[43ª Mostra de São Paulo] Dois Papas (The Two Popes, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Extremamente divertido. Esse não é a descrição que esperaria utilizar para descrever um filme sobre duas figuras eclesiásticas, mas é um resumo perfeito para Dois Papas, escrito por Anthony McCarten e dirigido por Fernando Meirelles. O filme mostra as eleições do cardeal Ratzinger (Anthony Hopkins, com lentes de contato castanhas) e do cardeal Bergoglio (Jonathan Pryce), que assumiram os nomes de papa Bento XVI e Papa Francisco, respectivamente, no mais alto cargo da hierarquia da Igreja Católica.

Em 2005 morreu o papa João Paulo II, resumido no filme como alguém que lutou pelos direitos humanos, mas conservador no que diz respeito aos costumes. A igreja, nesse momento, precisava fazer uma escolha: eleger um novo líder conservador, alinhado com a tradição, ou progressista, tendo em vista a perda de fiéis que havia se se ampliado nos últimos anos, motivada pela falta de conexão entre a doutrina e a vida das pessoas. Os defensores da primeira medida venceram, com a eleição de Ratzinger. O filme traduz para aqueles que não são da religião os ritos e meandros envolvidos nesse processo, que passa pela reunião de cardeais de todo mundo, a própria votação e suas especificidades, até a fumaça branca que anuncia o habemos papam.

O que ocorre daí em diante é a ficcionalização dos encontros entre Ratzinger e Bergoglio e suas conversas. Embora seja uma narrativa bastante tradicional, o ponto forte está nos dois atores, que são colocados lado a lado com tanta naturalidade, como se não houvesse esforço nesse processo, que passa ao público a falsa impressão de que eles não interpretam, apenas são. É fácil se perder na apreciação do talento deles, que é auxiliado por um ótimo texto, com diálogos afiados e cheios de humor (que não deixa de fora nem mesmo pequenas piadas sobre suas origens, seja alemã, seja argentina).

A trilha sonora também é muito bem escolhida, pontuando os momentos certos, do Besame Mucho ao Dancing Queen casualmente assoviado, e é usada como ponte para algo que é corrente em todo filme: a humanização de seus protagonistas. Se por um lado não tenta justificar o fato de Ratzinger ter integrado a juventude de Hitler, por outro coloca em discussão o fato de Bergoglio, uma figura muito mais carismática, ter negociado com pessoas de autoridade durante a ditadura na Argentina. O que fica no ar com isso é porque o tratamento diferenciado entre os dois passados, embora fique claro que o peso das ações são carregados até hoje.

O trabalho de direção de arte é essencial para estabelecer as diferenças entre os dois. Enquanto Bento XVI é retratado colocando sequências de anéis de ouro, seu grande crucifixo com grossas correntes, também de ouro, e o vistoso sapato de couro vermelho, ornando com sua batina branca, Bergoglio só usa seu traje negro e vermelho de cardeal quando obrigado, usa botinas gastas e uma singela cruz de prata. Mesmo quando já eleito Francisco, abre mão dos adornos papais usuais. Os mobiliários são minimalistas e dão espaço para destacar a interação dos atores, mas também a opulência dos tesouros que o Vaticano detém. É possível ter um vislumbre do histórico da instituição quando se trata das artes e riquezas quando, em certa cena, a câmera abre e o recinto se ilumina para revelar que os protagonistas estão na Capela Sistina.

Infelizmente há inserções de flashbacks em preto e branco para estabelecer a juventude de Bergoglio na Argentina e Uruguai, o chamado para a vocação religiosa, sua relação com a teologia da libertação e seu colaboracionismo com a ditadura. Esses são os momentos que enfraquecem a narrativa, que seria muito mais interessante se focasse apenas no embate entre os atores principais.

