Os Miseráveis (Les Misérables/ 2012)

Assistido em 06/02/2013


Nunca li Os Miseráveis. Tentei em algum momento, lá pelos meus 12 anos mas desisti. O único nome gravei na época foi de Jean Valjean, um homem que roubou um pão porque o filho de sua irmã tinha fome naquela miserável Paris do início do século XIX. O que conheci da história posteriormente veio do filme de 1998, dirigido por Bille August e estrelado por Liam Neeson, Geoffrey Rush e Uma Thurman. No caso desse filme de 2012, dirigido por Tom Hooper, a adaptação não é feita diretamente do livro, e sim do musical homônimo. E eu achei que o fato de o filme ser musical fosse amplamente divulgado, mas na sessão em que o assisti, ouvi murmúrios de desconforto quando a primeira cena começou com Valjean (Hugh Jackman) cantando. Algumas pessoas saíram antes da metade.
Valjean cumpre a sua pena e é libertado, sendo alertado pelo rigoroso inspetor Javert (Russel Crowe) para viver na lei daí em diante. Mas Valjean decide fugir da condicional e obter um outro nome, começando, assim, uma nova vida. Após essa introdução, temos uma passagem de tempo e Valjean é agora um homem respeitado que se tornou prefeito. Esse arco da história diz respeito a Fantine (Anne Hathaway), a jovem que ao ficar sem emprego precisa vender seus cabelos e se prostituir para conseguir dinheiro e mandá-lo ao casal Thénardier, que cuida de sua filha. A atuação de Anne Hathaway está absolutamente pungente, numa entrega absurda. Impossível não se emocionar quando canta I Dreamed a Dream, mesmo depois de a música já ter sido exaustivamente utilizada nos trailers. Valjean salva Fantine das ruas e promete buscar sua filha, Cosette e cuidar dela daí em diante.
Em mais um passagem de tempo, temos Valjean já mais velho e Cosette (Amanda Seyfried) como uma jovem que se apaixona pelo estudante revolucionário Marius (Eddie Redmayne), enquanto Javert ainda está obstinado em prender novamente o fugitivo.
Muito se falou sobre o fato de Russel Crowe não ter se saído bem cantando em cena. Pelos comentários, pensei que iria ouvir interpretações sofríveis, mas o que vi foi ele fazendo o possível com a voz que tem. Quem estava muito fraca em cena, quase constrangedora, era Amanda Seyfried. Hugh Jackman, que tem uma bagagem em musicais desde a Austrália, se saiu muito bem. Uma personagem que gostei muito foi Eponine (Samantha Barks), que não conhecia direito por ter sido praticamente cortada da adaptação de 1998. Já havia lido muitas reclamações sobre isso e entendo porque: ela é uma das mais multifacetadas do último arco e a atuação de Samantha Barks (que já a interpretou nos palcos) estava fantástica e garantiu uma das melhores canções do filme.
Sobre o fato de as músicas serem gravadas no momento da filmagem, e não em estúdio, tive sentimentos mistos. Em várias cenas isso funcionou, especialmente quando havia algo de grandiosidade, mas muitas vezes os atores quase nem cantaram as letras, apenas falando-as de forma compassada. O resultado, nesses casos, não foi dos melhores.
Se eu fosse da equipe de design de produção do filme eu ficaria extremamente desapontada com o resultado final. A obsessão de Tom Hooper por closes me deixou incomodada. Na maior pate das cenas a câmera se grudou aos rostos dos atores (possivelmente para captar a emoção ao cantar) e mal se consegue ver os cenários e mesmo os figurinos. Em cenas como na pousada dos Thénardier, seria muito bom ter visto um plano mais geral, de tudo que está acontecendo. Mas não só nessa, em muitos momentos tentei perceber os cenários e o que obtive foi uma mancha borrada ao lado da cabeça da pessoa cantando. Fora isso, há alguma câmera na mão, tremida e muitas cenas filmadas com os personagens inclinados, na diagonal. Parece-me uma mistura de preguiça com vícios visuais. Mas é como foi dito em vários veículo: Les Mis é um bom filme APESAR do diretor, já que os pontos fortes estão na forte história de Vitor Hugo, nas músicas e nos atores, que estão fantásticos.

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As Docas de Nova York (The Docks of New York/ 1928)

Assistido em 05/02/2013 


(Obs: para o curso The Language of Hollywood: Storytelling, Sound, and Color; da Wesleyan University, disponível em coursera.org)
Praticamente um contraponto a Anjo das Ruas, Docas de Nova York é um filme cínico e cru, embora tenha a sua redenção. Já começa com os sujos trabalhadores de uma caldeira em navio que está aportando na cidade. Com a trilha sonora composta de forma sincronizada à imagem, praticamente podemos ouvir o barulho do navio aportando. Bill Roberts, um dos trabalhadores, salva uma moça que havia se lançado à água em uma tentativa de suicídio. Ele leva ela ao bar frequentado pelo pessoal do porto, que tem um hotel anexo. Com ajuda das mulheres dos bar, a moça é reanimada. Uma das mulheres era a esposa de outro homem do navio, que não o via há três anos. Os frequentadores são sujos, barulhentos (embora não possamos ouvi-los), briguentos, vulgares e beberrões. Bill e a mocinha resolvem se casar naquela mesma noite, mas com motivos diferentes. Ela quer se tornar uma boa esposa e aparenta não aguentar mais essa vida das docas e ele quer aproveitar a única noite em terra firme antes de retornar ao navio. O quarto da lua-de-mel tem paredes que não são paralelas e uma janela caindo para um lado, que abre para o mar cheio de gaivotas. Tudo é torto e ainda assim bonito, até os personagens, seres humanos falhos. Não é uma experiência de poesia transcendental como Anjo das Ruas, nem o uso do som integrado é tão perceptível, mas ainda assim, não deixa de ser um bom filme.

