Melhores documentários assistidos em 2019

Essa é a sexta vez eu faço essa lista com documentários que mais gostei de ver ao longo do ano. Separo eles dos demais filmes porque me facilita a vida na hora de elaborar a lista de melhores filmes do ano e porque assim também posso colocar aqueles que não são lançamentos, mas que eu vi pela primeira vez ao longo dos últimos 12 meses. Eu gosto muito de documentários e acho interessante como sem querer eles se tornaram o reduto dos trabalho de mulheres, como pode ser facilmente verificado abaixo. A lista abaixo está grosseiramente ordenada por preferência e está disponível no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast estão devidamente linkados.

Saudações, Cubanos! (Salut les Cubains, 1964)

Direção: Agnès Varda

A Entrevista ( 1966)

Direção: Helena Solberg

Espero Tua (Re)volta (2019)

Direção: Eliza Capai

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Direção: Marcelo Gomes

Cameraperson (2016)

Direção: Kirsten Johnson

A Falta Que Me Faz (2009)

Direção: Marília Rocha

History Lessons (2000)

Direção: Barbara Hammer

Honeyland (2019)

Direção: Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov

Democracia em Vertigem (2019)

Direção: Petra Costa

Casa (2019)

Direção: Letícia Simões

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Melhores filmes dirigidos por mulheres da década

Nesse final de ano organizei uma lista de 50 melhores filmes dirigidos por mulheres da década de 2010 no Feito por Elas, convidando jornalistas, críticas e pesquisadoras para enviar seus votos. O resultado pode ser conferido no site. Abaixo listo meus 10 votos e 5 menções honrosas. O critério da lista leva em conta a data de produção, uma vez que alguns desses filmes nunca foram lançados comercialmente no Brasil, o que explica o 1º lugar. Também tenho um critério pessoal de apenas 1 filme por diretor/a em cada lista. Se não fosse isso, talvez a lista fosse diferente. A lista também está disponível no Letterboxd.

Menções honrosas:

15- Era o Hotel Cambridge (2017), de Eliane Caffé

14- O Babadook (The Babadook, 2014), de Jennifer Kent

13- Respire (2014), de Mélanie Laurent

12- Grave (2016), de Julia Ducournau

11- Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015), de Chantal Akerman

Meus votos:

10- Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert

9- Pariah (2011), de Dee Rees

8- Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017), de Greta Gerwig

7- Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra

6- O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2011), de Andrea Arnold

5- Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011), de Lynne Ramsay

4- Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011), de Sarah Polley

3- A 13ª Emenda (13th, 2016), de Ava DuVernay

2- Visages Villages (2017), de Agnès Varda e JR

1- Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, 2019), de Céline Sciamma

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Varda por Agnès (2019)

No dia 29 de março último, Varda nos deixou, cedo demais, aos 90 anos de idade. Mas, apesar de ter partido, ficamos com um legado de obras para ver, rever, imergir e refletir. Varda era uma artista de alma sensível, que capturou pequenos detalhes de coisas que talvez passassem desapercebidas para outra pessoa e criou poesia a partir deles. Suas obras têm uma visão muito única de política, de estética e de afeto. Sua ficção trabalha com questões de gênero do cotidiano (mas não só isso) e desafia o que é dado. Seu documentário se encanta com as pessoas comuns, suas rotinas e suas lutas. Ambos estão sempre embaralhados: há sempre algo de documental em suas narrativas ficcionais, que são um retrato muito específico de realidades e vivências contemporâneas; e há, por sua vez, uma mise-en-scène elaborada em seus filmes documentais, que mostram seu desejo, não só de capturar o acontecimento, mas de torná-lo instigante (e intrigante) ao olhar. Em ambos os casos, sua montagem peculiar, ritmada, brincalhona, ajuda a diretora.

Varda já tinha refletido sobre a velhice em Os Catadores e Eu (2000), feito uma retrospectiva afetiva de seu trabalho em As Praias de Agnès (2008) e uma despedida, em certa medida, da sua própria relação com a arte e com as pessoas em Visages, Villages (2017). Em Varda por Agnès (Varda par Agnès, 2019) ela retoma essas derradeiras reflexões, olhando sua obra em retrospecto, retomando temas, ponderando conexões. O filme, que originalmente foi concebido para a televisão, acabou por ser lançado nos cinemas.

