Figurino: Django Livre

78c9f15dfe3e7329f1d5753e958cfbfa Esse ano, antes da Academia anunciar os indicados ao Oscar, uma página de teste com uma suposta lista foi ao ar por engano e constava que Sharen Davis havia recebido a indicação de Melhor figurino por Django Livre. Ela já possuía duas indicações anteriores, por Dreamgirls (2006) e Ray (2004). Acontece que quando a lista oficial foi ao ar, ela não estava entre os indicados (que foram Anna Karenina; Os Miseráveis; Lincoln; Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador). Em minha opinião sua indicação caberia, pois o figurino de Lincoln não está muito interessante e o de Os Miseráveis não é visível no filme, graças à obsessão por zoom de Tom Hooper. Geralmente há essa preferência por filmes de época (especialmente os recheados de vestidos) e filmes de fantasia em geral.

schultzO figurino de Django é bastante interessante. Em primeiro lugar temos o Dr. King Schultz, que é um personagem ambíguo: aqui ele aparece como mentor de Django e também o homem que o liberta, mas ao mesmo tempo ele mata pessoas por dinheiro e não tem medo de atirar mesmo na frente dos filhos dessas. Talvez por isso Schultz sempre se vista em tons de cinza e a peça mais marcante de seu figurino é um sobretudo com capa em três camadas. Esse tipo de peça não é de período, não é tradicional de nenhuma época, e foi feita, provavelmente, para ressaltar a singularidade do personagem. Visualmente ela confere também bastante peso.

Django, ao ser libertado, toma o casaco do homem que o negociava e ao chegar à primeira cidade, vai, junto com Schultz, comprar suas novas roupas. Incentivado a escolher a roupa que quisesse, Django escolhe um conjunto azul bastante chamativo, com detalhes em renda na gola, inspirado no quadro The Blue Boy.

The_Blue_Boy_-_Thomas_Gainsborough
The Blue Boy, de Thomas Gainsborough (1770)

django

Após definirem seu plano para salvar Broomhilda, Django passa a adotar uma jaqueta verde com botões de madeira e roupas em tons terrosos, que vão acompanhá-lo até o clímax do filme, quando ele incorpora roupas do próprio Calvin Candie enquanto executa a sua vingança.

88e69b0c4299ca76ae96d26d889bfa7c

75850c9ecf826ab293d27d8b9ea921ed

De todos os personagens, Candie é justamente aquele que tem o figurino mais elaborado e mais interessante. Suas roupas sempre conversam diretamente com os locais onde ele está, sejam eles os salões onde ocorrem as lutas entre escravos ou nos ambientes (sala de jantar, biblioteca) de sua própria casa. A escolha de cores sempre é similar, mostrando que o personagem está em casa nesses ambientes e que não só eles pertencem a ele, como ele pertence a eles. Isso fica exemplificado, na imagem ao lado, no uso da cor vinho, acompanhado de dourado.

ce2b365cb9368f91efe6c7092ac25d38

Já Broomhilda tem o figurino dividido em duas formas diferentes: nas visões que Django tem dela enquanto está a sua procura, ela é idílica e remete à beleza clássica do meio do século XIX, com cintura tipo império, mas o tom amarelo para contrastar. Depois, quando ela aparece em carne e osso, veste roupas práticas, com os tons cinzas dos demais escravos da casa Candie. Por fim, no final da história, passa a usar um traje mais utilitário, que remete mais aos trajes femininos de western, com um cinto largo e ampla saia em tom arroxeado.

tumblr_mg5u0rZNXs1qa45uio1_400 cn_image.size.s-django-costumes-ss Para quem quiser saber mais sobre o processo de criação do figurino, recomendo a entrevista com Sharen Davis no site Clothes on Film (que aliás, é um ótimo site para quem se interessa por figurino em geral)

Share

Figurino: A Princesa Prometida

defamation_xlg

O figurino de A Princesa Prometida (Princess Bride) poderia ser datado, por suas características, entre o século XIV e século XV. Começando pela Princesa Buttercup percebe-se que em todas as situações em que ela está no castelo, ela usa vestidos em tons pálidos. A única mudança é quando resolve sair para cavalgar sozinha e aí utiliza um vestido em vermelho vibrante (o que é uma escolha bastante apropriada, se levarmos em conta o vermelho como sendo a cor do poder). Quando o príncipe Humperdinck anuncia que vai se casar com uma plebeia e revela o nome de Buttercup, ela entra no pátio central do castelo utilizando um vestido em um tom perolado, com cintura tipo império, aplicações e capa. Posteriormente, ainda no castelo ela utiliza um vestido rosa pálido, com cintura marcada, decote canoa e mangas e material contrastante. Ainda há outro vestido de corte bastante semelhante, mas em azul claro, sem a marcação da cintura e com detalhes em outro tecido nas mangas.

