Gilda (1946)

Assistido em 30/01/2013


Nunca houve uma mulher como Gilda. Esse é o slogan do filme noir homônimo e é totalmente compreensível. Apesar de ter uma trama que envolve cassinos e cartéis na Argentina (embora os protagonistas sejam americanos), o que realmente importa na história é ela. Interpretada com intenso magnetismo por Rita Hayworth, a sensualidade da personagem é impressionante.
A história começa com o dono de cassino Ballin Mundson, que conhece o trapaceiro profissional Johnny Farrell e o convida para trabalhar com ele. Johnny se torna gerente do cassino e homem de confiança de Ballin. Há uma certa carga de homoerotismo entre os dois homens, fato que já gerou muitos debates e levou os responsáveis a falarem que na época eles não perceberam que essa imagem estava sendo criada. Nesse momento do filme eles fazem um brinde “aos três” (Ballin, Johnny e a bengala de Ballin que esconde uma arma) e falam sobre como mulheres não são confiáveis.
Mas eis que Ballin viaja e ao retornar está casado com Gilda, que, coincidentemente, já havia sido um amor no passado de Johnny. À partir daí se configura um triângulo amoroso cheio de tensão entre todas as partes. Gilda é uma mulher livre, que já se apaixonou e se machucou e resolveu viver a vida sem amarras. Ela dança com quem quer, sai com quer, faz o que quer, desde que lhe dê prazer. Johnny tenta lidar com isso, escondendo tudo de Baillin para que ele não se magoe. Em determinada cena ela pede ajuda ao marido para fechar seu vestido e fala “Nunca consigo fechar um zíper  Talvez isso signifique alguma coisa, o que você acha?”. Aliás, todos os diálogos são afiadíssimos e cheios de subtextos necessários devido à censura da época.
O filme ainda conta com a icônica cena em que Gilda canta a música Put the Blame on Mame (que se tornou enorme sucesso nos EUA) enquanto insinua um striptease, tirando… uma luva! Só Gilda/ Rita mesmo… Apesar disso tudo o final da história tenta atenuar todos os acontecimentos, de maneira a “consertar” a personagem para o que seria o padrão da época. Uma pena, mas não anula o efeito geral do filme.
Sobre o figurino , percebe-se que quase todos os trajes utilizados por Rita em tela possuem algum tipo de drapeado ou laço na região da barriga. Em algumas cenas de corpo inteiro ela está se ocultando, ora segurando um casaco contra o corpo, ora um violão. Ao procurar o motivo, as fontes divergem: alguns dizem que Rita estava grávida à época da filmagem e outros que ela havia recém dado à luz à sua primeira filha e ainda não tinha voltado à forma anterior. De qualquer forma, todas as roupas são belíssimas.
Rita Hayworth se estabeleceu como uma das mais importantes pin ups na época da segunda guerra. Um cartão postal com uma foto sua, ajoalhada na cama, de camisola, foi o segundo mais vendido naquele período, com 5 milhões de cópias. Mas para chegar ao sucesso, ela precisou se dobrar às decisões dos estúdios. Rita, nascida Margarita Carmen Cansino, tinha pai espanhol e dançarino. Desde pequena ela apendeu a dançar e se apresentava nos palcos. Aos 15 anos foi descoberta pela Fox e contratada, Mas o sucesso nunca vinha, pois era sempre colocada em papéis estereotipados. A Fox deixou o contrato expirar e ela foi para a Columbia Pictures. Eles mudaram seu nome, fizeram procedimentos que envolviam queimar o folículos capilares para mudar a linha do cabelo e aumentar sua testa, e por fim, tingiram seus cabelos negros de ruivo, deixando-a menos “latina”. Ou seja, não é de hoje que as atrizes precisam se dobrar a padrões estéticos, especialmente racistas, para sobreviver ao mercado. Após essa dolorosa transformação, amplamente divulgada na época, nasceu Rita Hayworth.

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Muito Além do Peso (2012)

