Melhores documentários assistidos em 2018

Pela quarta vez eu elaboro essa lista contendo os melhores documentários assistidos no ano, que por algum motivo nem entram na lista de melhores filmes nem abarcam somente lançamentos. Por que separá-los dessa fora? Bom, primeiro porque gosto muito de documentários, mas principalmente porque sim, porque é mais fácil de elaborar a lista de melhores do ano e facilita minha vida assim. A lista abaixo está grosseiramente ordenada por preferência e está disponível no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast estão devidamente linkados.

A Valsa de Waldheim (Waldheims Walzer, 2018)

Direção: Ruth Beckermann

Half the Picture (2018)

Direção: Amy Adrion

Nitrate Kisses (1992)

Direção: Barbara Hammer

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000)

Direção: Agnès Varda

Lampião da Esquina (2016)

Direção: Lívia Perez

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava (2018)

Direção: Fernanda Pessoa

Won’t You Be My Neighbor? (2018)

Direção: Morgan Neville

O Processo (2018)

Direção: Maria Augusta Ramos

Bombshell: The Hedy Lamarr Story (2017)

Direção: Alexandra Dean

Jane: a Mãe dos Chimpanzés (2017)

Direção: Brett Morgen

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Melhores Livros Lidos em 2018

Essa lista vai beirar o vergonhoso, porque tenho lido cada vez menos livros e cada vez mais artigos e capítulos soltos que não computam como leituras “reais”. Mas vou tentar, seguindo as categorias que uso todo ano.

Ficção

Orlando- Virginia Woolf

O livro conta a história de um jovem nobre inglês nascido no século XVI que um dia acorda como mulher. A história cobre vários séculos e tem um texto recheado de sarcasmo e humor, lidando com várias questões, especialmente de gênero, por meio do fluxo de consciência da personagem principal. Produzi um episódio especial do Feito por Elas que compara o livro com a adaptação para o cinema dirigida por Sally Potter, que é um dos meus programas preferidos até agora.

Não-Ficção

Políticas do Sexo- Gayle Rubin

O livro é composto por dois artigos seminais, “O tráfico de mulheres” e “Pensando o sexo”, que, mesmo décadas depois da sua primeira publicação, continuam provocativos. No mínimo será uma leitura interessante para quem pegar ele nas mãos.

Quadrinhos

Crônicas de Jerusalém- Guy Delisle

Já havia lido as Crônicas Birmanesas (muito bacanas) e Pyongyang (mais ou menos) do mesmo autor. Mas esse se revelou seu melhor quadrinho, em minha opinião. Cartunista e animador, sua esposa trabalha na organização Médicos Sem Fronteiras e por isso ele mora em lugares diferentes do mundo e transforma essa experiência em relatos pessoais. Esse conta o ano em que moraram na região da Palestina ocupada, as dificuldades cotidianas, os estranhamentos e as experiências e aprendizados que o local proporcionou.

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As Viúvas (Widows, 2018)

Baseado na minissérie britânica As Damas de Ouro (Widows, 1983), As Viúvas é o quarto longa do diretor Steve McQueen, que escreve o roteiro em parceria com Gillian Flynn. As protagonistas são Veronica (Viola Davis), Linda (Michelle Rodrigues), Alice (Elizabeth Debicki) e Amanda (Carrie Coon), cujos maridos, liderados por Harry Rawlings (Liam Neeson) morreram na explosão de uma van utilizada em um roubo.

Logo na primeira sequência a montagem contrasta a calmaria doméstica com o caos nas ruas. O relacionamento harmonioso de Harry e Veronica vai até o limite das atividades realizadas por ele: embora ela pareça saber de onde vem o dinheiro que sustenta o padrão de conforto em que vivem, prefere não ter detalhes e nem se envolver com elas. Vê-se obrigada a fazer isso quando a morte de seu marido revela uma dívida referente aos dois milhões de dólares que foram queimados juntos com a explosão e que serão cobrados por quem é devido.

Aqui a narrativa revela funcionar na estrutura do sub-gênero de filme de assalto: cada uma das mulheres terá que usar seus conhecimentos e habilidades para conseguir criar o último golpe planejado por seus maridos. Mas nenhuma delas tem experiência nessas atividades, ao contrário de outros filmes do sub-gênero em que são especialistas executando o plano. Apenas Veronica, Alice e Linda optam por dar continuidade às açõe e elas utilizam dos próprios esterótipos com que são enxergadas para conseguir o que precisam. Dessa forma, Linda apresenta-se como uma mulher latina subserviente em certo momento e em outro Alice passa-se por uma noiva de polonesa de encomenda. Se é isso que a sociedade espera delas, é isso que elas serão se for preciso. Nesse sentido a escrita de Flynn mostra-se essencial, já que está acostumada com a construção de mulheres protagonistas diversas, questionáveis, multifacetadas e nada simples, como as que aqui aparecem. E os pequenos detalhes ocultos nos diálogos contam muito, como quando Jack diz a Veronica “Antes de morrer?”, em um ato falho que revela mais do que deveria.

