Category Archives: Cinema

Lou (Lou Andreas-Salomé, 2016)

Lou Andreas-Salomé. É provável que você, assim como eu, nunca tenha ouvido falar desse nome. E isso é mais do que sintomático. Louise von Salomé foi uma romancista, filósofa e psicanalista. Roteirizado (juntamente com Susanne Hertel) e dirigido por  Cordula Kablitz-Post, o filme que leva seu nome se propõe a relatar um pouco de sua biografia.

A protagonista é retratada em diversas idades. Quem rememora sua história é ela mesma, aos setenta e dois anos (Nicole Heesters). Nascida em 1861, aos seis anos (Helena Pieske) queria ter as mesmas liberdades que eram oferecidas a seu irmão. Aos dezesseis (Liv Lisa Fries) se instruiu aprendendo filosofia e teologia com um tutor. Já adulta (Katharina Lorenz), cursou faculdade, um feito raro, dificultado à maior parte de suas contemporâneas. Aos vinte e quatro anos publicou seu primeiro romance. Para consegui-lo, precisou utilizar um pseudônimo masculino. Nessa fase de sua vida, o filme foca no ambiente movimentado de intelectualidade que ela costumava frequentar. Assim ficamos sabendo de seu relacionamento com Nietzsche e Paul Rée, de seu romance com Rainer Maria Rilke, das aulas que recebeu de Freud. Em certo momento ela fala que a falta de espaço para uma mulher se desenvolver é tão ruim como a de liberdade para um homem. Por meio de seus estudos e de seus relacionamentos refletiu sobre questões da mulher, erotismo e sexualidade. Como cinebiografia, Lou utiliza uma estrutura narrativa bastante tradicional. Esteticamente o elemento que chama atenção são as transições, feitas com o uso de postais de cada época e lugar e a inserção de sua protagonista neles. Destaca-se o humor e a forma reverente, mas não rígida com que a personagem é tratada.

E aí divago. Quando eu tinha doze anos, aspirante a escritora, visitei Lindolf Bell, um poeta que eu admirava. Mais tarde, no mesmo ano, pouco antes de falecer, ele me presenteou com um exemplar de Cartas a um Jovem Poeta, do próprio Rilke. Nessa época, proto-feminista, eu costumava dizer que era poeta, e não poetisa, porque poesia não tem gênero. Hoje, feminista com um tempo de estrada, digo que literatura tem, sim, gênero, e ele fica patente nesses pequenos detalhes. É claro que minha referência naquela idade era Bell (embora a escritora que eu mais lesse fosse Agatha Christie). É claro que o autor escolhido por ele para me presentear foi Rilke. (Não estou o criticando pessoalmente). Mas é triste ver como vivemos em uma estrutura social onde a arte ainda é masculina e naturalizada como tal. E facilmente uma pessoa pode passar anos sem nem perceber que simplesmente não lê obras que foram escritas por mulheres. Eu poderia ter lido um romance de Lou, se ela pelo menos sua obra tivesse sido traduzida para o português, e assim ter tomado conhecimento de uma mulher inspiradora e que vivia envolta às letras, como eu desejava fazer. Mas não. Restou-me Rilke. Não conhecia Lou, não conhecemos Lou, deixamos passar despercebido o trabalho de tantas mulheres.

Lou pode ser convencional, mas ainda assim impressiona. E impressiona, talvez, mais por esses elementos extra-filme do que pelo filme em si. Basta pensar em todos esses homens que a rodearam: Nietzsche, Rilke, Freud. Eles são absolutamente célebres: mesmo alguém que nunca leu nenhum de seus trabalhos, reconhece seus nomes e sua importância. E como não a conhecemos? No final é necessário uma mulher escrever e dirigir um filme como esse  pra que o público conheça outra mulher. E de certa forma é um pouco decepcionante, depois de toda a trajetória de vida apresentada, não conseguir tomar forma do que realmente era o trabalho de Lou por meio da película, que foca justamente nessa sucessão de homens célebres. Mas não deixa de ser interessante e mesmo necessário.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017)

Postado originalmente em 10 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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Filmes assistidos em dezembro

Final de ano vem acompanhado com uma desaceleração. Cansaço define. Não quis fazer nada remotamente parecido com trabalho, incluindo assistir a filmes. E esse foi o ano com menos filmes visto da última meia década: 264 longas, no total. Fico pensando que talvez eu devesse diminuir o tempo dedicado ao cinema na minha vida. Depois de alguns anos de blog, ainda não consigo entender muito bem qual é o objetivo disso. 2018 vai ter que ser um ano para repensar metas. Mas enquanto vou pensando aqui, queria agradecer a quem me acompanha e desejar um ótimo ano, cinéfilo ou não!

