Shazam! (2019)

Mais um filme de super-herói nos cinemas. Imagino que pouca gente dê conta de se manter em dia com todos, especialmente em virtude da semelhança na estrutura de roteiro, que acaba por tornar enfadonhos tantos deles. Mas no meio desse mar de filmes iguais, sempre tem um outro que optam por fugir dos moldes, um pouco que seja. Considero que Shazam seja um desses casos. Enquanto tantos têm apostado na seriedade (e não que seja um problema, eu mesma gosto muito do peso apresentado em Vingadores: Guerra Infinita) Shazam chega para nos lembrar que esses personagens nasceram gibis. Gibis esses que eram escritos para crianças, por mais que gerações cresceram e agora os defendam como entretenimento para adultos também. Por isso não é problema abraçar o lado tolo dessas histórias.

Com roteiro de Henry Gayden e direção de David F. Sandberg, Shazam é um filme que assume o ridículo de seu material de origem. Billy Bateson (Asher Angel), um menino órfão que vive fugindo de lares adotivos e abrigos em busca de sua mãe, encontra com um o Mago Shazam (Djimon Hounsou). Esse personagem, que é pouco mais do que um rascunho de um “negro mágico“, lhe confere poderes especiais, incluindo a capacidade de aparecer no que é chamado de “a sua melhor versão”, que seria o herói do título (Zachary Levi). O mago invoca deuses da mitologia grega, de onde obtém forças para dominar e derrotar os Sete Pecados Capitais da mitologia cristã. Nada faz sentido, mas pouco importa.

Zachary Levi tem um ótimo timing para humor, que já era bem aproveitado no seriado Chuck. Sua interpretação de uma criança presa em um corpo de adultos é ótima (incluindo aí a breve referência ao filme Quero Ser Grande, de Penny Marshall), e o roteiro ajuda com bons momentos em que pode usar caras e bocas para mostrar o misto de falta de entendimento e de maravilhamento diante de seus novos poderes. O vilão, por sua vez, surge da masculinidade tóxica. Quando criança Dr. Sivana (Mark Strong) ouviu de seu pai que deveria “ser um homem” e os contantes abusos verbais nesse sentido acabaram levando-o para o local de vilania. Além disso, tenho certeza que se eu mesma fosse uma criança hoje, teria medo da aparência de seus monstros-pecados, que, por algum motivo, me lembraram do vilão de O Rapto do Menino Dourado.

A noção de família, portanto, é importante para essa história, cujo público alvo parece ser justamente o de crianças. Não só o vilão é definido pela relação com sua própria, mas também a trajetória de Billy é marcada pela descoberta do pertencimento. Quando é levado para seu derradeiro lar adotivo, há um presépio em frente a casa, já indicando que aquela família representada nas estátuas faz parte das crenças do lugar, mas que também família é o que faz aquela casa com pessoas tão diferentes entre si se tornar um lar. Adotado por Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews), Billy passa a ter como irmãos Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), Mary Bromfield (Grace Fulton), Darla Dudley (Faithe Herman), Eugene Choi (Ian Chen) e Pedro Peña (Jovan Armand). Cada um de seus novos irmãos acaba por ocupar um papel específico, não só no que tange a representatividade (o menino branco com deficiência, a menina branca, a menina negra, o menino asiático estereotipicamente especialista em tecnologia e o menino latino e gordo) como na própria vida, rotina e afeto do protagonista. Há um certo conservadorismo na forma como a noção de família é entabulada, que tenta se equilibrar com essa noção de diversidade apresentada. A amizade e a interação entre as crianças ajuda a dar leveza para a história.

Esse conservadorismo transparece no desnecessário reencontro do garoto com sua mãe biológica, que explica que engravidou aos dezessete anos. Ao invés de ser ressaltada a falta de apoio da sociedade a uma jovem abandonada grávida e sem condições, ela é considerada culpada pela própria situação, punida no presente com uma vida de violência e pelo próprio Billy como uma pessoa sem norte. Ele se estende, ainda, para a própria noção de que, entre todas as possibilidades de pessoas para assumir o poder de Shazam, o garoto branco é (como costuma ser nessas histórias) o Escolhido. E mesmo quando os demais passam a compartilhar de seus poderes e assumem o que é dito ser sua melhor versão, a menina negra tem os cabelos alisados, o menino gordo fica magro e forte e o menino com deficiência deixa de precisar de suas muletas. Precisaram se adequar a padrões racistas, gordofóbicos e capacitistas para ser o seu melhor? Não poderiam ser perfeitos exatamente como são?