O filme ganha quando destaca a pequenez de seus protagonistas diante da história longeva da instituição da qual fazem parte e as diferenças, quando se trata de postura e de opinião, entre ambos. Melhora ainda mais quando os estabelece como humanos, pequenos e falhos, sabendo que “verdade sem amor pode ser insuportável”, como afirma Bento XVI, e que é preciso “lutar contra a tirania da estrutura econômica mundial desigual”, conforme Francisco. Dois Papas é ótimo na medida em que aproveita o grandes atores principais para estabelecer as personalidades conflitantes de seus protagonistas. E é extremamente divertido.

Nota: 4 de 5 estrelas
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Figurino: O Silêncio dos Inocentes e Hannibal

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 17/07/2014.

We begin by coveting what we see every day. Don’t you feel eyes moving over your body, Clarice?

 

Criado pelo escritor Thomas Harris, Hannibal Lecter apareceu em quatro livros, cinco filmes e uma série de televisão e é sem dúvida um personagem marcante na cultura popular. O filme O Silêncio dos Inocentes, de 1991, dirigido por Jonathan Demmes, marca a consagração do personagem, que protagoniza a trama ao lado da agente do FBI Clarice Starling. As interpretações marcantes de Anthony Hopkins e Jodie Foster são realçadas pela atmosfera soturna e pelos constantes closes em seus rostos. O figurino de Colleen Atwood (conhecida pelos seus trabalhos nos filmes do diretor Tim Burton) é contido e significativo.
Na primeira vez em que avistamos Clarice, ela está correndo em uma trilha na mata, vestindo um moletom cinza do FBI. Ao ser chamada para conversar com um superior, entra em um elevador cheio com colegas seus vestidos de vermelho, dando uma noção de perigo. A diferença de altura, a forma como ela é observada e o espaço diminuto ao seu redor ajudam a frisar essa noção. Sendo uma mulher em um ambiente predominantemente masculino, o tom de ameaça de cunho sexual em torno dela o tempo inteiro é um tema constante no filme.

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Sua posição vulnerável é mais uma vez destacada quando comparada aos homens por quem passa no corredor, todos trajando paletós em tons de cinzas, em contraste com seu moletom suado do exercício físico e seu rabo de cavalo, que lhe conferem ar infantil.

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Doutor Chilton, o responsável pelos presos com problemas mentais, não hesita em perguntar-lhe se teria a noite livre, pois a cidade pode ser divertida de noite, mesmo se tratando de uma visita profissional. Com cabelos volumosos e roupas vistosas, o psiquiatra demonstra ter grande autoconfiança.

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Clarice veste saia lápis, uma camiseta clara, blazer de tweed e carrega um casaco verde que usará ao longo de todo o filme. Como adorno, uma pequena corrente no pescoço. Através dessa roupa tenta projetar uma imagem de profissionalismo.

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No corredor das celas, que mais parece um calabouço, é ameaçada por três internos diferentes. Um deles chega ao extremo de lhe jogar esperma. Novamente o olhar dos homens ao seu redor é que lhe ameaça. Comportam-se com selvageria e contrastam com a figura em pé na cela arrumada, com uniforme impecavelmente ajeitado, que é Hannibal. Em meio aos outros loucos, ele é ameaçador por sua postura e aparência sã. A ameaça é sua mente e o uso que faz dela, não uma possível demonstração de animalidade.

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Com seu jogo de palavras, Hannibal consegue achar um ponto fraco em Clarice. Menciona sua bolsa cara e seus sapatos baratos, bem como sua infância e sua tentativa de deixar para trás a imagem de caipira e de pobreza. Provavelmente Clarice pensou que ninguém repararia em seus sapatos, especialmente porque, com saia e meia calça, está mais produzida do que o normal de seu cotidiano.

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Fora dessa situação, ela passa o filme inteiro com a mesma roupa: uma camisa polo bordô, sob uma jaqueta de tweed, o casaco verde e um cachecol cinza. Não usa estampas, nem formas marcantes, muito menos peças com cortes diferenciados. Seu estilo é formal e ao mesmo tempo prático. Talvez justamente para lidar com o mundo ao redor: um idoso acha que ela não conseguiria abrir uma porta de metal e pensa em chamar seu filho para ajudar; seu chefe a exclui de uma conversa com um delegado local e a deixa sob o olhar escrutinador de outros policiais; mesmo os cientistas que analisam os insetos a assediam. A hostilidade ou a condescendência estão por todo lado e por isso ela não chama atenção para si, apenas veste sua roupa como uma armadura.

