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Figurino: A Princesinha: cores quentes para uma Índia idílica

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 06/08/2013.

Conforme já falado no texto sobre O Grande Gatsby, figurinos de filmes que retratam determinados períodos não necessariamente precisam ser fiéis às modas da época retratada, mas devem, sim, atender às necessidades do diretor, criando uma experiência visual de acordo com a estética almejada na película. Lançado em 1995, com roteiro adaptado do livro de Frances Hodgson Burnett, A Princesinha, primeiro filme em língua inglesa do diretor mexicano Alfonso Cuáron, é um belo exemplo de como isso funciona.
Cuarón claramente divide sua história em duas cores: o amarelo da Índia idílica e o verde da Nova York fria e solitária. É interessante notar que o uso exacerbado do verde repete-se em seu filme seguinte, Grandes Esperanças. Embora essa paleta de cores restrita apareça enfaticamente em diversos elementos da história, é no figurino elaborado por Judianna Makovsky que ela ganha destaque.
A história começa no período que antecede a Primeira Guerra Mundial. Ao final do século XIX, a arte, a moda e a decoração eurocêntricas tiveram grande influência de países como Índia, China, Japão e Turquia. Tais locais eram vistos como exóticos pelos ocidentais. Sarah (Liesel Matthews) e seu pai, Capitão Crewe (Liam Cunningham), moram na Índia e a forma como ela é retratada é reflexo dessa visão de exotismo: uma Índia dos mitos, das especiarias e das aventuras fantásticas. Sarah passa o filme contando a história do bom príncipe Rama, que luta pelo seu amor, a Princesa Sita. Na história, que traça paralelos com a sua própria, ambos usam roupas inspiradas em trajes tradicionais, em tons alaranjados com adornos em dourado. O calor irradia de suas roupas.

FIG 01

Sarah utiliza vestidos extremamente fiéis ao vestuário infantil da época, com cintura levemente caída, chapéu e casaco rodado com abotoamento duplo, sempre em branco ou em tons de creme. São com essas cores que se muda para Nova York, a fim de estudar em um colégio interno. As responsáveis, srta. Minchin (Eleanor Bron) e sua irmã, Amelia Minchin (Rusty Schwimmer) aparecem em vestidos eduardianos (caracterizados por corte reto e busto volumoso) em tons de verde escuro. Essa é a cor que marca a permanência de Sarah na escola.

FIG 02

Quando Sarah presenteia Becky (Vanessa Lee Chester), a menina que trabalha silenciosamente como empregada na escola, opta por dar-lhe um sapato em um aberto tom de amarelo. O item extravagante provavelmente seria pouco útil a outra menina, mas essa é a cor que Sarah relaciona às coisas boas.

FIG 03

Entre neve, frio e chuva, as alunas do colégio vestem uniformes em tons de verde escuro e apagado, com corte similar aos vestidos de Sarah, junto com um grande laço para os cabelos e um avental creme. O vestido, com golas largas bordadas e gravata, é acompanhado, no inverno, por um casaco de veludo com capa da mesma cor. Ela se repete nas roupas de todos os envolvidos no ambiente escolar, do professor de francês ao entregador de leite. O design de produção frisa isso tornando todos os ambientes sufocantemente verdes, através de outros elementos do cenário, como cristais, vasos, quadros e paredes. Não há dúvidas em relação a intenção de criar uma atmosfera fria, que transmite a sensação de rigidez.

FIG 04

Essa repetição de cor apenas vem a se alterar em relação a Srta. Minchin, que passa a vestir preto a partir de quando recebe um advogado do pai de Sarah, que porta más notícias. Dessa forma ela assume abertamente seu papel de opositora dentro do contexto escolar.
A pobreza é retratada sem cor. Tons de cinza passam a recobrir os trajes de Sarah, bem como as roupas de Becky. Nas ruas os famintos vestem marrons e pretos esfarrapados.

FIG 05

A esperança, nesse contexto, não é verde, e sim amarela. Ela é personalizada na figura do misterioso indiano Ram Dass (Errol Sitahal), que esporadicamente aparece na vida de Sarah, utilizando trajes nessa cor recobertos com bordados dourados. É ele o responsável pela surpresa que Becky e Sarah tem ao acordar e ver seu quartinho decorado e um café da manhã posto, com um lindo robe amarelo com detalhes em dourado e sapatilhas na mesma cor esperando cada uma. O amarelo remete ao antigo lar de Sarah e traz junto consigo a sensação de calor, aconchego e alegria. Quase pode-se sentir o cheiro da Índia que a menina deixou para trás.

