[43ª Mostra de São Paulo] Segredos Oficiais (Official Secrets, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Keira Knightley em um drama de época. Embora tal frase resuma boa parte da carreira da atriz, nesse filme o retrato histórico é quase nosso contemporâneo (e nos faz pensar na forma como acontecimentos de épocas em que já vivemos podem ser consideradas momentos da história, mesmo que da história recente). Dirigido por Gavin Hood, o filme é adaptado do romance The Spy Who Tried to Stop the War: Katharine Gun and the Secret Plot to Sanction the Iraq Invasion, de Marcia Mitchell e Thomas Mitchell pelo próprio diretor junto com Gregory Bernstein e Sara Bernstein. A trama é baseada em acontecimentos reais e o filme se passa no período que antecede e que segue a declaração de guerra do Estados Unidos e do Reino Unido ao Iraque, nos início dos anos 2000. Knightley interpreta a whistleblower Katharine Gun.

Gun, que não se considerava especificamente pacifista, trabalhava em uma central de comunicação governamental da Inglaterra (a Government Communications Headquarters) como tradutora de mandarim. Em 2003 todos os funcionários do setor receberam um comunicado interno informando que trabalhariam na espionagem de líderes de países em desenvolvimento, para buscar pontos sensíveis que pudessem ser utilizados para que fossem convencidos (o fato de ser por meio de chantagem fica implícito) a votar a favor da guerra no Conselho de Segurança da ONU. Gun é retratada como uma pessoa que, na vida provada, criticava a falta de provas das conexões entre Saddam Husseim e a Al Qaeda, assim como da existência de armas de destruição em massa no Iraque, advogadas como motivações para o ataque defendido pelo Primeiro Ministro Tony Blair em rede nacional.

Por esse motivo, imprimiu uma cópia do referido e-mail e entregou-o a uma amiga, incumbida de repassá-lo à imprensa. Alguns jornais não acreditaram na veracidade do conteúdo e coube ao jornalista Martin Bright (Matt Smith) a derradeira publicação. Repórter do jornal The Observer, que tinha uma linha editorial conservadora e governista, convenceu seu editor da gravidade dos fatos e da necessidade de noticiá-los.

Acontece que com o vazamento, Gun violou a Lei de Segredos Oficiais, que trata de informações sigilosas e sua relação com funcionários do governo. Uma vez descoberta a autoria do vazamento, passa a ser assediada pelo Estado, que usa de espionagem, perseguição a ela e ameças veladas (ou não) ao status de seu marido, um migrante curdo, no país. A trama culmina com um julgamento, em que a protagonista é defendida por Ben Emmerson (Ralph Fiennes), advogado especializado em casos de perseguição política.

O filme se favorece da boa interpretação dos atores, da fotografia acinzentada e do roteiro que, apesar dos diálogos expositivos, constrói satisfatoriamente o thriller político. Gun é uma personagem bem construída e não aparece como dona de um idealismo pétreo, nem como uma ativista abnegada, mas como uma pessoa como tantas outras, que meramente foi motivada por algo que considerava condenável (e, na prática, ilegal) por parte do Estado para que trabalhava.

Com um narrativa que prende o espectador em todos os seus desdobramentos, atuações sólidas e personagens críveis, Segredos Oficiais é um interessante retrato do passado recente da história política. O filme reforça a necessidade da participação da imprensa na cobertura de vazamentos de informações governamentais que dizem respeito à população, destacando o papel dos indivíduos comuns, e não heróis inalcançáveis, nesse processo. Por fim, desvela os meandros com que países desenvolvidos são capazes de atuar para manipular países em desenvolvimento, fazendo uso de mentiras, ilegalidade e mesmo a perseguição aos seus próprios cidadãos para alcançar seus objetivos imperialistas, tendo a busca pela paz como disfarce. Na soma desses fatores, Segredos Oficiais é uma narrativa contemporânea aprazível e instigante.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Hector Babenco é um cineasta argentino que atuou no Brasil com grandes sucessos, tanto quanto se trata de público, quanto crítica. O filme foi premiado como o Melhor Documentário sobre Cinema no Festival de Veneza, mas não necessariamente fala sobre a obra do diretor, como tal fato pode levar a entender. Dirigido por Bárbara Paz, que também foi sua companheira nos últimos anos de vida, temos um recorte específico do homem por trás da arte.