Apesar do terceiro ato um pouco cansativo, com sua sequência de lutas, e dos aspectos mencionados acima, Shazam tem um humor tolo e às vezes inocente, mas sem perder a esperteza e acidez de crianças e adolescentes com a idade dos protagonistas. E com isso é capaz de arrancar boas gargalhadas de quem assiste a ele. Com um certo grau de bobeira, é um grande frescor e também um alívio poder se divertir assim com um filme baseado em personagem de gibi. Resta saber como ele vai se encaixar na lógica do universo DC adaptado para o cinema.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
Share

Jogador Nº 1 (Ready Player One 2018)

Poster do filme Jogador Nº 1 em que o protagonista, Wade, aparece subindo uma escada vertical, olhando para o horizonte. Ao fundo, numa favela de formas geométrica retangulares empilhadase, é possível ver relas e antenas. Uma espécie de círculo luminoso ilumina o céu noturno e toda a imagem é azulada.

Na década de 1980 o sobrenome Spielberg era sinônimo de inventividade e qualidade. Filmes eram anunciados exaustivamente usando-o como selo de validação, mesmo quando sua função era a de produtor. Até as pessoas que mantinham um interesse apenas superficial por cinema eram atraídas por ele. Por isso parece óbvia a escolha de seu nome para dirigir Jogador Nº 1, filme adaptado do livro homônimo de Ernest Cline e que é largamente inspirado por elementos da década. É uma pena que o conteúdo não esteja à altura da expectativa criada.

A história começa em 2045. Wade (Tye Sheridan) é um adolescente órfão que mora com a tia. A Terra parece estar devastada: a realidade é de tal deterioração que as pessoas passam a maior parte de seu tempo em um universo de MMORPG, onde podem ser quem quiser, criar outra imagem para si e viver vidas melhores. Com a tela preta ao som de Jump, do Van Halen, somos transportados com o clima exato para o mundo que vai nos ser apresentado: Wade, descendo as escadas da favela onde mora, circula em meio às casas empilhadas, de maneira a nos apresentar visualmente às tecnologias em uso por seus moradores. Nesse momento, a narração em off não esconde o esforço de adaptar o texto para a tela. Ele se dirige a um container abandonado, onde, com seu óculos de realidade virtual, se torna Parzival, o cavaleiro solitário em busca do seu Santo Graal. Nesse caso, o prêmio do jogo em que todos interagem é entregue depois da obtenção de três chaves secretas que dariam a quem as coletasse o direito de propriedade de todo o sistema.

Parzival se vê desafiado por uma famosa caçadora de tesouros, Art3mis (Olivia Cooke). Olivia é habilidosa e admirada por isso, mas logo vai firmar uma parceira com ele. Na época do lançamento da animação Uma Aventura Lego (2014), muito se escreveu sobre a Síndrome de Trinityquando mulheres badass com experiência no que fazem são criadas como um desafio para o personagem principal masculino, novato ou representante do Homem Comum, criando uma espécie de linha de chegada para ele, de forma que no final, ele, sendo “o escolhido”, é capaz de superá-la. É claro que é exatamente isso que ocorre aqui. Mas tem mais: Art3mis, ao ouvir uma declaração apaixonada de Wade, lhe diz que ele sequer sabe quem ela é, que aquele corpo não é seu corpo real e sua imagem é muito diferente, criando a expectativa da possibilidade de uma heroína que fugisse dos padrões. Quando Wade encontra com Samantha, a pessoal real por trás do avatar, trata-se de uma menina magra, branca, ruiva, completamente dentro dos padrões de beleza esperados, apenas com um detalhe: uma marca de nascença cobrindo parte de seu rosto, sobre um olho. Dessa forma, em uma construção de roteiro preguiçosa, o nobre herói pode dizer que está apaixonado para além das aparências e é capaz de aceitá-la como ela é.

