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Sobre comunicação acessível e linguagem inclusiva

Esse é um texto que já vinha pensando em fazer há algum tempo. Sei que talvez esse blog não seja o espaço ideal para isso, mas como é o que tenho, vou utilizá-lo. Aviso que não é minha intenção de fazer um tratado acadêmico: elaboro essas reflexões a partir de minhas próprias experiências. [Quem acompanha esse blog por causa dos textos sobre cinema pode não saber, mas sou pesquisadora de gênero, diversidade e corpo].

A questão da linguagem inclusiva é um problema que tem sido colocado de forma bastante marcada nos últimos anos. Percebo que a discussão saiu da esfera acadêmica e tem extrapolado para o cotidiano de diversas pessoas que tem interesse sobre o tema. Um dos pontos que mais tem chamado a atenção é o uso cada vez mais difundido o X no lugar do marcador de gênero em textos, como uma forma de torná-lo neutro. Na língua portuguesa (e outras latinas) não temos artigos ou pronomes neutros: eles se dividem em masculinos e femininos e a concordância é feita em torno dessas duas possibilidades.

Em 2013 estava cursando uma disciplina como aluna especial na pós-graduação em Antropologia Social da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e a professora mencionou que estava lendo uma tese que usava o X da maneira citada acima (como “xs alunxs”, por exemplo) e criticou a prática pois considerava inadequado um trabalho acadêmico que não utiliza a norma culta de forma estrita. Na época discordei, mas hoje eu mesma já não uso o X, só que não pelo motivo apresentado por ela. Aproveito esse gancho para falar um pouco da minha experiência.

Lembro da ver a preocupação com a forma de grafar de uma maneira mais inclusiva já aparecer em espaços como fóruns de páginas do Orkut, a “falecida” rede social do Google utilizada pela maioria dos brasileiros na década passada. Lá por 2008 ou 2010 já era possível ler “menin@s” e outras palavras flexionadas dessa forma circulando por esses espaços virtuais. A ideia era que a forma da arroba incorporaria tanto um “a” (em sua parte interna) como um “o” (a curva externa), podendo representar, então os gêneros masculino e feminino.

A prática passou a ser criticada alguns anos depois, por ser excludente: a divisão em dois gêneros está longe de dar conta das experiências vivenciadas quando se trata de identidade de gênero, deixando de fora pessoas não-binárias. Na esteira dessa crítica veio a utilização do X, já mencionado. A letra não indicaria nenhum gênero em específico, permitindo atrelá-la a expressões identitárias diversas. Por isso, quando a minha professora, em 2013, questionou o uso em um trabalho acadêmico, fiquei do lado de quem o escreveu: a ideia seria que um texto que incluísse uma quantidade maior de pessoas deveria importar mais do que as regras gramaticais, principalmente porque a língua, viva, deve se adaptar às nossas necessidades e práticas.

Acontece que o X, assim como a arroba, carrega em si uma grande exclusão: pessoas cegas, que acessam a internet por meio de dispositivos de leitura de tela, não conseguem entender essas palavras, porque os programas e aplicativos simplesmente não as reconhecem nessas grafias, impossibilitando o entendimento do texto inteiro. [Para saber mais sobre como tornar sua timeline acessível, leia esse texto de Sidney Andrade]. Vale dizer, também, que tanto a @ quanto o X são tentativas de solução que lidam apenas com o aspecto textual da comunicação e tornam-se um problema na fala porque na prática são impronunciáveis.

Mas então seria possível fazer um texto que seja ao mesmo tempo legível por pessoas cegas e inclusivo para mulheres e pessoas não-binárias? Bom, temos que lidar com uma série de limitações do nosso próprio vocabulário e gramática, mas vou dizer aqui algumas estratégias que tenho adotado.

A primeira delas é quando se trata de uma mensagem informal, enviada para pessoas próximas, que não precisa se ater a questões de forma. Nesse caso, uma opção é trocar as desinências de gênero pela letra E, que será lida pelos aplicativos com tranquilidade. Assim, posso saudar “amigues querides e bonites”, por exemplo.