Babenco estava morrendo. Assim mesmo, no gerúndio. Foram décadas entre o diagnóstico (e o prognóstico negativo) e a derradeira despedida. Em cena, ele mesmo brinca com o fato de que, como uma fênix, sempre ressuscita, até o dia em que não mais o fará. E é em meio a esse processo que Paz resolve registrá-lo, próximo e humano.

Assim aprendemos que se fixou no Brasil porque aqui a realidade, para ele, supera a ficção mais do que na Argentina. Também contou do êxito com O Beijo da Mulher Aranha, em 1985, quando se descobriu doente, o trabalho posterior com Meryl Streep e Jack Nicholson e a forma como filmou Brincando nos Campos do Senhor, lançado em 1991, com mais de 40 pontos espalhados pelo corpo.

Mas no final, pouco disso importa para o documentário. Filmado em preto e branco, retratando com realismo o rosto marcado de Babenco, Paz nos mostra os pequenos momentos quase banais da rotina do casal, como quando ele, impaciente mas carinhosamente a ensina a fazer o foco na câmera ou quando a mão dela dança em cima da dele, parada. Além disso revela o amor dele pelo cinema até o final, quando cantarola Cheek to Cheek, da trilha de O Picolino, no seu quarto do hospital ou quando realiza o desejo de filmar uma última cena de Bárbara, literalmente cantando na chuva.

Babenco é um longo e afetuoso adeus, filtrado pelo amor de sua autora pelo seu retratado. Nele somos confrontados com o desejo pelos pequenos e últimos prazeres, da comida com sabor, dos encontros com amigos, da possibilidade de contar histórias para viver. Com a câmera fechada no rosto de seu personagem, estamos próximos a ele. Ainda assim, é possível que ao fim do documentário não tenhamos aprendido mais nem sobre o diretor nem sobre sua obra. Porque não é disso que se trata. Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou é um belo exercício, por vezes tímido e hesitante, mas ao mesmo tempo intenso e carinhoso, sobre o morrer compartilhado.

Nota: 4 de 5 estrelas
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[43ª Mostra de São Paulo] Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia (Gospod Postoi, Imeto i è Petrunija, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Petúnia (Zorica Nusheva) mora com os pais, tem mais de 30 anos, um diploma universitário que nunca usou e está desempregada. Ela é o contra-exemplo daquilo que é considerado ideal, especialmente para os referidos pais, a quem é uma fonte de preocupação. Eles só desejam que tenha um emprego estável para ter acesso a seguridade social. Além disso está fora dos padrões estéticos exigidos pelo capitalismo quando se trata de mulheres: além de ter passado da idade considerada atraente (fato reiteradamente lembrado por sua mãe), ela é gorda e, portanto, duplamente marcada como um mulher não desejável. Petúnia é alguém que não se encaixa no nosso modelo econômico.

Quando sai de casa para uma entrevista de emprego, o potencial futuro patrão reitera todas essas características: afirma que ela aparenta ser mais velha do que é e por isso ele sequer conseguiria ter desejo sexual por ela. O valor da mulher está colocado no quão atrativa ela é considerada, em padrões excludentes. A inteligência ou a doçura de Petúnia não têm valor. Petúnia é visualmente contrastada tanto com os manequins que enchem o quarto de sua amiga, que lhe empresta um vestido para que use na entrevista, como naquele que carrega debaixo do braço após a mesma.

Mas é contrastado uma vez mais quando, no caminho da volta, se vê em meio a uma procissão religiosa repleta de corpos não só masculinos, mas semi-nus (em oposição ao seu longo vestido de gola fechada e casacão). Trata-se de uma tradição em que todo ano o padre joga uma cruz na água e o homem que recolhê-la ficará com ela (e a sorte dela proveniente) durante o ano seguinte. Petúnia, sem pensar, entrou na água e pegou a cruz, sem se atentar ao fato que tal ação não era permitida às mulheres.

À partir disso, a protagonista se vê reiteradamente violentada, seja pela polícia, pela igreja ou pelos membros da sociedade civil. As micro-agressões vêm do fato de que ela, sendo uma mulher comum, não excepcional, ousou quebrar as regras não escritas que privilegiam os homens. Uma jornalista cobrindo o caso é adicionada à trama para, de maneira expositiva, ressaltar a jornada dupla de trabalho a que as mulheres são submetidas, a remuneração menor do que de seus colegas de trabalho e outras situações aceitas dentro do lugar de normalidade.

