Figurino: Noé

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 23/04/2014.

 

Mantendo fidelidade à temática de sua obra, Darren Aronofsky (Cisne Negro) mais uma vez dirigiu um filme sobre obsessão: Noé. Polêmico, talvez o maior problema do filme tenha sido a falta de compreensão da sua natureza: muitos esperavam uma adaptação literal da história bíblica, quando na verdade trata-se de uma baseada em uma graphic novel desenvolvida pelo próprio Aronofsky, reimaginando o mito.
Se levarmos em conta a interpretação literal da Bíblia, teríamos que considerar que a criação ocorreu entre 6 mil e 10 mil anos atrás. Levando-se em conta a idade do protagonista e sua genealogia, isso localizaria a história no período Neolítico. Nessa época os humanos vestiam trajes confeccionados de pele e couro e usavam ossos para fechamento. Ao fim do período as primeiras roupas de tecidos confeccionados com lã e outras fibras naturais seriam criadas.
Da pré-história até o final da Idade Média não existiu o que nós conhecemos como moda. As roupas a princípio possuíam uma funcionalidade específica (proteção) e mesmo quando o valor estético foi incorporado, suas variações eram baseadas na perpetuação da tradição e não eram mudanças drásticas.
Mas, ao levarmos em conta que se trata de uma reinterpretação de um mito, isso situa a trama fora de nossa escala temporal, permitindo liberdade total para reimaginar as roupas conforme as necessidades narrativas. Por esse motivo o figurino também causou reações de estranhamento: protagonistas de filmes bíblicos costumam vestir túnicas, mas isso está bem longe do que vemos aqui. O figurinista Michael Wilkinson (que recentemente trabalhou em Trapaça e está em franca ascensão na indústria) não parece ter grande preocupação em fidelidade com o que se espera dos períodos retratados, brincando com formas e modelagens de maneira a obter os efeitos desejados para a narrativa.

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A família de Noé (Russell Crowe) é formada por sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), seu avô Matusalém (Anthony Hopkins), seus filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que adotaram quando criança e que torna-se companheira de Sem.
Eles vestem-se em camadas sobrepostas de trajes confeccionados em tecidos rústicos e desgastados. As formas são ajustadas e contemporâneas, blindando-os contra as intempéries do clima, em uma natureza que foi dilapidada pelos humanos.

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Os tecidos são artesanais, confeccionados em tear ou tricotados, com matérias primas vegetais, como algodão e linho. Eles são utilizados de forma mesclada, criando-se textura visual para as roupas. Costuras feitas à mão são visíveis. A paleta de cores possui variações bastante sutis e o belo trabalho de tingimento, realizado pelo artista Matt Reitsma, é perceptível, com a obtenção de suaves variações de tons de marrom, creme, cinza e mesmo um certo tom arroxeado sempre presente nas roupas de Naameh.

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É interessante perceber esse uso de tecido de origem vegetal pela família de Noé, pois isso casa com o conceito da trama de que eles seriam vegetarianos, respeitando, assim, o restante da obra do Criador. Dessa forma, as botas de couro que vestem parecem contraditórias dentro do próprio conceito criado para o filme.

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Em contraste com eles, temos os descendentes de Caim, liderados por Tubal-Cain (Ray Winstone). Esses humanos demostram pouco respeito ao restante da Criação, fazendo uso desenfreado de tudo que está ao seu redor e consumindo os recursos naturais. Percebe-se que utilizam não só trajes feitos de couro (já que consomem carne), mas também, devido aos seus instintos bélicos bastante aflorados, adornados de metal, como proto-armaduras.

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Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com

Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com

Recheada de gnosticismo, em Noé Darren Aronofsky criou uma versão interessante, forte e intensa para a história que sempre lhe intrigou. O figurino de Michael Wilkinson não se destaca pela beleza particular das peças, mas sim pela qualidade do trabalho artesanal e pela coerência com o universo criado para a história.

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