pink2

Figurino do dia do anúncio de casamento
Figurino do dia do anúncio de casamento

O vestido vermelho usado por Buttercup para cavalgar gera contraste com as locações.

red24

Para o príncipe Humperdinck, que usa basicamente gibões, a paleta de cores é exatamente a oposta à de Buttercup: todas as suas roupas são em tons de vermelho com complementos em cores quentes próximas, sempre contrastando com as dela. O único momento em que vemos ele deixando de lado a força do vermelho e pendendo para as cores de Buttercup é na cena da cerimônia de casamento. Nela não só os dois, como todos os presentes e mesmo o cenário e seus detalhes se apresentam em azuis pálidos com detalhes em dourado. Não consegui uma imagem que mostrasse o altar de frente, mas essa abaixo dá uma mostra da homogeneidade das cores no momento.

20111126-165334

Contraste entre as paletas dos personagens
Contraste entre as paletas dos personagens

Wedding

A mão-direita do príncipe Humperdinck é o Conde Tyrone Rugen. No seu caso, a paleta de cores do figurino sempre se apresentam em tons de verde esmaecidos e cinza, com um pouco de mostarda ou amarelo queimado como complemento. Quando ambos cavalgam na floresta, não pude deixar de comparar o contraste entre as suas roupas com o que ocorre na cena de As Aventuras de Robin Hood em que o protagonista cavalga ao lado de Will Scarlett. Não acredito que seja coincidência, pois, como já havia escrito, A Princesa Prometida tem muitas referências, especialmente envolvendo cores, ao clássico do período do technicolor.

Christopher-Guest-in-Princess-Bride-jpg

adventures-of-robin-hood-1
Will e Robin Hood em As Aventuras de Robin Hood, de 1938
Príncipe Humperdinck e Conde Tyrone Rugen
Príncipe Humperdinck e Conde Tyrone Rugen

Por fim, temos nosso herói, Westley, ou, como se apresenta ao retornar, Pirata Robert. Sua roupa é visivelmente inspirada na de Zorro, mas não consegui descobrir a origem dessa escolha. A camisa tem mangas amplas e detalhe de amarração no peito, acompanha uma faixa na cintura, uma máscara preta rígida e uma bandana preta. Essa roupa é utilizada praticamente no filme inteiro.

wst5

Share

Duna (1984)

Continuo firme e forte com minha “educação cinematográfica”, assistindo aos filmes dos anos 80 que, quando era criança, não assisti por preconceito ou preguiça. A bola da vez foi Duna, dirigido por David Lynch. O visual do filme é realmente impressionante. Cenários muito bem feitos, figurinos competentes e engenhocas retrô, com uma estética steampunk (dá pra chamar de steampunk sem ser punk?). Tudo remete ao visual da virada do século XIX para o século XX. Mas os efeitos especiais são muito ruins, mesmo pra época (Star Wars foi feito 5 anos antes e Blade Runner , 2 anos). As naves voando chegam a ser constrangedoras.

A história é o velho clichê do “escolhido” (Kwisatz Haderach, tente falar rápido), que vem libertar um povo cumprindo uma profecia. Há muitas referências religiosas, especialmente ao islamismo. Fica visível na trama que se trata de uma adaptação de um livro, porque a história é entrecortada, parecendo saltar de capítulo em capítulo, e preenchida por narrações em off pra representar os pensamentos dos personagens.

As atuações não são memoráveis. Na verdade Lady Jessica só faltou colocar a mão na testa e jogar a cabeça pra trás, num esgar de expressionismo dos anos 20. Ficam minhas palmas para Glenn Close, que recusou o papel por não querer  interpretar “a mulher que está sempre correndo e caindo atrás dos homens”. Não há nenhuma personagem feminina forte no filme, apenas interesses românticos.

Ao pesquisar imagens para esse post, percebi que há pouquíssimas disponíveis que mostrem  com detalhes as roupas e cenários. Mas dá para dizer que na corte no imperador, tanto a princesa Irulan (que começa narrando a história e depois some) quanto a “madre superiora” usam trajes inspirados nos século XVII, com corpetes longilíneos e anquinhas largas.