Com direção de Teona Strugar Mitevska e roteiro da diretora em parceria com Elma Tataragic, o filme mostra as reações ao mero desafio dos privilégios masculinos, cujo domínio é validado pela tradição. Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia escancara, de forma simplista, mas sempre bem humorada, os pactos entre as diferentes instâncias de poder para reiteradamente excluir as mulheres socialmente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Parasita (Gisaengchung, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Conhecido pela inventiva mescla de gêneros cinematográficos em suas narrativas, o diretor Bong Joon Ho volta, depois de Okja, a falar abertamente sobre as irreconciliáveis tensões entre classes sociais, como já havia feito em Snowpiercer. Parasita é uma intensa reflexão sobra as dinâmicas sociais que regem as relações entre ricos e pobres, pautadas, muitas vezes em situações despropositadas. Com roteiro do próprio Joon Ho, junto com Han Jin Won, o filme apropriadamente começa como uma comédia de absurdos centrada na família Kim.

Os Kim estão entre aqueles mais desprivilegiados na sociedade. O pai Ki-taek (interpretado pelo ator Kang-ho Song, recorrente na filmografia do diretor), a mãe Chung-sook (Hye-jin Jang), a filha Ki-jung (So-dam Park) e o filho Ki-woo (Woo-sik Choi) estão todos desempregados. Moram em uma espécie de porão sujo e entulhado, com apenas uma pequena janela para a parte final de um beco, que costuma se usada como banheiro por outras pessoas que por ali passam. Usam o wifi de terceiros, quando os encontram abertos, porque não têm condições de ter seu próprio. Sem perspectivas, aceitam trabalhos que não pagam bem e ainda assim não realizam essas tarefas da maneira ideal. Aquele espaço insalubre não é um lugar adequado para trabalhar, nem comer, nem dormir, muito menos viver em tempo integral.

Os espaços e a arquitetura dos lugares acabam por ser chave para a forma que Joon Ho constrói sua história. A contrapartida dos Kim, são os Park, família composta pela mãe Yeaon-kyo (Yeo-jeong Jo), o pai Dong-ik (Sun-kyun Lee), a filha Da-Hye (Ji-so Jung) e o filho Da-song (Hyun-jun Jung), espelhando, portanto, a estrutura familiar dos outros. Quando o tutor de inglês da garota viaja para estudar no exterior, eles precisam contratar um novo. Coincidentemente ele é amigo de Ki-woo e o indica para a função. Nesse momento é deixado claro que o rapaz da família Kim era o melhor aluno de inglês entre os amigos, só que nunca conseguiu chegar a uma universidade. O fato foi corrigido pelas habilidades de falsificação de sua irmão, que lhe cria um diploma e garante o emprego. Os acesso, portanto, não é pautado nas habilidades individuais, mas na forma como elas são validadas por determinados dispositivos burocráticos.

Um a um os Kim assumem novas identidades e passam a trabalhar para os Park. A casa desses segundos tem a autoria de um famoso arquiteto que lá havia residido mencionada reiteradamente. Esse fato é importante para percebermos sua configuração. Não só há um contrate entre a pequena janela dos desprivilegiados e o pano de vidro da casa dos ricos, que, dessa forma, podem usufruir de um terreno idílico que faz parte de sua propriedade, como a configuração vertical da edificação acentua as diferenças sociais. Se os Kim literalmente moram num porão, abaixo do nível da sociedade, a casa dos Park é dividida em planos acessados por escadas, que forçam o deslocamento vertical constante entre aqueles que a frequentam. A entrada, pelo pequeno portal, já revela uma escada que sobe para o nível do terreno. O térreo da casa, onde estão a sala de estar, cozinha e sala de jantar, é onde a governanta trabalha. Mais um lance de escadas e chegamos à área privativa e os quartos dos patrões. Do térreo, se desce para uma garagem subterrânea que serve também de despensa e por onde circula o motorista. Mas o mais importante: se cada um desses andares simbolicamente retrata um extrato social, o arquiteto sabia que o subsolo não deveria parar ali. Descendo mais um lance de escadas revela-se uma espécie de bunker que, significativamente, abriga o que é esquecido por todos. Esse tipo de dinâmica, que não é nova, aparece em retratos de sociedades altamente estratificadas, como a britânica, em produções como a significativamente chamada Upstairs, Downstairs, replicada em Downton Abbey. A diferença é que Joon Ho acrescenta a dinâmica capitalista para questionar tanto a meritocracia quanto a lógica patronal pautada nela, expressãndo através do sobe e desce retratado naquele cotidiano a expressão da própria relação entre as classes sociais, visíveis ou invisíveis.

