[43ª Mostra de São Paulo] Uma Colônia (Une Colonie, 2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Vindo na esteira de filmes como Quase Dezoito (Edge of Seventeen, 2016), e Oitava Série (Eight Grade, 2019), Uma Colônia é um filme de coming of age que tem essa proposta de tratar a adolescência com mais proximidade e realismo do que filmes de gerações passadas. A diretora e roteirista Geneviève Dulude-De Celles é a responsável pela obra, cuja protagonista Mylia (Emilie Bierre) é uma garota que ingressou no ensino médio e por isso trocou de escola. Agora tem que lidar com sua própria timidez e a dificuldade de se encaixar entre as outras meninas, isso enquanto o casamento dos pais está acabando. A câmera na mão, quase sempre próxima da personagem, transmite um senso de inquietação e desassossego, traços de personalidade capturados em momentos que ela esfrega seus dedos nervosamente em grades ou janelas.

Mylia não consegue interagir com naturalidade com as outras meninas. A expressão corporal da atriz, com ombros retraídos e cabeça baixa, é significativa. Suas colegas são retratadas como jovens que usam esmaltes coloridos, maquiagem marcada, vão à festas à fantasia vestidas como ídolos pop e têm suas primeiras experiências de cunho sexual com garotos. Parece haver um certo ressentimento por parte da diretora com meninas como essas, pois recai sobre elas um julgamento sobre seu comportamento. O adjetivo “putas” chega a ser utilizado sem que haja qualquer refutação, mesmo se tratando apenas de modos diferentes de viver a adolescência.

A irmã de Mylia, Camille, é um adorável contraponto à sua inadequação social. A jovem atriz Irlande Côté entrega a personagem com doçura espevitada na medida certa. Sobre Mylia, no final das contas, pouco sabemos. Sua personalidade é uma incógnita e não fica claro que tipo de atividades lhe interessam.

Mas sua vida realmente muda quando quando fica amiga de Jimmy (Jacob Whiteduck-Lavoie), um menino indígena que estuda em sua classe e é ainda mais excluído das rodas sociais, não por vontade própria. Mesmo na escola, local que deveria ser, em tese, institucionalmente acolhedor, Jimmy precisa lidar com livros racistas no retrato dos povos indígenas e tem pouca ou nenhuma abertura do corpo docente para abordar o tema.

Há um discurso sendo discutido no filme a respeito da sobrevivência dos mais forte. Mylia começa pronta a aceitá-lo, usando uma das galinha de Camille, morta pelas demais, como exemplo. Depois, confrontada com a humanidade presente em uma escola maior, onde a diferença faz parte da rotina, mas ainda assim é segregada (como as garotas com síndrome de down sentadas sozinhas no pátio), sua postura parece mudar.

No final das contas, com todos os seus privilégios e seu isolamento auto-imposto, Mylia acaba por ser uma protagonista excessivamente exemplar, dentro dos padrões. Por outro lado, Jimmy, de quem pouco sabemos sobre sua vida e seu contexto familiar, embora utilizado largamente como token, talvez fosse um personagem mais interessante para ser protagonista de um filme que pretende retratar o outsider. De qualquer forma Uma Colônia, vencedor do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation Kplus no Festival de Berlim,instiga uma reflexão sobre os resultados dos processos coloniais e o faz com grande sensibilidade.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela (Merata: How Mum Decolonised the Screen, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Merata Mita foi uma mulher fascinante. Além de ativista, vocálica quando se tratava, principalmente, das questões de gênero e dos direitos indígenas, foi a primeira mulher maori a dirigir um longa metragem na Nova Zelândia, década de 1970, isso enquanto criou seus seis filhos. Seu trabalho rompeu as barreiras nacionais e a tornou conhecida em todo o mundo. O documentário que carrega seu nome, Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela, foi dirigido por seu filho mais novo, Hepi Mita.

A narração em off do diretor estreante já avisa: todas as imagens dos filmes dela, para ele, são como memórias, porque estava lá quando elas foram registradas. Esse filme, por sua vez, se beneficia da enorme quantidade dessas imagens, sejam caseiras, sejam dos filmes realizados pela cineasta, a que o jovem teve acesso, tanto por trabalhar como arquivista como pela proximidade familiar.

Merata, em imagens de arquivo, fala do desejo por indigenizar as imagens e de não fugir de temas espinhosos do país. Para ela era necessário abordar assuntos que dividiam a Nova Zelândia, especialmente o racismo contra os maori e a brutalidade policial, uma vez que esses assuntos também dizem respeito não só a eles, mas a todo lugar que foi colonizado e tudo lugar colonizador, como um legado com o qual ainda é preciso lidar.

Justamente pelo enorme interesse que o trabalho da diretora desperta é que o documentário frustra, em certa medida, quem o assiste. Talvez por não ter o distanciamento que precisaria para lidar com o seu objeto, o diretor não deixa claro aspectos cronológicos e parte da carreira dela, especialmente em Hollywood, em que pouco contexto foi dado para o que ela estava realizando.

