Figurino: Uma Rua Chamada Pecado – Desejo e Destruição

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo a Cena em 11/09/2013.

Seja lá quem você for, eu sempre dependi da gentileza de estranhos.

Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire/), de 1951, é um clássico adaptado diretamente da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Ambos, o diretor Elia Kazan e a figurinista Lucinda Ballard já haviam trabalhado na versão encenada na Broadway entre 1947 e 1949. A influência dessa última é facilmente perceptível na forma como a narrativa se desenrola, seja pelos cenários restritos, que poderiam ser facilmente recriados em um palco, seja pelas trocas dos figurinos, que são poucos, mas marcantes.

Na trama, Blanche (Vivian Leigh) chega a Nova Orleans, vinda do interior para ficar na casa de sua irmã. Sem emprego e após ter perdido as terras de seus pais, Stella (Kim Hunter) é sua única salvação. Desde o primeiro momento, Stella pede que releve a falta de bons modos de seu marido, Stanley (Marlon Brando). Blanche está mentalmente abalada com os últimos acontecimentos por que passou e vive preocupada com seus nervos, enquanto Stanley a provoca e humilha, pois sabe de algo relacionado ao seu passado recente. A gravidez de Stella e as falas da irmã criticando seu marido abusivo apenas acrescentam pólvora à relação turbulenta entre os três.

Eu não quero realismo. Eu quero mágica! Sim, sim, mágica. Eu tento dar isso às pessoas. Eu realmente deturpo as coisas. Eu não falo verdades. Eu falo o que deveria ser a verdade.

Quando chega à estação de Nova Orleans, envolta em vapor do trem, Blanche é a imagem da fragilidade e decadência. A blusa, levemente datada, com gola e mangas confeccionadas em algum tecido transparente, transmite essa vulnerabilidade e ao mesmo tempo o broche de flores secas representa a juventude que já se foi, uma de suas constantes preocupações. Ela utiliza um véu para cobrir o rosto, como forma de ocultar-se dos demais e ao mesmo tempo esconder sua aparência.

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Isso do que você fala é desejo-= apenas desejo brutal. O nome do velho bonde que soa através do quarteirão, subindo por uma velha rua estreita e descendo por outra.

Você nunca andou nesse bonde?

Ele me trouxe aqui. Onde não sou querida e onde tenho vergonha de estar.

O tempo todo Blanche lembra o quanto suas roupas e sua aparência são importantes para ela. Seus vestidos são confeccionados em tecidos que parecem caros, o que leva Stanley a questionar a origem deles, já que ela afirma não ter dinheiro. Todos os que aparecem em cena mantém o padrão de tecidos transparentes utilizados diretamente sobre a combinação (espécie de camisola que fazia parte da roupa íntima da época), que fica à mostra sob eles. O robe que frequentemente utiliza, também é diáfano e cheio de babados. Seu guarda-roupa frisa o tempo todo a vulnerabilidade em se encontra e, aliado aos seus cabelos tingidos de loiro, faz com que aparente ser mais velha, embora provavelmente o efeito seja o oposto do desejado.

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Ao mesmo tempo as peças contrastam com o figurino das demais mulheres ao seu redor: todas são esposas de operários e utilizam roupas de corte simples, confeccionadas em algodão. Na sequência em que ela frequenta o baile local, é perceptível essa diferença.

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O mesmo contraste ocorre em relação à sua irmã. No momento de sua chegada, ela veste um blusa camponesa com saia simples estampada. Após a gravidez, passa a utilizar amplas camisas, todas também simples, embora com alguns adornos. Após ter o bebê há a preocupação de mostrar Stella novamente com suas roupas antigas, só que agora sua camisa não fecha mais completamente na frente. Devido à sua condição financeira, fica claro que ela não compraria roupas novas apenas por causa de suas formas adquiridas após a gravidez.

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Ele é como um animal. Ele tem hábitos de animal. Há até mesmo algo sub-humano a seu respeito. Milhares de anos passaram por ele, e lá está ele. Stanley Kowalski, sobrevivente da Idade das Pedras, carregando a carne crua para casa da sua caçada na selva. E você- você aqui esperando por ele. Talvez ele vai bater em você ou talvez grunhir e beijá-la, isso se beijos já foram descobertos.

Stanley é um trabalhador bruto e beberrão. Para melhor ressaltar sua masculinidade animalesca, utiliza em quase todas as cenas camisetas justas. Há que se entender o contexto da época: até então a camiseta era uma peça íntima, vestida por baixo da camisa. Ela não era utilizada à mostra, apenas tolerada em determinados ambientes de trabalho braçal, o que seria o equivalente a trabalhar sem camisa, com torso nu, para nossos padrões atuais. Stanley não vê problemas em andar apenas com camisetas. Elas foram cortadas mais justas que o usual para realçar sua forma física. A peça, hoje tão comum no nosso vestuário, conotava uma forte carga sexual no personagem.

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Isso fica patente na icônica sequência, repleta de sombras impressionantes, em que Stanley, usando uma camiseta completamente rasgada, chama por Stella após uma briga e ela o abraça, em posição de superioridade, alguns degraus acima dele, enquanto crava os dedos nas suas costas.

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Em oposição a ele, há seu colega Mitch (Karl Maden), considerado por Blanche superior aos demais operários: ele não é vulgar e mora com a mãe. Seu porte elegante, apesar de sua condição financeira, transparece no uso de blazer e gravata, além de uma cigarreira de prata.

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É interessante notar como a noção de cor é passada através dos diálogos, já que se trata de um filme em preto e branco. Em uma cena, já ao final da película, temos a seguinte conversa entre Blache, Stella e a vizinha Eunice:

 Blanche: Stella, a seda amarela, com buclê, veja se está amassada. Se não estiver muito, vou vesti-la. E na lapela o broche de prata e turquesa na forma de um cavalo marinho. Você vai achá-lo na caixa em forma de coração em que guardo meus acessórios. Oh, e Stella, veja se você consegue achar as violetas artificiais naquela caixa. Eu vou usá-las com o cavalo marinho na lapela da jaqueta. Ajudem-me, vocês duas. Ajudem-me a me vestir.

Stella: É isso que você queria?

Blache: Isso vai servir. Estou ansiosa para sair desse lugar. Esse lugar é uma armadilha.

Eunice: Que linda jaqueta lavanda.

Stella: Ela é lilás.

Blanche: Vocês duas estão erradas: é azul Della Robbia.

Dessa forma, conseguimos visualizar totalmente a excentricidade da roupa que Blanche pretende usar, com vestido amarelo, casaco azul e acessórios em prata, turquesa e roxo. O desarranjo das cores retrata seu estado mental, já completamente destruída e insana após os abusos passados durante a trama, mas ainda assim preocupada com a própria aparência.

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 Uma Rua Chamada Pecado foi indicado ao Oscar de melhor figurino em preto e branco em 1952. Embora não tenha levado o prêmio (que foi para o trabalho de Edith Head em Um Lugar ao Sol) pode-se dizer que deixou um legado para a moda popular. Foi a partir desse filme, juntamente com a posterior influência de James Dean, que a camiseta passou a ser vista como uma peça de vestuário e não uma roupa íntima. Lucinda Ballarc criou uma composição certeira de seus personagens. Utilizando-se das texturas como forma de suprir a falta de cor, expôs perfeitamente a personalidade deles, especialmente Blanche.

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