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Análise dos Indicados ao Prêmio do Sindicato dos Figurinistas 2017

Embora menos celebrados e prestigiados pelo público, os prêmios de sindicatos, que antecedem a cerimônia do Oscar, são uma boa forma de ter a percepção de como os profissionais de cada área enxergam a produção contemporânea. Em sua 19ª edição, o Costume Designer Guild Awards, ou seja, o prêmio do Sindicato dos Figurinistas, é decidido por figurinistas, bem como assistentes de figurino e ilustradores que sejam afiliados ao sindicato e, por isso, tendem a valorizar menos o glamour das roupas criadas para o filme e mais o seu papel na construção dos personagens para a narrativa. Esse ano o prêmio foi entregue no dia 21 de fevereiro e, como sempre, contou com três categorias: filmes contemporâneos, de época e de fantasia. A seguir farei um breve comentário sobre os indicados e vencedores de cada categoria. Os vencedores estão destacados em negrito e filmes sobre quais eu escrevi tem o o texto linkado. Clique nos links se quiser ler a respeito da premiação de 2014, 2015 e 2016.

Excelência em Filme Contemporâneo:


Absolutely Fabulous: O Filme: Rebecca Hale

Lion: Uma Jornada Para Casa: Cappi Ireland

Capitão Fantástico: Courtney Hoffman

Animais Noturnos: Arianne Phillips

La La Land: Cantando Estações: Mary Zophres

Muitas vezes subestimado pelo público, o figurino de filmes que se passam em contexto contemporâneo contribui e muito para com suas narrativas. Dentre os indicados desse ano, não consegui assistir a Absolutely Fabulous: O Filme.

Em Lion o trabalho de figurino parece, a um primeiro olhar, minimalista, mas com flashbacks que acrescentam um período de tempo a mais na história, além de dois países diferentes, foi necessário garantir a diferenciação de cada época e lugar. O presente do filme na verdade ocorre em um passado recente, há certa de uma década e por isso as roupas foram pesquisadas de maneira a de adequarem ao momento, que pode parecer igual ao de hoje, mas já tem suas sutis diferenças. No caso dos trajes indianos, as mulheres os usam coloridos, enquanto os homens, monocromáticos, respeitando o que se observou nos costumes locais.

Já os trajes utilizados em Capitão Fantástico são lúdicos como os seus personagens. Com uma paleta de cores baseada em tons terrosos, verdes e bordôs, as roupas foram selecionadas de fontes diversas, especialmente brechós, e adaptadas para o filme. A impressão que elas passam é de terem décadas de idade, sendo reaproveitadas e customizadas com bordados, apliques e com desenhos das crianças. As peças circulam entre eles e são vistas de maneira repetida. Os atores-mirins foram incentivados a escolher o que gostariam de vestir, tendo em vista que, ao contrário de adolescentes comuns, não sofrem pressão de amigos e outros grupos para adotarem determinados estilo. O resultado final é colorido, livre, divertido e casa com o clima do filme e com a personalidade dos personagens que estão sendo construídos.

Susan (Amy Adams), a protagonista de Animais Noturnos é uma mulher dividida entre sua fachada exterior de frieza e força e seu interior de dor e solidão. O figurino do filme trabalha externando as ambiguidades da personagem. Para seu trabalho, formas retas, ajustadas, decotes, tecidos sofisticados e cores sólidas, aliados a acessórios marcantes e maquiagem escura e pesada. Em casa, despida dessa armadura que a protege, retira a maquiagem e usa tricôs macios e despojados. O seu contraponto na história, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), o personagem dentro do livro que é personificado na imagem de seu ex-marido, é apresentado como um homem de poucas palavras, colocado em uma situação extrema e com a qual o público precisa se identificar. Para isso, foram utilizadas peças básicas: camisa xadrez e calça cáqui, expressando o quanto ele é comum, distante da artificialidade do mundo de Susan. A figurinista teve total liberdade de criação e nenhum dos trajes utilizados é da marca Tom Ford, o diretor do filme, justamente para que não se transformasse em uma peça publicitária.

