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Sobre espaços de validação e exclusão

A primeira vez que eu vim a São Paulo eu tinha 17 anos. Foi também a primeira vez que eu tinha saído do sul. Como fruto em parte de cidade pequena, em parte de roça, tudo o que eu vi me encantou. Mas uma experiência me marcou ainda mais que as demais: a visita ao MASP (Museu de Arte de São Paulo).

Explico-me: as artes eram, já então, uma grande paixão minha. Eu passei algum tempo da minha pré-adolescência namorando aqueles grandes livros de capa dura que compilam as obras de artistas espcíficos. Sem condições financeiras para adquirir qualquer um que fosse, folheava-os na biblioteca da escola pública em que estudava. Eles eram apenas para consulta, então isso precisava ser feito no recreio.

Mas o que eu não tinha consciência ali era de todo o processo excludente, colonizador e machista que estava por trás do filtro que selecionava o que chegava até mim como “os grandes mestres”: quase todos eles homens, majoritariamente brancos e europeus. Isso mesmo já nas vanguardas do século XX. Eu até tentava ir atrás do trabalho de mulheres, de Artemisia Gentileschi a Frida Kahlo, mas ele era muito mais difícil de ser acessado. E não é que elas não estivessem lá produzindo suas obras.

Azul e Rosa- As Meninas (1881), de Renoir

Então eu chego ao MASP, naquele novembro de 2002. O salão do acervo na época era dividido com biombos em saletas menores, desrespeitando o projeto original de Lina Bo Bardi. Quando acessei a primeira saleta, dei de cara com Rosa e Azul-As Meninas, de Renoir. Foi um choque. Comecei a chorar ali mesmo. Dado o contexto em que eu vivia, eu nunca imaginei que iria viajar para tão longe e muito menos que um dia iria ver um quadro tão familiar das ilustrações ali mesmo, na minha frente. Enfim, faltava-me talvez senso crítico na época para questionar porque essa obra em específico merecia um lugar no museu e outras tantas não, mas sobrava-me emoção ao poder ter contato com essa arte.

Passaram-se 15 anos. Depois de algumas andanças pelo Brasil, São Paulo é a cidade em que resido e as visitas ao MASP se tornaram até corriqueiras. (O salão, aliás, agora voltou ao projeto original de Lina Bo Bardi, com suportes de concreto armado e vidro, permitindo que toda a sua área seja abarcada pelo olhar do visitante). Essa semana, levando um amigo para conhece-lo, reparei na lógica da ordem da exibição. No começo estão expostas esculturas chinesas e urnas funerárias marajoaras, de maneira descontextualisada. A autoria é anônima e não pude deixar de lembrar da frase de Virginia Woolf: “Por muito tempo na história, anônimo era uma mulher”.

Urna funerária marajoara

Depois disso começa uma sequência de pintores europeus, ordenados mais ou menos de forma cronológica. Os primeiros brasileiros eram academicistas, de escolas europeizantes. Todos os autores identificados na primeira metade da exposição são homens. Quase todos são brancos. Tudo atendendo a uma concepção hegemônica do que é essa “arte de verdade”, a que merece ser exposta, a que tem valor.

A Estudante (1915-1916), de Anita Malfati

Na décima primeira fileira do acervo, já no século XX, A Estudante , de Anita Malfati se destaca como a primeira obra de autoria feminina. A ela se seguem os quadros. Guitarrista e Duas Figuras Femininas, de Marie Laurencin; Moças do Boulevard Raspail, de Noêmia Mourão; Velório da Noiva, de Maria Auxiliadora da Silva; a fotografia Sem Título de Barbara Wagner e, por fim, o vídeo O Século, de Cinthia Marcelle em co-autoria com Tiago Mata Machado. Isso mesmo: dentre cento e cinquenta e quatro obras que contei no acervo principal, apenas seis eram de autoria feminina.