52 films by women:

Certas Mulheres (Certain Women, 2016) ★★★½

 

Lançamentos:

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, 2017) ★★★★

Demais:

 

Bingo: O Rei das Manhãs (2017) ★★★

Thelma (2017) ★★★★

Detroit em Rebelião (Detroit, 2017) ★★★★

Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe (The Meyerowitz Stories (New and Selected, 2017) ★★★

Victoria e Abdul: O confidente da Rainha (Victoria & Abdul, 2017) ★½

Descalços no Parque (Barefoot in the Park, 1967) ★★★½

Victor ou Victoria (Victor/Victoria, 1982) ★★★★

Como Roubar Um Milhão de Dólares (How to Steal a Million, 1996) ★★★½

The Room (2003) ★

Depois de Horas (After Hours, 1985) ★★★½

Comrades: Almost a Love Story (Tian Mi Mi, 1996) ★★★★

À Meia Luz (Gaslight, 1944) ★★★★

Gigi (1958) ★★

Kundun (1997) ★★★

Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951) ★★★★½

17 Filmes assistidos

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Melhores filmes de 2017

Primeiramente devo dizer que falhei miseravelmente em fazer uma lista de melhores esse ano. Primeiro porque minha repescagem de dezembro foi pro espaço, mais por preguiça do que por qualquer outra razão: quando acabei meus compromissos principais, estava tão cansada que não quis fazer nada remotamente parecido com trabalho. Depois, eu tive um punhadinho de filmes que amei, mais um tanto que eu gostei bem. Só que esses segundo são muitos e não os destaco o suficiente para fazer questão de incluí-los ou retirá-los. Enfim, em meio a essa bagunça, já tive entre 23 e 32 filmes listados (quando geralmente são apenas 20). Optei por deixar desse jeito mesmo. Digamos que talvez eu tenha um top 5 e aí uma lista de menções honrosas com um apanhado de alguns filmes do Oscar, outros mais instigantes, uns feel good bacanas e uns divertidos que talvez sejam esquecíveis. Não estou bem certa nem da ordem em que os filmes estão dispostos (e sinceramente não vou me incomodar com isso). Fecho o ano 263 filmes assistidos (o menor número nos últimos cinco anos) dos quais 106 são lançamentos (o maior número da vida, talvez?). Levei em conta tanto filmes que passaram no cinema quanto os que chegaram diretamente em homevideo e VoD. Colo junto como os escolhidos a avaliação que dei quando assisti, de zero até cinco estrelas. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast a respeito tem link para o texto no título. Para ver a lista com todos os filmes lançados esse que eu vi, clique aqui. Para ver essa lista no Letterboxd, acesse aqui.

A Criada (The Handmaiden, 2016)

Direção: Chan-Wook Park

★★★★★

Grave (Raw, 2016)

Direção: Julia Ducournau

★★★★★

Era o Hotel Cambridge (2017)

Direção: Eliane Caffé

★★★★½

A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016)

Direção: David Mackenzie

★★★★½

Paterson (2016)

Direção: Jim Jarmusch

★★★★½

Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017)

Direção: Patty Jenkins

★★★★½

Mãe! (Mother!, 2017)

Direção: Darren Aronofsky

★★★★

As Duas Irenes (2017)

Direção: Fabio Meira

★★★★

A Cidade Onde Envelheço (2016)

Direção: Marília Rocha

★★★★

Mulheres Divinas (The Divine Order, 2017)

Direção: Petra Volpe

★★★★

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (Professor Marston and the Wonder Women, 2017)

Direção: Angela Robinson

★★★★

Loving (2016)