Agora em se tratando de textos formais, como comunicações, artigos ou trabalhos acadêmicos, tomo cuidados específicos, mantendo-os dentro das normas atuais. Um deles, que considero básico, é não utilizar a palavra “Homem” no sentido de “Humanidade” ou “seres humanos”. Essa é uma daquelas heranças machistas que toma o gênero masculino como significante do conjunto de humanos, ou seja, como o todo, e colocando a mulher como uma parte adjetivada desse todo. Em 2016, quando a Netflix anunciou que produziria um seriado original da franquia Star Trek, o fizeram pelo twitter em sua conta brasileira citando o slogan da série original “onde nenhum homem jamais esteve”. Na época eu respondi perguntando simplesmente se alguma mulher já esteve. O questionamento veio do fato de que, como se trata de um futuro com igualdade entre gêneros, raças e mesmo algumas espécies alienígenas, a própria série já tinha alterado seu slogan para “onde ninguém jamais esteve” há décadas, incluindo na frase, portanto, outras identidades de gênero não-masculinas e mesmo não-humanos, que fazem parte do universo retratado. Divago, mas a questão é que a palavra “homem” deveria significar apenas isso: uma pessoa que se identifica com gênero masculino. Para contextos coletivos podemos pensar em outros termos, conforme assinalado.

Outra limitação de nossa língua diz respeito ao plural, que pela norma, a não ser em caso de totalidade feminina, deve ser utilizado no masculino. Em minha pesquisa de mestrado eu tive ajuda de diversas pessoas com quem conversei durante meu trabalho de campo. Desse grupo, apenas duas delas eram homens. Por isso considerei injusto o apagamento de todas as outras que ocorreria caso eu escrevesse “meus interlocutores” e optei por usar “minhas interlocutoras e meus interlocutores”, quando foi necessário. Parece começo de discurso político? Sim, também acho. Não é a solução mais elegante, mas é uma forma de dar conta da presença de mulheres e pessoas não-binárias nesse grupo. Talvez no futuro eu pense em uma forma melhor de lidar com isso, como aconteceu com o X. [Caso tenha interesse, minha dissertação intitulada “Corpo, Gênero e Identidade: Experiências transgênero na cidade de Manaus” está disponível nesse link].

No caso específico de quem se identifica como uma pessoa não-binária, a própria palavra “pessoa” é uma saída. Utilizando ela, posso até estar fazendo a concordância no feminino, mas isso não indica o gênero feminino de quem conversou comigo na pesquisa, e sim da própria palavra “pessoa”: nem masculina nem feminina. De novo, pode não ser a solução mais elegante e por vezes o texto pode soar repetitivo, mas é uma forma de garantir a “não-binariedade”, respeitando a identidade de gênero das pessoas a quem nos referimos. Os pronomes pessoais também são um problema, nesse caso, e aí as frases precisam ser construídas com cuidado maior. Em inglês há o uso do plural (they/them), mas não temos ainda um equivalente em português. Mesmo nesse texto, repare que por não me recordar de quem era a tese do causo de 2013, eu mesma escrevi acima sobre “quem o escreveu”, não me comprometendo em afirmar um gênero e fugindo da armadilha de usar o masculino como neutro. No final das contas o que faço é fazer uso dos recursos de linguagem que já temos, com o vocabulário e as normas que são de conhecimento geral.

Esse breve texto não se propõe a ser uma instrução fechada: estamos todos tateando novas formas de expressão de gênero e de representá-las textualmente. O seu compartilhamento é no intuito de mostrar essas estratégias que tenho utilizado e na esperança de que o debate possibilite sempre novas e melhores soluções.

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Bolão do Oscar 2018

Esse ano quase desisti de fazer o meu “tradicional” bolão do Oscar, mas aí uma amiga perguntou se eu não iria organizá-lo e me rendi à ideia. Como nos anos anteriores, optei por usar o site Gold Derby, que já calcula o resultado automagicamente e onde dá pra colocar os candidatos de cada categoria de forma ranqueada, então mesmo se você errar, ainda ganha pontos proporcionais pela sua aposta. O bolão é fechado ao público: só os participantes vêm o resultado. Por isso o único meio de fazer parte é sendo convidado por e-mail, o que está longe do ideal, mas tem a facilidade de ninguém precisar ficar computando o resultado. Quem quiser participar é só deixar o e-mail abaixo nos comentários, ou me enviar pela rede social de sua preferência, que eu adiciono ao Bolão. O comentário será apagado para que o e-mail não fique público. O prêmio é a singela alegria manjar mais que os outros. E aí, quem anima? 😉

UPDATE 04/03 10h: INSCRIÇÕES ENCERRADAS. PESSOAS QUE SOLICITARAM CONVITE ESTÃO LISTADAS ABAIXO, NOS COMENTÁRIOS.

