Category Archives: Televisão

Jessica Jones

jessica jones

Já faz algumas semanas que a Netflix lançou sua série original Jessica Jones, baseada na heroína dos quadrinhos de mesmo nome e parte do Universo Marvel. A história, assim como de Demolidor, a série anterior do serviço de vídeo on demand, se passa em Hell’s Kitchen, um bairro fictício na cidade de Nova York. A protagonista, Jessica (Krysten Ritter), é uma mulher com força física acima do comum, mas psicologicamente abalada pelos abusos físicos e mentais perpetrados no passado por Kilgrave (David Tennant), o vilão da história, capaz de ter controle mental sobre suas vítimas. Trata-se de um noir, e a personagem não só é uma detetive particular, como funciona como sua própria femme fatale.

O paralelo entre as ações de Kilgrave e relacionamentos abusivos, estupro e gaslighting na vida real é fácil de se estabelecer. Jessica lida com o trauma a seu modo e por isso nem sempre faz boas escolhas. A maneira como se relaciona com aqueles que gostam dela, especialmente Trish Walker (Rachael Taylor) e Luke Cage (Mike Colter) deixa clara sua intensão de afastar todos, para que não se machuquem. O álcool é sua escolha como solução para lidar com o cotidiano. Dessa forma, ela é construída como uma personagem falha, uma heroína que não é perfeita e nem deve ser tomada como parâmetro de comportamento, mas que é extremamente humana e facilmente gera identificação.

A relação entre ela e Trish, sua irmã de criação, são um ponto importante da história. Trish tem os pés no chão. Ela não tem superpoderes, mas possui um instinto de heroísmo no sentido convencional, sempre tentando fazer o bem. Diante do perigo que é a existência de Kilgrave, Jessica já possui sua força para se defender. Trish não: ela precisa aprender a lutar e instalar complicados sistemas de segurança em sua casa. Apesar de todas as diferenças, as personagens apresentam uma dinâmica de sororidade que funciona. Jessica tem em Trish um esteio e essa é a única relação saudável em sua vida.

Kilgrave é um dos melhores vilões introduzidos no Universo Marvel, senão o melhor. Seus métodos e motivações são críveis e assustadores. Ele é um homem incapaz de ter empatia e perceber que uma pessoa não quer fazer algo que ele deseja. Tudo o que clama para si, entende como algo que lhe é de direito.

Jessica Jones funciona como adaptação de quadrinhos, mas também funciona muito bem como uma série dramática.

Para quem se interessar, participei do podcast Fala Série, do site Dimensão Nerd, em uma conversa sobre Jessica Jones, heroínas, quadrinhos, representatividade e outros temas. Além do Vinícius Schiavini e da Kyia Varella, do próprio site, também participou a querida Angélica Hellish, do Masmorra Cine. O programa foi dividido em quatro partes pequenas e devo dizer que foi uma conversa ótima. Ouça! 😉

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http://www.dimensaonerd.com/fala-serie-357-jessica-jones-parte-2/

http://www.dimensaonerd.com/fala-serie-358-jessica-jones-parte-3/

http://www.dimensaonerd.com/fala-serie-359-jessica-jones-parte-4/

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Indicados ao prêmio do Sindicato dos Figurinistas

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O Sindicato dos Figurinistas dos Estados Unidos (Costume Designers Guild) anunciou a sua lista de indicados ao seu 17º prêmio anual. Os vencedores serão revelados em 17 de fevereiro. Eis a lista completa:

Excelência em Filme Contemporâneo
Birdman – Albert Wolsky
Boyhood – Kari Perkins
Garota Exemplar – Trish Summerville
Interestelar – Mary Zophres
Livre – Melissa Bruning

Excelência em Filme de Época
O Grande Hotel Budapeste – Milena Canonero
O Jogo da Imitação – Sammy Sheldon Differ
Vício Inerente – Mark Bridges
Selma – Ruth E. Carter
A Teoria de Tudo – Steven Noble

Excelência em Filme de Fantasia
Guardiões da Galáxia – Alexandra Byrne
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos – Bob Buck, Lesley Burkes-Harding, Ann Maskrey
Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1 – Kurt and Bart
Caminhos da Floresta – Colleen Atwood
Malévola – Anna B. Sheppard, Jane Clive

