Herbert Holetz, Cine Busch e …E o Vento Levou: O Amor Pelo Cinema em Blumenau

Herbert Holetz faleceu no dia 19 de setembro de 2013. Quase um ano se passou. Queria ter escrito algo e me vi adiando o ato. O nome provavelmente não desperta memórias em quem não é de Blumenau, mas quem é da cidade conhece o Seo Holetz, como era conhecido, por sua intensa cinefilia. Sua história de vida se mistura à de existência do lendário Cine Busch e ambos à paixão pelo cinema de centenas de blumenauenses.

Seo Holetz, começou a trabalhar como lanterninha, passou a bilheteiro e e por fim gerente do grande cinema da cidade. Foram mais de quatro décadas dedicadas à exibição de filmes na Alameda Rio Branco, até o fechamento do Cine Busch em 1993. O cinema começou as atividades em 1904, com projetores trazidos por Frederico Guilherme Busch, instalados no então Salão Holetz. Em 1919 o Salão passou a ser chamado de Kino Busch. Em 1940, já renomeado para Cine Busch, foi inaugurado o belo edifício art deco em que ficou até o final de suas atividades. 

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Fachada do novo prédio recém inaugurado do Cine Busch, em 1940, com destaque para o filme …E o Vento Levou.

Em 1940 muito se falou da chegada do filme …E o Vento Levou. Minha oma (vó), Joanna, então com 14 anos, costumava frequentar as matinês de domingo com sua irmã mais velha, Gerda. Conta ela que vestiam seus trajes dominicais, com sapatos bons e se deslocavam cobrindo a pé a distância de cinco quilômetros entre a vila onde moravam e o centro da cidade. Esse filme tem quase quatro horas de duração, portanto era exibido com um intervalo no meio. Como fazia muito calor e não havia ar condicionado ainda, as moças levavam seus leques para amenizar a sensação. Se falavam dos astros e estrelas preferidos e conversava-se sobre seus filmes.

Exatas cinco décadas depois tive minha primeira experiência com o cinema no mesmo local. Era 1990 e meus pais levaram eu e meu irmão para assistirmos Lua de Cristal (uma pequena diferença de qualidade). O dinheiro era curto, mas para não nos privar da experiência completa, minha mãe fazia pipoca em casa, guardava em um saco plástico e o levava escondido dentro da bolsa para o cinema. Cheguei a ver Aladdin em 1993 no mesmo cinema, com meus pais repetindo o procedimento. Pouco depois o Cine Busch fechou, dando lugar aos cinemas de shopping. O prédio está lá até hoje: virou centro de convenções. Estivesse ainda em funcionamento, seria um dos cinemas mais antigos do mundo, com 110 anos de idade.

Fico só pensando em quantas gerações tiveram seu primeiro contato com cinema no Cine Busch, quantas descobriram a paixão pela sétima arte entre essas quatro paredes. O trabalho de Seo Holetz era um trabalho de amor, que sem dúvida tocou muitas vidas.

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Category: Cinema, Notícias | Tags: ,
  • Que bonito texto Isabel! Fiquei emocionado, pois também tive as minhas primeiras experiências cinematográficas nesta mesmas salas e nesse edifício. Não sabia dessa história em torno do cinema e da arquitetura do prédio em Blumenau. Também vi Aladdin ali, e depois de fechado o Cine Busch, só nos cinemas do shopping (onde nós, adolescentes, muitas vezes fomos ver filmes juntos!). Muito legal! 🙂

    • Isabel Wittmann

      Impressionante como a gente ia tanto no cinema naquela época de 98-2000 com ingressos a 2 reais. ahahhaha De vez em quanto me pego pensando em algum filme e lembrando quem estava comigo na sessão. Bons tempos! 🙂