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Por que sou levada a escrever?

gloria anzaldua

O que nos valida como seres humanos, nos valida como escritoras. (ANZALDÚA, Gloria)

Recebi de uma amiga querida o ensaio Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo, da escritora Gloria Anzaldúa, publicado na Revista Estudos Feministas em 2000 (leia ele na íntegra aqui). O texto epistolar é realmente inspirador e já começa com uma saudação às “mulheres de cor” que também escrevem. Anzaldúa é americana de origem mexicana, nascida no Texas e criada nas roças de tomate. Ativista pelos direitos dos camponeses desde a década de 1950, no final dos anos 60 teve contato com a literatura feminista e nos anos 70 começou a produzir a sua própria. Constantemente era a única mulher não-branca e/ou de “terceiro mundo” (usando suas palavras) em eventos sobre literatura e por isso foi constantemente questionada a respeito de seu desejo de escrever, como se por algum motivo ela não devesse frequentar esses lugares ou se ocupar dessa forma. Sobre isso, reflete durante a carta:

Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia.  Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.
Por que deveria tentar justificar por que escrevo? Preciso justificar o ser chicana, ser mulher? Você poderia também me pedir para tentar justificar por que estou viva? (ANZALDÚA, Gloria)

Anzaldúa também fala sobre o cuidado que se deve ter para não cair em uma escrita universalizante. O texto original é de 1980 e nessa época autoras acadêmicas feministas provenientes de ex-colônias europeias abordaram as múltiplas relações e papéis que as mulheres podem ter em um cenário global e trataram das relações pós-coloniais hierarquizadas entre esses países, o que pode ter inspirado o carta. Gayatri Spivak, por exemplo, escreve sobre sua própria jornada enquanto indiana de uma casta que teve acesso à educação e à cultura do imperialismo britânico e que agora parte desse local de fala (SPIVAK, 1998). Mais tarde essas inquietações a respeito de gênero, classe e etnia viriam culminar na obra de Kimberlé Crenshaw (2002), que cunhou o termo “interseccionalidade em 1989 como uma forma de lidar com diferentes formas de opressão, que não seriam somadas e sim sobrepostas, articulando os diferentes marcadores em uma dinâmica de poder. De certa forma o que Anzaldúa faz é conclamar que as mulheres, especialmente não-brancas, ocupem os espaços e escrevam. Escrevam na cozinha, no banheiro, no ônibus, mas escrevam e deixem as palavras brotar. O ensaio de Anzaldúa é curto, mas muito inspirador. Pode levar a várias reflexões sobre arte, engajamento, etnia, local de fala, experiência e subjetividade.

[U]ma mulher que escreve tem poder. E uma
mulher com poder é temida (ANZALDÚA, Gloria).

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, v.8, n.1, p. 229-236. Florianópolis, 2000.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v.10, n.1, p. 171-188. Florianópolis, 2002.

SPIVAK, Gayatri. Quem reivindica alteridade?. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque (org). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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Livro: Gaga Feminism, de J. Halberstam

É difícil avaliar um livro como Gaga Feminism, publicado em 2012 e escrito por Jack Halberstam, professor de inglês e do Centro para Pesquisas Feministas da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Halberstam aborda principalmente questões relacionadas ao que chama de masculinidades femininas, especialmente homens transgêro e mulheres cisgênero que são butchesMas o livro aborda muito mais do que isso: há diversas análises às repeito de gênero e sexualidade que partem de um ponto de vista da cultura pop, explorando principalmente os filmes lançados nos últimos anos. E ainda funciona como um manifesto do que chama de Gaga Feminism, termo que foi inspirado por Lady Gaga e que seria uma proposta de feminismo contemporâneo e diverso. Essa é parte problemática do livro para mim: a teorização é inconsistente. Por mais que o autor fale que sua proposta de Feminismo Gaga é isso ou aquilo, é difícil de entender sobre o que ele realmente está falando. O manifesto propriamente dito é confuso e um emaranhado de frases de efeito. Mas o Manifesto Gaga é apenas o quinto capitulo do livro.