Por fim, em La La Land: Cantando Estações, vencedor do prêmio, a oposição entre o casal de protagonistas também é essencial para a narrativa. Sebastian (Ryan Gosling) precisa ser entendido como um homem apegado às raízes do jazz, conectado ao passado como um ideal romântico. Por isso seus sapatos bicolores, calça social de corte reto e camisas de botão. Já Mia (Emma Stone) é uma mulher otimista, que começa o filme com poucos recursos financeiros e, portanto, roupas menos sofisticadas, mas muito coloridas. Quando o relacionamento dos dois começa a enfrentar problemas, as cores são drenadas de seu figurino, que culmina em um elegante vestido azul escuro, para marcar sua ascensão financeira. Para além de ambos os protagonistas, o conjunto do filme é repleto de cores vibrantes que remetem a um passado tecnicolor.

Excelência em Filme de Época:

Florence: Quem é Essa Mulher?: Consolata Boyle

Ave, César!: Mary Zophres

Jackie: Madeline Fontaine

A Vingança Está na Moda: Marion Boyce, Margot Wilson

Estrelas Além do Tempo: Renee Ehrlich Kalfus

Um figurino de época precisa não só estabelecer para o espectador quem são os personagens apresentados como também deixar claro qual é o contexto que os rodeiam. Nesse sentido, todos os candidatos desse ano apresentaram um conjunto forte e criativo. Florence talvez seja o menos interessante, mas temos a percepção da riqueza da personagem-título, interpretada por Meryl Streep, com seus vestidos em tons de dourado, acessórios carregados e forte inspiração art nouveau da década de 20, em que a história se passa, além de seus trajes para apresentações que reforçam o ridículo da cantora.

Da mesma forma, em Ave, César! somos transportados para a Hollywood da década de 50. Eddie Mannix, interpretado por Josh Brolin desfila paletós com ombros largos e pernas amplas, criando uma figura imponente e bastante sólida na narrativa. As colunistas Thora e Tessaly Thacker (Tilda Swinton), inspiradas por Hedda Hopper, exibem chapéus vistosos como aquela o fazia. Temos a roupa de caubói do Hobbie Doyle (Alden Ehrenreich) que contextualiza suas origens. Por fim temos o incrível trabalho de figurino dos filmes dentro do filme (seria um meta-figurino?): dos maiôs de DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), personagem baseada em Esther Williams, passando pelo marcante vestido verde da sósia de Moira Shearer que contracena com Hobbie, até os trajes romanos do sandália e espadas protagonizado por Baird Whitlock (George Clooney). As formas não são realistas, nem necessariamente condizem com a época, mas suas extravagâncias servem para ressaltar a fábrica de sonhos que era então Hollywood. As cores marcantes casam com o tom amarelado da fotografia e o resultado final é eficiente em termos narrativos, recriando o esplendor tecnicolor dos tempos áureos dos grandes estúdios.

Em Jackie a figurinista trabalha reconstruir uma imagem icônica. A ex-primeira-dama estadunidense foi um ícone da moda e sua aparência marcante, lembrada até hoje, influenciou a época, como fica registrado em uma cena em que, de dentro de seu carro, vê vestidos similares aos seus sendo postos em manequins em uma vitrine. Para o filme foram recriados vários trajes marcantes, com destaque para o conjunto vermelho da Dior com que concede uma entrevista na Casa Branca, o preto de marca desconhecida utilizado no cortejo fúnebre e o memorável conjunto Chanel rosa com chapéu da mesma cor que vestia quando seu marido foi assassinado. Natalia Portman não guarda grandes semelhanças físicas com a Jackie, mas a sua atuação, aliada a essa recriação precisa, ajuda a transportar o espectador para o recorte temporal retratado.

A Vingança Está na Moda tinha poucas chances reais de levar, por se tratar de um filme estrangeiro (australiano) e menos comentado. Mas o trabalho realizado aqui é marcante e merecedor da indicação. A protagonista Tilly Dunnage (Kate Winslet) retorna triunfante para sua cidadela de origem, de onde fugiu, depois de anos morando em Paris. Sua nova profissão é justamente a de criadora de roupas de alta costura e seus vestidos vistosos, com linhas elegantes e cores marcantes, contrastam com o provincialismo do local, uma vez que as demais pessoas são apresentadas em tecidos simples e cores apagadas em tons de bege. Seu glamour é uma forma de expressar sua vingança, como na cena em que trajando um espetacular vestido de seda, para à beira do campo para assistir a uma partida de rugby, para perplexidade dos demais. Nesse caso, o figurino conta os desejos da personagem e é utilizado para ajudá-la a mudar a realidade ao seu redor.