Séries de Televisão Contemporâneas Notáveis
House of Cards – Johanna Argan
Ray Donovan – Christopher Lawrence
Saturday Night Live – Tom Broecker, Eric Justian
Scandal – Lyn Paolo
True Detective – Jenny Eagan

Séries de Televisão de Época/ Fantasia Notáveis 
Boardwalk Empire – John Dunn
Game of Thrones – Michele Clapton
The Knick – Ellen Mirojnick
Mad Men – Janie Bryant
Masters of Sex – Ane Crabtree

Filmes  Para Televisão ou Minisséries Notáveis 
American Horror Story: Freak Show – Lou Eyrich
Houdini – Birgit Hutter
The Normal Heart – Daniel Orlandi
Olive Kitteridge – Jenny Eagan
Sherlock – Sarah Arthur

Excelência em Figurino para Comercial 
Army, “Defy Expectations, Villagers” – Christopher Lawrence
DirecTV, “Less Attractive” with Rob Lowe – Mindy Le Brock, Jessica Albertson
Dos Equis, “Most Interesting Man in the World Walks on Fire” – Julie Vogel
Kia Soul, Hamster Commercial Featuring “Animals” – Anette Cseri
Smirnoff, “The Mixologist” – Laura Jean Shannon

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RuPaul’s Drag Race e filmes relacionados

Faz um tempinho que não recomendo nenhum programa de televisão e resolvi falar sobre RuPaul’s Drag Race, um reality show que tem todas as temporadas disponíveis na Netflix.

RuPaul

RuPaul é uma drag queen americana, que começou a carreira como cantora. Agora, já estabelecida profissionalmente, busca lançar outros talentos para o mercado. O seu programa de TV, com seis temporadas até agora, estreou em 2009. Como minha pesquisa de mestrado envolve a relação entre moda e gênero, a temática drag queen me chamou a atenção.  A proposta é similar a de outros reality shows: uma série de concorrentes passam por desafios semanais que levam a escolha de uma vencedora e a uma eliminação. Há sempre uma prova intermediária, que pode ter como prêmio alguma vantagem para a grande tarefa da semana. Habilidades como maquiagem, costura, interpretação, dança, imitação, canto, comédia e dublagem são muito bem vindas. E esta é justamente uma das grandes qualidades do show: como RuPaul quer divulgar a arte underground das drag queens, nenhuma é diminuída, mas as habilidades são sempre postas sob os holofotes e há um clima de valorização do trabalho de todas. Mas o processo não se leva a sério: o clima camp  predomina e tudo funciona como uma clara paródia a programas similares. Como em America’s Next Top Model as provas semanas começam com uma mensagem grava pela apresentadora. Depois, quando as participantes vão para o ateliê trabalhar no que foi solicitado, RuPaul aparece em sua “versão homem”, um senhor de meia idade, vestido com ternos elegantes, dando sábias palavras de incentivo, no melhor estilo Tim Gunn de Project Runway. Quando as candidatas vão encarar os jurados, aparece novamente, dessa vez montada como apresentadora loira estatuesca, a lá Heidi Klum, também de Project Runway.  Com o passar do tempo você vai se acostumar com os diferentes tipos de drag: as de concurso de beleza, as comediantes, as cantoras de clube e por aí vai. A experiência de assistir ao programa é leve, divertida e até instrutiva para quem tem interesse no processo de montagem das artistas.

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Um documentário que funciona como complemento é Pageant (2009), também disponível na Netflix. Ele aborda os bastidores do maior concurso de beleza de drag queens  dos Estados Unidos, o Miss Gay America. Uma das protagonistas é Victoria “Pork Chop” Parker, que posteriormente participou do reality show.  Além dela, vemos com menor destaque Alyssa Edwards, também ex-participante. O documentário mostra como funciona o processo de escolha da Miss Gay , além do treino e da pressão envolvidos no proparo, bem como algumas partes da montagem, como uso de meias calças e espumas, que nem sempre ficam claras no programa de RuPaul.

