotização, abordam de maneira mais interessante o contato entre homens brancos e populações ameríndias. O filme ganha fôlego no terceiro ato, com a materialização da ameaça que ronda à boca pequena sob o nome de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele), mas, como um todo, o resultado final é árido e até mesmo enfadonho.

Nota: 3 de 5 estrelas

Esplendor (Hikari, 2017), de Naomi Kawase

 Pessoas atravessando a rua. Uma mulher sorrindo na calçada. Um homem de paletó espera o taxi com expressão de raiva. A sequência pode não ser exatamente assim, mas são descrições como essa que abrem o novo filme de Naomi Kawase. As pessoas familiarizadas com a textos para fins de acessibilidade rapidamente a reconhecerão. Misako (Ayame Misaki) é uma criadora de áudio descrição para cinema. Ela narra o que aparece na cena, para que pessoas cegas possam apreender o contexto dela. Em uma reunião com um grupo de teste, para aprovar o trabalho que está criando, Misaya (Masatoshi Nagase) critica o resultado do trabalho, explicando que ela não está apenas falando sobre o que a cena mostra, mas projetando suas próprias emoções, não permitindo que eles tirem suas conclusões. Outro personagem revela que ele é um fotógrafo famoso que ainda enxerga, embora com dificuldade, pois gradativamente está perdendo a visão.

A trama é centrada nessa perda e em como ela o afasta da sua arte. Mas a diretora usa a trajetória do personagem para comentar sobre a relação pessoal que entabulamos com o cinema e como o utilizamos para nos conectarmos com outras pessoas, mesmo que fictícias. O cinema, visual ou narrado, é sentido por cada um de uma maneira diferente.

A câmera do personagem é apresentada como aquilo de mais próximo ao seu coração que ele tem. “Se afastar daquilo que mais ama é insuportável”, diz Misako. Mas talvez se o filme fosse realizado por pessoas cegas, e não videntes, a cegueira não seria tão central ao drama, pois não seria apenas isso a definir o protagonista. A amizade entre os dois personagens forma uma dinâmica interessante, unindo a profissão e os interesses de ambos, mas o romance que se delineia parece desencaixado de contexto.

Em se tratando de visual, a diretora se esmera: o rosto de Ayame Misaki é sempre enquadrado de forma elegante e as cenas são muito bonitas, regadas de luz. Também não se pode acusa-la de não ser constante em seu estilo, bastante açucarado. Mas em se tratando da temática abordada, o filme é impressionantemente pouco acessível. A diretora cria um comentário metalinguístico sobre o processo de fazer cinema e sobre como cada um tem sua percepção individual sobre a arte apreciada. Propõe que, por conseguinte, esta não deve ser guiada, embora seja isso que ela tente fazer, conduzindo-nos pelos caminhos emocionalmente confusos de sua criação.

Nota: 3 de 5 estrelas

Operações de garantia da lei e da ordem (2017), de Júlia Murat e Miguel Antunes Ramos

O trabalho de revisar os acontecimentos políticos do Brasil a partir de 2013 seria hercúleo, mas esse documentário consegue dar conta de coloca-los em perspectiva de maneira eficiente. Partindo das diversas manifestações que se alastraram pelo país naquele ano e de uma fala da então presidenta Dilma Rousseff, que pedia as mesmas fossem realizadas de forma pacífica e ordeira, ele mostra o gradual cerceamento de direitos e os métodos utilizados para desestruturar os movimentos, do enfraquecimento das ações individuais e coletivas até a restrição da liberdade, passando pela infiltração de policiais visando criar falsos flagrantes.

Ao invés de utilizar relatos e análises posteriores, que poderiam gerar um filme burocrático, os diretores realizam uma complexa montagem de vídeos retirados da programação jornalística dos canais de televisão aberta, opondo-os à cobertura das mídias independentes, especialmente transmissões ao vivo. Dessa forma, a importância dos segundos como ferramenta de divulgação de conteúdo é realçada, em comparação aos discursos recorrentes dos veículos tradicionais. Esses, frisam constantemente a necessidade de movimentos ordeiros, respeitosos, despolitizados e “bonitos”, como é mencionado em determinado momento. A ação da polícia e do jornalismo tradicional no sentido de incriminar qualquer tipo de movimento que fuja desse padrão fica patente.

O desfecho não existe: essa história ainda está em andamento. Em 12 de maio de 2016 assistimos Michel Temer empossar seus novos ministros e desde então testemunhamos o trabalho de desmonte que tem sido realizado. As reações passionais da plateia ao filme demonstram sua eficiência: são gritos, xingamentos, risadas nervosas e suspiros. Não é fácil de assisti-lo, mas é necessário.

Nota: 4 de 5 estrelas

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