Nessa busca pelo prêmio principal do jogo, o Homem Comum desafia a Grande Corporação. A mítica da criação do jogo diz que ele foi feito anos antes por Halliday (Mark Rylance) um nerd solitário, apaixonado por tudo que envolve videogames e cultura popular. Embora ele não soubesse se relacionar com mulheres e tenha tirado seu sócio e melhor amigo da empresa, é apresentado como um bom moço. Em oposição a ele, existe Sorrento (Ben Mendelsohn), um dono de corporação que contrata os melhores jogadores para conseguir a posse das chaves e assim, controlando o jogo, poder finalmente… colocar publicidade nele? Enfim, a separação entre empresa boazinha porque seu responsável está fazendo por amor e a empresa malvada, cujo dono nem gosta de cultura popular de verdade e só quer dinheiro é bastante rasa. Vimos, na vida real, o que essa narrativa Gates X Jobs acarretou e a mudança de discursos refletida em filmes como Piratas da Informática: Piratas do Vale do Silício (1999) e, posteriormente Steve Jobs (2015).

Mas Parzival não está só na sua luta do Homem Comum. Ele tem tem um grupo simpático de amigos que o acompanha, composto por Aech (Lena Waitch), Sho (Philip Zhao) e Saito (Win Morisaki). Além disso, de punhos erguidos e com discurso motivacional, o herói angaria milhares de seguidores para ajudá-lo. Art3mis, que até então era uma jogadora que se destacava, ressalta que ele conhece Halliday como ninguém e por isso só ele pode conseguir vencer o jogo. Dessa forma criando todo um grupo diverso de amigos (ainda que marcados por estereótipos, como o da mulher negra durona e do menino asiático ás no que faz) para que no final, sem nenhum motivo aparente, o garoto branco seja o “especial” e O Escolhido: todos unidos se sacrificando por sua vitória. Dessa, forma, repetindo o erro de outros filmes que homenageiam a década de 80, o roteiro repete tropos da época, sem que haja preocupação em atualizar esse tipo de narrativa.

Há que se dizer que a estética do filme é bastante interessante e ele tem bons momentos de diversão. A criação dos personagens dentro do jogo é visualmente bonita e trabalha bem o excesso de computação gráfica, já que faz parte do contexto de irrealidade do universo criado, compartilhado pelos jogadores. As referências, que vão de um DeLorean a tiranossauro de Jurassic Park, passando pelo Hotel Overlook, funcionam como uma cutucada no espectador, lembrando-o de se empolgar com o que lhe é familiar.

O saudosismo que envolve a década de 80 começou há bem mais de dez anos e perpassa a música, a moda e, claro, a produção audiovisual. É de se questionar se ainda há fôlego para homenagens como a apresentada aqui, pautada em referências e não na complexidade dos personagens criados. Se a construção de universo tem potencial e é interessante, topo o resto se assemelha a uma grande fanfic que mescla elementos diversos da cultura popular. Funcionando como uma mistura de filme com atores de Detona Ralph (2014) com Uma Aventura Lego, Jogador Nº 1 se perde justamente ao não conseguir superar, mas apenas repetir, os erros cometidos em narrativas da década que tenta homenagear.

Share

Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)

É difícil manter a objetividade quando se escreve uma crítica como essa, porque são inúmeros fatores além do filme exibido que se somam à sua avaliação. A começar pelo próprio fato de ser o primeiro filme de super heroína em doze anos, desde o desastre que foi Elektra (2005). Acontece que quando um filme é protagonizado por mulher, ele precisa valer por todos. Se não for bom o suficiente, ele invalida por anos qualquer projeto que possa ser tematicamente relacionado.

Além disso, mesmo quando faz sucesso, geralmente existe isoladamente, não criando uma tendência de filmes similares. Lembro de ter lido há um tempo que depois do sucesso de Thelma & Louise (1991), Geena Davis sondou o estúdio a possibilidade de fazer outro filme centrado em uma dupla de protagonistas mulheres e responderam a ela que já haviam feito: justamente Thelma & Louise. Ou seja, um filme com duas personagens bem construídas e com profundidade deve bastar, não há necessidade de mais do que isso.

Por fim existe o fator do que está por trás das câmeras: Mulher Maravilha é dirigido por Patty Jenkins, cujo primeiro e último longa, Monster, foi lançado em 2002. Existe uma dificuldade sistêmica de mulheres cineastas conseguirem projetos para dirigir ou financiamento quando já os têm, como comentei em um texto anterior. Em geral, os estúdios não lhes confiam um grande orçamento e quando o fazem, o resultado negativo de um filme implica em prejudicar todos os demais, na mesma lógica dos filmes com mulheres protagonistas. Nessa hora, convenientemente, a parte é tomada pelo todo e o trabalho individual de uma diretora representa o esforço de todos as demais.