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Ao ser transferido, o uniforme de Hannibal muda para o puro branco. Nessa sequência o vemos utilizando as duas máscaras icônicas que o impedem de morder seus captores, mas não impedem seu olhar frio dirigido diretamente para o espectador.

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Quem se importa com o vestuário aqui é Bufallo Bill (Ted Levine), o serial killer à solta. Pergunta a uma vítima antes de captura-la se seu manequim é 14, interessado em seu tamanho. Recorta seu vestido e confere a numeração na etiqueta. Ele mesmo é interessado em costura e aparece praticando a atividade nu, livre de qualquer elemento que o defina.

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Vaidoso, dança em frente ao espelho enquanto se maquia: usa um piercing com pingente no mamilo, um colar com um em forma de mulher e outro com pingente geométrico, além de uma manta estampada. Aprecia sua própria aparência. Se há algo a ser criticado no filme é justamente o retrato que se faz dele enquanto pessoa trans. Billy é primeiramente apresentado como uma, usando como comparação as próprias mariposas que utiliza em suas cenas de crime: seres que mudam de forma. Mas Clarice afirma que transexuais são pessoas passivas, ao que Hannibal responde que ele não é um transexual de verdade, apenas pensa que é, tratando-se de alguém que odeia a própria identidade e nunca foi aprovado nos testes psicológicos para uma cirurgia de redesignação sexual. Se o retrato da passividade é generalizante, bem como a ideia de que para ser trans é necessário passar por procedimentos cirúrgicos, mais errôneo ainda é negar o direito de auto identificação do personagem, ainda mais levando-se em conta que Hannibal é psiquiatra. Por outro lado jamais vemos ele próprio se identificando como trans: o que ele faz em cena é adornar seu corpo de forma que desafia os padrões tradicionais de gênero.

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De qualquer forma Bufallo Bill encaixa-se na temática de objetificação da mulher de forma bastante literal, tendo em vista que transforma os corpos de suas vítimas em objetos. Utiliza suas peles como tecido, para poder costurar para si um traje literalmente de mulher, para incorporar à sua feminilidade.
No filme seguinte, Hannibal, de 2001, dirigido por Ridley Scott, Anthony Hopkins volta a desempenhar o papel-título, mas Julianne Moore substitui Jodie Foster como Clarice. A figurinista passa a ser Janty Yates, que firmou parceria com o diretor em Gladiador e participou de quase todos seus filmes seguintes.
Yates reformulou o guarda-roupa de Clarice. Ao invés da formalidade do primeiro filme, aqui, já agente especial, ela aparece bastante casual. Faz uso de camisetas, camisas de botão, calças-cargo e jaquetas jeans.

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Na cena em que conhece Mason Verger (Gary Oldman), veste um terninho cinza com camiseta clara que remete àquele conjunto que usara quando conheceu Hannibal. Mas dessa vez, o corte é inadequado ao seu porte e o efeito geral é de desleixo.

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Nesse segundo filme, a força da personagem parece se perder em meio às tramas paralelas. O senso de constante ameaça apenas por ser mulher também não está mais lá. Mas na sequência em que é revelado seu envolvimento passado com Krendler (Ray Liotta), seu superior no FBI, e este a destrata, a conexão é destacada pelo uso de camisas similares para ambos: sociais de botão em tom amarelo claro.

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Hannibal, livre, pode finalmente expressar todo seu refinamento. Veste-se com ternos bem cortados (a maioria Gucci) e utiliza óculos escuros com armação verde, anel com pedra azul e chapéu panamá. Emana sofisticação e bom gosto, coisas que aprecia.