FIG 06

Através da criação padrão de uso de cores e de sua repetição exaustiva, Judianna Makovsky serve a todo o design planejado por Cuarón e cria uma ambientação com propósitos claros. Cuarón idealizou uma Índia através das lentes do exotismo com que era vista na época retratada e expressou-a através de cores quentes. Já a solidão, o medo e a frieza nova-iorquina aparecem representados no verde. Apesar de historicamente acurado, o que realmente importa nesse figurino são as sensações suscitadas por suas cores. Com cenas belíssimas e uso de cores inteligente, o filme já é um jovem clássico infanto-juvenil.

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Gravidade (Gravity/ 2013)

Assistido em 11/10/2013

Aviso: pode conter revelações da trama.

Acredito que a essa altura praticamente todos que queriam se manifestar sobre Gravidade já o fizeram. Em geral a crítica tece elogios rasgados ao filme. Com uma ansiedade que eu não tive desde Anna Karenina, fui assisti-lo na primeira noite de exibição e não me decepcionei. Saí de lá falando pra todos “eu já sabia!”. Porque eu já sabia! Acho que foi mais ou menos por 1997 que eu eu vi A Princesinha pela primeira vez e gravei aquele nome em letras douradas que aparecia nos créditos de abertura e pensei “esse cara é bom”. Bem, em 1997 eu não tinha muita ideia exatamente de porque eu tive essa sensação, mas dali pra frente toda vez que eu ouvi ou lia o nome dele, precisava parar para ver do que se tratava. Então posso dizer que há pelo menos uma década e meia eu depositei todas as minhas esperanças nele e aguardei todo mundo ver o que eu tinha visto. E parece que o momento chegou: a direção de Gravidade é absolutamente impecável e o mundo se rendeu a Cuarón. (Sim, esse texto vai ser emotivo e rasgado).

A premissa é bastante simples: Ryan (Sandra Bullock) é uma engenheira que está fazendo manutenção em um satélite juntamente com o astronauta veterano Matt (George Clooney), quando destroços os atingem deixando-os flutuando sozinhos no espaço. Clooney funciona muito bem interpretando ele mesmo, o homem de sorriso aberto, bonachão e simpático. Cuarón consegue extrair de Bullock o que provavelmente é a melhor interpretação de sua carreira. Com um rápido diálogo após os eventos iniciais, já estabelecemos conexão emocional com ambos os personagens, através da forma como suas vidas ficam expostas.

A sequência inicial, aliás, é belíssima. Como já havia feito em Filhos da Esperança, Cuarón aqui executa muitos minutos (mais de dez, talvez?) sem nenhum corte aparente. A câmera dança no espaço em torno dos personagens, nos ajudando a mergulhar em seus dramas (e mesmo literalmente mergulhando no capacete de Ryan, atravessando seu vidro). O trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki não pode passar sem um elogio: o filme se passa como em um balé, quase pode-se sentir a câmera dançando na falta de gravidade junto com os protagonistas. O 3D, mesmo que convertido, serve muito ao filme, tornando a experiência toda ainda mais imersiva.

Mas nem só de imagem se faz um filme e os som também está muito bom. O absoluto silêncio no espaço ajuda a conferir dramaticidade às sequências. Dentro do capacete de Ryan, temos a noção do som. Sua respiração ofegante aumenta a ansiedade e em certos momentos podemos ouvir as batidas de um coração.

Daí para a frente, tudo é tensão e medo por Ryan. Ela está quase sem oxigênio e você fica quase sem ar em sua poltrona. Muitas vezes encrespei a mão no braço dela ao longo do filme. A sensação de claustrofobia, mesmo presenciando o espaço aberto, é intensa. Apenas ao final consegui inspirar fundo e sentir como se tudo voltasse ao normal. É interessante que Renato Silveira tenha comparado o filme com Mar Aberto, pois uma das minhas companhias na sessão disse justamente que a agonia e a tensão lembravam a sensação de ver aquele filme.

