Figurino: A Arte de Fazer Roupas Retratada no Cinema

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 03/01/2014.

Há algumas semanas estreou nos cinemas brasileiros Carrie, a Estranha, nova adaptação do livro homônimo de Stephen King. Na película, a jovem protagonista é convidada para seu baile de formatura e decide ir, contra a vontade de sua mãe. Para tal, precisa de um vestido e costura-o ela mesma. Planejar a peça, desenhá-la, cortar os moldes, perceber o toque e a textura do tecido, sentir a tesoura deslizar por ele gerando um barulho áspero através do suave roçar, alfinetar, dar forma, alinhavar e, por fim, costurar: criar uma roupa é um processo bonito, trabalhoso e que exige um trabalho meticuloso, mas o resultado final, o prazer da criação, é algo imensurável. Alguns filmes mostram essas etapas, criando quase que uma metalinguagem do figurino: ele é montando em cena, diante de nossos olhos. Claro que se trata de uma ilusão, mas é interessante ver isso acontecendo. Então aqui seguem alguns filmes onde o processo de concepção e feitio da roupa é mostrado.
O primeiro que devemos lembrar é o já citado Carrie, a Estranha, em suas duas versões para o cinema. A primeira é de 1976, dirigida por Brian de Palma e com figurino de Rosanna Norton e a segunda, de 2013, dirigida por Kimberly Peirce e com figurino de Luis Sequeira. Carrie é uma menina isolada dos demais na escola e com uma mãe repressiva. Essa última também vem a ser costureira e por esse motivo a jovem tem a seu dispor todo o material necessário para a confecção de um vestido para o baile, dos moldes à máquina de costura. Carrie não tem contato com a moda atual, então seu vestido deve ser bonito, mas remetendo a tempos passados. Em ambas as versões, foram feitos vestidos semelhantes a camisolas, remetendo à moda da década de 1930. Ambos são, também, confeccionados em cetim rosa claro, cortado em viés, para melhor caimento.

Carrie

Carrie de 1976 (esquerda) e 2012 (direita).

Outra personagem que precisava de um vestido de baile é Andie, do filme A Garota de Rosa-Shocking, um clássico da Sessão da Tarde, dirigido por Howard Deutch. Andy utiliza como base para sua criação um vestido antigo, possivelmente da década de 1950. Ela o corta, desenha uma nova versão, que considera mais moderna e costura. Pode-se questionar seu senso estético, mas não se pode negar sua criatividade.

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Vestido rosa: o antes e o depois.

Os desenhos da Disney costumavam ter cenas que envolviam costura. Duas de suas princesas tem vestidos confeccionados com ajuda de terceiros. Em A Bela Adormecida, de 1959, as fadas-madrinhas Flora, Fauna e Primavera não demonstram ter muita habilidade para o ofício sem o uso de mágica. De qualquer forma, elas sequer conseguem decidir de qual cor será a roupa, rosa ou azul.

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Já Cinderela, do filme homônimo de 1950, recebe ajuda de ratos e passarinhos, que costuram com primor um vestido para que possa ir ao baile. Infelizmente a bondade dos animaizinhos de pouco adiantou, pois essa versão do traje é destruída por sua madrasta.

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Ainda nos desenhos animados, em Os Incríveis, temos a estilista Edna Moda, que parece ter sido inspirada pela figurinista Edith Head. Edna é mostrada em pleno processo de criação e ensina o Sr. Incrível uma máxima de incrível sabedoria: nada de capas! Capas apenas atrapalham a movimentação dos heróis. Forma e função devem caminhar juntos.

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Edna Moda e Edith Head

Em … E o Vento Levou a protagonista Scarlett O’Hara precisava de um vestido que garantisse a ela a aparência da riqueza que possuía em tempos passados e para conseguir o efeito não hesitou em pedir para Mammy costurar-lhe um fazendo uso da antiga e pesada cortina de veludo verde com detalhes dourados. A indumentária final, obra do figurinista Walter Plunkett, inspirou gerações de aficionados por figurino e certamente é um trajes mais memoráveis do cinema.

Vestido confeccionado com cortina de veludo e detalhe do chapéu com ranjas douradas.

Vestido confeccionado com cortina de veludo e detalhe do chapéu com ranjas douradas.

Giselle, a protagonista de Encantada, vem da tradição das princesas da Disney (canta, conversa com animais, espera por seu príncipe), mas de certa forma homenageia Scarlett ao utilizar as cortinas de Robert para criar sua vestimenta.

(L_R)  PATRICK DEMPSEY, AMY ADAMS

Representando os profissionais que trabalham com costura, temos Coco Chanel, em sua cinebiografia Coco Antes de Chanel, dirigido por Anne Fontaine e com figurino de Catherine Leterrier. O filme apresenta um interessante retrato de sua vida antes de se tornar uma estilista renomada. Em diversos momentos a personagem principal é mostrada costurando, seja remodelando uma camisa social masculina para si ou fazendo um blazer, até que, ao final, supervisiona cada detalhe da produção manual das peças de sua marca, já uma grande casa de moda. É um belíssimo filme para quem tem interesse na área.

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Por fim, temos uma personagem para quem o processo de costurar sua roupa nova fez parte de uma grande virada em sua vida. Em Batman – O Retorno, cujo figurino é desenhado por Bob Ringwood e Mary E. Vogt, parte importante da transformação de Selina Kyle em Mulher-Gato passa pelo feitio de sua icônica roupa, adotando postura sedutora que a primeira não possuía e se tornando uma vilã da trama.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Através desses exemplos é interessante perceber como geralmente a costura aparece em filmes como uma atividade doméstica, vinculada ao universo feminino. Em nenhum dos filmes citados algum homem aparece realizando o ofício. Além disso, poucos são os exemplos de costura profissional e pouca ênfase é dada a habilidade e destreza necessárias para sua prática.

Quais outros filmes mostram as etapas de produção de uma roupa ou a costura em si e não foram citados? Deixe seu comentário abaixo.

Observação: Nos comentários da coluna original foram acrescentados à listas O Homem Aranha e Kickass, em que seus protagonistas confeccionam seus uniformes; Flawless, onde uma mulher é mostrada fazendo um vestido; Os Miseráveis, onde há um grupo de costureiras; A Noviça Rebelde, em que as crianças recebem roupas feitas de cortina; E por fim, O Poderoso Chefão, que tem Kay costurando suas roupas.

Acrescento ainda as moças de Sete Noivas para Sete Irmãos. Elas aparecem constantemente costurando e a cabana é repleta de cortinas e toalhinhas feitas por elas. Utilizam vestidos de retalhos (patchwork), cujo feitio não é mostrado, mas pode-se deduzir que sejam, também, de suas costuras. Além disso, o filme Revolução em Dagenham, embora não aborde vestimentas, trata da greve das costureiras da indústria automobilística britânica na década de 60 e mostra como a profissão é considerada pouco especializada.

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