Figurino marcante: …E o vento levou

(Originalmente publicado em Linha e Agulha)

Existem vários motivos que podem levar um filme a ser memorável: efeitos especiais, drama, contexto histórico, atuações marcantes, entre outros. Grandes épicos tendem a agregar qualidades técnicas que ajudam a manter esse destaque atemporal. É o caso de …E o vento levou. O clássico de 1939, com aproximadamente 3 horas e meia de duração, tem locações e cenários fantásticos, usa a cor para efeito dramático como poucos fizeram à época, tem diálogos inesquecíveis e, principalmente, um figurino de encher os olhos, desenhado por Walter Plunkett.


Vivien Leigh interpreta Scarlett O´Hara, uma mimada belle do sul, na época da Guerra civil americana (década de 60 do século XIX). No início do filme as roupas são joviais, com tecidos delicados e babados. Dois trajes marcantes são o vestido branco com cinto vermelho e o branco com estampa verde e faixa na cintura e chapéu combinando, utilizado em um churrasco.

Os dois vestidos vermelhos também se destacam. Um foi utilizado no aniversário de Ashley Wilkes (marido da prima de Scarllet) e o outro é na verdade um roupão. O primeiro foi usado para chocar, já que não é exatamente o que se esperava de uma dama da época trajar. O corpete baixo, a saia quase reta, pouco armada, os bordados com pedrarias, as plumas e transparências transmitem sua mensagem.  Já o roupão ostenta a riqueza da personagem, pois  poucos trajes de toucador são vestidos de veludo com amplas mangas, cinto e rendas.

Mas o vestido mais marcante do filme ( e um dos mais marcantes da história do cinema) é o vestido de cortina. Em dado momento, Scarlett tem que se apresentar bem vestida, apesar da penúria dos tempos de guerra e resolve utilizar uma antiga cortina de veludo com franjas douradas da casa de seus pais para confeccionar o traje. Com criatividade, ela e a empregada Mammie (interpretada por Hattie McDaniel, primeira mulher negra a ser indicada e ganhar um Oscar, por esse papel) confeccionam-no com ampla saia, cinto com os cordões da cortina e até um chapéu com franjas. Além de bonito, a criação do vestido é uma inspiração pela demonstração de uso de criatividade no feitio de uma roupa.

…E o vento levou ganhou 8 Oscars, em um ano considerado entre os melhores da história, com filmes como Nos tempos da diligência, O mágico de Oz e Morro dos ventos uivantes. Infelizmente a categoria de Melhor Figurino só passou a existir em 1948 e, portanto, o figurino fantástico de Walter Plunkett não foi premiado.

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Animal Crossing Wild World

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Fui incumbida da ingrata tarefa de escrever sobre um jogo. Vamos aos fatos: eu não sou gamer, não manjo de game design e nem daquelas coisas mais sutis que os gamers geralmente reparam (seja lá quais forem elas). Eu joguei Telejogo, Atari e Nintendinho quando era criança, não com muito afinco nem muito freqüentemente, e larguei tudo isso com a chegada do Super Nintendo. Mas vou escrever sobre o jogo que mais me fisgou e por mais tempo da minha vida: Animal Crossing Wild World.
Era 2006 quando, após mais de uma década sem nem saber o que as pessoas estavam jogando, ganhei um portátil de aniversário: Nintendo DS. E com ele vieram coisas inúteis, como Nintendogs e coisas fantásticas como o já citado Animal Crossing. Mas do que se trata o jogo? É difícil explicar para quem nunca jogou. Digamos que seja uma mistura entre The Sims e Harvest Moon com a pitada de vício e fofura que só a Nintendo faz por você. Em tempos de Farmville o coitado pode até ser confundido com um desses joguinhos de redes sociais, mas não se engane: ele tem muito mais a oferecer.

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O jogo possui um universo de atividades quase infinito. No começo você se muda para uma cidade onde moram apenas animais e você é o único humano. Você ganha uma casa pequena e começa com a roupinha padrão. Para conhecer os vizinhos e ganhar os primeiros trocados, é obrigado a cumprir uma série de tarefas impostas por Tom Nook, o guaxinim explorador proprietário da lojinha. Daí pra frente, pode comprar roupas na loja das irmãs Able, comprar mobílias e ferramentas na loja do Nook e começar a mexer na cidade. Dá para plantar árvores, flores, pescar, caçar insetos, coletar fósseis, visitar e doar ao museu entre outras coisas.
Quanto mais atividades se faz, mais se quer fazer, pois os avanços são bonificados. Quanto mais se compra na lojinha do Tom Nook, mais ela aumenta de tamanho, oferencendo mais produtos por dia. Mais dinheiro no banco também gera presentes exclusivos. E, claro, quanto mais se amplia casa, mais espaço para móveis legais. E há inclusive datas comemorativas onde se ganha mobiliários que só aparecem naquela data. Os peixes e insetos são sazonais, fazendo com que leve pelo menos um ano para coletar todos. Alguns aparecem apenas de madrugada. E o mesmo acontece com móveis e roupas. Tudo isso para gerar um vício para completar o inventário do jogo.