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Anjo das Ruas (Street Angel/ 1928)

Assistido em 05/02/2013


(Obs: para o curso The Language of Hollywood: Storytelling, Sound, and Color; da Wesleyan University, disponível em coursera.org)
A tarefa de assistir esse filme foi muito proveitosa. Anjo das Ruas é um filme de transição do cinema mudo para o cinema falado. Embora o filme ainda não tenha as falas propriamente ditas, ele já foi distribuído com o som, incluindo trilha sonora composta de forma sincronizada com as cenas, alguns ruídos e assobios (que possuem papel importante na história).
Trata-se de um melodrama em que uma jovem, Angela, com sua mãe doente, precisa ir às ruas se prostituir para conseguir pagar o remédio. Apesar disso sua mãe falece e ela se une a uma trupe de circo, tornando-se desiludida com o amor. Até conhecer Gino, um pintor de rua que pretende casar-se com ela. A trama se passa na Itália.
Visualmente o filme é muito bonito: apela para luzes e sombras quase expressionistas. A atriz encarna bem a beleza das mocinhas da década de 1920, com rostos delicados e boca pintada em forma de coração. A história, que tem uma pitada de simbolismo religioso, pode parecer piegas, água com açúcar ou exagerada se não desligarmos nosso cinismo do século XXI ao assistir. Eu fiz isso e mergulhei no que vi e me emocionei.
Mas o mais impressionante mesmo é o uso do som. Tudo parece perfeitamente sincronizado, mostrando emoções e ilustrando ambientes. Em nenhum momento os diálogos fazem falta. Nunca havia visto um filme dessa forma: os filmes mudos que eu assisti não possuíam som projetado para eles, apenas aquela trilha sonora genérica que deveria acompanhá-los. Foi uma experiência muito interessante e o filme vale a pena.

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A Malvada (All About Eve/ 1950)

Assistido em: 02/02/2013
(para ler ouvindo Bette Davis Eyes hahaha)
Bette Davis interpreta Margo, uma veterana atriz de teatro um tanto quanto amarga, que chegou aos 40 anos com uma carreira de sucesso e um namorado oito anos mais jovem. Ele é diretor da peça em que atua. Sua amiga Karen, a esposa de um roteirista renomado, a apresenta a uma fã, a aspirante a atriz Eve (Anne Baxter). Eve é doce, bonita e prestativa e logo se torna sua assistente. Mas ela quer mais mais: quer brilhar nos palcos e ser a estrela. É um interessante retrato do bastidores do teatro, em uma época em que o cinema tomava o lugar deste. Acredito que Bette Davis nunca esteve tão bem em cena, nem mesmo em Jezebel, que eu adoro. As cenas em que está bêbada em uma festa são fantásticas. Marlilyn Monroe também aparece, interpretando uma personagem secundária, Miss Casswell, outra aspirante a atriz, e rouba a cena quando está presente. Eu tendo a achar suas interpretações fracas, mas é impressionante sua presença de tela aqui, três anos antes de estourar em Os Homens Preferem as Loiras. O figurino de Edith Head é, como sempre, extremamente competente. Até hoje A Malvada detém, juntamente com Titanic, o recorde de indicações ao Oscar. São 14 no total: ator coadjuvante (George Sanders), figurino em preto e branco, direção, filme, mixagem de som, roteiro, duas para atriz (Bette Davis e Anne Baxter), duas para atriz coadjuvante (Celeste Holm e Thelma Ritter), direção de arte em preto e branco, fotografia em preto e branco, montagem e trilha sonora. Foi premiado nas seis primeiras. Percebe-se a força do elenco, especialmente feminino e diz-se que Bette Davis não ganhou por ter dividido votos com Anne Baxter. Vale a pena assistir.

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Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men/ 1957)

Assistido em: 02/02/2013


Dirigido por Sidney Lumet e protagonizado por Henry Fonda, Doze Homens e uma Sentença é um tenso filme sobre julgamento, em que um rapaz é acusado de ter assassinado o próprio pai e os doze jurados do título devem decidir se ele será condenado à morte ou se é inocente. Qualquer que seja a decisão, deve ser unânime. Não nos é falado nada sobre o acusado, apenas que pertence a alguma minoria étnica e veio de uma favela. Os jurados são todos homens brancos e sem nome, mas são identificados por suas profissões com o desenrolar das discussões. Passado inteiramente na salinha de votos, que transmite plenamente a sensação de claustrofobia e calor, o filme possui ótimos diálogos e apela à nossa capacidade de criar empatia com as pessoas. À época foi indicado três Oscars (filme, direção e roteiro adaptado) e atualmente ocupa o número 6 no Top 250 do IMDB. Possui uma regravação de 1997, dirigida por William Friedkin e estrelada por Jack Lemmon, mas não sei dizer o quão boa é, por nunca ter assistido.

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