O primeiro é Gaga Feminism for Begginers (Feminismo Gaga para Iniciantes). Nesse, além de atacar o trabalho da também feminista Susan Faludi, Halberstam fala de um mundo (que teoricamente seria o ocidente contemporâneo, mas não o reconheci nessa descrição) em que mulheres possuem maior sucesso profissional e salários do que os homens e onde esses tornam-se obsoletos, a não ser pelo desejo ainda persistente de uma relação amorosa. Cita filmes mumblecore e outros, como as comédias de Judd Apathow para exemplificar essa realidade. Por fim faz uma análise interessante sobre como esses filmes apresentam novas questões a respeito da sexualidade. Mas conclui explicando que o Feminismo Gaga é um feminismo mutante, alterando constantemente suas posturas políticas. “Esse feminismo não é sobre irmandade, maternidade, sororidade, ou mesmo mulheres”. E aí vejo um problema.

No segundo capítulo, Gaga Genders (Gêneros Gaga), discute questões relacionados aos corpos e à reprodução. O gancho para essa discussão é a superexposição de homens trans grávidos pela mídia. Com isso, ele discute a necessidade de eliminar distinções baseadas em genitália. Além disso, foca na reprodução artificial, que tiraria o papel reprodutivo vinculado ao corpo feminino e igualaria os papeis de pai e mãe. Por isso, ele analisa outras formas de familiaridade e parentalidade para além do que chama de “tirania da família nuclear”.

O terceiro capítulo, Gaga Sexualities: The End of Normal (Sexualidades Gaga: O Fim do Normal) explora questões relacionadas a nomenclaturas e faz uma crítica muito interessante à padronização pela academia de termos euro-americanos em detrimento dos locais. Citou o exemplo de uma conferência em que esteve em Zagreb e que na ficha de inscrição, na parte sobre gênero, havia a opção “transgênero”. Ativistas croatas e eslovenos reclamaram, pois essa não era a forma local de se referir a pessoas trans. Ativistas do Quirguistão  informaram que a maneira que eles se utilizam para se autodenominar é determinada pela idade, assim como o status de classe e o grau de variação de gênero da pessoa. Ou seja, existem nomenclaturas diferentes para inúmeras combinações desses fatores. O capítulo trabalha de forma interessante a descolonização dos estudos relacionados a gênero, citando ainda outros exemplos e, claro, filmes.

O quarto capítulo foi o de leitura mais interessante. Chamado Gaga Relations: The End of Marriage (Relações Gaga: o Fim do Casamento), ele conta com os motivos pelos quais o autor não apoia a causa do casamento LGBT. Como uma instituição excludente, para ele deveríamos lutar para acabar com ela e abraçar novas formas de relacionamento, ao invés de querer expandi-la. Buscar a legitimação de um Estado que nega direitos seria nada mais nada menos do que validar o poder deste mesmo Estado. Utiliza comédias românticas recentes, como Missão Madrinhas de Casamento, Noivas em Guerra, A PropostaEle Não Está Tão a Fim de Você, por exemplo, que primeiro desconstroem a ideia e mesmo a necessidade de um casamento convencional, para depois “premiar” a protagonista com esse tipo de relação no final. Provocativamente escreve “o casamento é o cum shot da comédia romântica”.

É interessante que Halberstam nunca utiliza a palavra bissexual e parece tratar a sexualidade numa polaridade hétero-homo bastante compartimentada, embora fale que seja preciso acabar com essa dualidade e abraçar o queer. Da mesma forma critica o que entende como um feminismo branco e elitista, mas suas próprias proposições muitas vezes parecem ser o mesmo. O manifesto e a parte teórica são o menos interessante em seu livro. Os momentos em que consegue expressar melhor suas ideias são justamente aqueles em que fala de sua vida pessoal e também os trechos ensaísticos sobre filmes.

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Melhores Livros Lidos em 2015

As leituras esse ano renderam, ainda mais se eu pensar no tanto de capítulos e de artigos que, por não serem livros inteiros, ficam de fora. Como sempre, esse foram os livros que mais gostei de ler no ano, não necessariamente lançados em 2015. Alguns já foram comentados aqui no blog e os links para as postagens estão em seus títulos.

Ficção

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Jane Eyre- Charlotte Brontë

Confesso que o desejo de ler esse livro veio ao assistir à adaptação para o cinema dirigida por Cary Joji Fukunaga e estrelada por Mia Wasikowska. Fui atraída pelo trágico e pelo clima gótico da história e queria saber até que ponto isso era fiel ao material original. O Morro dos Ventos Uivantes, de uma das irmãs de Charlotte, Emily Brontë, já é um dos meus livros preferidos, mas ouso dizer que gostei ainda mais desse. Jane é uma heroína forte e o romance com Rochester é interessante no contexto da época. A ambiguidade, até certo ponto, quando se trata dos fantasmas é enriquecedora e finalmente entendi a famosa metáfora da mulher louca no sótão. Um livro intenso e apaixonante.