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Em certa cena os elementos da composição são ligados cromaticamente a ele: não só seu anel é azul, como sua camisa; bem como as flores das mesas e camisas de diferentes figurantes, destacando-o. Era o que o inspetor Pazzi (Giancarlo Giannini) necessitava para encontra-lo em meio à multidão e confirmar sua presença em Florença.

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Pazzi encontra com Hannibal pela primeira vez quando este está no meio de sua sala de estar, descalço, de pijama azul, refletindo o momento em que Clarice o viu pra primeira vez.

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O personagem só deixa de se vestir com elegância quando precisa se disfarçar: usa camiseta e uma camisa larga sobre ela, para ter a aparência de um americano comum.

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Os sapatos de Clarice são constantemente mostrados, como um lembrete de que passados tantos anos, ela continua usando calçados baratos, outra alusão ao filme anterior.

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Com forte publicidade indireta, a grife italiana Gucci volta a aparecer na revista que Hannibal deixa na casa de Clarice, com uma foto desta sobre o rosto da modelo.

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Não por acaso, quando a veste para o banquete final, coloca nela sandálias e um vestido da mesma grife. A marca aparece em destaque quando o sapato é mostrado pela primeira vez. O vestido, com fenda frontal, decote profundo e costas nuas, é muito mais ousado do que qualquer roupa que Clarice utilizaria em seu cotidiano.

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Com mais personagens e tramas que se misturam, Hannibal é um filme que não confere o destaque que Clarice merecia. O fato de o serial killer que dá nome ao filme estar à solta deixa-lhe mais espaço para expressar-se enquanto personagem, mas ao mesmo tempo tira-lhe parte do mistério, já que que o ato violento mostrado de forma escancarada é menos assustador do que a sensação de ameaça e de perigo eminente. Se considerarmos apenas O Silêncio dos Inocentes, Clarice é protagonista de sua própria história, mesmo vivendo em um mundo de homens ameaçadores, sejam eles serial killers, cientistas, médicos ou agentes do FBI. Apesar de suas inseguranças, é forte o suficiente para lidar com todos eles. Os figurinos criados para ela por ambas, Colleen Atwood e Janty Yates, são minimalistas de formas diferentes, mas o primeiro, com sua formalidade simples, parece se adequar mais ao que ela precisa para sobreviver ao meio que a rodeia. Não resta dúvidas de que O Silêncio dos Inocentes é uma obra cinematográfica que vence facilmente a barreira do tempo e do gênero em que se enquadra, mostrando-se um belo filme até hoje.

Well, Clarice – have the lambs stopped screaming?

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O Silêncio dos Inocentes em Closes

Impressiona a maneira como o diretor Jonatham Demmes, juntamente com o diretor de fotografia Tak Fujimoto, inseriu close ups ao longo de toda a narrativa de O Silêncio dos Inocentes (1991), ao mesmo tempo explorando as emoções dos personagens e aumentando a sensação de tensão, pela exclusão do entorno. Quase sempre os personagens olham diretamente para a câmera (e consequentemente para o espectador), de maneira a intensificar a transmição das emoções sentidas em cena.  Fiz uma compilação de alguns momentos em que a técnica é utilizada, mas esses não foram os únicos. Muitos personagens secundários também aparecem em close. Além disso há uso de alguns extreme close ups. As imagens falam por si só.

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Figurino: Noé

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 23/04/2014.