Por outro lado, naturaliza seu trabalho como se não fosse fruto de um esforço intelectual da parte dela e nascesse da forma como foi apresentado ao mundo. A maternidade, por sua vez, é enaltecida constantemente por ele e seus irmãos, que reforçam o fato de que ela gostava de ser uma mãe. Tal fato deve ser verdade, mas é colocado quase como contraponto a sua carreira, o que faz com que a proposta do filme por vezes pareça a auto-sabotagem.

Por sorte, Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela se vale de uma protagonista que desperta interesse o suficiente para se sobrepôr aos pequenos problemas de execução dele mesmo. É impossível não sair do filme querendo ver cada um dos filmes de Merata.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
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[43ª Mostra de São Paulo] Wasp Network (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Havana, 1990. Um piloto de avião, René Gonzales (Edgar Ramírez) despede-se de sua esposa Olga Salanueva (Penelope Cruz), como todos os dias, corta os contatos da torre de controle e toma um avião com que viaja abaixo da linha dos radares até Miami. Lá chegando, afirma que em Cuba tudo falta: eletricidade, comida, o básico (mas não menciona que isso acontece apenas em virtude do embargo imposto pelos Estados Unidos). Ele é rapidamente abordado pela chamada Fundação Nacional Cubano-Americana, que em tese se propõe ajudar cubanos que queiram sair do país. A entidade lhe oferece um emprego que consiste em sobrevoar os mares e, caso aviste algum bote, passar as coordenadas para que possam ser auxiliados. Já Olga tem que criar a filha sozinha por anos, enquanto ouve reiteradamente que ele é um desertor e traidor da nação.

Pouco tempo depois, Pablo Roque (Wagner Moura), um oficial da aeronáutica do país, separa alguns documentos e nada de Caimanera até a base militar estadunidense na baía de Guantánamo. Afirma aos oficiais do local que cansou da escassez de comida e é presenteado com um hambúrguer do MCDonalds. Rapidamente se torna famoso e amigo de René. Pergunta a um primo que já mora em Miami se ele quer entregar pizza ou enriquecer, sem dar conta de que, nesse contexto, alguém teria que entregar pizza e esse não é um trabalho bem remunerado naquela terra.

Wasp Network (Rede Vespe, em livre tradução) escrito e dirigido por Olivier Assayas, conta a história real desses e outros dissidentes cubanos, relatada no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, de onde foi adaptado. Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2019, ele se destaca pelo elenco de talentos “panamericanos”, na definição do produtor Rodrigo Teixeira. Aos nomes já citados, somam-se Gael García Bernal, Ana de Armas e Leonardo Sbaraglia.

O filme logo revela que não só ajuda humanitária movimentava a FNCA, mas também o tráfico de drogas e as ações terroristas anti-castristas visando enfraquecer a economia cubana e, consequentemente, o governo, para derrubar o regime, que não acreditava-se que sobreviveria tanto tempo ao fim da União Soviética. Além disso, há o trabalho do FBI de recrutar dissidentes para saber o que se passa dentro da comunidade cubana, muito melhor remunerado até mesmo que aquele realizado para o tráfico. Conflitos éticos e ideológicos emergem.

Quando o filme chega à sua metade, acontece uma grande reviravolta em formato de flashback explicando e situando cada um dos personagens. A trama política que até então era bastante simples, embora nem sempre clara, se complexifica no que aparenta ser um elaborado esquema de espionagens de diversos lados. Nem todas as atrizes e todos os atores são aproveitados em pleno potencial, mas o ar setentista e o clima de incerteza, de multiplicidade de lados e interpretações e a ambiguidade do jogo de espiões torna a narrativa ainda mais interessante.

Apesar do tema complexo, Assayas consegue garantir uma certa ambiguidade ideológica, que faz com o filme não seja simplista quando se trata da política que aborda. Mesmo assim é difícil não dar razão a Fidel Castro, que diz, em uma imagem de arquivo utilizada na película que o país mais espionador no mundo acusa o mais espionado.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
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[43ª Mostra de São Paulo] Papicha (2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Em 1992 começou a guerra civil na Argélia, que se intensificou no final da década e durou até 2002. O Grupo Islâmico Armado (GIA) foi o responsável por uma série de ações e atentados terroristas que visavam a derrubada do governo e a instauração de um que fosse teocrático. Papicha, que concorreu na Mostra Um Certo Olhar, em Cannes e é escrito e dirigido por Mounia Meddour, se passa em Argel justamente no ano de 1997, quando as ações se intensificaram.

Baseado em eventos reais, o filme cria uma amálgama desses relatos em torno de um grupo de jovens universitárias, centrado em Nedjema (Lyna Khoudri). Elas tentam levar uma vida normal, que inclui sair escondidas do campus onde fica seus dormitórios e dançar na cidade. Nedjema costura vestidos e vende-os para outras frequentadoras da balada. Apesar da falsa normalidade dessa rotina, ela não é sem sobressaltos, uma vez que carros são parados e revistados nas ruas e há a necessidade de pagar pelo silêncio do vigia da universidade.