Em virtude desses fatores, a qualidade de Mulher Maravilha é essencial para garantir que tenhamos outros filmes de grande orçamento com mulheres protagonizando e /ou dirigindo nos próximos anos. Dito isso, é preciso dizer que é, sim, um ótimo filme.

Parte da qualidade dele está na maneira imersiva com que a personagem é apresentada. Conhecemos Diana (Lilly Aspell), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen), ainda criança, rodeada pelas demais amazonas, todas adultas. A líder do exército é Antíope (Robin Wright), sua tia, que treina guerreiras habilidosas enquanto ela aspira poder receber esses ensinamentos. Com auxílio da tia, cresce para se tornar a mais habilidosa de todas, já interpretada por Gal Gadot. Themyscira, a ilha das amazonas, é criada linda e palpitando de vida e a protagonista pode ser entendida em suas motivações. Ao estabelecer a protagonista e esse cenário, o primeiro ato é o de melhor qualidade.

Depois que Diana encontra com Steve (Chris Pine), a trama se desloca para a Europa, sofrendo com seu quarto ano de Grande Guerra, que envolvia vinte e sete países e já deixava milhões de mortos. Diana é acionada por seu senso de verdade e justiça para acabar com o conflito, que acredita ter sido causado por Ares, o deus da guerra. A eles se juntam Sameer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremmer), e o Chefe (Eugene Brave Rock). Não fosse pelas breves mas divertidas aparições de Etta (Lucy Davis), Diana sofreria de síndrome de smurfette. Mas com piadas bem encaixadas o roteiro consegue trabalhar seu papel, mostrando o machismo que permeava aquela sociedade de então. Se por um lado é decepcionante que só hajam homens em sua equipe de campo, certamente seria difícil trazer mulheres no contexto da década de 1910, assim como hoje mesmo continua sendo.

O humor, aliás, é utilizado de maneira eficiente, seja comentando o tamanho do relógio de Steve, as formas de obtenção de prazer de uma amazona ou como disfarçar a beleza de uma mulher colocando um óculos. Existe uma piada gordofóbica, é verdade, mas de uma maneira geral o humor se entrelaça na trama de forma ritmada, se sustentando sem a forçação presente em certos filmes mais formulaicos da Marvel, por exemplo.

Em se tratando de um filme de guerra, as cenas de batalha são muito bem orquestradas, especialmente as do primeiro ato, protagonizadas pelas amazonas, demonstrando seu vigor físico. Mesmo a ação filmada em câmeras lentas, comuns em filmes de Zack Snyder e aqui utilizadas com Diana, não atrapalham porque permitem observar melhor cada movimento seu, confirmando sua destreza. O mesmo vale para sua postura em campo, que transmite força e confiança.

Por isso é importante frisar que o que garante o destaque de Diana o tempo todo é o carisma e talento de Gal Gadot. Ela combina a força e a falta de traquejo em nosso mundo da personagem de maneira natural, projetando as características já citadas e tornando-a palpável. Chris Pine também se sai bem, alcançando bons momentos cômicos com poucas expressões faciais, mas não deixa de ser um pouco decepcionante o tratamento heteronormativo que a história adquire no que diz respeito ao seu papel. Claro, em se tratando de um blockbuster com classificação etária 12 anos seria difícil ser diferente, mas, especialmente por se tratar de uma história de amazonas, causa estranhamento.

Outro ponto negativo não é exclusividade desse filme, mas recorrente em filmes de super-heróis: a maneira como as motivações são rapidamente borradas, criando ações duvidosas. Aqui Diana luta pelo fim da guerra e para isso os alemães precisam ser derrotados. Mas em determinado momento um superior daqueles afirma que seus soldados estão passando frio e fome, enquanto em outra hora, um britânico declara que são apenas jovens que não sabem pelo que lutam. Em ambos os lados das trincheiras estavam garotos muitas vezes alistados compulsoriamente, lutando seguindo ordens. Ao ser diretamente responsável pela morte deles, Diana está garantindo a justiça que busca? Seriam eles realmente os verdadeiros vilões? Mais adiante fica claro o quão pouco peso eles tinham diante de todos os acontecimentos, servindo apenas como peões em um tabuleiro divino. No final das contas o verdadeiro vilão é convincente e a batalha final, apesar de recheada de argumentos darthvaderianos, funciona.

