Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry/1999)

Assistido em 10/12/2013

Meninos Não Choram é um filme de difícil digestão. Assisti-o com mais de uma década de atraso e sem saber que se tratava de uma história real, o que foi um choque para mim quando rolaram os créditos finais. Na trama, Brandon Teena (Hilary Swank) tenta lidar com o fato de que seus documentos o registram como Teena Brandon: trata-se de um homem trans. A história já começa com ele cortando o cabelo bem curto, como um rito de passagem, um sinal de transformação. Tudo se passa em um interior dos Estados Unidos deprimente, decadente e sem perspectivas. A fotografia, que faz uso de filtro azulado, ajuda a criar um clima de frieza áspera ao inóspito local.

Para ser aceito como homem, Brandon faz qualquer coisa que os rapazes da região façam também, por mais estúpidas que sejam. Como a história se passa no começo da década de 1990, faz uso de discursos patologizantes para justificar sua própria existência. Não existiam muitas opções fora isso.

Quando começa a namorar com Lana Tisdel (Chloë Sevigny) é possível perceber que ambos estão negociando sua masculinidade. Lana visivelmente finge não perceber detalhes, como os seios que teimam em escapar das bandagens de Brandon. Não saber é melhor que saber e ter que lidar. A diretora, Kimberly Peirce, garantiu que as cenas de sexo não fossem nem exotizadas nem fetichizadas: tudo é muito natural.

Brandon vive no limite do temor e da coragem: o medo de ser descoberto sempre se faz presente, mas também a ousadia de viver sua identidade com plenitude. A falta de compreensão com a categoria trans como um todo permeia a trama. Quando é descoberto, Brandon grita que não é uma lésbica. Para ele é claro que é um homem, mas tal fato causa estranhamento, repulsa, dúvidas e ódio entre os demais, especialmente outros homens. Por isso não é de se estranhar que o tratamento que recebeu é o mesmo que é dado a lésbicas em sociedades misóginas. Até o fim, ele carrega a dor de não se encaixar, não pertencer, não ser compreendido.

O filme pode não ser fantástico como um todo, mas a atuação de Hillary Swank é realmente incrível, assim como a força da história.

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