Trata-se de uma série de palestras que parecem ter sido filmadas em lugares e momentos diferentes, com plateias diversas, rememorando muitos de seus principais trabalhos. A montagem nos deixa La Pointe Courte (1955), A Ópera Mouffe (1958), Cléo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (1965), Tio Yanco (1967), Panteras Negras (1968), O Amor dos Leões (1969), Daguerréotypes (1976), Uma Canta, a Outra Não (1977), Mur Murs (1981), Os Renegados (1985), Jane B. por Agnès V. (1988), Kung Fu Master (1988), Jacquot de Nantes (1991), Os Catadores e Eu (2000), As Praias de Agnès (2008), Agnès de ci de là Varda (2011), Visages, Villages (2017), ou seja, um verdadeiro panorama de sua própria filmografia. Une-se suas falas, comentando ideias e contextos dos filmes, com imagens deles mesmos, que nas palestras eram projetadas no local. Esse filme acaba por não ser, portanto, um filme por si só, mas funciona como um complemento ou uma porta de entrada para conhecer ou aprofundar a obra da diretora, conhecendo mais sobre a engenhosidade de seu processo criativo.

Varda divide o seu fazer cinema em três etapas: inspiração, criação e compartilhar. A primeira é a concepção, a segunda é a mão na massa e a terceira a fantástica etapa de dividir suas imagens conosco, seu público. Todo esse processo é marcado pela generosidade com que escolhe seus objetos e os entrega para nós. Em History Lessons, Barbara Hammer coloca em um dos intertítulos um texto que, puxando de memória, afirma que o que não é registrado deixa de existir. Varda, por sua vez, diz que nada é banal se filmarmos as pessoas com empatia e amor. Ou seja, Varda sempre buscou trazer as pessoas para história e o fez com carinho, com cuidado, com sua estática particular, colocando-as no centro de sua obra, mas também deixando sua própria presença impressa nela.

Varda por Agnès pode parecer um extra de um DVD contendo os próprios filmes de Varda, mas é delicioso poder ouvi-la, mais uma vez, discorrer sobre seu passado e refletir sobre o fazer cinema. Ela afirma desaparecer como um borrão, mas permanece. De qualquer forma, Varda já faz falta.

Nota: 4 de 5 estrelas
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Os 20 melhores filmes vistos pela primeira vez em 2018

Essa lista, que faço todos os anos, são dos melhores filmes que eu vi pela primeira vez no ano e que não são lançamentos. Como sempre, para facilitar, escolhi apenas filmes ficcionais de longa metragem.  Além disso, para abrir espaço à variedade, diretoras e diretores com mais de um filme que preenchessem esse critério tiveram só um listado. Outros filmes com avaliação alta vistos esse ano, mas com direção repetida, serão colocados abaixo. A lista também pode ser conferida no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast tem links no título e a ordem da disposição é cronológica.

As Aventuras do Príncipe Achmed (Die Abenteuer des Prinzen Achmed, 1926)

Direção: Lotte Reiniger

★★★★


Sem Novidade no Front (All Quiet on the Western Front, 1930)

Direção: Lewis Milestone

★★★★1/2

Grande Hotel (Grand Hotel, 1932)

Direção: Edmund Goulding

★★★1/2

Mademoiselle Dinamite (Bombshell, 1933)

Direção: Victor Fleming

★★★★

A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953)

Direção: Vincente Minnelli

★★★★

Disque M Para Matar (Dial M for Murder, 1954)

Direção: Alfred Hitchcock

★★★★

Infâmia (The Children’s Hour, 1961)

Direção: William Wyler

★★★★

Pérfida (The Little Foxes, 1941) ★★★★

As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur, 1965)

Direção: Agnès Varda

★★★★★

Suspiria (1977)