 

Mantendo fidelidade à temática de sua obra, Darren Aronofsky (Cisne Negro) mais uma vez dirigiu um filme sobre obsessão: Noé. Polêmico, talvez o maior problema do filme tenha sido a falta de compreensão da sua natureza: muitos esperavam uma adaptação literal da história bíblica, quando na verdade trata-se de uma baseada em uma graphic novel desenvolvida pelo próprio Aronofsky, reimaginando o mito.
Se levarmos em conta a interpretação literal da Bíblia, teríamos que considerar que a criação ocorreu entre 6 mil e 10 mil anos atrás. Levando-se em conta a idade do protagonista e sua genealogia, isso localizaria a história no período Neolítico. Nessa época os humanos vestiam trajes confeccionados de pele e couro e usavam ossos para fechamento. Ao fim do período as primeiras roupas de tecidos confeccionados com lã e outras fibras naturais seriam criadas.
Da pré-história até o final da Idade Média não existiu o que nós conhecemos como moda. As roupas a princípio possuíam uma funcionalidade específica (proteção) e mesmo quando o valor estético foi incorporado, suas variações eram baseadas na perpetuação da tradição e não eram mudanças drásticas.
Mas, ao levarmos em conta que se trata de uma reinterpretação de um mito, isso situa a trama fora de nossa escala temporal, permitindo liberdade total para reimaginar as roupas conforme as necessidades narrativas. Por esse motivo o figurino também causou reações de estranhamento: protagonistas de filmes bíblicos costumam vestir túnicas, mas isso está bem longe do que vemos aqui. O figurinista Michael Wilkinson (que recentemente trabalhou em Trapaça e está em franca ascensão na indústria) não parece ter grande preocupação em fidelidade com o que se espera dos períodos retratados, brincando com formas e modelagens de maneira a obter os efeitos desejados para a narrativa.

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A família de Noé (Russell Crowe) é formada por sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), seu avô Matusalém (Anthony Hopkins), seus filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que adotaram quando criança e que torna-se companheira de Sem.
Eles vestem-se em camadas sobrepostas de trajes confeccionados em tecidos rústicos e desgastados. As formas são ajustadas e contemporâneas, blindando-os contra as intempéries do clima, em uma natureza que foi dilapidada pelos humanos.

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Os tecidos são artesanais, confeccionados em tear ou tricotados, com matérias primas vegetais, como algodão e linho. Eles são utilizados de forma mesclada, criando-se textura visual para as roupas. Costuras feitas à mão são visíveis. A paleta de cores possui variações bastante sutis e o belo trabalho de tingimento, realizado pelo artista Matt Reitsma, é perceptível, com a obtenção de suaves variações de tons de marrom, creme, cinza e mesmo um certo tom arroxeado sempre presente nas roupas de Naameh.

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É interessante perceber esse uso de tecido de origem vegetal pela família de Noé, pois isso casa com o conceito da trama de que eles seriam vegetarianos, respeitando, assim, o restante da obra do Criador. Dessa forma, as botas de couro que vestem parecem contraditórias dentro do próprio conceito criado para o filme.

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Em contraste com eles, temos os descendentes de Caim, liderados por Tubal-Cain (Ray Winstone). Esses humanos demostram pouco respeito ao restante da Criação, fazendo uso desenfreado de tudo que está ao seu redor e consumindo os recursos naturais. Percebe-se que utilizam não só trajes feitos de couro (já que consomem carne), mas também, devido aos seus instintos bélicos bastante aflorados, adornados de metal, como proto-armaduras.

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Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com
Traje de Tubal Cain em desenvolvimento. Fonte: tyrannyofstyle.com

Recheada de gnosticismo, em Noé Darren Aronofsky criou uma versão interessante, forte e intensa para a história que sempre lhe intrigou. O figurino de Michael Wilkinson não se destaca pela beleza particular das peças, mas sim pela qualidade do trabalho artesanal e pela coerência com o universo criado para a história.

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Noé (Noah, 2014)

O antropólogo alemão Franz Boas afirmou que o mito tem origem histórica e se baseia no cotidiano do próprio povo que o criou. Por outro lado, defendeu que ele pode se espalhar através de difusão para outros povos que tenham proximidade geográfica. Ainda assim, seria possível encontrar relatos similares entre povos sem contatos anteriores, mesmo que sem uma causa primária semelhante ou uma significação semelhante. Grande parte dos povos da antiguidade buscavam se fixar nas proximidades de rios, porque facilitava a obtenção de água e alimento. Assim, eventualmente, uma cheia periódica poderia ser maior do que as normais, levando a busca por uma explicação que geraria diversos mitos de dilúvios. Um deles é o mito judaico, também presente na crença cristã. O fato desta história ter significado religioso para grande parte da população ocidental é provavelmente o maior ponto gerador de falta de compreensão relacionado ao filme Noé, dirigido por Darren Aronofsky.