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9 anos de Estante da Sala

Eis que o Estante da Sala chegou ao 9º aniversário! No dia 5 de fevereiro de 2009 eu publiquei o primeiro post: uma receita de massa caseira de pizza. Quê? Como assim? Bom, quem acompanha esse espaço por mais tempo sabe que esse nome veio porque eu queria escrever sobre um pouco de tudo: compilar minhas receitas, escrever sobre o que estava lendo, jogando, assistindo, enfim, sobre o que passasse pela cabeça. Até tutorial de costura eu planejei fazer. Foram idas e vindas nesse bloguinho descompromissado e períodos mais ou menos ativos. Depois de todo esse tempo praticamente só sobrou o cinema e um ou outro livro pontual.

O primeiro texto sobre cinema foi sobre foi Milk- A Voz da Igualdade, logo no dia 8. De certa forma isso foi o prenúncio do que viria a ser meus interesses ao longo dos anos: me tornei pesquisadora sobre gênero e diversidade, as questões queer viraram um ponto de interesse e o corpo se colocou como objeto de estudo que agora trago comigo para o doutorado.

Acho que a questão do aprendizado tem andado lado a lado com o blog. Primeiro porque escrever é uma prática contínua. Quantos textos ruins uma pessoa precisa redigir para conseguir extrair de si um satisfatório? E eu passei por fases, uma delas que incluiu postar um parágrafo sobre todos os filmes que eu assisti, o que significava basicamente escrever todo dia. Depois percebi que isso me garantia a prática na quantidade, mas me privava de analisar com maior profundidade filmes que pudessem ser mais interessantes. E aí fui diminuindo a periodicidade e aumentando o tamanho dos textos, até chegar ao número atual de uma a três críticas por mês, com sorte.

Hoje eu lamento não ter mais tempo para me dedicar ao blog, que de certa forma nunca conseguiu ter a minha total atenção. Nesse momento, dividida entre o doutorado e a produção do Feito por Elas, não escrevo o quanto gostaria, mas ele continua aqui, firme e forte para quando preciso de um espaço para as palavras.

Como uma forma de comemorar essa data, trago a você que está lendo os 9 textos sobre figurino (lembra dessa fase?) e as 9 críticas mais acessados da história do blog (mas nem tanto, porque na verdade no meio ele mudou para .com e zerou as estatísticas) . Obrigada a todo mundo que ainda acessa esse espaço e

Figurino e direção de arte:

9º Figurino: … E o Vento Levou

8º Figurino: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

7º Figurino: Oz, Mágico e Poderoso

6º O Grande Hotel Budapeste, cores e perspectivas

5º Figurino: Precisamos Falar Sobre o Kevin

4º Figurino: Cinderela

3º Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

2º Figurino: Malévola

1º Figurino: Frozen- Uma Aventura Congelante

Críticas:

9º A Chegada (Arrival, 2016)

8º O Duque de Burgundy (The Duke of Burgundy, 2015)

7º Aquarius (2016)

6º Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)

5º O Regresso (The Revenant, 2015)

4º A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale, 2015)

3º Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2 (Nymphomaniac: Vol. I and Vol. II/ 2013)

2º Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

1º Mãe! (Mother!, 2017)

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Category: Cinema, Recados

Sobre espaços de validação e exclusão

A primeira vez que eu vim a São Paulo eu tinha 17 anos. Foi também a primeira vez que eu tinha saído do sul. Como fruto em parte de cidade pequena, em parte de roça, tudo o que eu vi me encantou. Mas uma experiência me marcou ainda mais que as demais: a visita ao MASP (Museu de Arte de São Paulo).

