Minha Bela Dama (My Fair Lady/ 1964)

Assistido em 16/04/2013

My Fair Lady é um filme adaptado do musical homônimo, que por sua vez é uma adaptação da peça de teatro de George Bernard Shaw. Na lenda da mitologia grega, Pigmalião é um homem que esculpe uma escultura de uma mulher tão perfeita que se apaixona por ela. Na peça e no musical, ao invés da estátua ele cria uma dama da sociedade à partir de uma moça pobre e sem bons modos. A história se passa na década de 1910. No filme o professor Henry Higgins (Rex Harrison), que estuda fonética, faz uma aposta com um colega, coronel Pickering (Wilfrid Hyde-White), ao ver Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) na rua vendendo flores e falando com um sotaque forte e uma ogramática truncada. A aposta consiste em provar sua capacidade de em seis meses transformá-la em uma dama que ninguém duvidaria apenas alterando sua forma de falar. Segundo ele, o que mantém as pessoas pobres sendo pobres são a forma que elas falam e então, o preconceito linguístico. Higgins nunca enxerga Eliza como um ser humano. Ela é sempre tratada com uma coisa, um experimento. Apenas o coronel Pickering e a governanta Sra. Pearce a defendem. Higgins tem uma casa cheia de parafernálias maquinários para ajudar a chegar aos fonemas perfeitos. Ao tentar alterar a forma de falar de Eliza, Higgins parece se esforçar em podar a originalidade e individualidade dela. Ao final do experimento ela mesmo questiona qual é o seu lugar agora, já que é “dama demais” para voltar a vender flores, mas nunca será uma dama de verdade na sociedade.

O design de produção do filme é fantástico. Ele inteiro foi filmado em estúdio, mesmo as cenas externas, como da corrida de Ascot, por exemplo. Ascot é retratada de maneira estilizada, com todo os homens em cinza e as mulheres em preto e branco, tudo muito afetado e teatral, como deve ser a classe alta. Já no baile da embaixada, quando Eliza recriada é apresentada à sociedade, o que se destaque é a entrada com as escadarias e todos os homens de preto e as mulheres em tons pastel. A beleza da composição das cenas ganha ainda mais destaque pelo uso da câmera Super Panavision 70, que gera uma imagem bastante larga, aumentando o campo de visão e trazendo grandiosidade para os cenários. Assistir à versão restaurada em HD é impressionante. A qualidade da imagem é perfeita e transparece todo o carinho que foi colocado nos cenários e figurinos.

As músicas são memoráveis: eu já conhecia uma porção delas sem nunca ter visto o filme, apenas porque são de conhecimento geral. As de Rex Harrisson, que também interpretou Higgins no palco, são praticamente faladas, e não cantadas, para demostrar a característica mais técnica do personagem. Também foram todas gravadas diretamente em cena, com um dos primeiros modelos de microfone sem fio. Tome, Os Miseráveis!). Já Audrey Hepburn teve quase todas as suas canções dubladas (algo também bastante comum). Aliás, ela está muito bem no papel e convence muito como a Eliza sem traquejo no início do filme. Stanley Holloway, que interpreta seu pai, Alfred Dootlittle também é ótimo. Destaque para ele reclamando que o obrigaram a entrar na moral da classe média.

A duração poderia ser menor, já que as quase três horas são um pouco cansativas.

My Fair Lady não é um romance. Você não vai ver os personagens declarando seu amor um ao outro. O máximo que você vai ver é Higgins cantando que “se acostumou com o seu rosto” por perto. George Bernard Shaw escreveu que pretendia que ambos não terminassem juntos, e sim que Eliza abrisse sua própria loja de flores e se cassasse com outro, demonstrando soberania sobre si mesma e tornando-se uma mulher independente. Mas isso não aparece no final da peça, que fica em aberto. No filme, o final também é aberto, mas menos sutil, parecendo que o diretor quer que acreditemos que esse casal insólito ficou junto.

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