No (2012)

Assistido em 29/09/2013

No é um filme chileno impressionante. Você começa a assisti-lo e não vê os minutos passarem. Trata-se de uma história baseada em fatos reais, que antecede a redemocratização do Chile. Devido a pressões internacionais, em 1988 convocou-se um plebiscito par que a população decidisse se queria o ditador Pinochet por mais oito anos no poder. Durante vinte e sete dias a campanha do Sim e do Não teriam quinze minutos diários na televisão para passarem seus programas. Inicialmente a população não estava certa de que teria liberdade para votar sem sofrer retaliações. Os responsáveis pela campanha do Não contava com os pesados dados referentes às mortes, exílios e perseguições políticas que ocorreram durante os dezessete anos de governo do general, mas não acreditavam na possibilidade de vitória. Mas o jovem e talentoso publicitário René Saavedra (Gael García Bernal, ótimo no papel) diz que podem ganhar, se deixarem para trás o clima soturno e negativo do material que têm a basearem-se no conceito abstrato de “alegria”. René planejou uma campanha bastante despolitizada, que despertasse a identificação com o cidadão médio e mostrasse as possibilidades bonitas do futuro. Seus críticos falaram que parecia propaganda de Coca Cola. Não por acaso o filme começa com René apresentando um vídeo do refrigerante de cola Free.

O filme possui um ar de documentário. Figurino e cenografia bem realizados garantem uma boa recriação de época. As imagens granulosas e a razão de aspecto 4:3 (full screen) criam a sensação de estarmos vendo algo filmado no período retratado. A falta de trilha sonora apenas realça essa sensação, garantindo mais realismo às cenas. A música só passa a fazer parte da películas nas sequências finais.

Sobre o aspecto político do filme, é interessante quando questiona-se a origem dos financiamentos do Não. Entre eles são mencionados “os gringos”. Alguém comenta que foram eles que financiaram o golpe, mas outro responde que agora eles querem acabar com ele. Os interesses internacionais sempre se voltam para a América Latina. Além disso, o Não era uma coligação que englobava dezessete partidos de oposição.

No deveria ser passado nas aulas de publicidade, abordando a questão de criação do discurso. Além disso é um filme belissimamente realizado, com aspectos técnicos muito bons, uma trama interessante e que aborda uma história que nós, latino-americanos, não devemos ignorar.

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Isabel Wittmann

Catarinense, 33 anos, louca por bichos, feminista. Hoje mora em São Paulo, mas já passou uns anos no Amazonas. Crítica de cinema, doutoranda em Antropologia Social, podcaster e pesquisadora de gênero.