Quem está apto a falar sobre cinema?

Ano passado Tatiana Feltrin, dona de um canal no youtube sobre literatura, fez um vídeo sobre quem pode falar a esse respeito. Suas considerações estão abaixo:

Esse vídeo serviu de gancho para algumas conversas que tive recentemente sobre quem está apto a falar sobre cinema. Quando escrevo “falar sobre cinema” não quero dizer apenas em âmbito profissional: trata-se de falar por falar, de opinar e comentar. Tenho ouvido constantemente sobre as redes sociais e como hoje em dia todo mundo pode ser crítico de cinema. Todos tem a possibilidade de, ao assistir um filme, externar as suas impressões acerca dele através de ferramentas como twitter e facebook. E me peguei pergunta: qual é o problema?

O cinema é uma das formas de expressão artística mais populares, talvez perdendo apenas para a música nesse quesito. Pessoas de diversas vivências e trajetórias consomem filmes e estes também são dos estilos e gêneros mais diversos. Toda arte é feita para gerar reações em seu público. É natural que expectadores tenham desejo de compartilhar suas opiniões sobre o que viram e os tempos atuais nos fornecem ferramentas que permitem isso com facilidade.

Não há porque tratar cinema como algo intelectualmente elitizado, sobre o qual apenas acadêmicos e especialistas podem proferir suas palavras. É claro que existe margem para interpretações aprofundadas, mas vale lembrar suas origens no uso de câmera para trucagens e na expressividade do vaudeville, teatro amplamente apreciado.

Parece que com o passar do tempo uma aura de preciosidade encobriu-o, o que é reforçado por falas tanto de críticos quanto do público. Ainda esses dias, em uma grande mesa após um evento acadêmico, mencionei meu interesse em ver X Men: Dias de um Futuro Esquecido, ao que outra pessoa respondeu que eu tinha que ver Praia do Futuro. Calma. Uma coisa exclui a outra? Porque eu pensava que uma pessoa poderia ver filmes de gêneros diferentes sem que isso a limitasse ou a rotulasse, mas para alguns, certos tipos de filmes carregam um estigma negativo indelével. Há algo de errado em afirmar a vontade de ver um filme de super-herói? Pelo menos em minha opinião, não.

Há algum tempo, em uma entrevista, um crítico de cinema afirmou que para exercer tal profissão o ideal era que a pessoa tivesse tido contato e assistido muito filmes (especialmente clássicos) desde a infância, pois depois seria difícil conseguir recuperar, por se tratar de um número elevado de produções. É claro que uma bagagem grande de filmes auxilia na leitura, seja por comparação ou contextualização. Referencial teórico ou  imagético sempre ajuda. Mas será que ele  necessariamente precisa vir do maior número possível de filmes assistidos? Não me considero crítica de cinema, mas escrevo sobre o assunto. Não escondo o fato de ter crescido com pouquíssimo acesso a filmes, mas amplo acesso a livros. E eles me ajudam a ter leituras específicas sobre os filmes que vejo e considero esses conhecimentos bastante importantes para a formação do que eu capto e compreendo nas obras. Mas jamais ousaria dizer que são essenciais, nem mesmo ideais. Talvez me possibilitam uma forma de ver diferente e mais profunda em um aspecto, assim como uma grande bagagem de filmes assistidos possibilitaria em outro, mas não tornam uma maneira melhor do que a outra. Cada tipo de informação que o expectador possui contribui, mas não é a única. Dessa forma, alguém do dito “grande público” que não possua nenhum dos conhecimentos citados, ainda assim está apto a formar uma opinião baseada exclusivamente naquilo que viu e na subjetividade que se criou com ato de assistir. E aí, voltando ao começo do texto, essa opinião pode ser expressa, seja de forma oral ou de forma escrita. Quem pode dizer que esse público não deve escrever suas opiniões?

Muitos discursos sobre “arte boa” e “arte ruim” (ou até mesmo “arte verdadeira”) rodam pela internet, juntamente com esses sobre quem pode falar a respeito de arte. Acredito que devemos ter um posicionamento menos limitado e aceitar que expressões artísticas das mais diversas convivem lado a lado, bem como opiniões e percepções dentro de variados contextos. Há espaço para todos.

critic

 

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Category: Recados