Primeiramente é preciso ressaltar que o filme não é uma adaptação direta da história bíblica, mas sim de uma reimaginação feita para quadrinhos pelo próprio Aronofsky. De qualquer forma é preocupante a falta de entendimento do que significa a palavra “adaptação”, ou, pior, a falta de entendimento seletiva, visto que adaptações de outras mitologias raramente geram controvérsias quando ocorrem alterações em relação à fonte.

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Dito isto, Noé é sim um bom filme. Falho, certamente, mas forte e interessante. O personagem-título, interpretado por Russel Crowe, da décima geração após Adão, acredita estar recebendo em sonhos mensagens do Criador (chamado desta forma ao longo de todo o filme). A humanidade estava destruindo a criação e a solução para isso seria removê-la da Terra através de um Dilúvio e  então recomeçar. O mundo se divide entre os descentes de Caim, liderados por  Tubal-cain (Ray Winstone), e os de Seth, terceiro filho Adão e Eva. A família de Noé seria a última dessa linhagem. Ele seria o escolhido para executar essas ordens e construir uma grande arca para abrigar sete pares de cada animal puro e dois pares de cada animal impuro, de maneira a repovoar o planeta. Uma das diferenças entre os descendentes de Seth e os de Caim é que os segundo alimentam-se de carne, por acreditar que esta lhe dá força, enquanto os primeiros apenas se alimentam de ervas e frutas. Embora tenha visto muitas reclamações a respeito desse retrato, ele seria biblicamente apurado na interpretação literal, visto o ser humano foi criado (em uma visão bastante antropocêntrica) para reinar (cuidar e proteger) sobre os animais e só receberia autorização para se alimentar deles após o dilúvio, quando grande parte da vegetação morreu submersa. Por isso a ordem de levar sete pares dos animais puros, que são os animais “kosher”, aqueles aptos a serem ingeridos na tradição judaica.

Matusalém (Anthony Hopkins), avó de Noé, aparece aqui como uma espécie de conselheiro da família. Quando Noé está em dúvida sobre como prosseguir, consulta-o e este o entrega uma bebida que afirma ser um chá, bastante escuro. Impossível não pensar, neste momento, nas religiões baseadas na ayahuasca, em que o chá é bebido e a pessoa passa a ter mirações (visões), sendo que uma cobra brilhante é presente em diversos relatos, tendo especial significação entre os povos indígenas que fazem uso ritual. Não é de se estranhar, visto que o filme parece tomar uma vertente bastante gnóstica do mito, cheia de dualismos místicos. Noé novamente adormece para então ver uma serpente cintilante, aquela do Jardim do Éden e então receber a confirmação das ações a serem tomadas. A serpente vem, depois, a ter importância simbólica, quando seu couro é utilizado para simbolizar a liderança da humanidade através dos primogênitos, enrolado ao braço com um tefilin da tradição judaica.

Repetidamente flashes de imagens da maçã, da serpente e de Caim matando Abel, acompanhadas de um ruído agudo, se inserem em meio à narrativa. Ao mesmo tempo mostram um passado da humanidade que parece nos destinar ao erro e um momento em que a estética de Aronofsky se faz fortemente presente, pois esse tipo de corte rápido, quase publicitário, costuma aparecer em seus filmes. Aliás, em se tratando de autoralidade, não é difícil de perceber a mão do diretor atuando por trás da produção, apesar de se tratar de um filme de estúdio. Outra sequência, também belíssima, é aquela em que Noé conversa com sua esposa Naameh (Jennifer Connelly) e vemos apenas seus perfis negros contra um céu colorido de entardecer. Além dessas, destaco também o relato dos sete dias da criação, em que este fala “no princípio não havia nada” e à partir daí vemos os animais evoluírem em tomadas que parecem animações em quadro a quadro, até a criação dos humanos, seres etéreos e iluminados que viviam no Éden. (Essa é, novamente, uma visão gnóstica, em que somos criados na luz e adquirimos carne e peso material apenas após a expulsão).