Além de Nedjema, o grupo é composto por Wassila (Shirine Boutella), uma garota que se apaixona por um rapaz que considera universitárias mulheres sem moral, sem saber que ela mesma é uma estudante; e Samira (Amira Hilda Douaouda), jovem devota que vai se casar com um homem escolhido pelo irmão, mas, apaixonada por outro, descobre-se grávida.

Com a escalada da violência e do conservadorismo, espalham-se cartazes instruindo quais devem ser as roupas utilizadas pelas mulheres, com o argumento de que “sua imagem é valiosa para nós”. A universidade passa a ser um espaço de tensão, com o ensino em língua francesa (do colonizador), os hábitos e os conhecimentos compartilhados entre mulheres.

Enquanto a Argélia, na definição de um personagem, se torna uma grande sala de espera, onde todos querem ir embora, o filme destaca a intimidade, a união, o cuidado e a delicadeza com que as mulheres ajudam umas às outras. Como ele é composto por um apanhado de diversas histórias, às vezes parece que a concentração de eventos danosos em torno das protagonistas é excessivo, mas isso é compensado pela força colocada nessas relações.

A irmã de Nedjema, Linda, um jornalista, é assassinada. A violência não é retratada, mas filmada sem profundidade de campo, com a reação da protagonista em foco no primeiro plano explicitando o choque de testemunhar. Nedjema quer lidar com o luto por meio de sua costura e desafiar os opressores com um desfile de moda, em que todas pudessem desfrutar do próprio corpo e se divertir. Ela usa a técnica do moulage e haiks como base para as peças. Costura é arte, resistência, expressão e cultura. A máquina de costura é uma ferramenta de construção de autonomia. A fotografia destaca a beleza dos grandes cortes de tecidos circundando as personagens, presos nas paredes, balouçando ao vento nos varais. Em tempos em que o conservadorismo avança, a truculência predomina e temos que lidar com nossa própria versão de um uma proto-teocracia, Papicha emociona, indigna, mas também inspira.

Nota 4 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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[43ª Mostra de São Paulo] Head Burst (Kopfplatzen, 2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Head Burst não é um filme simples, nem fácil. A sinopse pode repelir quem porventura pretende assisti-lo: trata-se da história de um jovem arquiteto chamado Markus que é pedófilo. Em conflito com seus desejos, ele sente atração sexual por meninos, mas tenta se afastar dos constantes pensamentos que o envolvem. Apesar do tema complicado, o diretor e roteirista Savas Ceviz parece dar conta de lidar com a narrativa que se propõe criar.

Pouco sabemos sobre a vida do protagonista: sua rotina inclui o trabalho em um escritório, que não é mostrado em detalhes; e uma academia onde treina boxe, aparentemente como forma de extravasar. Ele recusa convites de colegas do trabalho e da academia para sair e mantém-se isolado em uma casa vazia, moderna e minimalista. A princípio não vemos família ou amigos próximos. Tudo é solitário e distante.

Markus procura ajuda com um médico que não está disposto a lidar com sua doença. Nessa hora o filme não se poupa de causar incômodo em quem o assiste. Mostra que ele se masturba em frente ao computador e apesar de não mostrar o que observa na tela, o espectador pode deduzir. A fotografia de Anne Bolick se destaca. Com planos distantes e uma câmera que se movimenta lentamente, acompanha o personagem em suas atividades mantendo o mesmo senso de distanciamento que temos em relação a elas. Por outro lado, os meninos são filmados muitas vezes em closes, enquadrando olhos, pescoços, orelhas e boca, transmitindo o ponto de vista do protagonista. Nesse momento o diretor cria um ambíguo jogo entre o olhar da câmera, do personagem e do espectador, que se caracteriza pela banalidade das imagens que são retratadas sem erotismo e o asco que provoca a certeza de que essa não é a percepção de Markus.

Apesar do enorme desconforto causado pelo desenrolar da trama, a vergonha e o nojo de si que o protagonista tem está sempre presente. É significativa a cena em que Markus vê a irmã e atrás dela, na parede, um enorme crucifixo que indica o peso da culpa do personagem. O paralelo entre ele e um lobo que costuma visitar em um parque indica que o homem é o lobo do homem, mesmo quando se trata dele mesmo.

Mérito precisa ser dado para o ator Max Riemelt (de Sense8), pela coragem de assumir um personagem facilmente desprezável e pela intensidade que imprime ao papel. O filme acerta ao diferenciar a doença do abuso sexual propriamente dito e ressaltar a busca por acompanhamento psicológico como uma opção viável. Por outro lado, o desenrolar não parece dar muitas saídas para Markus. Mas Head Burst se abstém de entregar uma só resposta ao final.

Nota: 4 de 5 estrelas
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