Além do roteiro, a força das atuações se destaca. Debickis é quem consegue conferir mais camadas à sua personagem, mas Viola Davis encarna com perfeição sua Veronica, de maneira sisuda, mas com ímpetos de emoção quando necessário. Daniel Kaluuya, que interpreta Jatemme Manning, por sua vez, faz dele um vilão explosivo que rouba a cena quando aparece, com destaque para o longo plano em que a câmera rodeia ele e dois rappers enquanto interagem, abrindo espaço para sua reação assustadora.

A trama fica mais interessante quando mistura as questões políticas locais, como a eleição para o cargo de vereador que tem como candidatos Jamal Manning (Brian Tyree Henry) e Jack Mulligan (Colin Farrell), a criminalidade que perpassa essa mesma política a tensão constante provocada pela violência (incluindo policial) de cunho étnico-racial e de classe e a cidade de Chicago como um todo, em que, como diz um personagem certa hora, nepotismo não é ilegal, é celebrado. A câmera de McQueen passeia sem pressa em um longo plano em que Jack volta para sua casa vindo do distrito para o qual é candidato. Ela não está posicionada dentro do carro e por isso a conversa que ela capta deixa de ter importância. O que importa são as casas que rodeiam as ruas, que começam pequenas e miseráveis e vão-se expandindo até tornarem-se verdadeiras mansões conforme se faz a transição para o bairro em que realmente mora.

Veronica, Linda e Alice são mulheres inteligentes que sabem que precisam sobreviver em um mundo de homens desprezíveis. Ao final, são mulheres no espelho umas das outras, conectadas por acontecimentos absurdos. Em As Viúvas, McQueen cria um filme que não se furta de ser cinemão, eletrizante e hipnótico, mas o destaca de tantos outros pela qualidade de sua direção e pela dimensão conferida ao roteiro de Flynn.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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42ª Mostra de São Paulo- Poderia Me Perdoar?

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

O ano é 1991. Lee Israel é uma autora de livros biográficos de moderado sucesso, que nunca se estabeleceu como uma figura importante no mercado. Até que resolve mudar suas práticas profissionais e fica tão famosa por isso que sua autobiografia, Poderia Me Perdoar?, é adaptada para o cinema em 2018. O roteiro é de Nicole Holofcener e a direção fica por conta de Marielle Heller (de O Diário de uma Adolescente).

Israel é interpretada Melissa McCarthy, que se entrega ao papel sem maneirismos e, com ajuda do figurino, que nos joga diretamente para essa passagem entre décadas e constrói a personagem de maneira tridimensional. Ela é uma mulher de cinquenta e um anos, ranzinza, que gosta de ficar sozinha, não tem paciência para lidar com as demais pessoas e vive com seu gato em um, apartamento grande, decadente e triste. Recusa convites para eventos de colegas, mas quando vai, é para cobrar trabalho de sua agente, que a lembra de sua irrelevância no mercado, não deixa de revirar os olhos diante do pedantismo que enxerga em seus companheiros de profissão. As dívidas se acumulam, seus poucos pertences, que são livros, não valem quase em sebos.

É quando tem uma ideia: acostumada a pesquisar com profundidade a vida de celebridades a ponto de saber seus trejeitos e estilos de escrita, datilografa uma carta falsa entre famosos e descobre que objetos como esse valem uma fortuna. Daí para frente elabora com esmero e humor diversas cartas, fazendo-as circular entre vendedores de memorabilia. Além de Israel, participa da ação Jack Hock, seu amigo e comparsa, interpretado por Richard E. Grant com ares de canastrão e uma certa melancolia pontuada de acidez.

As pessoas estão dispostas a pagar por algo que sintam que as aproximem de seus ídolos. Katherine Hepburn, Noël Howard, Dorothy Parker: as cartas voam da máquina de escrever e o dinheiro flui. É interessante pensar como funciona a mentalidade humana em torno de uma obra. A estátua de Davi, de Michelangelo, por exemplo, exposta na Piazza della Signoria em Florença é, na verdade, uma réplica. Mas nada disso importa e diariamente centenas (milhares?) de pessoas posam para fotos diante dela. O que importa é o senso de autoria, é a percepção de estar diante de algo grandioso e histórico. O que Lee Israel vende é essa historicidade aliada à sensação de espiar a intimidade de alguém famoso. Ela é auxiliada pelo culto à celebridade e pela fascinação projetada sobre famosos. Não necessariamente o que se quer é a verdade. O que importa não é a autoria, mas a ideia que o objeto é capaz de projetar.