Por fim, em Estrelas Além do Tempo, vencedor do prêmio, é feito um trabalho belíssimo ao contrastar as protagonistas com o ambiente masculino e branco que as rodeia, ao mesmo tempo que em que as diferencia de forma geracional. Quando você vê uma cena em que Katherine (Taraji P. Henson) com seu vestido verde, está rodeada por homens trajados com camisas brancas e gravatas sóbrias, destacando-a no mar de funcionários da NASA, percebe como o figurino está trabalhando para mostrar que essas mulheres representavam uma exceção naquele ambiente. É claro que, mesmo com regras de vestimenta, os homens não se vestiriam de forma tão homogênea na vida real. Mas esse é um instrumento eficaz para realça-la. Tanto ela, quanto Dorothy (Octavia Spencer) e Mary (Janelle Monáe) usam cores de joias, além de estampas discretas, destacando suas presenças no ambiente monocromático, realçado até mesmo pelos marrons das demais funcionárias. Mas se as duas primeiras optam por vestido e conjuntos estruturados, a juventude de Mary é expressada através de cardigãs e calças. O trabalho realizado aqui pode não ser vistoso, afinal as roupas de trabalho das protagonistas também precisavam se encaixar nas regras rígidas de vestimenta no ambiente de trabalho. Mas o modo como cores e formas são manipuladas para passar sua mensagem e informar quem é quem naquele contexto é primoroso.

Excelência em Filme de Fantasia:

Rogue One: Uma História Star Wars: David Crossman, Glyn Dillon

Kubo e as Cordas Mágicas: Deborah Cook

O Lar das Crianças Peculiares: Colleen Atwood

Animais Fantásticos e Onde Habitam: Colleen Atwood

Doutor Estranho: Alexandra Byrne

Nessa categoria figurinistas podem trabalhar com maior liberdade e expressividade, criando universos fantásticos e ficcionais que não precisam responder a contextos históricos ou sociais já estabelecidos. Levando isso em conta, o figurino de Rogue One: Uma História Star Wars é um dos menos ousados dessa leva, já que está limitado a respeitar as diretrizes já estabelecidas em outros filmes. Trabalhando com esses elementos já conhecidos do público da franquia, aqui se cria novas versões para as armaduras de Stormtroopers e para os novos Death Troopers e além de trajes funcionais para os rebeldes, com parcas, calças folgadas e botinas. O conjunto é coerente com a cronologia proposta e encaixa-se no contexto dos figurinos propostos para as trilogias anteriores, sobre os quais você pode ler aqui e aqui.

Nunca uma animação havia sido indicada para o prêmio do Sindicato dos Figurinistas e Kubo as Cordas Mágicas recebeu esse merecido reconhecimento, tornando-se a primeira. O filme foi realizado pelo estúdio Laika, já consagrado por suas produções em quadro a quadro utilizando bonecos de grande escala. As roupas do personagem-título, largas e fluídas, inspiradas por trajes tradicionais de diversos períodos da história do Japão, receberam estruturas internas que pudessem sustenta-las nas posições em que deveriam permanecer a cada movimento do personagem, permitindo a captura precisa do frame. Ou seja, além da beleza e variedade de peças criadas, a figurinista precisou trabalhar para torna-las adequadas à técnica utilizada na animação, usando desde linha de pesca até cabos de pirulito para o funcionamento interno das roupas. Às sedas cuidadosamente estampadas dos quimonos se juntam aos trajes das vilãs gêmeas, incluindo uma capa confeccionada com cerca de quinhentas penas. O resultado final, aliado à computação gráfica impressionante, transforma a animação em um verdadeiro espetáculo visual.