Em sentido horário, do canto superior esquerdo em diante Moças do Boulevard Raspail, O Velório da Noiva, Guitarrista e Duas Figuras Femininas e Sem Título

Aí eu lembrei daquela campanha das Guerrilla Girls a respeito do MET (Metropolitan Museum of Art, em Nova York). No cartaz, chamam atenção para o fato de que menos de 5% dos artistas expostos são mulheres, mas 85% dos nus são femininos. No MASP temos uma porcentagem ainda menor de mulheres artistas expostas. Não cheguei a contar a porcentagem de nus que são femininos, mas os únicos masculinos são uns quadros de Jesus morto e um ou outro querubim rechonchudo (se é que esses últimos podem ser considerados masculinos).

Sobre um fundo amarelo, uma pintura de um corpo nu feminino com uma cabeça de gorila. Ao lado, em letras pretas escrito

Não existe uma conclusão para esse texto. O que eu fico pensando é como esses locais validados enquanto instituição, que definem o que é arte e o que não é e qual é a arte digna de exibição e qual é indigna, lidam com a diversidade de artistas presentes no mundo. E como isso afeta o modo como crescemos e somos ensinados a criar arte, consumir arte, apreciar arte, já que o que é divulgado são as obras de autores majoritariamente brancos e homens. Podemos aprecia-las, podemos nos conectar a elas, mas temos que ter consciência do que está lá fora desses espaços de exclusão.

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It: A Coisa (It, 2017)

Como muitas avós já diziam, de boas intensões o inferno está cheio. It, nova adaptação do romance homônimo de Stephen King, é um bom exemplo do ditado popular. Inegavelmente bem realizado, dirigido por Andy Muschietti (de Mama) e com roteiro, entre outros, de Cary Fukunaga, o filme se desenrola com elegância, mas não consegue traduzir seu conteúdo para o século XX nem dar peso aos sustos que prepara.

A história, que no livro ocorre na década de 1950, foi transferida para 1988, na cidade de Derry, como sempre no Maine, estado natal do escritor. O local é habitado por adultos apáticos, que, ao invés de lidarem com a dor, parecem querer esquecer os desaparecimentos de crianças que tem ocorrido. Os pais, especificamente, se materializam como figuras de autoridade prontas para oprimir. É o que fazem os de Bill (Jaeden Lieberher), que, ao contrário, se atormenta pelo fato de seu irmãozinho menor ter sumido enquanto brincava na chuva com um barquinho de papel que ele fez.

Bill faz parte do auto-entitulado “Clube dos Perdedores”, um simpático grupo de outsiders que engloba arquétipos típicos desse tipo de representação, passando pelo menino hipocondríaco, o cdf gordinho, o judeu, o negro e outros. Todos estão acostumados a conviver com valentões que os perseguem, manifestando masculinidade tóxica, que posteriormente é justificada na própria violência dos adultos. E embora sua composição seja arquetípica, a caracterização dos personagens lhes conferem estofo o suficiente para torná-los verossívmeis para além dos estereótipos, resultando em intereções críveis, incluindo os palavrões e piadas típicos dos treze anos que têm e tantas vezes omitidos em outras obras. Além dos garotos, há uma menina no grupo, Bev, interpretada por Sophia Lillis, uma impressionante cópia mirim de Amy Adams. O motivo que a torna excluída na escola é a fofoca que corre a respeito dos meninos com que já ficou.

O saudosismo retrô que alimenta a obra cria uma visão de anos 80 em que as crianças são independentes e o tempo inteiro desbravam a cidade sozinhas, sem interferência dos seus responsáveis. E se o seriado Stranger Things bebeu da fonte de It, o telefilme de 1990, o filme parece se retroalimentar dele, utilizando a mesma estratégia de misturar referências para um público que tem contato com outras obras e mesmo compartilhando um ator em comum.

Em se tratando de medo, deve-se destacar o trabalho físico de Bill Skarsgård, que encarna o vilão chamado de It. Com ótimas expressões faciais estranhas e sinistras, aliadas à maquiagem, ele se torna uma presença marcante no filme. Mas, infelizmente, não é suficiente para garantir o clima de terror. A premissa da história é que It aparece para cada um como aquilo que essa pessoa mais teme, afetando com o medo e capturando suas vítimas. Pensar sobre o que mais afeta subjetivamente um indivíduo poderia render um terror psicológico denso, daqueles que rastejam por debaixo da pele do espectador arrancando arrepios. Mas Andy Muschietti parece tão preocupado com a estética do filme, que esqueceu de focar no medo que o fincaria no gênero de terror. O que sobra são uma sequência de sustinhos inócuos, que não sustentam a atmosfera a longo prazo e cansam, assim como o uso excessivo de planos inclinados, que depois de um tempo não mais destacam momentos de desconforto, tonando-se uma decisão estética vazia.

