Os Jovens Baumann

No ano de 1992 os oito primos, todos da família Baumann, se reúnem em sua fazenda para passar as férias. São os herdeiros do local, em Santa Rita do Oeste, Minas Gerais. Nós, em 2019, revisitamos suas conversas, caminhadas, brincadeiras e interações por meio das filmagens em VHS feitas por Isa, a prima que nunca aparece diante das câmeras.

Os Jovens Baumann, filme de estreia de Bruna Carvalho Almeida, acaba por conectar dois momentos distintos: o passado fictício recriado com detalhes como um found footage e o presente de quem o assiste. A mediação entre eles é feita por uma narradora em off que se apresenta como alguém que tinha 7 anos na época em que as fitas foram gravadas e era filha de um trabalhador da fazenda. A voz diz que quando viu o lugar pela primeira sentiu um enorme incômodo por toda aquela riqueza. Ela se insere na história como um fantasma que viu o passado, informando que naquele verão todos os jovens desapareceram e se debruçando sobre as imagens como se elas pudessem trazer alguma solução para o mistério que ela mesma apresenta. A mídia que deixou de existir é o receptáculo das imagens daqueles que também não mais existem.

As filmagens caseiras são o ponto forte do filme. Embora a direção de arte esforçada se equivoque algumas vezes na recriação da época e o figurino, por exemplo, nem sempre corresponda ao que era usado então, a naturalidade da interação dos primos cria um senso de intimidade no que está sendo exposto. O tipo de enquadramentos e os planos utilizados, entremeado por cortes compostos em um processo de montagem engenhoso dão vida a imagens críveis na sua estética.

Os primos, por sua vez, são retratados na banalidade do cotidiano, sem, com isso deixarem de ser uma certa massa amorfa, em que um não se diferencia do outro e não há muito desenvolvimento em termos de personalidade. A relação de classe que se entabula na mediação fantasma da narradora é pontuada por algumas frases isoladas proferidas pelos jovens nas fitas, que mencionam a reforma agrária e o fato de que o latifúndio estaria acabando. As falas, deslocadas de contexto, parecem indicar a ideia de que esse modo de vida estaria em declínio, mas passados 27 anos tal fato não se confirma. As relações entre ela e eles, seu pai e os patrões, acaba por servir de esboço para uma tensão sobre a estrutura social que nunca se desenvolve nem se concretiza em uma análise maior.

Ao final, fica a sensação de que o filme é isso: um esboço. Ainda que interessante no uso de quase metalinguístico do vídeo como o meio e o testamento de algo que se acabou, há uma recusa por parte da diretora em aprofundar nos comentários políticos se delineiam. E da mesma forma como não leva a diante a crítica rascunhada, o flerte com o cinema de gênero que permeia o desaparecimento dos jovens jamais se concretiza e o mistério permanece um mistério. Os Jovens Baumann parte de um exercício de recriação do passado sem conseguir afetar o presente.

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