Nesse sentido, Israel usa as regras do próprio jogo para ganhar nele, não, claro, livre de punição posterior. Poderia Me Perdoar? atrai, em grande medida, pelo tratamento conferido a seus protagonistas e o resultado é uma biografia interessante e divertida.

Nota: 4 de 5 estrelas

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42ª Mostra de São Paulo- Cafarnaum

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. (Mateus 11:23)

Depois dos belos Caramelo (Sukkar banat, 2007) E Agora Onde Vamos? (Et maintenant on va où?, 2011) era natural a ansiedade que um novo filme de Nadine Labaki causaria. Suas obras anteriores eram centradas em vivências diversas de mulheres libanesas, mostrando que elas se saem melhores quando unidas. Cafarnaum (Capharnaüm), por sua vez, chega validado pelo Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Novamente usando seu país natal como cenário para a trama, dessa vez seu foco se volta para uma criança. Zain (Zain Al Rafeea) tem doze anos e está processando os próprios pais por terem colocado ele no mundo.

O filme quase todo se passa em um flashback  que apresenta os acontecimentos que levaram o menino a essa ação extrema. Nascido em um lar mergulhado na pobreza, ele mora com os pais e uma escadinha de irmãos em um minúsculo apartamento em condições precárias, cedido pelo dono de um mercadinho. Aquela vizinhança desolada poderia ser em qualquer lugar do mundo em que a desigualdade social é assim avassaladora. Álcool, sexo sem privacidade, cigarro, lixo, falta de comida, problemas na estrutura da moradia e outros elementos são usados para frisar a precariedade da situação da família e das redondezas.

Zain não pode estudar, porque tem que trabalhar no mercado e como vendedor na rua, além de cuidar dos irmãos mais novos. Depois que se descobre que Sahar (Haita ‘Cedra’ Izzam), a irmã de quem é mais próximo, menstruou, ela é dada em casamento, para desespero do menino. Quando ele a vê arrumada na sala pronta para encontrar com seu noivo, ele a ofende de forma misógina, como que numa reação desesperada à sua perda. Sahar tem onze anos.

Fugindo de casa para as ruas, Zain é acolhido por Rahil (Yordanos Shiferaw), uma imigrante etíope que tem um filho de um ano, Yonas (Boluwatife Treasure Bankole). Embora a casa na favela onde moram tenha condições melhores que o próprio apartamento de sua família, Labaki não se furta de explorar as injustiças e dores da situação das pessoas retratadas, abordando a fome, a prostituição, a ilegalidade, o medo, a crise dos refugiados (personalizada em uma menina de origem Síria que quer ir embora dali), os sonhos e a dificuldade de conseguir dinheiro. A diretora empilha desgraças na criação de uma trama feita para arrancar lágrimas.

Quando Rahil é presa, Zain se vê só com um bebê para cuidar, perambulando pelas ruas em busca de alguma ajuda. As crianças no parque de diversões deveriam servir para mostrar que essa não é uma história única e há outras realidades naquele local, mas a força da exploração visual da miséria apaga qualquer senso de tridimensionalidade que poderia ser obtido com isso.

A Cafarnaum do título é uma cidade que, na mitologia cristã, é amaldiçoada por Jesus com a perspectiva de inferno pela falta de crença de seus moradores em seus milagres. Misturando favela movie com exploitaion, Labaki constrói uma terra onde seus personagens já vivem o inferno no seu cotidiano. E aí chega-se ao processo: Zain preferia não ter nascido do que viver como vive. Ele, quer, mesmo, proibir que os pais tenham mais filhos além dos que já nasceram. O discurso higienista de culpabilizar os seus genitores pela própria pobreza é colocado na boca da criança sem dó. A sociedade que permite que pessoas vivam nessas condições jamais é questionada. Até a exploração da mão de obra de pessoas em situação de vulnerabilidade, embora apresentada, não é questionada. É como se a pobreza fosse um fato tomado por si e em si mesmo. Para piorar o discurso corrente no filme e acentuar o desconforto que ele causa, Nadine Labaki, que também é atriz e atuou em seus demais filmes, aqui aparece como a advogada que deve salvar o menino.

É certo que Labaki é uma ótima diretora e isso fica patente tanto na já citada estetização da miséria, trabalhada com uma bela fotografia, quanto na direção de atores capaz de arrancar a atuações pungentes de seus atores mirins. Infelizmente ela parece ter mirado em Os Incompreendidos, mas acertou em Quem Quer Ser um Milionário?. A força de seus filmes anteriores se perdeu na tragédia e Cafarnaum, por mais que emocione, também repele pela forma como amarra seus discursos.

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