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Outro filme complementar é Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar (To Wong Foo Thanks for Everything, Julie Newmar, 1995), uma comédia leve que veio na esteira do sucesso de Priscilla, a Rainho do Deserto, e que recordo-me de ter visto na época na sessão da tarde, que mostra três drag queens participantes  de concurso de concurso de beleza viajando de carro pelo interior dos Estados Unidos.  Vida Boheme (Patrick Swayze) é uma dama refinada e classuda, usando vestidos sérios e chapéus. Noxeema (Wesley Snipes) tem posicionamentos fortes, usa roupas coloridas com misturas de estampas e é a melhor de todas. E, por fim, Chi-Chi (John Leguizamo) é uma iniciante imatura, que ainda tem o que aprender tanto sobre a arte de ser drag  quanto sobre a vida. RuPaul tem um papel pequeno no começo da história. O trio de atores principais está ótimo e a trama leve aborda questões como amizade entre mulheres e compreensão mútua para além das aparências.

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Nordic Noir: The Killing e Bron/Broen

As últimas aulas do curso Scandinavian Film and Television foram dedicadas à televisão escandinava e ao sucesso de público que as produções do últimos ano vem tendo, tanto nos próprios países quanto no exterior. Nos três países escandinavos (Noruega, Suécia e Dinamarca) televisão é toda financiada publicamente, mas os programas também pode receber parcerias de outros países ou privadas. Em virtude do financiamento público, os Estados solicitam duas coisas: que a produção dramática televisiva atenda a um número variado de gêneros e estilos, para cobrir o gosto da maior parte da população possível e que abordem temas de interesse social, como discussões de gênero, tensão social, migração, problemas familiares, entre outros.

Atualmente o país com a produção televisa de maior destaque é a Dinamarca, que possui um estilo próprio para desenvolvimento dos programas. Há um interesse em manter a autoralidade e, enquanto no cinema ela é marcada pela direção, nas séries de TV ela fica com o roteirista, que, ao contrário dos Estados Unidos (com exceção de True Detective), é um só para todos os episódios, mantendo ritmo, estilo e desenvolvimento dos personagens coesos. Se o gênero mais forte no cinema escandinavo é o drama familiar, nas televisão dos últimos anos tem sido crime e policial. Outra característica é o visual cinzento e frio, muitas vezes chuvoso e nublado, o que fez com os programas que fossem abrigados sob o apelido de Nordic Noir.

A série dinamarquesa Forbrydelsen recebeu uma adaptação americana chamada The Killing, produzida pelo canal AMC e disponível na Netflix.  Nessa versão os protagonistas são os detetives Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman), que possuem uma dinâmica de interação bastante interessante. Linden é calada, séria, distante, enquanto Holder é é aquele tipo camarada e desastrado. Embora tenham personalidades opostas, eles não são arquetípicos e funcionam com naturalidade em cena. A trama da primeira temporada começa com o desaparecimento de uma adolescente, chamada Rosie Larsen, que depois é encontrada morta. A investigação desse crime não é rápida e eficiente como seria em um programa procedural como CSI: é lenta, envolve diversos fatores humanos e dramas pessoais, se arrastando por vários dias e e sendo passível de falhas. O melhor dessa série é sem dúvida a dupla de protagonistas, que funciona muito bem em conjunto, um em contraponto com o outro. A primeira temporada é ótima, a segunda perde um pouco o ritmo, mas recupera perto do final e a terceira é bastante boa também. Foi cancelada duas vezes pela AMC, a segunda vez definitivamente, mas a Netflix comprou os direitos e produzirá uma quarta temporada, para fechar a trama.

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Outra série muito boa é a produção Suécia-Dinamarca chama Bron/ Broen (na grafia de cada língua), que recebeu versões americana e britânica, ambas chamadas The Bridge. A história parte de um crime que ocorreu na ponte que faz divisa entre os dois países, de maneira que as polícias de ambos os lados precisam ser acionadas para solucionar o caso, suscitando todas as diferenças culturais e de métodos das equipes. Os detetives que encabeçam as investigações são o dinamarquês Martin Rohde (Kim Bodnia) e a sueca Saga Nóren (Sofia Helin). Martin é bonachão, simpático e um homem de família, casado e com uma escadinha de filhos. Já Saga é solteira e mantem uma rotina de trabalho, bastante intensa, vestindo sempre as mesmas roupas (calça de couro e pulôver marrom) e sem nenhum relacionamento pessoal. Ela não tem traquejo social algum e tem dificuldade de lidar com os demais colegas. Em nenhum momento da série isso isso é confirmado, mas ela é considerada por muitos a primeira protagonista de drama televisivo do mundo a estar situada no espectro de autismo (possivelmente Asperger). Felizmente os realizadores não subestimam os expectadores e tudo é muito sutil. Sobre o caso, depois descobre-se fazer parte de uma série de outros crimes a respeito o que o responsável clama ser os piores problemas da sociedade escandinava. Dessa série só assisti a primeira temporada, mas a qualidade é muito boa e Saga é sem dúvida uma pérola de protagonista: uma personagem única e carismática ao seu jeito.