Lady Jessica usava versões modernizadas de vestidos entre 1890 e 1910, com silhuetas mais modest

a, longilíneas, saias ajustadas e pouca ou nenhuma anquinha.

Os trajes tanto do imperador como do Duque Leto e seu filho Paul, no inicio do filme, são casacas comuns, com inspiração militar, praticamente sem toques de modernidade. Dá para imaginar Dom Pedro II usando a roupa do Duque Leto sem maiores problemas. Infelizmente não achei imagens para ilustra

r.

Os ajudantes do bichinho da boca engraçada, quando este vai falar com o imperador dentro de um aquário, vestem um “roupão de edredom” revestido com algum tipo de tecido brilhoso. É visível que o mesmo torna o andar extremamente difícil, já que é justo até embaixo e sem fendas. Eles andam com passos de gueixa.

Por fim, tem o Sting. Isso, aquele que nos anos 80 gostava da Amazônia. E lá está ele de sunga de asinhas. Sem mais.

Nunca li nenhum dos livros, mas dá para entender porque Duna tem tantos fãs no meio da ficção científica. Trata-se de uma história complexa (quase ininteligível no filme) e um universo amplo.  O visual do filme me parece, de uma maneira geral, bastante adeqüado para o período, com exceção dos efeitos especiais. Ouso dizer que achei os figurinos muito mais ousados que de Star Wars, por exemplo. A estética, principalmente dos gadgets, parece influenciar até os dias atuais, mas não  com a mesma força de outros filmes do mesmo período. Fora isso, solidarizo com David Lynch e compreendo porque ele considera o filme o maior fracasso da sua carreira e se recusa a falar sobre ele ou projetos relacionados.

Share

Figurino marcante: …E o vento levou

(Originalmente publicado em Linha e Agulha)

Existem vários motivos que podem levar um filme a ser memorável: efeitos especiais, drama, contexto histórico, atuações marcantes, entre outros. Grandes épicos tendem a agregar qualidades técnicas que ajudam a manter esse destaque atemporal. É o caso de …E o vento levou. O clássico de 1939, com aproximadamente 3 horas e meia de duração, tem locações e cenários fantásticos, usa a cor para efeito dramático como poucos fizeram à época, tem diálogos inesquecíveis e, principalmente, um figurino de encher os olhos, desenhado por Walter Plunkett.


Vivien Leigh interpreta Scarlett O´Hara, uma mimada belle do sul, na época da Guerra civil americana (década de 60 do século XIX). No início do filme as roupas são joviais, com tecidos delicados e babados. Dois trajes marcantes são o vestido branco com cinto vermelho e o branco com estampa verde e faixa na cintura e chapéu combinando, utilizado em um churrasco.

Os dois vestidos vermelhos também se destacam. Um foi utilizado no aniversário de Ashley Wilkes (marido da prima de Scarllet) e o outro é na verdade um roupão. O primeiro foi usado para chocar, já que não é exatamente o que se esperava de uma dama da época trajar. O corpete baixo, a saia quase reta, pouco armada, os bordados com pedrarias, as plumas e transparências transmitem sua mensagem.  Já o roupão ostenta a riqueza da personagem, pois  poucos trajes de toucador são vestidos de veludo com amplas mangas, cinto e rendas.

Mas o vestido mais marcante do filme ( e um dos mais marcantes da história do cinema) é o vestido de cortina. Em dado momento, Scarlett tem que se apresentar bem vestida, apesar da penúria dos tempos de guerra e resolve utilizar uma antiga cortina de veludo com franjas douradas da casa de seus pais para confeccionar o traje. Com criatividade, ela e a empregada Mammie (interpretada por Hattie McDaniel, primeira mulher negra a ser indicada e ganhar um Oscar, por esse papel) confeccionam-no com ampla saia, cinto com os cordões da cortina e até um chapéu com franjas. Além de bonito, a criação do vestido é uma inspiração pela demonstração de uso de criatividade no feitio de uma roupa.

…E o vento levou ganhou 8 Oscars, em um ano considerado entre os melhores da história, com filmes como Nos tempos da diligência, O mágico de Oz e Morro dos ventos uivantes. Infelizmente a categoria de Melhor Figurino só passou a existir em 1948 e, portanto, o figurino fantástico de Walter Plunkett não foi premiado.

Share