Explico-me: as artes eram, já então, uma grande paixão minha. Eu passei algum tempo da minha pré-adolescência namorando aqueles grandes livros de capa dura que compilam as obras de artistas espcíficos. Sem condições financeiras para adquirir qualquer um que fosse, folheava-os na biblioteca da escola pública em que estudava. Eles eram apenas para consulta, então isso precisava ser feito no recreio.

Mas o que eu não tinha consciência ali era de todo o processo excludente, colonizador e machista que estava por trás do filtro que selecionava o que chegava até mim como “os grandes mestres”: quase todos eles homens, majoritariamente brancos e europeus. Isso mesmo já nas vanguardas do século XX. Eu até tentava ir atrás do trabalho de mulheres, de Artemisia Gentileschi a Frida Kahlo, mas ele era muito mais difícil de ser acessado. E não é que elas não estivessem lá produzindo suas obras.

Azul e Rosa- As Meninas (1881), de Renoir

Então eu chego ao MASP, naquele novembro de 2002. O salão do acervo na época era dividido com biombos em saletas menores, desrespeitando o projeto original de Lina Bo Bardi. Quando acessei a primeira saleta, dei de cara com Rosa e Azul-As Meninas, de Renoir. Foi um choque. Comecei a chorar ali mesmo. Dado o contexto em que eu vivia, eu nunca imaginei que iria viajar para tão longe e muito menos que um dia iria ver um quadro tão familiar das ilustrações ali mesmo, na minha frente. Enfim, faltava-me talvez senso crítico na época para questionar porque essa obra em específico merecia um lugar no museu e outras tantas não, mas sobrava-me emoção ao poder ter contato com essa arte.

Passaram-se 15 anos. Depois de algumas andanças pelo Brasil, São Paulo é a cidade em que resido e as visitas ao MASP se tornaram até corriqueiras. (O salão, aliás, agora voltou ao projeto original de Lina Bo Bardi, com suportes de concreto armado e vidro, permitindo que toda a sua área seja abarcada pelo olhar do visitante). Essa semana, levando um amigo para conhece-lo, reparei na lógica da ordem da exibição. No começo estão expostas esculturas chinesas e urnas funerárias marajoaras, de maneira descontextualisada. A autoria é anônima e não pude deixar de lembrar da frase de Virginia Woolf: “Por muito tempo na história, anônimo era uma mulher”.

Urna funerária marajoara

Depois disso começa uma sequência de pintores europeus, ordenados mais ou menos de forma cronológica. Os primeiros brasileiros eram academicistas, de escolas europeizantes. Todos os autores identificados na primeira metade da exposição são homens. Quase todos são brancos. Tudo atendendo a uma concepção hegemônica do que é essa “arte de verdade”, a que merece ser exposta, a que tem valor.

A Estudante (1915-1916), de Anita Malfati

Na décima primeira fileira do acervo, já no século XX, A Estudante , de Anita Malfati se destaca como a primeira obra de autoria feminina. A ela se seguem os quadros. Guitarrista e Duas Figuras Femininas, de Marie Laurencin; Moças do Boulevard Raspail, de Noêmia Mourão; Velório da Noiva, de Maria Auxiliadora da Silva; a fotografia Sem Título de Barbara Wagner e, por fim, o vídeo O Século, de Cinthia Marcelle em co-autoria com Tiago Mata Machado. Isso mesmo: dentre cento e cinquenta e quatro obras que contei no acervo principal, apenas seis eram de autoria feminina.

Em sentido horário, do canto superior esquerdo em diante Moças do Boulevard Raspail, O Velório da Noiva, Guitarrista e Duas Figuras Femininas e Sem Título

Aí eu lembrei daquela campanha das Guerrilla Girls a respeito do MET (Metropolitan Museum of Art, em Nova York). No cartaz, chamam atenção para o fato de que menos de 5% dos artistas expostos são mulheres, mas 85% dos nus são femininos. No MASP temos uma porcentagem ainda menor de mulheres artistas expostas. Não cheguei a contar a porcentagem de nus que são femininos, mas os únicos masculinos são uns quadros de Jesus morto e um ou outro querubim rechonchudo (se é que esses últimos podem ser considerados masculinos).