O Lar das Crianças Peculiares é um de fantasia, mas que se passa na década de 1940. A roupa da Sra. Peregrine (Eva Green) é inspirada no falcão peregrino que lhe dá o nome, com ombros pontiagudos, saia reta com barra levemente aberta e uma pena bordada nas mangas em fios metálicos. Os detalhes são sutis, não referenciando uma ave diretamente. Além disso, todas as crianças são trajadas de maneira a acentuar suas peculiaridades específicas. Esse é um trabalho que não se destaca tanto perto de outros indicados.

Já os trajes de Animais Fantásticos e Onde Habitam, da mesma figurinista, a veterana Colleen Atwood, mostra-se um trabalho muito mais esmerado, recriando a uma década de 20 ao mesmo tempo coerente com o período histórico e com um toque de excentricidade adequado à fantasia. Assim, o azul intenso combinado com ocre utilizado pelo protagonista Newt Scamander (Eddie Redmayne) o destacam do cinza da cidade de Nova York. As irmãs Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) são rapidamente diferenciadas. A primeira, trabalhadora com modos práticos e diretos, usa calças largas e blusas de algodão amarfanhadas, enquanto a segunda, romântica e aluada, recebe vestidos fluidos de cetim e renda em tons pálidos de rosa, que remetem a camisolas ou lingerie. Por fim, impressiona a atenção dedicado aos demais personagens e mesmo aos extras, com uso de bordados, estampas e adornos em profusão. É um trabalho cuidadoso e um resultado bastante bonito.

A obra que levou o prêmio, Doutor Estranho, envolve múltiplas influências de diferentes partes da Ásia. O protagonista (Benedict Cumberbatch) veste um cinto com detalhes em metal, um colar icônico em formato de olho e a sua capa vermelha, que chega a ser um personagem na história. Para auxiliar na composição do visual do personagem, a gola é exagerada, mas mantida ainda dentro de um tamanho que não atrapalhe as movimentações nem esconda o rosto do ator. O tecido, devidamente envelhecido, foi tingido em tons diversos de vermelho, brincando com texturas e sombras e criando a aparência de algo ancestral. Para que ela se movimentasse da forma adequada, um dos ombros foi sustentado por uma espécie de ombreira e o drapeado foi testado em inúmeros protótipos. Por fim, seu traje, bem como dos do Ancião (Tilda Swinton) e Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Kaecilius (Mads Mikkelsen) são confeccionados com dobras elaboradas e camadas sobrepostas de tecidos, que remetem a origami, amarrando visual e conceitualmente os personagens.

Esse ano os figurinos indicados ao Oscar foram os já citados Florence: Quem é Essa Mulher?, Jackie, Animais Fantásticos e Onde Habitam e La La Land aos quais se soma Aliados, com figurino de Joanna Johnston. Fica claro que a Academia não quis ousar, já que os figurinos de Doutor Estranho, Animais Noturnos e Ave, César!, para citar apenas três, são mais interessantes que os dois primeiros. De toda forma o prêmio foi para Colleen Atwood, por Animais Fantásticos. Esse foi seu quarto troféu: já havia sido premiada por Chicago em 2003, Memórias de uma Gueixa em 2006 e Alice no País das Maravilhas em 2011.

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Três anos de “Vestindo o Filme”

Mais um ano se passou e minha coluna no Cinema em Cena aniversaria hoje. Em 8 de julho de 2013 foi ao ar sua primeira edição, em que escrevi sobre O Grande Gatsby. Tive uma redução de ritmo considerável dessa vez: no primeiro ano foram vinte e cinco textos comentando quarenta e um filmes; no segundo dezoito e trinta e dois, respectivamente. Dessa vez foram treze artigos que abordaram trinta e duas obras. O espaçamento foi maior, mas pelo menos incluí mais filmes em cada um. Todo ano eu escolho os dez que mais gostei de escrever: não necessariamente os melhores, mas os que mais me diverti ou me interessei. Com o número reduzido, dessa vez vou escolher cinco, todos com links para o texto na íntegra. Vamos a eles:

Herói

Hero 2002

Nada como um uso espetacular de cores para auxiliar a narrativa. Esse filme de Yimou Zhang com figurino de Emi Wada é puro deleite para os olhos.

Garota Exemplar

Gone Girl

Figurinos de época geralmente são mais vistosos e chamam mais atenção, mas na sutileza e na minúcia de um bom figurino contemporâneo se esconde muita coisa. Trish Summerville é uma figurinista ainda com poucos filmes no currículo, mas que tem se mostrado consistente. Sua colaboração com David Fincher é uma prova da qualidade do seu trabalho.