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Além dessas séries já citadas, outro sucesso é Wallender, que possui uma regravação britânica, protagonizada por Kenneth Branagh e também disponível na Netflix. Mas esta ainda não tive oportunidade de assistir.

 

 

 

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Análise dos vencedores do prêmio do Sindicato dos Figurinistas

Estamos chegando ao fim da temporada de premiações e no dia 22 de fevereiro foram entregues os prêmios anuais do Sindicato dos Figurinistas dos Estados Unidos (Costume Design Guild Awards). Os votantes são figurinistas, assistentes de figurino e ilustradores, todos vinculados ao sindicato e são lembradas produções de cinema, televisão e publicidade. Seguem abaixo as categorias de cinema e seus indicados, com destaque para o vencedor e comentários a respeito de cada uma.

Excelência em Filme de Fantasia:
THE HOBBIT: THE DESOLATION OF SMAUG
O Hobbit: A Desolação de Smaug : Ann Maskrey, Richard Taylor, Bob Buck
Jogos Vorazes: Em Chamas: Trish Summerville 
Oz: Mágico e Poderoso: Gary Jones, Michael Kutsche
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Entre as categorias de Cinema, esta, sem dúvida, era a menos concorrida e salta aos olhos a total ausência de filmes de Ficção Científica, em um ano com tantos do gênero. É especialmente uma pena um filme como Além da Escuridão: Star Trek não ser lembrado.
Sobre O Hobbit: A Desolação de Smaug deve-se dizer que, assim como o filme anterior dessa nova trilogia baseada na obra de Tolkien, todo o design de produção impressiona menos do que a da trilogia Senhor dos Anéis. É visível o esforço que foi colocado no feitio de sapatos, cintos e na manipulação de lãs e metais, por exemplo, mas é difícil não ver isso como a extensão de um trabalho começado há mais de uma década. Os figurinos estão suficientemente bem executados, mas não chamam a atenção de verdade.
Oz: Mágico e Poderoso tem um figurino bonito, mas que segue uma visão bastante simplista: bruxa boa veste roupa tradicional e clara e bruxa má veste roupa moderna ou sedutora em tons fortes ou escuros. Há alguns detalhes interessantes, como o vestido que passa a ideia de uma armadura, mas apesar de visualmente bonito, limita-se a isso.
O figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas é claramente o que merecia vencer nessa categoria. Trish Summerville é um nome em rápida ascensão na indústria e mostrou talento ao herdar um universo já criado e conseguir ampliá-lo e melhorá-lo em todos os aspectos. Usou de parcerias com estilistas sem jamais perder sua visão do todo e deleitou os expectadores dessa distopia em que a moda é um espetáculo utilizado para distrair os incautos da política que ocorre nos bastidores. O conjunto é bonito e ao mesmo tempo cumpre seu papel, sendo coerente com o legado do primeiro filme da quadrilogia.