Assistido em 28/01/2013
Quando eu era criança a gente comia muita fruta do pé e pão feito em casa. Brincava no jardim ou passava a tarde vendo desenho, mas não passivamente sentado. Pegava os brinquedos e espalhava na sala enquanto a TV estava ligada. Lanchinho da tarde era tomate, cenoura, maçã, banana espinafre e, eventualmente, alguma bolacha. Laranja, era pelo menos umas duas por dia. Iogurte era raro, chocolate era só na Páscoa, Natal e aniversário e refrigerante só no almoço de domingo. Fast food mal tinha chegado no interior longe demais das capitais. Por isso esse documentário, que fala sobre a epidemia de obesidade infantil, choca tanto. Realizado pelos mesmos produtores do ótimo Criança, a Alma do Negócio, ele volta a fazer a relação entre a publicidade voltada para crianças e os seus hábitos de consumo. A maneira covarde com que a publicidade apela para a falta de entendimento de realidade das crianças e o apelo dos brinquedinhos e personagens que acompanham os alimentos industrializados é notável. As crianças comem marcas. E isso em todas as regiões do país e todas as classes sociais. O documentário chega a entrevistar pessoas em Manaus e mostrar famílias no interior do Amazonas, onde frutas são muito raras e caras e salgadinhos chegam a preços baixíssimos. Os pais dizem que os filhos pedem, choram, esperneiam e eles acabam dando. As propagandas martelam incessantemente e de maneira desonesta. Refrigerante virou bebida diária, fritura é o lanchinho da tarde, salgadinho ou miojo é almoço, fast food se come toda semana. Imitando um método que o chef Jaime Oliver, ativista pela melhoria da alimentação das crianças tanto na Inglaterra, como nos Estados Unidos, usa em seu programa de TV, os entrevistadores usam a tática de mostrar frutas e verduras para as crianças e perguntar o que era. Um pimentão é chamado de abacate. Um chuchu também. Elas dizem adorar batatinha chips de pacotinho, mas ao ver uma batata in natura perguntam se é uma cebola. Assustador. E os resultados logo aparecem: diabetes, pressão alta, dificuldade para respirar, dor nas articulações e diagnósticos dignos de pessoas idosas. Enfim, está mais do que na hora de regular a publicidade voltada para o público infantil.

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A Guerra Invisível (The Invisible War/ 2012)

Assistido em 28/01/2013


Esse documentário, indicado ao Oscar nesse ano, nos apresenta as assustadoras estatísticas de violência sexual no exército americano e todo o sistema que acoberta os crimes e pune quem denuncia. Dados impressionante nos são apresentados, como mais de 20% das veteranas já sofreram algum tipo de violência sexual e em torno de 15% dos soldados já entram no exército com histórico de estupro ou agressão. Isso significa que é mais provável uma militar ser estuprada por um colega do que ser morta em combate. Os crimes não podem ser apresentados em corte civil, e sim devem ser denunciados para o comandante direto das vítimas. Dos casos não denunciados 33% não o são porque o comandante é amigo do responsável e 25% porque ele é o responsável. Grande parte das mulheres que denunciam passam por investigações, represálias ou punições. Os depoimentos de de vítimas e familiares são difíceis e o pior é saber que não haverá nenhum tipo de justiça.

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Objectified (2009)

Assistido em 27/01/2013
Um ótimo documentário sobre o design dos objetos ao nosso redor e nossa relação com eles, a importância do design, o uso dele como argumento para agregar valor, a importância de pensar no usuário e a atual preocupação com a sustentabilidade. Muito bom para quem se interessa pelo assunto.

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Lincoln (2012)

Assistido em 27/01/2013
É difícil escrever sobre Lincoln, novo filme de Steven Spielberg. É difícil pensar em como a soma de partes muito boas resultem em um filme tão… tão… hmmm, não chega a ser ruim, mas não desperta nada! É o típico “filme de Oscar”: dramalhão de época, grandes heróis, trilha sonora grandiosa, fotografia belíssima e atuações de primeira. Não se trata de uma biografia do presidente americano, mas sim um recorte de um período específico, logo após sua reeleição, em que estava tentando aprovar a 13ª Emenda, que acabava com a escravidão no país. Embora o filme tente humanizar o presidente, mostrando as brigas com sua esposa, a dificuldade em se relacionar com o filho mais velho e mesmo o esquema de propinas e ofertas de cargos que ele precisou usar para conseguir a aprovação da emenda, ainda assim a sua figura aparece por demais mítica, honrada e perfeita. Spielberg tende a se perder no drama apelativo quando resolve fazer um filme mais “sério”. Apesar de muita gente gostar, tenho problemas sérios em relação a isso com A Lista de Schindler, por exemplo. O excesso de idealização e açúcar de lá se repete aqui. A interpretação de Daniel Day-Lewis como personagem-título é ótima, criando uma voz calma e modulada e uma postura cansada para ele. Sally Field, como Molly, sua esposa, está muito bem também, nas poucas cenas que aparece. Joseph Gordon-Levitt, interpretando Robert, o filho mais velho de Lincoln, me pareceu um tanto quanto deslocado na história e talvez desperdiçado. Tommy Lee Jones também se destaca. Como falei, a fotografia é muito boa e opta por planos mais largos e um belo esquema de iluminação de ambientes internos. A trilho sonora às vezes quer ser tão grandiosa que se sobressai demais em certas cenas. Também achei que as poucas tentativas de alívios cômicos foram desnecessárias. Mas apesar de suas 2 horas e meia de duração, o filme transcorre bem. No final foi aquele filme em que, ao sair do cinema, ninguém sabia o que comentar, porque não há muito o que se falar. Sobre o Oscar, está indicado a melhor Filme, Direção, Ator (Daniel Day- Lewis), Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Montagem, Trila Sonora, Design de Produção (antiga Direção de Arte) e Mixagem de Som. Vale a pena ver pelas atuações.

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