Direção: Dario Argento

★★★★1/2

Os Anos de Chumbo (Die bleierne Zeit, 1981)

Direção: Margarethe Von Trotta

★★★★

Das zweite Erwachen der Christa Klages (1978) ★★★★

Rosenstrasse (2003) ★★★★

Que Bom Te Ver Viva (1989)

Direção: Lúcia Murat

★★★★

Uma Longa Viagem (2011) ★★★★

Malcolm X (1992)

Direção: Spike Lee

★★★★1/2

Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997)

Direção: Hayao Miyazaki

★★★★

O Lixo e o Sonho (Ratcatcher, 1999)

Direção: Lynne Ramsay

★★★★1/2

Morvern Callar (2002) ★★★★

Longe do Paraíso (Far From Heaven, 2002)

Direção: Todd Haynes

★★★★1/2

Mal do Século (Safe, 1995) ★★★★

2046- Os Segredos do Amor (2046, 2004)

Direção: Wong Kar-Wai

★★★★★

Megane (2007)

Direção: Naoko Ogigami

★★★★

Rent-a-Cat (2012) ★★★★

Lírios d’Água (Naissance des pieuvres, 2007)

Direção: Céline Sciamma

★★★★

Sita Sings the Blues (2008)

Direção: Nina Paley

★★★★1/2

Wendy e Lucy (Wendy and Lucy, 2008)

Direção: Kelly Reichardt

★★★★★

O Atalho (Meek’s Cutoff, 2010) ★★★★1/2

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Visages Villages (2017)

Postado originalmente em 3 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo  Agnès Varda é sem dúvida uma figura cativante. Aos 89 anos, dos quais mais de sessenta foram dedicados ao cinema, a diretora vive uma fase de reconhecimento pleno e foi homenageada com um Oscar honorário por sua trajetória, fato que ironiza, uma vez que mesmo esse seu filme mais recente foi realizado através de financiamento coletivo, como pode ser conferido logo nos agradecimentos dos créditos de abertura. E agora esse mesmo filme foi indicado na categoria de Melhor Documentário, sua primeira indicação ao Oscar. Mas a incansável senhora de cabelo bicolor é uma colecionadora de pessoas e suas histórias, transformando-as em suas deliciosas narrativas audiovisuais. Em seu novo documentário firmou parceria com o fotógrafo e artista JR. O jovem costuma viajar em seu furgão devidamente adesivado com a imagem de uma câmera fotográfica na lateral e tirar fotos de pessoas comuns, que são impressas e muitas vezes aplicadas a grandes elementos verticais, como muros e paredes, criando murais. Varda resolve acompanha-lo pelos vilarejos do interior da França e coletar os rostos das pessoas que conhece pelo caminho, enquanto entabula diálogos com elas. A primeira, Jeannine, é uma senhora que mora em um antigo conjunto de casas de mineiros, profissão exercida por seu pai. Ela diz que não pretende sair da casa, por mais que seja pressionada, sendo a última moradora (como uma Clara em seu Aquarius). É homenageada com um painel que cobre toda a fachada. E esse é só um exemplo: Varda está interessada nos pequenos detalhes das vidas das pessoas, mas traz também momentos da sua própria, além de um olho treinado para a visualidade, que compõe cenas belíssimas, com humor e sensibilidade sempre presentes, das pessoas, das obras, das paisagens e de sua combinação. JR é um bom contraponto a ela: às vezes pesa um pouco a arrogância e o excesso de certezas da juventude, mas seu desejo de embarcar integralmente no projeto se mostra efetivo. Além disso, apesar da diferença geracional, a comunicação entre os dois é bonita de se observar. Mas no final das contas, o filme funciona essencialmente por causa de Varda. Essa figura simpática e carismática, que produz encantamento por onde passa e, apesar de algumas limitações físicas, ainda se preocupa com o criar. O resultado é um filme leve, que faz rir e chorar e a reafirmação de seu talento. O mundo precisa de mais Vardas: pessoas com alma intensa, que respiram arte e sabem transmiti-la. Selo "approved Bachdel Wallace Test" Nota 5 de 5 estrelas  
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