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Um fator importante que ajuda nesse sentido é a jogatina online. Existem várias comunidades de troca de Friend Codes (os famigerados códigos necessários para jogar com outra pessoa) e elas são muito úteis. Com o Friend Code de outro jogador, ele pode abrir os portões da cidade e permitir que você vá até lá, compre na loja (que terá objetos diferentes) e, o melhor, possibilita a compra, venda e troca de itens. Existe também uma certa regra de conduta para se comportar na cidade do outro, como não arrancar flores e avisar se achou algum item no chão. Na verdade se trata de um jogo bastante social. É bem difícil conseguir avançar e conseguir muitos itens legais sem essa troca entre amigos de jogatina. Não tem como descrever como esse jogo prende a atenção e toma tempo sem passar pela experiência de joga-lo.
Com o advento do Wii, foi lançado Animal Crossing City Folk em 2008, versão do jogo que permite o uso do Wii Speak (microfone do videogame) para comunicação com os demais jogadores. Para quem, como eu, não possui um, há a opção de uso de teclado convencional. O jogo pouco alterou a dinâmica do anterior, apenas acrescentou mais itens e uma cidade anexa àquela onde seu personagem mora, com lojas e um local de leilão, onde pode-se colocar objetos para que seus amigos deem seu lance. Apesar de tão aguardado, por algum motivo o jogo não é tão divertido como a versão do DS. Mas já é bem melhor que o original do Game Cube. (Sim, também testei. Mas é chatinha).
No ano passado, na E3, foi anunciado o futuro Animal Crossing 3D. Quem sabe na E3 desse ano confirmem uma data de lançamento. Aí posso ter uma desculpa pra comprar um . 😛

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Across the Universe (2007)

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Eu vou ser obrigada a interromper a seqüência de filmes do Oscar 2009 que estava preparando e postar sobre esse filme, que assisti com meu irmão, sob recomendação dele, no domingo.
Para começar eu devo dizer que esse filme é um musical. Mas com um diferencial: todas as canções são dos Beatles (são cerca de 30) e inúmeras outras referências a eles, como nomes de personagens, locais, entre outros. A diretora, Julie Taymor, é a mesma de Frida, onde ela já mostrou apuro visual no resultado final.
Os protagonistas são Jude e Lucy, um jovem operário de Liverpool que vai aos Estados Unidos em busca do pai e uma menina de classe média alta que resolve ir pra Nova York ficar um ano com o irmão, por causa da morte do namorado no Vietnã, respectivamente. A história de ambos se entrelaça porque Jude descobre que seu pai não é um professor universitário, como acreditava, e sim um faxineiro. E na universidade onde seu pai trabalha conhece e torna-se amigo de Max, irmão de Lucy. Os dois resolvem morar em Nova York e depois Lucy junta-se a eles. O filme retrata o período de maneira efervescente, abordando temas como hippies, o movimento anti-guerra, black power, beatniks, esquerdistas, contra-cultura e uma boa dose psicodelia. Mais tarde, Max também é convocado para a guerra. Ao mesmo tempo que os personagens se unem na cidade grande, se fastam por seus diferentes interesses. Jude descobre a arte como forma de expressão e Lucy, as manifestações políticas. Um dos pontos altos, para mim, foi a música Strawberry Fields Forever, quando Jude, irritado com o engajamento de Lucy, entra em uma “catarse artística” pollockiana e faz uma série de obras envolvendo morangos, enquanto Max luta no Vietnã. Essa passagem ainda é uma referência ao “quinto Beatle”, Stuart Sutcliffe, que desistiu da banda quando eles ainda não faziam sucesso e se apresentavam na Alemanha, para seguir carreira como pintor expressionista abstrato.Abaixo a cena:



Os figurinos são competentes a as coregrafias, nas partes em que existem, são muito bem feitas. Todo o visual é apurado e as músicas se encaixam na história perfeitamente, não sendo um mero adorno ao roteiro. As partes mais surrealistas enchem os olhos. As participações especiais foram interessantes: Joe Cocker interpretando um mendigo, um cafetão e um hippie (detalhe pras mãos dele que ainda tremem 40 anos depois do Woodstock!), Bono Vox, como Dr. Robert, um hippie que viaja num ônibus cheio de gente estranha pelo país, e Salma Hayek como enfermeira. A música que Joe Cocker canta, aliás, foi uma das melhores interpretações do filme, na minha opinião. Abaixo Come Together na voz de Joe Cocker:



Confesso que uma parte do meio do filme ficou um tanto quanto enfadonha: a parte do Bono. Psicodolia desnecessária e que nada acrescentou à história. E uma personagem, Prudence, também não acrescentou nada à história, sendo visivelmente uma desculpa para tocar Dear Prudence. Mas fora esses dois detalhes, o filme manteve o ritmo e se mostrou muito bom. Se a espectador não conhece as músicas dos Beatles, pode ficar um pouco desconfortável. E se for Beatlemaníaco, vai amar sem ressalvas. É uma belíssima homenagem ao quarteto de Liverpool.

