Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Final

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama.

Há jogos muito piores para jogar”.

Chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- O Final, último filme da franquia distópica baseada nos livros de Suzanne Collins, protagonizada pela personagem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). A direção novamente fica a cargo de Francis Lawrence e o figurino é da dupla Kurt & Bart, que trabalhou no filme anterior, além de Segredos de Sangue, que já foi analisado aqui no blog e pode ser conferido aqui.
Durante os três primeiros filmes, Katniss se mostrou uma personagem tridimensional, movida pela empatia e capaz de fazer o possível para ajudar os demais. De quando se voluntariou como tributo no lugar da irmã, Primrose (Willow Shields) até quando se tornou porta voz da campanha midiática do Distrito 13 contra a Capital de Panem, tudo que fez foi pensando naqueles ao seu redor que sofriam, mas não necessariamente com profundidade política.
A política, justamente, sempre teve um papel central na franquia. Muitos elementos do figurino da série remetem às décadas de 1930 e 1940, como o memorável vestido azul de Katniss no Dia da Colheita em Jogos Vorazes, bem como as roupas dos demais moradores dos distritos. Isso acontece para relacionar o poder autocrático de Snow (Donald Sutherland) com o totalitarismo fascista na Europa desse período.

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Por outro lado, no Distrito 13, que se rebela contra a capital, a população veste macacões cinza. Katniss continua não abotoando o seu até em cima, indicando que não se encaixa completamente nos padrões impostos pelas lideranças revolucionárias. Embora todos se vistam de cinza, as roupas não são exatamente as mesmas e a Presidente Alma Coin (Julianne Moore) se destaca com seus ternos bem cortados em tecidos estruturados. Como já foi mencionado na análise do filme anterior, Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros e ela encarna a revolução traída.

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Além da política, a própria mídia é outro ponto importante do filme. Nos três anteriores tece-se uma crítica a ela e à forma como se utiliza a criação e a projeção de uma imagem pessoal. Mas isso não é feito de maneira simplista: todos os lados fazem-se valer dessa arma valiosa. Isso é demonstrado especialmente através do papel dos organizadores, como Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Em Jogos Vorazes: Em Chamas Snow sabe que vestir Katniss de noiva para leva-la ao programa de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) é uma forma de desviar a atenção do fato de a personagem tê-lo desafiado ao vivo nos 74os Jogos Vorazes para o suposto romance entre ela e Peeta (Josh Hutcherson), despolitizando sua presença televisiva. “Faça-o pagar por isso”, disse Johanna Mason (Jena Malone).

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Já Cinna (Lenny Kravitz) entendia que era importante criar empatia com a plateia, usando esses elementos midiáticos a seu favor e vinculando Katniss ao slogan “Garota em Chamas” através das suas roupas. Ele sabe que a plateia vai ama-la ao ver seu vestido pegando fogo. Da mesma forma, ele mesmo criou mensagem revolucionária através da roupa, vestindo Katniss como Tordo na apresentação televisiva dos 75os Jogos Vorazes. Por isso, se por um lado a mídia e a moda trabalham para criar o Pão e Circo que distrai a população da Capital (e não por acaso o país se chama Panem, de “panem et circenses”, em latim), por outro elas não se resumem a isso e podem ser apropriadas pelas causas.

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No terceiro filme Katniss recebe do 13º Distrito um traje de guerra funcional com armadura, mas praticamente só a utilizou em vídeos promocionais. Katniss caçava e sobrevivia à fome no 12º Distrito. Também sobreviveu a duas versões de arenas nos Jogos. Mas, de certa forma sua imagem foi cooptada pelo 13º Distrito, tornando-a um símbolo dela mesma, a sobrevivente que desafiou Snow, de maneira a servir como inspiração para o demais se unirem à revolução. Por mais que tenha agido com espontaneidade diante das câmeras de Créssida (Natalie Dormer) e discursado com sinceridade, é somente nesse quarto filme que ela o utiliza a roupa de guerra por necessidade, ao desobedecer às ordens de Coin e tomar novamente as rédeas de suas ações.
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O uso de cores no filme é bastante interessante. No terceiro ato, por exemplo, uma criança de vestido amarelo chama atenção para a ação que vai levar à morte centenas de pessoas, incluindo Primrose. A criança, seu vestido e as mortes conectam-se à última cena do filme. Depois desse ocorrido, Katniss passa a vestir-se de preto, em luto permanente até pouco antes do desfecho.

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Além disso, desde a imagens de divulgação o vermelho tem recebido destaque, marcando a revolução em andamento. Mas ele também marca o conflito e não por acaso Caesar Flickerman utiliza a cor em sua aparição na televisão, já que trabalha como um porta-voz dos interesses da Capital. Por outro lado, o próprio presidente Snow veste-se de vermelho em seu derradeiro diálogo, em que revela que a presidente Coin é mais parecida com ele do que ela supunha. Rodeados de rosas brancas que lhe são características, ele afirma que “Nada exprime perfeição como o branco”. Curiosamente branco é uma cor que quase não se manifesta nos figurinos desse quarto filme.

