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Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

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Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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Figurino: Herói

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme

Wuxia é um gênero da ficção chinesa que engloba histórias de cavaleiros ou heróis praticantes de artes marciais em um período passado. No cinema, era conhecido por filmes com baixo custo de produção, até que O Tigre e o Dragão chegou ao mercado ocidental, em 2000, abrindo as portas para filmes posteriores. Herói, de 2002, foi lançado no Brasil apenas em 2005 e é outro exemplo do gênero. A direção é de Yimou Zhang e a trama faz uso do Efeito Rashomon, que, conforme comentado no Podcast Cinema em Cena #139: Grandes Filmes: Rashomon, consiste no uso de várias versões de narrativas que se contradizem para uma mesma história, como no clássico filme de Kurosawa. O diferencial, nesse caso, foi o uso marcado de cor para ressaltar cada uma das versões, tanto no figurino de Emi Wada quanto nos demais elementos presentes em cena.

Há mais de dois mil anos, em uma China dividida em sete províncias, o herói Sem Nome é recebido pelo Imperador da província de Qin (Daoming Chen), uma vez que afirma ter matado três famosos assassinos pelos quais recompensas foram oferecidas. O monarca é marcado pelo preto, que é não só a cor que usa em suas vestes, como a que aparece no uniforme de seu exército e mesmo seus cavalos.

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Essa cor também vai predominar no flashback que mostra Nameless (“Sem Nome”, interpretado por Jet Li) derrotando Sky (“Céu”). Até mesmo os figurantes se vestem de cinza, o que ajuda a destacar o ocre da roupa de Sky.

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Quando Nameless começa a narrativa a respeito de como conseguiu derrotar Flying Snow (“Neve Que Voa”, interpretada por Maggie Cheung) e Broken Sword (“Espada Quebrada”, interpretado por Tony Chiu Wai Leung), a cor predominante passa a ser o vermelho. A sua história diz que Flying Snow foi amante de Sky em algum momento passado e Broken Sword, ao descobrir, se envolve com Moon (“Lua”), sua ajudante. Enciumada, a própria Flying Snow o mata e, confrontada por Moon, acaba por assassiná-la também. Emocionalmente abalada e desestabilizada, é facilmente derrotada por ele em um duelo. Repleta de trajes vermelhos e detalhes em tons próximos de laranjas e amarelos, além de uma iluminação quente, é um relato de passionalidade e mentira.

003 O Imperador rapidamente o desmente, afirmando que guerreiros tão bem treinados jamais seriam derrotados dessa maneira tola. Por isso, ele apresenta a sua versão dos fatos, em que ao invés de traição, o que se tem é companheirismo e dedicação a uma causa. As roupas e cenários agora são azuis, e a luz passa a ser fria.

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Nameless reconhece que parte da versão do Imperador está correta, mas o corrige em alguns detalhes importantes. Recomeça seu relato, mostrando onde estavam os erros. A verdade vem vestida de branco e agora paisagens e cenários assumem cores naturais, não mais marcadas por tintas carregadas de versões fantasiosas.

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Dentro dessa sessão da trama, há um breve flashback que conta quando, três anos antes, Broken Sword encontrou com o Imperador. Nesse caso a cor utilizada é o verde, que vai marcar memórias passadas.

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A história verdadeira é contada até o final, mas dessa vez manchada com o amarelo da bandeira que indica um plano que falhou. A verdade ainda é branca, mas agora filtrada por tons quentes.

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Herói é um belo experimento narrativo, em que a cor possui papel essencial na construção de versões de uma mesma história.  É um filme esteticamente marcante, grande parte em virtude do trabalho da figurinista Emi Wada, que dialoga com o restante da direção de arte de maneira a marcar motivos e criar sensações a eles relacionados.