Excelência em Filme Contemporâneo:
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Blue Jasmine: Suzy Benzinger
Ela: Casey Storm
Nebraska: Wendy Chuck
Philomena: Consolata Boyle
A Vida Secreta de Walter Mitty: Sarah Edwards
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Filmes contemporâneos são sempre os mais difíceis de avaliar, porque sua força geralmente reside em sutilezas. Senti falta na lista dos indicados de Segredos de Sangue, que possui um figurino que parece ter sido feito de maneira sempre consciente de sua própria artificialidade, contribuindo para o ar gótico do filme e sua estética extremamente específica e contida.
É de se estranhar que Ela esteja nessa lista: não se trata de um filme contemporâneo e sim uma ficção científica que se passa em um futuro não tão distante de nós. Seria coerente que estivesse na lista de Fantasia. Apesar disso deve ser mencionado, pois baseia-se em preceitos muito bons: ao invés de criar uma moda futurista desconectada de nossa realidade, abraça a ideia de que ela é cíclica e rouba elementos do passado, especialmente da década de 1930, para compô-la. As calças com cinturas extremamente altas se aliam à quase total falta de acessórios e às golas pequenas ou inexistentes para criar uma estética minimalista e crível.
Nebraska, Philomena e A Vida Secreta de Walter Mitty mostram o vestir de pessoas comuns que começam em situações cotidianas mas deslocam-se de sua zona de conforto. O primeiro possui uma composição de camadas (devido ao frio do lugar retratado) e, por tratar-se de um filme em preto e branco, há uma preocupação com a forma como as cores e as texturas (há muito xadrez, mas também outras estampas) são percebidas no resultado final. Philomena tem parte de sua história no passado, através de flashbacks; mas focando no período contemporâneo percebe-se o contraste entre a personagem-título e o jornalista que é seu companheiro de viagem: enquanto ele se veste com a elegância de quem frequenta os altos escalões da política, ela está bem representada como uma senhorinha suburbana e simplória, que prima o conforto em primeiro lugar. Já o último dos três, embora seja o filme mais fraco, tem um figurino competente, que nos coloca em uma realidade que pode se passar em qualquer espaço-temporal e nos mostra como o protagonista, Walter Mitty, evoluiu do homem que vestia roupas quase como um uniforme em uma vida monótona (vide sua jaqueta cinza de todo dia de trabalho) ao aventureiro que necessita de vestimentas específicas e até ousa utilizar vermelho, demonstrando sua recém-adquirida coragem de viver.
Blue Jasmine tem seu figurino trabalhado em torno de conceitos como decadência, desconexão e contraste. Jasmine, após se divorciar de seu marido, tem que abrir mão de sua vida de socialite e mudar-se para a casa da irmã com todos os pertences na bagagem. Ainda assim mantém peças caríssimas: suas roupas e acessórios são de marcas como Chanel. Oscar de la Renta, Hermès, Louis Vuitton, Birkin, entre outras. Vivendo em um mundo de emoções que desmoronam ao seu redor, com toques de Um Bonde Chamado Desejo, é nas roupas que se expressa a falta de ligação entre ela e as pessoas com que passa a conviver.
Conceitualmente Ela possui o figurino mais forte do grupo, mas levando-se em conta o seu deslocamento na categoria e a força do figurino de Blue Jasmine, é difícil questionar a escolha.

Excelência em Filme de Época:
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12 Anos de Escravidão: Patricia Norris
Trapaça: Michael Wilkinson
Clube de Compras Dallas: Kurt & Bart
O Grande Gatsby: Catherine Martin
Walt nos Bastidores de Mary Poppins: Daniel Orlandi
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Essa, geralmente, é a categoria mais concorrida e a que mais chama atenção do grande público. Vou me abster de comentar o último filme listado, pois não o assisti.
Como já mencionado na coluna a seu respeito, o figurino de Trapaça explora o período (final da década de 1970), através de exageros, ao mesmo tempo em que utiliza as cores para frisar certos momentos da narrativa.
Já o trabalho desenvolvido em Clube de Compra Dallas é a respeito de tempo e local. A localização da trama na cidade de Dallas, no Texas e na década de 1980 é importantíssima para a definição das roupas dos personagens. O protagonista, Ronald, é um cowboy diagnosticado com AIDS. Os figurinistas Kurt & Bart demonstraram cuidado ao alterar ligeiramente o ajuste do vestuário do personagem para frisar sua perda de peso, por exemplo. As roupas da travesti Rayon também se destacam. Aliás, a dupla, que foi responsável pelo marcante figurino de Segredos de Sangue, criará o dos dois últimos filmes da franquia Jogos Vorazes, substituindo Trish Summerville. São mais dois nomes em ascensão que merecem ser observados em seus trabalhos futuros.
O Grande Gatsby possui roupas que foram amplamente divulgadas. A parceira da figurinista Catherine Martin com a grife Prada fez com que os trajes utilizados em cena recebessem vasta cobertura na mídia especializada em moda. Em determinados sítios Miuccia Prada foi creditada pelo figurino, mostrando total desconhecimento a respeito do papel de um figurinista. Embora Martin tenha perdido controle sobre a forma como sua obra foi percebida após estar pronta, não posso deixar de dizer que ela é problemática em alguns aspectos já na concepção. O conjunto atende às necessidades do design de produção do filme (também executado por ela), ajudando a criar a ostentação e o desvario econômico que permeiam a trama; mas peca em não conseguir transmitir a época em que ela se passa. Precisão na representação de um período jamais é pré-requisito para um bom figurino de época, mas quando o contexto desse período (nesse caso, a década de 1920, antes da crise de 1929) é tão importante para a narrativa, é interessante haver pelo menos nuances que façam lembrar a moda utilizada, o que não acontece com as roupas das personagens principais, especialmente Daisy. Apesar disso, o conjunto funciona dentro da proposta anacrônica do filme.
Em 12 Anos de Escravidão transparece o volume de trabalho realizado pela veterana Patricia Norris, de oitenta e dois anos. O filme, que começa na década de 1850, avança mais de uma década após isso e tem um grande número de figurantes e, consequentemente, de roupas criadas especificamente para ele. No começo da trama a família do protagonista, Solomon Northup, é apresentada com trajes de classe média da moda corrente, que os posicionavam favoravelmente na sociedade, já que eram pessoas negras livres em plena época de escravidão. Ao ser capturado e vendido como escravo, Solomon é rodeado por outras pessoas nessa situação terrível e aí é que mais se destaca o cuidado com as roupas: cada um veste-se de modo singular, de maneira a não ser um grupo de pessoas uniformizadas para o trabalho. Tingimento e envelhecimento dos tecidos em algodão e linho criam cores e texturas diferenciadas, condizentes com cada período retratado da jornada do personagem e seus companheiros. Enquanto as pessoas escravizadas vestem trapos desgastados, proprietários rurais e suas famílias exibem as últimas modas. O trabalho de figurino ao mesmo tempo tem uma grande escala e é minimalista, sendo sempre coerente com a narrativa e o contexto histórico.