Mas o que realmente incomoda no filme é o tratamento conferido à Bev, dentre todas as crianças. A todas elas são oferecidas características que as diferenciam e medos diversos que as aterrorizam. Bev é a Smurfette do grupo e, com o tratamento preguiçoso que recebem personagens caracterizadas dessa forma, o que a define é especificamente o fato de ser mulher. Nenhum dos garotos é definido somente por ser garoto: todos eles são elaborados com personalidades e traços particulares. (Talvez pode-se dizer que Mike sofra por ser negro e sentir o racismo e a xenofobia de ser recém chegado a uma cidade em que o restante da população é branca, mas mesmo seu maior medo não tem relação direta com o fato).

Mas Bev é marcada pelas violências de cunho sexual que a atingem. Não lhe é permitido ter medos variados e pueris como as demais crianças: seu medo parte do terror perpretado por quem deveria cuidar dela. E por isso, quando It se manifesta para ela, o faz de forma muito mais violenta e agressiva do que é com as demais. Se um ou outro vêm-no na forma de um quadro cubista com um retrato de feições distorcidas ou um leproso, para Bev é um jorro de sangue que cobre todo seu rosto, paredes, chão e teto do banheiro, uma vez que com a menstrução que chegou “deixou de ser uma garotinha”. Além disso é atacada por tentáculos de cabelo, o mesmo que cortou porque de cabelo curto parece mais com um menino. Ao contrário das demais crianças, o medo de Bev vem de dentro, não de fora. Ela é punida e definida na trama em virtude de sua genitália. E mesmo se mostrando uma personagem destemida, é ela quem, afinal, funciona como a donzela em perigo. São clichês de construção de personagem que poderiam ser facilmente resolvidos. O filme não precisa funcionar como se tivesse sido feito nos anos 80 apenas porque se passa na época.

Com uma boa fotografia, um elenco carismático, uma boa atuação por parte do vilão e uma trama envolvente, It: A Coisa peca ao não atualizar seu terror e seu roteiro para os dias de hoje, entregando um tratamento indisculpavelmente misógino e preguiçoso de uma das protagonistas e falhando em criar uma atmosfera de medo, que se perde em sustos inócuos, de curta duração.

 

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Dicas Netflix Setembro

Primeira sexta feira do mês, dia de selecionar algumas dicas da Netflix para vocês. Uma boa parte dos filmes listados entrou para o catálogo hoje, 1º de setembro. Optei por, dessa vez, listar apenas filmes desse século

Tom Cruise, vestido inteiramente de preto, gesticula em frente a uma tela curva e transparente, observado por outros dois homens.

Minority Report, jovem clássico da ficção científica dirigido por Steven Spielberg.

Minority Report- A Nova Lei (Minority Report, 2002)

Babel (2006)

Amelia (2008)

Na foto, uma mulher de roupa vermelha e um homem de paletó azul marinho ladeiam Hilary Swank, atriz que interpreta Amelia, que veste uma jaqueta de couro marrom e uma touca de piloto.

Amelia, dirigido por Mira Nair, é a cinebiografia de Amelia Earhart, a primeira mulher a atravessar o Atlântico pilotando um avião.

Trovão Tropical (Tropical Thunder, 2008)

Capitalismo: Uma História de Amor (Capitalism: A Love Story, 2009)

Bravura Indômita (2010)

Cloverfield: Monstro (Cloverfield, 2010)

A atriz, vestida com jaqueta marrom e chapéu de abas largas e retas da mesma cor, segura uma arma com as duas mãos e a aponta pra frente. O cenário é desértico.

Dirigido pelos irmãos Coen, Bravura Indômita é uma nova versão do clássico de 1969 e filme lançou a carreira de Hailee Steinfield,

Ginger & Rosa (2012)

Argo (2012)

Cara Gente Branca (Dear White People, 2014)

Tempestade de Areia (Sufat Chol, 2016)

Uma jovem de hijab rosa clarinho e camiseta de manga longa rosa pink, cobre a boca de um rapaz que a observa com sua mão.