É preciso destacar ainda a beleza do figurino do filme. As roupas das amazonas referenciam trajes gregos e dos centuriões romanos, destacando seus corpos atléticos e a permitindo seus movimentos. Quando as primeiras imagens de Gal Gadot caracterizada como mulher Maravilha foram reveladas, critiquei o corpete tomara-que-caia por não ser prático para se movimentar, além de ser confeccionado em material rígido, sendo que a personagem possui superforça e não precisaria de armadura. Mantenho a minha posição quando ao primeiro elemento, mas quanto ao segundo, o filme esclarece o desconhecimento dela a respeito de suas próprias habilidades. De qualquer forma, quando na Europa, Diana se depara com um corpete e pergunta para Etta se aquela era a armadura das mulheres de lá. Não deixa de ser irônico, já que seu traje também é acorpetado. Já as sandálias com salto, nada práticas para corridas ou qualquer atividade física, foram justificadas pela figurinista, Lindy Hemming, que explicou que buscou criar a imagem de pernas alongadas, e que os saltos embutidos ajudaram, além das fendas nas saias.

Mulher Maravilha é um filme que mistura elementos de ação e comédia na medida certa. Patty Jenkins resgatou a inocência de filmes de heróis (não necessariamente super) do passado, ao mesmo tempo em que analisou os erros cometidos nas últimas duas décadas, inundadas por filmes do gênero. Não há exageros, há uma certa sinceridade na forma como a narrativa se desenrola, as cores são bonitas e presentes e não existe uma falsa seriedade que destoa com o produto oferecido. A protagonista é crível e é muito fácil torcer por ela. A força da personagem está em sua crença na possibilidade de salvar os humanos e na forma como age em torno disso, sempre com seu lema de verdade e justiça. Além de ser um respiro em meio a esse gênero que está não só saturado, como desgastado. O filme é leve, divertido e bonito de olhar. Mulher Maravilha sem dúvida é uma mudança de ventos bem vinda e um filme de grandes qualidades.

 

Share

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Um Cadáver Para Sobreviver chega ao Brasil diretamente em homevideo, disponibilizado na Netflix. Dirigido por Dan Kwan e Daniel Sneinert (conhecidos como Daniels), o filme conta a história de Hank (Paul Dano), um rapaz que conhecemos perdido em uma ilha deserta, sozinho e tentando se matar, até que encontra o corpo já sem vida de Manny (Daniel Radcliffe). Com a ajuda das múltiplas utilidades que descobre ter o morto (e daí vem o título original, referindo-se a um canivete suíço), Hank decide tentar sobreviver e reencontrar Sarah (Mary Elizabeth Winstead) uma moça que acha bonita e que costumava observar no ônibus antes de parar naquele lugar. A amizade entre os dois homens pode parecer improvável, afinal um deles não responde mais por si, mas na imaginação de Hank ganha forma, garantindo-lhe forças para continuar através da construção de um mundo lúdico e de grande beleza.

A narrativa é permeada de humor escatológico e infantil, utilizado sem refinamento, mas esse contrasta com a delicadeza com que todo o resto do mundo de ideias pautadas na esperança é construído. A bem da verdade Hank não conhece Sarah, mas a imagem dela lhe permite sonhar. Trata-se de uma idealização do amor romântico, bem como da mulher que é alvo dele, que leva a comportamentos socialmente questionáveis, ainda que tratados com doçura juvenil. Por isso faz todo sentido a escolha da atriz Mary Elizabeth Winstead para o papel de musa do protagonista, uma vez que ela mesma é colocada como esse ideal inalcançável por muitos jovens autointitulados nerds, especialmente depois do filme Scott Pilgrim contra o Mundo, em que interpreta Ramona, outra amada idealizada pelo protagonista. O filme permite que o espectador tenha empatia por uma pessoa com comportamento perseguidor e o que na vida real seria um senso de merecimento masculino bastante tóxico, mas que aqui é relevada pela forma bonita e distorcida como o próprio personagem enxerga o mundo.

Nesse sentido funciona muito bem com uma sessão dupla com As Vozes (The Voices, 2014), de Marjane Satrapi, outro filme que nos mostra com empatia um homem com comportamentos abusivos em relação às mulheres: dessa vez um serial killer que acredita que não mata por que quer, mas sim porque suas vítimas pedem. Nessa outra película, também mergulhamos em um mundo lúdico, de boas intenções e de beleza, enxergado pelo ponto de vista do protagonista. A diferença principal é que, talvez por ser dirigido por uma mulher, há a preocupação de descortinar o mundo real sombrio do personagem antes do desfecho. É como se em Um Cadáver Para Sobreviver se mostrasse o ponto de vista de Sarah, a mulher perseguida, já que aqui a obsessão de Hank é romantizada.