Personagens femininas e seus figurinos em filmes de ação

Furiosa Mad Max

Nós sabemos que a representação feminina em filmes é problemática em geral, mas o que dizer das roupas pouco práticas utilizadas em filmes de ação ou aventura?

Juventude Transviada

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Roupas que marcaram época e gerações e uma direção de arte impecável em um filme clássico que eternizou James Dean como ícone que é.

Carol

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“Elegante” é o adjetivo que melhor descreve o último filme de Todd Haynes. Sandy Powell, figurinista veterana, criou para ele peças bonitas e que casam com a estética do conjunto. Como não se apaixonar por Carol (ou Therese)?

Para ler os demais textos sobre figurino no blog, acesse aqui.

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Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

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Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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Análise dos Indicados no Sindicato dos Figurinistas

No dia 17 de fevereiro o Sindicato do Figurinistas dos Estados Unidos revelou os vencedores de seu 17º prêmio anual (Costume Designer Guild Awards). A premiação tem como votantes profissionais da área, como figurinistas, assistentes de figurino e ilustradores que tenham vínculo com o sindicato e o prêmio abarca produções de cinema, televisão e publicidade. Por se tratar de uma escolha feita pelos próprios profissionais, a tendência é que avaliem mais as sutilezas da obra indicada, enquanto outros prêmios, como o Oscar, por exemplo, tendem a lembrar apenas dos figurinos mais vistosos. Isso pode ser percebido no fato de no ano passado o Sindicato ter premiado 12 Anos de Escravidão (na categoria Filme de Época) e o Oscar, a exuberância de O Grande Gatsby. (Para ler análise completa dos indicados e vencedores do ano anterior acesse aqui).
Abaixo estão as categorias, seus indicados (com o vencedor em destaque) e uma breve análise sobre cada uma:

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Excelência em Filme de Fantasia:

Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1 – Kurt and Bart
Caminhos da Floresta – Colleen Atwood
Malévola – Anna B. Sheppard, Jane Clive
Guardiões da Galáxia – Alexandra Byrne
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos – Bob Buck, Lesley Burkes-Harding, Ann Maskrey

INTO THE WOODS

De antemão já aviso que não assisti ao último filme da trilogia O Hobbit, mas pelas imagens de divulgação é possível dizer que segue a mesma linha e é mais do mesmo dentro da série. Conforme falei ano passado, é difícil não ver esse trabalho como uma continuidade do que era feito em O Senhor dos Anéis, mas de maneira bem menos impressionante.