Nesse sentido é curiosa como os Park são criados como pessoas absolutamente desconectadas da realidade que os rodeia, incapazes de demonstrar interesse ou preocupação com os demais. Sinestesicamente, Joon ho nos faz sentir, junto com eles, o cheiro que eles acreditam que diferencia os demais deles mesmos. O estilo de vida estéril da família não os permite enxergar exploração ou predação nas relações que entabulam, mesmo que simbolicamente, como quando se apropriam de elementos visuais relacionados aos povos indígenas americanos. Por isso é interessante como o título despista o espectador: se a princípio somos levados a crer que os Kim são parasitas, que se instalam na casa dos Park vivendo às suas custas e da estrutura arquitetônica e social que eles dispõem, depois percebemos que os Park é que parasitam a sociedade como um todo. O modo como eles e seus amigos vivem, sem produzir nada e ainda assim se refestelando com seus bens e suas iguarias, só é possível às custas da exploração dos demais, que, sem ter outros meios, passam a se ver obrigados a viver às margens de pessoas como eles.

E se o filme começa como uma comédia, apostando nos truques e trapaças dos Kim, logo se desdobra para o horror e para o drama, as únicas formas possíveis para lidar com a injustiça e o descaso. O drama é usado como possibilidade de comentário político, mas o terror como o retrato da violência como única possibilidade para se ter uma resposta pronta para a desigualdade social estrutural e estruturante. Catártico e ao mesmo tempo anticlimático, Parasita instiga uma reflexão acerca da estratificação e da quase impossibilidade de deslocamentos entre classes sem que haja uma brusca ruptura no tecido social.

4,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Alice Junior (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

“corpos que você não imagina, mulheres com pau homens com vagina”

Esse poderia ser um filme adolescente como outro qualquer: Alice (Anne Celestino) é uma adolescente secundarista que mora sozinha com o pai, Jean Genet (Emmanuel Rosset) em Recife. Recebe dele a informação de que eles terão que se mudar para uma pequena cidade com 50 mil habitantes encravada no interior do Rio Grande do Sul, em virtude do trabalho dele. Ela, que nunca beijou na boca, e até então fantasiava sobre seu primeiro amor, soma a isso a ansiedade por ter que mudar de escola. A diferença é que Alice é uma adolescente que poucas vezes é retratada nos filmes: uma jovem transgênero.

A força no filme está justamente nesse fato: embora por seja transgênero Alice tenha temores que lhe são próprios, em nenhum momento ele se propõe a ser uma mera narrativa em torno do tema da transfobia. Os desafios cotidianos são postos e ao mesmo as vivências de Alice são tratadas como quaisquer outras, quando se trata de uma história de crescimento. Soma-se a isso um universo de novos amigos inclui pessoas brancas e negras, tanto heterossexuais, como gays e bis. Tudo isso sem que os personagens pareçam meros esquemas que simbolizem grupos subrepresentados em filmes de adolescência comuns: cada um tem seu próprio desenvolvimento, mesmo que o foco seja Alice.

É claro que a protagonista precisa enfrentar a desinformação (mesmo que às vezes vinda de pessoas bem intencionadas) e um sistema de ensino conservador, que não acolhe e que literalmente busca uniformizar alunas e alunos, de acordo com padrões pré-estabelecidos do que se entende por gênero, feminilidades e masculinidades. Mas o humor é usado como forma de dar leveza aos acontecimentos, sem, com isso tirar seu peso.

A linguagem do filme é dinâmica, fazendo uso de memes, elementos visuais que remetem aos aplicativos usados pelos adolescentes do filme que aparecem em tela, além da própria emulação da estética das redes sociais perpassam a tele, mesclados com a estética do seriado Malhação. A trilha sonora, que vai de Duda Beat a Ludmilla, casa com a proposta. A ficção pautada na realidade de jovens com vidas não normativas é mesclada a eventuais elementos fantásticos.

Com direção de Gil Baroni e roteiro de Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva, Alice Junior diverte sendo um retrato comum de adolescência. Mais ainda sendo o retrato pouco usual das adolescências que não costumamos ver.

Nota: 3 de 5 estrelas
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