Sobre um fundo amarelo, uma pintura de um corpo nu feminino com uma cabeça de gorila. Ao lado, em letras pretas escrito

Não existe uma conclusão para esse texto. O que eu fico pensando é como esses locais validados enquanto instituição, que definem o que é arte e o que não é e qual é a arte digna de exibição e qual é indigna, lidam com a diversidade de artistas presentes no mundo. E como isso afeta o modo como crescemos e somos ensinados a criar arte, consumir arte, apreciar arte, já que o que é divulgado são as obras de autores majoritariamente brancos e homens. Podemos aprecia-las, podemos nos conectar a elas, mas temos que ter consciência do que está lá fora desses espaços de exclusão.

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Sobre cineastas e grandes orçamentos

Tem certas coisas que, quando vemos, só dá pra dizer, como se fala na minha terra, que é de cair o c* da bunda. Perdoem-me a finesse. É o caso do tuíte abaixo, do Hollywood Reporter.


#acessível:
Twitter do Hollywood Reporter onde se lê “#MulherMaravilha Warner Bros. está apostando 150 milhões de dólares em uma cineasta cujo único crédito anterior no cinema foi um filme indie de 8 milhões”.
Twitter de Scott Beggs respondendo: “Contexto: mulher faz um sucesso de crítica e e de bilheteria que ganha um Oscar… Tem que esperar fodidos 14 anos para ser contratada para um longa de novo”.

Galera do Hollywood Reporter acha que a Warner fez caridade? Isso aí é investimento! Quantas diretoras conseguem filmes com altos orçamentos? Acima dos 100 milhões, até hoje, só Kathryn Bigelow, com K-19 (2002), Lana e Lilly Wachowski comA Viagem (2012) e O Destino de Júpiter (2015) e recentemente Ava DuVernay com Uma Dobra no Tempo (ainda em produção). Enquanto isso garotos branco de 20 e poucos anos que dirigiram filmes indies bem avaliados são convidados a dirigir outros com orçamentos milionários em grandes franquias.

E quanto tempo diretoras com filmes de pequeno orçamento mas grande impacto, levam para conseguir outro trabalho? A própria Patty Jenkins, cujo Monster (2002) garantiu o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron, voltou apenas agora com Mulher Maravilha, depois de alguns anos em seriados como The Killing e Arrested Development. Onde está Lisa Cholodenko, que garantiu 4 indicações ao Oscar (melhor filme, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro original) com o filme Minhas Mães e Meu Pai (2010), com orçamento de apenas 3 milhões? Na televisão, em seriados. Lynne Ramsay, que em 2011 lançou seu elogiado Precisamos Falar Sobre o Kevin, orçado em 7 milhões, indicado ao BAFTA de melhor filme, melhor filme britânico e melhor direção, reapareceu só esse ano com You Were Never Really Here (e ganhou com ele o prêmio de melhor roteiro e melhor ator em Cannes). E já faz 6 anos que Dee Rees lançou Pariah e desde lá está na televisão. Esses são apenas alguns exemplos notórios, mas são muitas e é fácil perceber esse padrão de dificuldade.

Dizer que um estúdio está apostando caro ao contratar qualquer uma dessas diretoras é um malabarismo argumentativo, já que diretores homens com o mesmo tipo de currículo são constantemente premiados com orçamentos milionários em seu próximo trabalho (Gareth Edwards, Rian Johnson, Colin Trevorrow e mesmo Josh Trank com o desastroso Quarteto Fantástico são exemplos recentes). O que existe é uma constante dificuldade de mulheres que dirigem conseguirem financiamento ou contrato para seu filme seguinte. Existe uma exclusão sistemática de todo um nicho de trabalhadores, especificamente em virtude de seu gênero.

E por isso também que um filme como Mulher Maravilha, um blockbuster de heroína, é tão importante politicamente. Ele já é um sucesso absoluto de crítica (é o melhor desempenho de filme de super herói da Marvel ou da DC já feito) e agora precisa garantir no fim de semana de estreia uma bilheteria considerável, para mostrar que as cineastas fazem valer a qualidade de seu trabalho no orçamento investido, sem apostas incertas.

 

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