Quase o mesmo pode ser dito a respeito de Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1. Com figurinistas diferentes a cada filme, percebe-se que Trish Summerville, responsável pelo segundo filme, Em Chamas, ampliou e aprimorou as decisões estéticas tomadas por Judianna Makovsky no primeiro. Coube à dupla Kurt e Bert preservar o interesse com as roupas utilitárias do 13º Distrito, destacando diferenças entre as personalidades e hierarquias dos personagens, mesmo que com uso de uniformes. Quanto ao que se passa na capital, mantiveram o minimalismo do Presidente em contraste com a exuberância da moda vigente, reforçando o desconforto de quem ficou para trás através de pequenos detalhes. Não é um trabalho tão vistoso, mas cumpre muito bem seu papel. (Leia aqui a análise do figurino de Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1)
Já em Guardiões da Galáxia, Peter Quill precisava passar a imagem de um aventureiro, uma espécie de Indiana Jones. A dancinha inicial aliada ao sobretudo já revelam a personalidade do personagem. Posteriormente, a jaqueta vermelha vai marcar seu visual. Além dele, há Gamora, com roupas justas e que que liberam os movimentos para luta; Drax vestindo apenas calças cargo, deixando seu torso de lutador à mostra, Rocket de armadura, uma vez que sua constituição de pequeno mamífero é frágil e… Groot, que dispensa esse tipo de formalidade. Contando ainda com vilões e muitos coadjuvantes, o filme confere individualidade a eles, fazendo grande uso de vinil e armaduras e com uma profusão de detalhes e texturas.
Malévola possui um figurino muito bonito, que mostra com clareza a trajetória da personagem. De silhuetas soltas e fluidas até formas rígidas, que incluem seu adorno de cabeça, seus trajes demonstram o trauma pelo qual passou. As cores também auxiliam: de tons neutros de marrom e amarelo que a ligavam à natureza ao seu redor, durante a infância, ela chega ao negro total ao amaldiçoar Aurora. Elementos naturais, como peles, garras, ossos e penas, adornam suas roupas. E há ainda os belos trajes medievais em tons pastel da princesa. Em um ano em que nenhum dos indicados se destaca em relação aos demais, esse seria o que eu escolheria na categoria. (Leia aqui a análise do figurino de Malévola)
Apesar de gostar muito do figurino de Malévola, é inegável a beleza do trabalho de Colleen Atwood (conhecida por ser colaboradora de longa data de Tim Burton) no musical Caminhos da Floresta. Adaptado do musical da Broadway de mesmo nome, a história não se passa em nenhum momento específico da história, de maneira que o figurino foi trabalhado com grande liberdade. Os detalhes são muitos: a capuz estruturado da capa de Chapeuzinho Vermelho, bem como seu sapatinho com múltiplas fivelas; o vestido diáfano repleto de amarrações que remetem ao encarceramento, utilizado por Rapunzel; o Lobo Mau com um paletó zoot, traje com gravata curta e calças volumosas e cintura alta, utilizado nos Estados Unidos no começo do século passado. A variedade de formas e cores é imensa, mas o destaque é o misto de Fada Madrinha com Bruxa Má da personagem de Maryl Streep. Com grandes mangas bufantes e cintura marcada por um corpete oculto que estrutura a forma, sua aparência, acrescida da volumosa cabeleira azul, é vistosa e serve bem à ambiguidade da personagem. O conjunto dos personagens é diverso, colorido e repleto de elementos interessantes.
INHERENT VICE

Excelência em Filme de Época:

Vício Inerente – Mark Bridges
A Teoria de Tudo – Steven Noble
O Jogo da Imitação – Sammy Sheldon Differ
O Grande Hotel Budapeste – Milena Canonero
Selma – Ruth E. Carter

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Essa categoria costuma ser a mais disputada, mas esse ano, tanto pelo nível mediano de grande parte dos competidores quanto pela grande qualidade de um deles, o vitorioso era uma certeza. Vício Inerente ainda não estreou no Brasil, então não posso comentar a seu respeito.

Selma é um trabalho que impressiona: Ruth Carter vestiu dezenas de figurantes presentes em cena. É possível ver a preocupação com a diversidade de classes sociais representadas, a diferença no vestir entre as gerações e o uso de múltiplas camadas de casacos, que, segundo ela, os manifestantes utilizavam para se proteger em caso de violência contra eles. É um trabalho bastante bonito.
Em A Teoria de Tudo, as roupas do protagonista, Stephen Hawking, são construídas de forma desproporcional, com grandes golas e tecidos sobrando, de maneira a mostrar a sua perda de musculatura sem que o ator precisasse emagrecer ou que fosse utilizado efeitos digitais. É semelhante ao que foi feito para frisar o emagrecimento de Matthew McConaughey em Clube de Compras Dallas no ano passado. A outra protagonista, Jane, utiliza roupas de jovem comportada da classe média de então, com muito azul para ajudar na percepção de juventude e frescor. Trata-se de um figurino apenas adequado, assim como o filme.
O mesmo acontece com O Jogo da Imitação. Tanto Alan Turing quanto sua amiga Joan Clarke se vestem de forma um pouco desleixada, com muitos tweeds, marrons e azuis. O restante da equipe é suficientemente individualizado em suas aparências, com destaque para a elegância em paletós bem cortados de Hugh. O resultado final cumpre o seu papel, mas não é nada excepcional.
Já O Grande Hotel Budapeste é certamente o vencedor merecido. Como em todo filme do diretor Wes Anderson, o figurino faz parte de um conjunto maior cuidadosamente criado para compor toda a estética da obra. Cada um dos três períodos recebe tratamento diferenciado, mas coesos dentro da proposta. O uso de cores dialoga com os cenários e as roupas, peculiares, são essenciais para nossa percepção dos personagens. Veterana na indústria, Milena Canonero sem dúvida fez um belo trabalho. (Leia aqui a análise do figurino de O Grande Hotel Budapeste).