Direção: Jeff Nichols

★★★★

Z: A Cidade Perdida (Lost City of Z, 2017)

Direção: James Gray

★★★★

Colossal (2016)

Direção: Nacho Vigalondo

★★★★

O Ornitólogo (2016)

Direção: João Pedro Rodrigues

★★★★

Personal Shopper (2016)

Direção: Olivier Assayas

★★★★

Moonlight: Sob a luz do luar (Moonlight, 2016) 

Direção: Barry Jenkins

★★★★

La La Land: Cantando estações (La La Land, 2016)

Direção Damien Chazelle

★★★★

Corra! (Get Out, 2017)

Direção: Jordan Peele

★★★★

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017)

Direção: Sofia Coppola

★★★★

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)

Direção: Theodori Melfi

★★★★

Dunkirk (2017)

Direção: Christopher Nolan

★★★★½

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017)

Direção: Valerie Faris, Jonathan Dayton

★★★★

Mulheres do Século 20 (20 Century Women, 2016)

Direção: Mike Mills

★★★★

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016)

Direção: Ken Loach

★★★★

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, 2016)

Direção: J.A. Bayona

★★★★

Okja (2017)

Direção: Bong Joon Ho

★★★★

 

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O 20 melhores filmes de 2017 que não são de 2017

Essa lista, que faço todos os anos, são dos melhores filmes que eu vi pela primeira vez no ano e que não são lançamentos. Como sempre, para facilitar, escolhi apenas filmes ficcionais de longa metragem. Além disso, para abrir espaço à variedade, diretoras e diretores com mais de um filme que preenchessem esse critério tiveram só um listado. Outros filmes com avaliação alta vistos esse ano, mas com direção repetida, serão colocados abaixo. Geralmente a lista tem 30 filmes e esse ano tem apenas 20. Isso é reflexo do pouco tempo que tive para me dedicar a ver os filmes mais antigos. Eu costumava fazer meses temáticos, assistindo a diversos filmes de algum país, escola ou diretor, mas esse ano, com o doutorado, acabei não tendo tempo e assistindo quase que exclusivamente a filmes que são pauta de algum podcast. Isso se refletiu no resultado final, já que nem meus queridinho da Metro ou amados pré-código pude ver com carinho. A lista também pode ser conferida no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast tem links no título e a ordem da disposição é cronológica.

Rua 42 (42nd Street, 1933)

Direção: Lloyd Bacon

★★★★

A Viúva Alegre (The Merry Widow, 1934)

Direção: Ernst Lubitsch

★★★★

À Meia Luz (Gaslight, 1944)

Direção: George Cukor

★★★★

O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953)

Direção: Ida Lupino

★★★★

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) ★★★★

Os Desajustados (The Misfits, 1961)

Direção: John Huston

★★★★

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

Direção: John Ford

★★★★1/2

Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968)

Direção: William Wyler

★★★★1/2

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 1971)

Direção: Don Siegel

★★★★

Victor ou Victoria (Victor/Victoria, 1982)

Direção: Blake Edwards

★★★★

Chocolat (1988)

Direção: Claire Denis

★★★★1/2

Bom Trabalho (Beau Travail, 1999) ★★★★1/2

35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008) ★★★★

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989)

Direção: Spike Lee

★★★★★

Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991)

Direção: Gus Van Sant

★★★★

Earth (1998)

Direção: Deepa Mehta

★★★★1/2

Fogo e Desejo (Fire, 1996) ★★★★

Frágil como o Mundo (2002)

Direção: Rita Azevedo Gomes

★★★★1/2

Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003)

Direção: Kim Ki-Duk

★★★★1/2

Caramelo (Sukkar banat, 2007)

Direção: Nadine Labaki

★★★★

E agora onde vamos? (Et maintenant on va où?, 2011) ★★★★

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011)

Direção: Sarah Polley

★★★★★

Trabalhar Cansa (2011)

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

★★★★

Sinfonia da Necrópole (2014, dir. Juliana Rojas) ★★★★

The Fits (2015)

Direção: Anna Rose Holmer

★★★★1/2

Docinho da América (American Honey, 2016)

Direção: Andrea Arnold

★★★★1/2

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