Lírio Partido (Broken Blossoms/ 1919)

Assistido em 06/08/2013

Depois de tantas pirotecnias de filmes contemporâneos (ruins) achei interessante assistir um filme mudo para descansar. O escolhido foi Lírio Partido, um drama de D. W. Griffith. Confesso que foi o seu primeiro filme que assisti inteiro, pois depois de algumas tentativas, nunca passei da metade de O Nascimento de uma Nação, considerado o seu maior.

Lírio partido conta a história de rapaz identificado apenas como O Homem Amarelo (Richard Barthelmess), chinês que vê marinheiros ocidentais brigando e resolve pregar a paz de Buda na Inglaterra. Mas lá só encontra pobreza, falta de perspetiva e vícios e acaba deixando sua própria fé de lado. Passado algum tempo, sendo proprietário de uma pequena loja em um bairro a beira de um cais, ele se encanta com a beleza da mocinha Lucy (Lilian Gish). Ela tem 15 anos e é filha de um boxeador beberão e violento, Battling Burrows (Donald Crisp) que a espanca e chicoteia rotineiramente. Certo dia, após um sessão de chicotadas, sai caminhando trôpega pelas ruas e cai desmaiada dentro da loja do Homem Amarelo. Ele passa a cuidar dela como nunca fez na vida e assim eles se apaixonam.

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Lilian Gish é uma atriz absolutamente fantástica. Expressa intensamente a doçura, a tristeza e o terror de sua personagem. O gesto em que empurra o canto dos lábios para cima com os dedos, obrigando-se a sorrir, é muito bonito, embora tenha sido usado demasiadamente ao longo do filme. A cena em que se tranca dentro de um armário para fugir da violência de seu pai é intensa e impressiona (e faz lembrar O Iluminado…). Donald Crisp já não segue esse mesmo realismo: sua atuação é mais exagerada e teatral. Mas considerando o período em que o filme foi feito e o tipo de violência retratada, acho justificável e não atrapalha o desenrolar da história. O que atrapalha um pouco para meus olhos contemporâneos é Richard Barthelmess, com maquiagem amarelada, olhos esticados, atuando com eles semicerrados e postura corcunda, para dar vida ao seu chinês. É um caso de “yellow face” que, como todos, pode ser explicado pelo racismo de Hollywood, já que diversos atores chineses são vistos fazendo figuração ao longo do filme. De qualquer forma não deixa de ser irônico pensar no escândalo que seria um casal inter-racial protagonizando um filme que trata justamente do preconceito racista e xenofóbico contra os chineses.

bbliliangish As cores do filme são muito interessantes. Cores, sim, pois apesar de ser filmado em preto e branco, as cenas são tingidas eventualmente, amarelo ou vermelho, criando um efeito interessante em relação aos cenários. Em outros momentos tudo permanece no preto e branco padrão.

Belíssimo o último ato, quando O Homem Amarelo redescobre sua fé e reorganiza seu altar para Buda, enquanto na China, um monge toca os sinos em um mosteiro. O final, trágico, como era de se esperar, casa com a história.

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