Janelas: As Pequenas Margaridas

Ultimamente, quando eu gosto de um filme, quase nunca tenho tempo para escrever sobre ele. Mas muitas vezes eu salvo cenas deles, que funcionam como pequenas janelas para observar aquele mundo diegético e para apreciar a estética escolhida. Por isso decidi começar a compartilhar aqui algumas dessas imagens e chama-las, justamente, de Janelas.

O primeiro filme será As Pequenas Margaridas (Sedmikrásky, 1966), de Vera Chytilová, número 29 que assisti para o desafio #52FilmsByWomen. Trata-se de uma obra parte em preto e branco e parte colorida, mas totalmente provocadora e com grande energia.

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Boa Noite, Mamãe (Ich Seh Ich Seh, 2014)

Boa Noite, Mamãe chega ao Brasil acompanhado de muita repercussão em sua trajetória em festivais no exterior. O suspense austríaco é roteirizado e dirigido pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz e trata de dois irmão gêmeos Lukas e Elias (vividos pelos ótimos Lukas e Elias Schwarz) que se sentem desconfiados da própria Mãe (Susanne Wuest) quando esta retorna para casa após uma cirurgia. O seu comportamento causa estranhamento e ele desconfiam que ela pode não ser quem parece.

A primeira metade do filme trabalha fortemente a construção de atmosfera e o suspense psicológico. Os elementos visuais chamam a atenção: em sua primeira aparição, a mãe emerge das sombras com o rosto coberto de bandagens e por um momento parece um palhaço macabro com um sorriso estranho. A casa, seus móveis, os quadros na parede com modelos desfocados e o espaço construído e natural que parecem abarcar todas as brincadeiras dos dois garotos são fotografados de maneira bonita e compõem o clima do filme. Também de destacam as músicas infantis, que soam macabras dentro do contexto.

O grande problema está na reviravolta, que é facilmente prevista logo nos primeiros minutos do filme. Todos os detalhes chamam atenção a ela e é possível pensar que talvez essa fosse uma escolha para despistar o espetador e entregar um revelação diferente, mas não é o que ocorre. Isso não seria problemático se o filme não pautasse a tensão em torno do momento em que a revelação ocorre, contando realmente com a surpresa do espectador.

E é justamente em sua segunda metade que ele desperdiça seu potencial. Se até então os diretores compuseram um suspense psicológico, ele é abandonado em prol de um torture porn nada instigante, com elementos que já vimos repetidos em outros filmes e melhor explorados neles.

Boa Noite, Mamãe é um filme com um visual bonito, com uma boa construção de atmosfera, mas com um roteiro que não se preocupa em criar um clímax condizente com o que parece ser sua proposta inicial. São dois filmes em um e, afinal, tem seu potencial desperdiçado.

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Paris is Burning (1990)

Paris is Burning é o perfeito retrato de uma cultura em um local e época específicos. O documentário de 1990, dirigido por Jennie Livingston, foi filmado entre 1985 e 1989 nos bailes queer do Harlem, em Nova York. Seus protagonistas são os participantes deles, majoritariamente compostos por homens gays e mulheres trans, negros e latinos.

O filme possibilita a reflexão sobre as exclusões sistêmicas de cunho étnico-racial e de classe a que seus personagens são submetidos. Sonhando com riqueza, aceitação e uma vida melhor, eles competem em desfiles de drag em categorias como “empresário”, “estudante universitário”, “magnata do campo”, entre outras, mostrando que se ainda não ocupavam esses espaços, pelo menos poderiam se mostrar capazes de imitar a aparência que os caracteriza. É a aí que surge o conceito de realness, que é vinculado à passabilidade de cada um e cada uma dentro das categorias escolhidas. Com cortes que mostram os competidores e as pessoas de classe média andando pela cidade, o filme trata de estabelecer que todos igualmente montam um personagem.

Outra competição existente é de vogue, em que dois rivais se enfrentam em uma dança que emula as poses encontradas nos ensaios da famosa revista. Até o final das filmagens o vogue já havia se tornado mainstream e sido absorvido pelo mercado fonográfico. Pouco depois do lançamento do documentário, Madonna lança uma música com esse mesmo nome.

Os competidores são divididos em casas com uma matriarca. A estrutura funciona como a de uma família e fornece uma rede de apoio e uma identidade para cada um. De certa forma eles substituem pela cena LGBT o contato e o carinho familiar que geralmente deixam de ter quando saem do armário. Os personagens são incrivelmente carismáticos em seus relatos de vida e na abordagem de seus sonhos. Apesar de todos os problemas no mundo exterior, no baile eles brilham e são estrelas. É triste pensar que não muitos anos depois muitos deles já não estariam vivos, em virtude especialmente do HIV/AIDS, que roubou uma geração de jovens criativos e com espírito artístico.