Tempestade de Areia, dirigido por Sufat Chol, é um filme israelense dirigido pela cineasta Elite Zexer e vencedor do prêmio do juri de melhor filme internacional em Sundance

Bons filmes e até o mês que vem!

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Filmes assistidos em Agosto

Mais um mês que se passa e a contagem de filmes está cada vez menor. Calhamaços e calhamaços de textos para serem lidos toda semana prejudicam minha cinefilia. Mas vou tentando como é possível. Além dos filmes abaixo também assisti aos seriados Hot Girls Wanted Turned On (que é bacana, mas menos interessante que o documentário que o originou) e The Fall (que faltava ver a 3ª temporada e é muito bom) e comecei a 5ª temporada de House of Cards. Aliás, se quiser me acompanhar no TV Time, rede social para logar seus seriados assistidos, deixo aqui o link. Esse mês, vergonhosamente, também não escrevi nada. Cheguei a salvar um rascunho sobre Dunkirk, mas viajei a um congresso no dia seguinte, fiquei duas semanas fora e agora acho que o interesse deve ter passado. No final, além do doutorado, só tenho conseguido me dedicar às pautas e gravações do Feito por Elas. Saudades disso aqui. Até o mês que vem! Espero que seja mais tranquilo!

52 Filmes por Mulheres:

Amelia (2009) ★★★½

Tempestade de Areia (Sufat Chol, 2016) ★★★★

A Vida Secreta das Abelhas (The Secret Life of Bees, 2008) ★★★

 

Sofia Coppola para Feito por Elas:

As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999) ★★★★½

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) ★★★★½

Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) ★★★★

Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010) ★★★★

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017) ★★★★

 

Jocelyn Moorhouse para Feito por Elas: 

Colcha de Retalhos (How to Make an American Quilt, 1995) ★★★★

 

Documentários:

Finders Keepers (2015) ★★★

 

Lançamentos: 

It: A Coisa (It, 2017)

Fome de Poder (The Founder, 2016) ★★½

My Cousin Rachel (2017) ★★★½

 

Demais:

Juntos pelo Acaso (Life as We Know It, 2000) ★★

O Caçador (Chugyeogja, 2008) ★★★

Personal Shopper (2016) ★★★★

Eu vi o Diabo (Ang-ma-reul bo-at-da, 2010) ★★½

 

17 filme assistidos

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Filmes Assistidos em Julho

Estou fora de casa, em um Seminário em Florianópolis e mais uma vez foi um mês fraco em quantidade de filmes, mas cheio de filmes dirigidos por mulheres. Com 10 meses da minha segunda rodada do desafio 52 Filmes por Mulheres (52 Films by Women), já a assisti 75 longas. Sem mais para o momento, só preciso dizer que quero férias!

52 Filmes por Mulheres:

Quase Dezoito (Edge of Seventeen, 2016) ★★★½

The Fits (2015) ★★★★½

Divinas Divas (2016) ★★★★

O Zoológico de Varsóvia (The Zookeeper’s Wife, 2017) ★★★

Mate-me Por Favor (2015) ★★★½

Precisamos Falar do Assédio (2016) ★★★½

To Walk Invisible: The Brontë Sisters (2016) ★★★★

 

Rita Azevedo Gomes para Feito por Elas:

O Som da Terra a Tremer (1990) ★★

Frágil Como o Mundo (2002) ★★★★½

A Vingança de Uma Mulher (2012) ★★★½

 

Jocelyn Moorhouse para Feito por Elas:

A Prova (Proof, 1991) ★★★½

 

Documentários:

Tickled (2016) ★★★½

 

Lançamentos:

Dunkirk (2017) ★★★★½

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017) ★★★½

 

Demais:

O Homem Que Matou o Fascínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962) ★★★★½

Neve Negra (Nieva Negra, 2017) ★★½

Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968) ★★★★½

O Homem Que Sabia de Menos (The Man Who Knew Too Little, 1997) ★★★

 

18 filmes assistidos

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