A sequência em que Ryan consegue se abrigar em uma cápsula espacial, livra-se de seus trajes espaciais e flutua em posição fetal, com os cabos compondo uma espécie de cordão umbilical é de uma beleza poética. A metáfora da gestação e do começo da vida segue ao longo do filme. Ryan não quer apenas sobreviver ao acidente. Ela quer se curar de seu passado, das perdas com as quais não soube lidar e das quais fugiu. Quando a cápsula cai na água, ela abre a porta e se vê cercada de água por todos os lados. Esse é o momento do nascimento, em que a bolsa se rompe e Ryan volta à vida, lutando por ela. Arrasta-se para a margem, como um ser primordial, que migrou da água para a terra. E juntando suas forças, se ergue, aprendendo a dar os primeiros passos de novo em gravidade, como um bebê.

Tecnicamente o filme é impecável. A história prende de maneira absurda e desde que o vi, já sinto vontade de revê-lo. As atuações estão muito boas (e Ed Harris como a voz da comunicação foi um toque interessante, dado seu papel em Apollo 13). A beleza da fotografia e e trama simples, mas bem executada, com uma bela metáfora, fecham com tudo que esperava do filme. É um filme que se beneficia ainda mais que o normal da experiência de ser visto no cinema, pois exige total imersão.  Já pode-se dizer que é um dos melhores do ano, sem dúvida. Que filme!

gravity poster

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A Princesinha (A Little Princess/ 1995)

Assistido em: 30/06/2013

lmprinhd084 Quando era criança, tinha uma grande queda por filmes de fantasia: gostava de acreditar que seus universos eram reais e viver as histórias intensamente. Meus preferidos da Sessão da Tarde eram História Sem Fim e A Lenda. A Princesinha é outro que sempre guardei na lembrança, embora já tenha assistido pela primeira vez na pré-adolescência. Na época havia muita discussão com meus amiguinhos sobre qual seria o melhor, A Princesinha ou O Jardim Secreto (ambos adaptados de livros da mesma autora, Frances Hodgson Burnett) e eu não tinha dúvidas: o primeiro era, por ser mais mágico e colorido.

a little princess3 As cores são justamente o ponto forte da história. Dirigido por Alfonso Cuarón e com fotografia belíssima, temos no início da história a menina Sara morando com o pai, um militar inglês, na Índia, mas uma Índia idílica e exótica, composta de cores quentes, lugares fantásticos e cheiro de especiarias. Ao começar a Primeira Guerra Mundial ele resolve levá-la a Nova York para estudar no internato em que a mãe dela havia estudado, administrado pela séria senhorita Minchin. Lá vemos a obsessão que Cuarón tinha na época pelo verde. A cor cobre a tela: dos tijolos da fachada da escola, às paredes internas, passando pelos cristais, louças, uniformes, vestidos das professoras e ternos do professor, tudo é retratado nessa cor. As cenas são compostas parasempre captá-la, mesmo que isso envolva closes em maçãs ou repolhos. (Cuarón continuaria com essa paleta de cores no seu filme posterior, Grandes Esperanças). Todo o design de produção é muito bonito. A trilha sonora também é inesquecivel e uso de cítaras dá um tom especial.

tumblr_lqcm3liqEg1qlaetko1_400 Ao chegar à escola, Sara logo percebe outra menina de sua idade, Becky, esfregando o chão do lugar. Becky é negra, pobre e proibida de falar com as alunas do colégio, mas Sara logo tenta estabelecer amizade. Além disso Lavinia, outra aluna, a trata com desprezo, temendo perder popularidade para ela. Sara desafia as regras do local e nunca deixa de querer contar suas fantásticas histórias aprendidas na Índia e de acreditar no que seu pai falou, de que todas as meninas, independente de sua situação, são princesas. lmprinhd139 No dia de seu aniversário vem a notícia: seu pai fora encontrado morto em campo de batalha e ela foi deixada sem nem um centavo. Todos seus bens são confiscados por srta. Minchin para cobrir suas despesas e ela passa a ser uma serviçal juntamente com Becky, morando no sotão com esta. Mas é observada sempre muito de perto por um bondoso homem indiano.

tumblr_lkoro41Chi1qzu6rfo1_500 A história é, sim, extremamente açucarada. Meu cinismo atual pode me dizer que Sara era uma menina rica e mal acostumada e que mesmo empobrecida, nunca teria as mesmas dificuldades na vida que Becky, por exemplo. Mas é tão fácil gostar da personagem e, mais ainda, da fantasia, que não deixei essa visão tomar conta de mim. A forma como ela se apega à história de Príncipe Rama (e como o filme traça um paralelo com sua própria história) é muito bonita. Após mais de uma década sem assisti-lo, esse continua sendo um filme de encher os olhos e alegrar o coração.

Obs: Para ler minha análise sobre o figurino do filme, clique aqui.

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