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015)

Em 1993 uma geração de crianças foi marcada pelo clássico absoluto Parque dos Dinossauros, dirigido por Steven Spielberg, adaptado do ótimo livro homônimo de Michael Crichton. Após isso, vieram duas sequências que não fizeram jus ao original e o descanso para a franquia. Agora, passados alguns anos, o universo dos dinos está de volta em Jurassic World, dirigido por Colin Trevorrow. A trama começa com um menino, Gray (Ty Simpkins) e seu irmão adolescente, Zach (Nick Robinson) se despedindo dos pais para passar alguns dias no parque temático, onde sua tia Claire (Bryce Dallas Howard) trabalha. O parque está em funcionamento há duas décadas e em três semanas será exposto para o público uma nova espécie, um ser geneticamente híbrido criado em laboratório chamado Indominus rex.

Claire, que é uma espécie de diretora do local, é apresentada como sendo muito ocupada com o trabalho e por isso não tem tempo para passear com os garotos. Sua rigidez é externada no figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais que trabalham nos bastidores do funcionamento. De fato, ela é uma pessoa incapaz de conexão emocional e de preocupação maternal. Trata animais e visitantes como números e gráficos, sem a percepção de que são formas de vida interagindo sob sua batuta.

Esse é o maior problema do filme: personagens caricatos e unidimensionais. Claire é uma yuppie clichê saída de um filme dos anos 80. Mas não é só ela que funciona dessa forma: há o ricaço excêntrico indiano (Irrfan Khan); o cientista malvado japonês (BD Wong) vindo do primeiro filme e que nada aprendeu com os acontecimentos de então; o militar (Vincent D’Onofrio) capaz de sacrificar quantas vidas forem necessárias para chegar ao seu intento; e mesmo os já citados meninos: um menor emotivo e um adolescente que não tira o olho do celular e das meninas de sua idade. E para coroar, existe Owen (Chris Pratt), o bravo treinador de velociraptors pronto para salvar o dia. Ele é descolado, anda de moto, usa camisa com a manga arregaçada e colete do Han Solo: enfim, é o herói de ação destemido e bonitão. A comparação com Harrison Ford é fácil, uma vez que certas cenas até mesmo remetem a Indiana Jones. Mas para que a similaridade fosse completa, o personagem precisaria de uma camada extra de carisma e humanidade, que lhe falta graças ao pouco desenvolvimento, assim como os demais.

É claro que em um local repleto de feras de grandes proporções, que são constantemente subestimadas, e de seres humanos que tomam as decisões mais estúpidas possíveis, o desastre está fadado a acontecer. Indominus Rex escapa e perpetra uma matança sem igual dentro da franquia.

Claire acaba se revelando a verdadeira protagonista do filme, em uma jornada em que demonstra coragem e que, novamente de maneira clichê, vai suavizar sua relação com as crianças e os demais (o que vai se refletir em sua roupa e seus cabelos). A aventura tem um quê de anos 80, ao remeter a filmes como Tudo por Uma Esmeralda (mas mesmo lá Kathleen Turner tem os saltos de seus sapatos quebrados, porque é humanamente impossível correr por muito tempo com eles).

Uma das sequências finais, com clara referência a Os Pássaros, é divertida, mas ao mesmo tempo contem a morte mais gratuitamente violenta do filme: uma personagem secundária que foi arrastada por torturas prolongadas antes de ser devorada pelo que se revelou o herói da história, no final.

Um ponto positivo do filme são as referências ao original, que funcionam ao nos lembrar de momentos marcantes daquele, mas que ao mesmo tempo nos fazem perceber a falta de momentos novos neste. O mesmo ocorre com a trilha sonora de Michael Giacchino, que funciona na medida em que remete à original de John Williams.

Mas apesar do que foi escrito até aqui, Jurassic World não é um filme ruim. A aventura e a ação são boas e conferem um ritmo adequado. Os dinossauros, mesmo com o excesso de CGI, despertam o saudosismo.