Sir Paul McCartney assistiu o filme em sessão fechada e aprovou. Quem sou eu pra discordar dele?

Minha nota: 8,0
Nota do IMDB: 7,6

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Milk- A Voz da Igualdade (2008)

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Milk é um filme impressionante. Não é um blockbuster, não tem história conhecida a ser contada. Mas ele se sustenta, surpreende e por fim, cativa.
Sean Penn, como protagonista, como sempre foi um show à parte. Atuação realmente impecável.
Um pouco sobre a história (provável zona de spoilers): Harvey Milk (Sean Penn) tinha 40 anos e trabalhava em Wall Street quando conheceu um jovem, Scott e resolve fugir com ele para São Francisco, assumindo sua homossexualidade. Ele abre uma loja de artigos fotográficos e acaba por se tornar referência entre os gays da cidade. O filme retrata sua trajetória ao longo de 6 anos, culminando com sua eleição para o cargo de Supervisor (seria como um prefeito de sub-prefeituras, distritos da cidade) e sua participação ativa em campanhas pelos direitos do homossexuais.
A reconstituição dos acontecimentos da época, o figurino e mesmo inserção de filmagens reais ou envelhecimento de filmagens feitas para o filme, tudo isso compõe um conjunto harmônico. Ele se infiltra em várias questões do panorama político da época, sem com isso, ficar chato. Além disso, mostra como Milk, como ninguém, conseguiu unir interesses (gays, idosos, mulheres…) e colocá-los a seu favor, além de perceber como os homossexuais, organizados, poderiam ter representatividade tanto como consumidores quanto como cidadãos.
Mas no final das contas acho que o que mais me fez gostar do filme, é que se trata de uma mensagem de esperança. Podemos ficar indignados com muita coisa que vemos contecer ali, mas percebemos que nem tudo mudou, ainda mais no interior do interior desse nosso atrasado Brasil. Essa semana ainda eu li, em um fórum, um artigo sobre “gaymers” e jogos com conteúdo homossexual. O artigo era ilustrado com cenas de beijos e nada mais. Mesmo assim na página de comentários havia quem pedisse que o artigo fosse taxado com sendo “conteúdo inapropriado para menores de 16 anos”. (Mas um beijo hétero é classificação livre, não é?). Obviamento o site não alterou a classificação e pipocaram comentários de pessoas falando “eu odeio gays, mas respeito”. Que tipo de “respeito” é esse que se mistura com ódio? No filme, Milk encoraja os gay a “saírem do armário”(sic), afinal naquela época tentavam aprovar leis em que professores gays poderiam ser demitidos de seus cargos e locatários gays, expulsos de suas casas pelos proprietários, além de muitos serem assassinados durante a noite, até mesmo por policiais. Hoje em dia podemos pensar que essas coisas melhoraram, mas se pensarmos bem,não foi tanto assim. Casais homossexuais ainda não podem se casar legalmente na maior parte do mundo, nem adotar filhos. Muitos direitos ainda não estão assegurados, como o de receber a herança de seu companheiro. E a maioria ainda continua tendo problemas para assumir quem realmente é, mesmo para sua família. O preconceito é mais velado, mas ainda existe. E é inconcebível que um cidadão como outro qualquer não tenha os mesmos direitos que os demais assegurados pela constituição.
Acabei me estendendo um pouco e não falando tanto do filme. Mil perdões! Mas é um daqueles filmes que se comentar demais, conta-se a história toda. Enfim, vale a pena assistir. Um filme marcante e inspirador!

Minha nota: 9,5
Nota no IMDB: 8,1
(A nota do IMDB pode estar “baixa” porque muita gente critica o conteúdo homossexual do filme. No fórum há muitas discussões e homofobia explícita)

Indicações ao Oscar 2009: 8

*Melhor filme

*Melhor diretor (Gus Van Sant)

*Melhor ator (Sean Penn)

*Melhor ator coadjuvante (Josh Brolin)

*Melhor roteiro original

*Melhor trilha sonora original (Danny Elfman)

*Melhor figurino

*Melhor montagem

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