Para sua empreitada, Noé conta com o auxílio de gigantes de pedra, que na verdade são os anjos caídos, que não receberam perdão do Criador por querer ajudar os humanos após a expulsão do Éden. Embora cause estranhamento, gigante filhos de anjos caídos e humanas são mencionados na Gênesis da Bíblia. Aqui eles auxiliam no desmatamento da floresta enviada pelo Criador para fornecer madeira à construção da arca e no próprio feitio. Seu visual é bastante interessante, parecendo mover-se, com desconforto, de uma forma que se assemelha ao stop motion de Ray Harryhausen. Aos poucos os animais vão migrando e chegando até o grande barco. Em muita cenas a computação gráfica deixa a desejar e a aparência deles não é crível.

Além de Noé e Naameh, a família é composta por Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), jovem que encontraram com um ferimento no abdômen quando criança, adotaram e tornou-se companheira de Sem. Em virtude de seu ferimento, acreditava-se que Ila seria estéril. Por sua vez, Cam, mostrava-se preocupado com a falta de uma esposa para ele, o que acarretou graves desentendimentos entre ele e o pai. Antes de começar as cheias, Matusalém abençoa Ila e reverte sua aparente infertilidade. Já durante o dilúvio, quando lhe é relatado o acontecimento, Noé se enfurece, pois passara a acreditar que estava nos planos divinos que a humanidade fosse extinta para que o restante da criação pudesse viver sem perturbação. Assim, seus filhos seriam os últimos homens da terra. Em um momento bastante inspirado na história de Abraão, Noé pega uma faca para matar as crianças que nasceram de Ila. Mas ao contrário da história que inspirou esse momento, este não é um teste de fé ditado pelo próprio Criador: trata-se de um momento de soberba extrema em que, considerando-se o enviado, passa a criar possíveis interpretações para as mensagens que afirma ter recebido em sonho. É o poder do auto-convencimento e o senso de importância se manifestando.

Dessa forma, pode-se dizer que o filme tenha três vilões: a humanidade que destruiu as demais formas de vida e destrói a si mesma em lutas violentas pela sobrevivência; o Criador, que não possui misericórdia e ordena matanças de inocentes por achar que algo deu errado em sua própria criação; e por fim, o escolhido, um homem tão falho quanto aqueles que condenou à morte, à imagem e semelhança de seu Criador.

O filme não se poupa de retratar a “Vergonha de Noé”, trecho do mito que já apareceu em diversas obras de arte ao longo da história e que explica a divisão da humanidade em tribos diversas após o dilúvio.

A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo
A Bebedeira de Noé (1508-1812), afresco de Michelangelo

Embora tenha sido pungente a forma como Naameh pediu desculpas a Ila ao informar que havia tido duas meninas, não deixa de ser significativo o discurso ao final de que essas duas serão as responsáveis por recomeçar a humanidade. É revigorante ver que a culpabilização das mulheres, tão fortemente marcada na mitologia judaico-cristã, aqui é contrabalançada pela esperança em relação ao futuro colocada em duas inocentes meninas. O arco-íris ao final marca as pazes feitas entre Criador e criaturas.

Um grande erro do filme é, especialmente do meio para o fim, perder-se em certas cenas excessivamente melodramáticas. As cenas de luta corpo a corpo também mostram-se bastante desnecessárias no contexto geral. Mas, fora isso e o fato de ter um CGI nem sempre competente, trata-se de uma narrativa forte e intensa, recheada de belas cenas e atuações competentes. Não está nem perto de ser a maior realização de Aronofsky, mas ainda é uma obra passível de apreciação. Noah-poster

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