Na abertura, a primeira coisa que vemos no filme é uma pata rugosa que é revelada ser de uma ave. Trata-se de uma alusão interessante, uma vez que posteriormente um cientista vai falar que todos os animais do parque são modificados geneticamente, justificando a falta de penas na aparência dos dinossauros. Um argumento utilizado é que as pessoas, depois de vinte anos, vêm um dino da mesma forma que olham para um elefante em um zoológico: perdeu-se a capacidade de encantamento e tornou-se banal. Por isso criaram o Indominus: precisavam de algo maior, com mais dentes, mais aterrorizante. É assim que esse filme funciona: em maior escala, com dinossauros maiores, mais efeitos especiais, mais mortes. Mas talvez o que queríamos mesmo eram os bons e velhos dinossauros.  
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Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014)

A essa altura todo mundo já comentou sobre o novo filme da Marvel/Disney, então não vou me prolongar. Não sou muito fã de filmes de heróis (com exceção de X Men) mas dessa vez , ao contrário do que geralmente acontece, não revirei os olhos, não achei (todas) as piadas forçadas e estava genuinamente interessada nos personagens. É fato que eles não são suficientemente desenvolvidos, mas já o são o suficiente para que eu soltasse “oooh” e me emocionasse com uma árvore ambulante (Groot, dublado por Vin Diesel), que é o personagem mais mágico do filme. Talvez o maior problema para mim seja a falta de desenvolvimento quase total de Gamora (Zoe Saldana). Aliás, certos aspectos de gênero e etnia continuam sendo problemáticos, como em outros filmes do estúdio. A Síndrome de Smurfette se manifesta entre “mocinhos” e “vilões”, por exemplo. Rocket (Bradley Cooper) é o melhor personagem: durão e suave ao mesmo tempo. Star Lord (Cris Pratt) é um personagem retrô: a abertura, em que busca uma relíquia, remete a Indiana Jones e seu estilo bonachão, infantil e canastrão apenas confirmam. Como um todo, o filme é engraçado e fluido e equipe é carismática. No final das contas, trata-se de uma divertida aventura espacial que sabe não se levar a sério e com uma trilha sonora muito gostosa.

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Figurino: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 04/06/2014.

 

Quando o primeiro filme da franquia X-Men foi lançado em 2000, tornou-se sucesso imediato e foi um dos principais responsáveis por deixar “heróis de quadrinhos” em voga e, consequentemente, pelas produções de filmes com esta temática subsequentes. A trama focada nos protagonistas mutantes cria empatia facilmente, pois claramente traça paralelos entre estes e outras minorias perseguidas em nossas próprias sociedades, com Xavier e Magneto como lideranças com posturas opostas em relação a como lidar com essa opressão.
O diretor Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros filmes, precisava tirar das plateias a visão exagerada e ridícula dos filmes do Batman de Joel Schumacher da década de 90. Para isso, optou pelo uso de um estilo contido.
Partindo dessa proposta de fugir de uma estética cartunesca, a figurinista Louise Mingenbach criou para X-Men: O Filme e X-Men 2 um conjunto que fugia das cores utilizadas pelos mutantes nos quadrinhos: os polêmicos uniformes pretos. Embora tenham sido fortemente criticados, eles devem ser entendidos como um produto de sua época, reação aos já citados filmes do Batman e influenciados pelos sucessos de Blade (também vindo dos quadrinhos) e Matrix.

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No terceiro filme, X-Men: O Confronto Final, o diretor passou a ser Brett Ratner e com isso a equipe também foi alterada. As figurinistas passaram a ser Lisa Tomczeszyn e Judianna Makovsky (de A Princesinha). Apesar disso, trabalharam em cima dos conceitos já utilizados nos outros filmes, alterando pouco os uniformes e mantendo uma identidade visual entre os três longas.

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Apenas em X-Men: Primeira Classe, dirigido por Matthew Vaughn, com figurino de Sammy Sheldon, é que o uniforme passou a referenciar o visual clássico dos mutantes nos quadrinhos, com uso marcado de amarelo. A história acontece em 1962, de forma que esse design pode ser usado como uma versão retrô, adequada ao período, da mesma forma que acontece no flashback no início de Watchmen.