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Mas a cor que merece destaque maior é o cinza. Em minha análise do filme anterior, escrevi que a neutralidade da cor servia para marcar a falta de expressão de individualidade dos moradores do Distrito 13, quebrada eventualmente por detalhes criados por determinados personagens. Isso continua válido: a população da Capital tem liberdade de expressar-se através da moda que utiliza, enquanto os dissidentes apresentam-se literalmente uniformizados.
Mas o cinza aqui manifesta-se para além da uniformização. Ele funciona como motivo ou tema, comentando a ambiguidade política do cenário que se descortina ao final. Se Coin apresenta-se de cinza, também o fazem os políticos que apoiam Snow, ainda que com detalhes vermelhos. A própria população da Capital aparece menos colorida dessa vez. Mesmo Effie, que lutou para manter seu estilo no filme anterior agora veste um traje ainda extravagante, mas já lavado de cores, cinza. Para quem acompanhou os acontecimentos pelos bastidores, há a percepção de que por trás de toda a fachada, pouca diferença há entre um lado e outro.

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A Comandante Paylor (Patina Miller), do Distrito 8, eleita presidente, apresenta-se como uma mistura desses elementos: suas roupas são cinzas, mas estruturadas de forma geométrica, quase como que um origami, fugindo da funcionalidade dos demais revolucionários. E sob sua jaqueta, usa um tecido de estampa colorida, que de certa forma serve para liga-la a Capital, auxiliando sua aceitação através dessa expressão de individualidade.

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Conforme já ficou estabelecido, em todos os filmes da franquia Jogos Vorazes brincou-se com o figurino como uma maneira de usar a moda e a imagem pessoal para manipular o espectador dentro e fora do filme, especialmente através da imagem que Katniss projetou. Isso era feito não sem certa ironia, já que a imagem era utilizada também para criticar essa manipulação. Nesse filme isso não acontece mais. Mesmo, Tigris, a estilista, não é explorada nesse sentido.
Quando retorna à Vila dos Vitoriosos do 12º Distrito, Katniss volta para sua antiga jaqueta de couro. Ela não precisa mais ser nenhum personagem. Não precisa ser garota em chamas ou tordo. Não precisa mais usar os vestidos de que não gostava nem as fantasias de uma imagem vendida. Isso até a cena final, no futuro, em que ela é apresentada com um vestido amarelo com uma estampa do que parecem ser prímulas (Primrose, em inglês). A roupa é usada para conectá-la ao passado, para deixar claro que ela sempre estará marcada pelo luto e pela dor da perda e da guerra. A paisagem idílica, contrastando com o cinza da Capital e o vazio desolado de sua casa, acolhe Karniss, Peeta e seus dois filhos. Mas nesse último momento, Kurt & Bart parecem ter esquecido as camadas de subtexto presentes no contexto da obra e a vestem, sem nenhuma ironia, com o tipo de roupa que ela até então detestou. Isso para tentar criar uma imagem de final feliz convencional que se desconecta da jornada de Katniss. Parece uma derrota para uma personagem tão forte se apresentar assim, privada de seu papel de líder e, por fim, domesticada, presa a um vestido que representa o que há de mais tradicional em termos de papel de gênero.

Claro que colocado no contexto maior da produção dos filmes, essa imagem faz sentido. Conforme comentado na análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, nós, espectadores, nos comportamos como o povo da Capital: queremos o entretenimento que a franquia nos fornece. Hollywood é a Capital: fornecendo diversão, coisas bonitas para que possamos olhar e personagens para os quais possamos torcer. Mas a revolução não pode ir longe demais porque se Hollywood é a Capital, ela não quer ser derrubada. A mídia é usada para oprimir nos livros de Collins, mas é o espetáculo visual que consumimos nos filmes. E esse entretenimento, no final das contas, não pode questionar o que está à mesa. Assim, ignorando o próprio trabalho feito com o figurino e a imagem dos personagens até então, Katniss é traída pela Lionsgate da mesma forma que a revolução de que foi símbolo na história original.

Jogos Vorazes: A Esperança- O Final não é um filme ruim e faz parte uma franquia de filmes voltados para o público juvenil que se destaca em um mar de mesmices justamente por abordar temas mais complexos e cheios de camadas do que o triângulo amoroso da média. Mas parece que muitas das sutilezas dos três primeiros filmes foram esquecidos nesse terceiro, que, por isso, tem um desfecho aquém das suas possibilidades e que não faz jus ao bom desenvolvimento de seus personagens até então.
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