Se você gosta de RuPaul Drag’s Race, vai perceber que foi nesse contexto que foram criadas muitas das gírias e expressões que agora, graças ao programa e sua apresentadora, chegaram ao mainstream. A assimilação contemporânea também tem a ver com o declínio da cena no começo dos anos 1990. No filme, a câmera não é invasiva e parece mergulhar quase despercebida em seu universo, capturando reflexões, desabafos, mas também força e alegria. Paris is Burning  é um documentário interessante e apaixonante como seus protagonistas.

5estrelas

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Respire (2014)

Um soco no estômago. É isso que parece que Respire, dirigido por Mélanie Laurent, nos desfere em seu desfecho. A história é sobre Charlie (Joséphine Japy), uma adolescente comum que vê a dinâmica de suas amizades mudar ao se aproximar de Sarah (Lou de Laâge), a extrovertida aluna nova de sua sala. Sarah diz que mora com uma tia porque sua mãe trabalha em uma ONG na África, onde havia residido até o ano anterior.

As adolescentes e seu círculo de amigos são retratados de forma extremamente crível. A amizade, que começa porque Sarah precisa estudar para uma prova, se desenvolve cheia de altos e baixos, com muitas incertezas e medos, além de expectativas não concretizadas. Os contatos inicias se transformam em um relacionamento abusivo que culmina no gaslighting e é interessante ver esse tipo de relação construída entre duas mulheres e tão jovens.

Charlie mora com sua mãe, Vanessa (Isabelle Carré), também jovem, pois teve a filha quando ainda era adolescente. O pai (Radivoje Bukvic) vem e volta para casa, controla a companheira e é violento. Em determinado momento, Charlie pergunta à mãe por que ela sempre volta para ele. A mãe não sabe explicar: é simplesmente assim que as coisas acontecem. Essas duas relações, dos pais de Charlie e dela com Sarah, são usadas como paralelo e comentário uma sobre a outra.

A câmera na mão de Laurent, tremida, é incômoda e isso é proposital. A maneira como cria uma atmosfera de tensão que cresce ao longo do filme impressiona. Charlie é frágil e passiva. Tem asma e frequentemente recorre à sua bombinha em situações complicadas. Sua dificuldade de respirar é capturada com precisão e transmitida ao espectador: a falta de ar assistindo ao filme é física e real, assim como o desconforto.

Além disso Laurent cria sequências de grande beleza. Destaco duas: uma festa de Ano Novo e uma plano-sequência em que vemos Charlie seguindo Sarah e descobrindo algo muito importante sobre a amiga.

Se eu tivesse assistido a Respire antes, é certo que teria entrado em minha lista de melhores de 2015. É um filme que tem uma escala pequena, íntima, com um núcleo de personagens restrito, mas que revela um grande talento em sua direção e uma bela composição de personagens. 
4,5estrelas

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A Very Murray Christmas (2015)

A Netflix continua minerando os dados de seus usuários e, de alguma forma, chegou conclusão que as pessoas que se interessam por filmes da Sofia Coppola e Bill Murray (posssivelmente Encontros e Desencontros?) também gostam de especiais de Natal. É isso mesmo? Bom, de qualquer forma o serviço de streaming produziu A Very Murray Christmas, um musical de temática natalina dirigido por Coppola e estrelado por Murray. O ator interpreta uma versão dele mesmo, rabugento e antissocial, que faria um show especial, mas vê sua platéia vazia graças a uma enorme tempestade de neve em Nova York. Isolado no hotel em que o espetáculo ocorreria juntamente com alguns hóspedes e funcionários, ele resolve reunir todos no salão para que possam banquetear com as comidas de um casamento que foi cancelado.

O que se segue é um constrangedor karaokê de pessoas famosas. O elenco impressiona: Chris Rock, Amy Poehler, Maya Rudolph, Rashida Jones, Michael Cera, George Clooney, Jason Schwartzman, entre outros, intercalam gags sem timing cômico com canções de Natal.

Com o desenrolar do filme a dinâmica entre os convidados parece assentar um pouco melhor, até chegar em uma sequência de sonho em que Murray faz um dueto com Miley Cyrus. As músicas escolhidas são Sleigh Ride, Noite Feliz Let it Snow e o resultado é o melhor número dentre os apresentados. Mas logo em seguida vem a embaroçosa Santa Claus Wants Some Lovin, com George Clooney e tudo volta ao desconforto anterior.

É possível que muitas pessoas apreciem músicas natalinas. Elas costumam carregar uma certa melancolia que casa com o ar nostálgico vinculado ao final de ano. Especiais de Natal recheados de celebridades tentando conferir um ar de carinho e união às Festas são tradicionais. Tentar fazer graça com esse tipo de programa e de canção pode ser bastante difícil e A Very Murray Christmas falha ao tentar satiriza-los sem alcançar a notas certas de humor, tornando-se, por fim, quase tão enfadonho quanto o material original.

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