Com boas pitadas de humor, inventivo e poético, todo o segundo ato do filme é um mergulho em sentimentos ambíguos, por meio de uma expressão artística intensa, providenciada por uma direção de arte hipnótica e encantadora. Poucos filmes se permitem explorar de maneira tão intensa as possibilidades de expressão artística que os objetos em cena permitem. O terceiro ato perde em partes sua força criativa, mas não diminui o resultado final.

Há quem diga que o cinema está morto. O público certamente pode não querer ver a história de um cadáver que literalmente peida em cena, mas se aceitar o desafio pode se impressionar com o cuidado quase que de trabalhos manuais colocado com carinho nessa narrativa. Um Cadáver para Sobreviver peida, mas é mágico.

Share

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beast and Where to Find Them, 2016)

Baseado no livro didático ficcional com o mesmo nome utilizado na Escola de Magia Hogwarts, Animais Fantásticos e Onde Habitam chega aos cinemas com a promessa de ampliar o universo de Harry Potter por mais alguns anos, uma vez que serão mais cinco filmes para a franquia. Para essa nova aventura somos apresentados a Newt Scamander (Eddie Redmayne), um jovem bruxo que chega à cidade de Nova York e que se dedica a viajar pelo mundo coletando criaturas mágicas, tentando ensinar a seus colegas que elas devem ser preservadas. David Yates retorna à direção, em seu quinto filme na série, dessa vez acompanhado da própria J. K. Rowling, autora dos livros originais, como roteirista.

A narrativa aposta no teor cômico e arranca risadas fáceis da plateia. Mas isso acontece apesar de seu protagonista. Eddie Redmayne entrega a sua tradicional atuação com torcicolo: o pescoço duro, a cabeça de lado, o tronco levemente inclinado, somados a muitos trejeitos. Scamander é um personagem que em outras mãos, com o perdão da expressão, poderia ter sido mágico, mas aqui aparece sem carisma e sem personalidade. Para sorte de quem se interessou pela história, sobra simpatia pelos personagens secundários: as irmãs bruxas Portentina “Tina” (Katherine Waterston) e Queenie Goldenstein (Alison Sudol), cada uma com suas particularidades, despertam simpatia e o trouxa (ou não-maj, como são chamados nos Estados Unidos) Jacob Kowalski (Dan Fogler) é puro charme e rouba a cena quando aparece. Além deles, os próprios bichos de computação gráfica tem seus bons momentos, embora algumas barrigas no roteiro os utilizem de maneira repetitiva em certas situações.

Em se tratando de antagonistas, o vilão menor que se revela não engaja e é previsível, mas é dado o pontapé inicial para um arco de ascensão que possivelmente vai tomar todos os filmes. Com isso, as discussões políticas e as questões de direitos humanos que são delineadas de maneira tangencial nos filmes e livros anteriores, voltam a aparecer.

Mas em se tratando do universo de Harry Potter, o que encanta mesmo o espectador é a magia. O visual do filme é apurado e Colleen Atwood acerta novamente no figurino, criando uma década de 1920 ao mesmo tempo coerente com o período histórico e com um toque de excentricidade adequado à fantasia. E se Nova York é uma cidade em tons de cinza, o azul e o ocre utilizados por Scamander funcionam não só para destacá-lo como protagonista como para estabelecê-lo como um personagem excêntrico nesse contexto. Já as irmãs Goldstein são lindamente contrastadas: a trabalhadora Tina com suas calças largas e blusas de algodão amarfanhadas e a romântica Queenie com vestidos fluidos de cetim em tons pálidos de rosa, que remetem à camisolas ou lingerie. Somam-se a esses elementos bem explorados a trilha sonora, também muito bonita, e temos uma ambientação certeira e capaz de nos transportar para o universo diegético.

Animais Fantásticos e Onde Habitam não é um filme inovador e nem tem um protagonista que engaje o espectador, mas isso é compensado pela atmosfera divertida, pelo conjunto do elenco e pela direção de arte competente. Resta saber se isso é o suficiente para manter o interesse do público pelos anos que temos em frente.

3,5estrelas

fantastic_beasts_and_where_to_find_them_ver4_xxlg

Share