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Por fim chegamos ao quinto filme da franquia, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, que estreou nos cinemas no último dia 22 de maio e novamente conta com direção de Bryan Singer e figurino de Louise Mingenbach. Dessa vez a trama se divide entre um futuro desolado, em que mutantes estão sendo caçados e eliminados; e um passado em 1973, para onde Wolverine retorna em seu próprio corpo de então para tentar impedir que isso futuro se concretize.
Nesse futuro, os uniformes voltam a ser pretos, mas dessa vez menos justos e mais utilitários, com calças largas e botinas, além de apliques no tronco que simulam o efeito de uma armadura, garantindo mobilidade, conforto e proteção na luta pela sobrevivência.

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Mesmo Xavier (Patrick Stewart), sempre impecável paletó, abre mão de seu estilo por esse mais seguro, visto que não faria sentido buscar a elegância com o mundo acabando ao seu redor.

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No passado, com a desativação do Instituto Xavier para Jovens Superdotados, os uniformes deixaram de ser utilizados e cada personagem se veste como indivíduo autônomo. A paleta de cores, bastante fiel ao período, é dominada por tons terrosos.
Mística (Jennifer Lawrence) segue em sua jornada de auto aceitação e busca por autonomia e já se mostra totalmente à vontade em sua própria pele, sem a necessidade de roupas ou disfarces que escondam sua verdadeira natureza, a não ser que seja necessário.

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Wolverine (Hugh Jackman) é quem mais abraça a década, fazendo uso de calças justas, cinto de couro com grande fivela do mesmo material (o que é interessante, visto que Magneto não pode manipulá-la), camisa de estampa chamativa e jaqueta de couro marrom. O estilo lhe cai como uma luva.

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Fera (Nicholas Hoult) encarna o bom menino, com um estilo bastante certinho: camisas de botão ou camisetas listradas e jaqueta de veludo cotelê. Suas roupas são menos ajustadas do que as dos demais homens, com exceção da jaqueta jeans, o que causa maior contraste quando muda sua forma.

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Xavier (James McAvoy), passa por uma fase em que perdeu tudo e está emocionalmente abalado. A sua trajetória pode ser percebida através de suas roupas. No começo, desesperançoso e dependente de um soro de cura e de álcool, veste-se de acordo com a extravagância do período, como uma versão atenuada de Wolverine. Também faz uso de camisa estampada (embora menos chamativa) e jaqueta de couro, mas em um marrom mais avermelhado. Com o desenrolar da história e a retomada de sua autoconfiança, volta a utilizar o paletó que lhe é característico.

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Já a Magneto (Michael Fassbender) o que não falta é autoconfiança. Acredita na superioridade dos mutantes e por isso utiliza seus poderes da forma que for preciso para acabar com a perseguição e a opressão deles. Seu cuidado com sua imagem fica patente nas roupas muito bem cortadas e sempre com um toque de design diferenciado. Isso é perceptível na assimetria marcada em suas roupas: a falta de lapela em um dos latos de seu sobretudo e a capa com barra cortada na diagonal. Ao mesmo tempo essa assimetria reflete a sua tendência para métodos que podem ser considerados pouco convencionais ou mesmo questionáveis: ele sempre vai agir de acordo com suas próprias ideias, mesmo ao se aliar com os demais.

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Acima, à esquerda, croqui do sobretudo de Magneto, por Louise Mingenbac. À direita ele sendo usado pelo personagem.

Um personagem que merece ser mencionado é o novato Mercúrio (Evan Peters), que teve uma ótima participação. O filho não declarado de Magneto veste-se predominantemente de preto. Como seu poder é a grande velocidade, faz sentido que o corte de suas roupas pareça futurista em relação à época, de maneira que sua jaqueta prateada (além de acessórios como fone de ouvido e boné) remetem muito mais à década de 1980 que à de 1870.

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Não apenas os figurinos como toda a direção de arte exercem muito bem a função de ambientar os expectadores nas diversas linhas temporais do filme (e isso fica particularmente marcado nas duas cenas em que Wolverine acorda, com as diferenças de decoração ao seu redor e foco nas luminárias e cortinas de cada época). X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, assim como o filme anterior, Primeira Classe, consegue não só ser um bom filme de heróis de quadrinhos, como um bom filme de época, com ambientações e construções de vestuários bastante críveis dentro daquilo que é a sua proposta.

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