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Americanah– Chamamanda Ngozi Adichie

A escrita de Chimamanda Adichie é fluida e torna prazeroso acompanhar Ifemelu, sua protagonista, que nem sempre é uma pessoa fácil de entender. O romance, que atravessa anos, da juventude de Ifemelu na Nigéria a sua mudança para os Estados Unidos até seu retorno para a terra natal, aborda questões étnico-raciais e também sobre gênero, migração, identidade e outros temas importantes. Mas mais do que isso, é um livro delicioso.

 

Não-Ficção

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Imagem- Violência: etnografia de um cinema provocador- Rose Satiko Gitirana Hijiki

O livro provem da dissertação de mestrado da antropóloga Rose Hijiki e é uma bela prova de que é possível etnografar um conjunto de filmes. A autora escolheu um recorte específico do cinema dos anos 90 que evoca imagens de violência.

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Manifesto Contrassexual- Beatriz Preciado

O que dizer desse livro? Em determinado momento da leitura anotei do lado de um parágrafo “ge-ni-al”. Porque é assim que percebi o seu conteúdo. Beatriz Preciado constrói seu texto sobre bases como Foucault, Derrida e Donna Haraway, debatendo diretamente com Judith Butler, mas de alguma forma consegue fazê-lo de maneira clara e até fácil de entender. Sua escrita é repleta de senso de humor e de provocação. É uma leitura que leva ao questionamento de tudo que é corrente, academicamente, quando se fala em gênero e sexualidade. Para fechar, vale dizer que a proposta gráfica da edição brasileira é incrível, com ilustrações de Laerte na capa, desenhos no interior, mudança de cor da impressão e do papel, e ainda inclui um simpático “cuzinho” na capa.

 

Quadrinhos

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Crônicas Birmanesas- Guy Deslile

Um quadrinho com toque jornalístico, contém o relato do autor da época em que se mudou com a esposa, que trabalha para os Médicos Sem Fronteiras, para a Birmânia. Questões culturais e também pessoais, sobre ser dono-de-casa e pai em período integral, passam pela história.

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Daytripper- Fábio Moon e Gabriel Bá

Conheci o trabalho dos autores quando li a adaptação para quadrinhos do romance Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Mas Daytripper realmente é a obra prima deles. Tanto o roteiro quanto o traço e a colorização são lindos. Quantas vezes se pode morrer em uma vida? Pura poesia.

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Watchman- Alan Moore

Finalmente eu li Watchman! E, sim, achei maravilhoso como todos falam. A história de como seriam os super-heróis se eles realmente existissem no nosso mundo caiu como uma luva para mim, uma vez que geralmente tenho um certo desgosto com o maniqueísmo dos quadrinhos de heróis em geral. A história é ácida, pesada e contundente.

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Livro: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

Cheguei ao trabalho da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie através de seu manifesto Sejamos Todos Feministas, um texto curto transcrito de uma palestra do TED e que está disponibilizado gratuitamente para download na Amazon. O conteúdo é bastante simples e direto e, talvez por isso, tão eficiente. A palestra pode ser conferida no vídeo abaixo.

Algum tempo depois assisti a um filme chamado Half of a Yellow Sun, estrelado por Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor, Anika Noni Rose e John Boyega e dirigido por Biyi Bandele. O filme é adaptado do romance Meio Sol Amarelo, o segundo escrito por Chimamanda; e me chamou atenção porque a despeito da narrativa um tanto quanto convoluta, com história demais para sua duração, foi possível perceber que por trás haviam personagens diversos e bem construídos transitando pelo cenário político de conflitos e revoluções através das décadas na Nigéria. Em resumo: é um filme falho, mas bom o suficiente para ressaltar qualidades que parecem vir da obra original, que ainda não tive acesso para ler.

Mas eis que ponho as mãos em uma cópia de Americanah, terceiro romance da escritora. Não fiquei surpresa ao perceber que a leitura fluiu rápida e deliciosa. Americanah conta a história da jovem Ifemelu, passando por sua vida em Lagos, capital da Nigéria, sua migração para estudar nos Estados Unidos e seu retorno à terra natal muitos anos depois. Trata-se de uma história de amor: Ifemelu namorava com Obinze, de quem se separou com a mudança. Alternando a narrativa entre o ponto de vista dos dois personagens, mas predominando os capítulos de Ifemelu, acompanhamos o crescimento dos dois e suas vivências à parte.