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Excelência em Filme Contemporâneo:

Birdman – Albert Wolsky
Boyhood – Kari Perkins
Garota Exemplar – Trish Summerville
Interestelar – Mary Zophres
Livre – Melissa Bruning

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Essa foi a categoria com maior número de indicados realmente interessantes e, por, isso, a mais disputada. Interestelar e Boyhood são os dois mais fracos, embora seus figurinos façam o que se propõem. O primeiro compõe o retrato de um futuro devastado, em que as roupas são muito próximas das nossas. Há ainda a criação de trajes espaciais adequadamente envelhecidos. No segundo, a figurinista Kari Perkins fez um trabalho quase intuitivo, escolhendo as peças conforme foram filmando, de acordo com a idade dos personagens e deixando marcadas as modas de cada ano.
Livre é meu segundo preferido neste grupo. O figurino recriou diversas roupas registradas em fotos da Cheryl Strayed da vida real, como as bermudas, as calças, as camisetas (das lisas às estampadas, como uma do Bob Marley) e as botas com característicos cadarços vermelhos. Cada peça foi comprada ou confeccionada em grande número, para os diferentes estágios de envelhecimento e sujeira que aparecem em cena. Além disso, com os flashbacks, há a composição dela e dos demais personagens de seu círculo de conhecidos, em épocas que variam do final dos anos 80 até meados dos anos 90, quando começou a trilha. Apesar de ter sido categorizado como “contemporâneo”, poderia ter sido considerado um filme de época.
Em Garota Exemplar Trish Summerville mostra mais uma vez porque é um nome que vem ascendendo tão rapidamente na indústria. O figurino é extremamente significativo na narrativa e esse é meu preferido da categoria. Amy passa por diversas fases: primeiro é a mulher confiante e senhora de si nos flashbacks mais antigos, vestindo roupas bem cortadas, urbanas e escuras: uma cool girl nova-iorquina. Ao longo do casamento, depois da mudança para o interior, ela altera seu jeito de vestir conforme deixa de ser quem queria. Ao fugir, ganha peso e se veste de forma desleixada para não chamar atenção para si. Quando volta para casa, começa a usar trajes que passam uma imagem mais delicada e tradicionalmente feminina. Até que, no desfecho do filme, com a última revelação para Nick, traja um vestido preto com detalhes brancos, sóbrio, que marca o corpo mas não tem detalhes. Amy fechou sua trajetória voltando a ser quem queria. Já Nick é aquele cara comum, que veste camisa azul e usa moletom com calça jeans. Ele não a desafia nem se desafia. Impressiona o nível de cuidado para que as roupas casem tão bem com a narrativa surpreendente. É uma pena que nem sempre figurinos contemporâneos tenham a atenção merecida.
Em Birdman o figurino precisa mostrar seus personagens nos palcos e fora dele. Para o teatro, há roupas dos anos 50 com cores vistosas, conforme a época que se passa a cena. Fora do personagem, o ator e agora diretor Riggan Thomson é um homem de meia idade em crise, que veste roupas monótonas e cuecas brancas. É claro que até as roupas íntimas foram planejadas para compor a falta de alinhamento do personagem com a contemporaneidade. Ele contrasta com sua filha Sam, que usa roupas modernas e descombinadas e mesmo com Mike, ator arrogante e autoconfiante que se veste de forma despojada e usa sunguinha estampada. Para coroar, há o próprio Birdman, cujo uniforme com texturas de penas, detalhes dourados no capuz, fivela do cinto, luvas e botas e cor preta azulada é suficientemente crível para poder ter sido usado de verdade em um filme, mas ainda assim mantendo um quê de ridículo.
Os indicados ao Oscar de Melhor Figurino deste ano foram os já citados Vício Inerente, Caminhos da Floresta, Malévola e O Grande Hotel Budapeste, acrescidos de Sr. Turner. Dessa vez a Academia acompanhou o Sindicato e premiou o belo trabalho de Milena Canonero em O Grande Hotel Budapeste.

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