De todos os filmes lembrados na premiação do Sindicato dos Figurinistas, três receberam indicações ao Oscar: Trapaça, O Grande Gatsby e 12 Anos de Escravidão. A eles juntaram-se o longa chinês O Grande Mestre e o britânico The Invisible Woman. O vencedor naquele prêmio foi O Grande Gatsby.

Filmes para Televisão ou Minisséries:
American Horror Story: Coven – Lou Eyrich
Minha Vida com Liberace – Ellen Mirojnick
Bonnie & Clyde – Marilyn Vance
House of Versace – Claire Nadon
Phil Spector – Debra McGuire
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A respeito de Minha Vida com Liberace, não tivessem tantos estúdios se negado a produzi-lo, até ter sido adotado pelo canal de TV a cabo HBO, certamente figuraria entre os indicados das grandes premiações de cinema, pelo menos no que diz respeito ao figurino. Retratando a relação entre Liberace e seu namorado Scott do final da década de 1970 até a de 1980, o filme se aproveita do notório apreço do pianista pelo kitsch e mostra, compostos com grande esmero e cuidado com os detalhes, cenários condizentes e um figurino deliciosamente camp. É um verdadeiro deleite para os olhos.

Séries de Televisão Contemporâneas:
Breaking Bad – Jennifer Bryan
House of Cards – Tom Broecker
Nashville – Susie DeSanto
Scandal – Lyn Paolo
Saturday Night Live – Tom Broecker, Eric Justian

HOUSE OF CARDS

Dessa lista assisti apenas duas séries: House of Cards e Breaking Bad. Considero o figurino da segunda mais interessante, especialmente pelo uso de cores. House of Cards por vezes cai em clichês, especialmente em se tratando das roupas de Claire, que ao ser retratada como mulher forte, sempre veste vestidos secos e estruturados, como armaduras.

Séries de Televisão de Época/ Fantasia:

Boardwalk Empire – John Dunn, Lisa Padovani
The Borgias– Gabriella Pescucci
Downton Abbey – Caroline McCall
Game of Thrones – Michele Clapton
Mad Men – Janie Bryant

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Aqui acompanho as três últimas séries e é inegável a beleza do trabalho realizado no drama britânico. Ainda acho que a qualidade do trabalho e dos simbolismos criados por Jane Bryant em Mad Men é sem precedentes na televisão e também considero o esforço e a escala da obra de Game of Thrones algo impressionante, mas qualquer escolha seria justa.
E quais foram os seus figurinos preferidos do último ano?

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