Nos Estados Unidos como bolsista universitária, Ifemelu começa um blog de sucesso em que aborda questões étnico-raciais sob o ponto de vista de uma migrante, uma vez que relata que muitos pontos são percebidos de maneira diferente por ela enquanto nigeriana em relação aos afro-americanos. Em sua estadia, ela teve mais dois relacionamentos: com Curt, um homem branco e rico e com Blaine, um professor universitário negro que vê o ativismo sob o ponto de vista acadêmico. Seu contato com outras pessoas no país e com os momentos cotidianos que testemunha é que alimentam as reflexões que escreve no blog. À partir de certo ponto do livro, as postagens aparecem transcritas literalmente.

Um dos muitos aspectos interessantes do livro é perceber como a Nigéria se parece muito com o Brasil nas divagações da personagem, especialmente quando se trata de questões de classe. E nesse sentido a autora é bastante sincera e não escreve a respeito do que parece desconhecer: a maior parte de seus personagens pertencem a uma classe média privilegiada composta por profissionais liberais e professores universitários, com empregados domésticos trabalhando em suas casas e acesso a bens de consumo.

Ifemelu é uma protagonista falha, tridimensional, sempre pronta para fazer alguma observação interessante sobre sua realidade. Assim, Americanah é um romance, sim, mas um romance que aborda de maneira fluida e ao mesmo tempo profunda questões étnico-raciais, de gênero e sobre migração e identidade.

Americanah está sendo adaptado para o cinema. O filme é produzido por Brad Pitt e protagonizado por Lupita Nyong’o, com David Oyelowo em um papel ainda não divulgado.

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Livro: Imagem-Violência

O cinema dos anos 90 é o da crueldade irônica

Jean-Claude Bernardet

O livro Imagem-Violência: etnografia de um cinema provocador é fruto da dissertação defendida pela antropóloga Rose Satiko Gitirana Hikiji em 1999. Após uma introdução escrita por Massimo Canevacci (autor do livro Sincrétika, que listei entre os melhores que li ano passado), a autora apresenta o contexto de seu trabalho, que foi a primeira pesquisa em antropologia visual defendida na Universidade de São Paulo. Nesse contexto, a área estava começando a se estabelecer e a USP contava e ainda conta com um Grupo de Antropologia Visual e um Laboratório de Imagem e Som em Antropologia.

A obra é dividida em três capítulos. O primeiro é chamado Antropologia e Cinema e aborda a relação entre antropologia e cinema através do conceito de mímesis, o processo de assimilação dialógico dos elementos. Neste capítulo há uma breve explanação sobre a relação de identificação do espectador com as imagens a ele apresentadas, além de uma reflexão a respeito do cinema como objeto de estudo em geral, das primeiras análises fílmicas até a etnografia experimental.

O segundo capítulo, intitulado Cinema, Sociedade, Contemporaneidade, já aborda o cinema e as imagens enquanto campo de estudo antropológico e como se processa o “estar lá” quando esse “lá” está em uma tela. É necessário pensar a obra de arte para além da estética, como algo criado em um contexto cultural específico. As mudanças na forma como o consumo de filmes é feito, assim como de fluxos no mercado internacional, também são abordadas.

O terceiro e último capítulo, Etnografias Fílmicas, Violência, Linguagem e Significado é uma grande reflexão sobre o cinema que discutia e criava provocações utilizando imagens de grande violência na década de 90, oscilando entre o cômico e o aterrorizante. São analisados os filmes Cães de Aluguel Pulp Fiction – Tempos de Violência, de Quentin Tarantino; A Estrada Perdida, de David LynchAssassinos por Natureza, de Oliver Stone; Fargo, dos irmãos Coen; Funny Games, de Michael Haneke, além de outros utilizados para pontuar determinados tópicos. A reflexividade a o voyeurismo são pontos importantes, bem como a catarse e o riso. A autora não se propões a explorar o efeito da violência no expectador enquanto agente social, mas sim o fato de que se criam essas imagens como forma de pensar sobre a vida social e o contexto de transgressão que isso gera, comunicando verdadeiros discursos sobre “valores, categorias e contradições” (HIKIJI, 2012, p. 69).

Imagem-Violência  é um livro rico para quem tem interesse em estudar cinema dentro de uma perspectiva acadêmica, não apenas, mas especialmente dentro do campo da Antropologia Visual, da Imagem ou do Cinema. Ao mesmo tempo, defende com facilidade o cinema enquanto campo de estudo, ainda tão pouco explorado. Certamente é uma leitura enriquecedora.

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