Álbum de Família (August: Osage County/ 2013)

Assistido em 07/01/2014.

I told you nobody slips anything by me.

Álbum de Família é um filme denso, preenchido com as emoções que explora. A obra é dirigida por John Wells e o roteiro é adaptado da peça teatral homônima pelo próprio autor, Tracy Letts.

A trama é focada em um núcleo familiar, seus prolemas e suas relações. A mãe, Violet (Meryl Streep) está com um grave câncer na boca e luta contra o vício em remédios. O pai, Beverly (Sam Shepard), contratou uma  empregada doméstica indígena, Johnna (Misty Upham) para cuidar de Violet e cozinhar. Alguns dias depois ele desaparece de casa. Desesperada, Violet aciona as filhas. A durona Barbara (Julia Roberts), que mora distante da casa dos pais, vem acompanhada do marido, Bill (Ewan McGregor) e da filha adolescente, Jean (Abigail Breslin). As outras duas são a sempre presente Ivy (Julianne Nicholson) e a mais nova e fútil Karen (Juliette Lewis), que traz junto seu novo namorado, agora noivo, Steve (Dermot Mulroney). Acrescenta-se ao caldeirão a tia Mattie Fae (Margo Martindale), seu marido, tio Charlie (Chris Cooper) e o filho deles, Little Charles (Benedict Cumberbatch) e temos o cenário completo.

O encontro desses indivíduos e gerações e a junção de suas experiências diversas traz a tona todo tipo de conflitos e mágoas, alimentados dentro do grupo. Relações. Relações que podem ser de apoio, de amor, de desprezo, de ódio. Relações doentias, que podem existir apenas por laços aleatórios, por um punhado de genes compartilhados ou uma folha de papel assinada. A vida é composta dessas pequenas aleatoriedades que compõe o nosso entorno e daí que brotam tantas consequências. A mãe dominadora, que abusa psicologicamente das filhas. A filha que se distanciou para safar-se dessa influência, mas que quase sem querer torna-se amargurada com o passar dos anos e cada vez mais parecida com a própria mãe. A outra sempre ajudou e nunca encontrou gratidão para suas ações. A terceira parece alheia a tudo que acontece ao seu redor. A história consegue fornecer momentos de humor, bem como momentos de grande carga dramática. Sim, percebe-se que é uma peça de teatro. Por vezes os diálogos não são os mais naturais e a atuação em cenários restritos frisa esse efeito. Mas trata-se de um belíssimo estudo de personagens. As protagonistas não são caricatas, nem estereotipadas. O que vemos não são recortes de papelão posicionados no espaço. Cada uma é humana e comporta-se como tal. Os personagens secundários, dada sua pouca quantidade, é que poderiam ser melhor explorados, especialmente Little Charlie. Sua interação com Ivy poderia ter mais profundidade e o talento de Cumberbatch quase passa despercebido nesse contexto. Meryl Streep entrega uma atuação poderosa. Julia Roberts não se destaca tanto nesse sentido, mas consegue carregar bem o papel. Destacam-se também Julianne Nicholson e Chris Cooper, que fazem maravilhas com o que lhes é entregue, especialmente o segundo, que não tem o personagem tão desenvolvido.

Em termos de fotografia, o filme por vezes peca por não se aproximar dos atores. Muitas cenas são filmadas em plano médio, exatamente como veríamos se fosse sua versão dos palcos. Com isso deixa-se de explorar a intensidade das interpretações.

Acontece que embora tenha suas falhas técnicas, o conjunto de talentos e intensidade das emoções compensa-as mais do que adequadamente. Trata-se de um belíssimo filme sobre seres humanos.  

August-Osage-County

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Figurino: O Espião que Sabia Demais- Homens Sisudos e Guerra Fria

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo a Cena em 28/08/2013.

É muito comum ouvirmos comentários elogiosos a figurinos de filmes de época recheados com grandes e belos vestidos e filmes de fantasia que extrapolem os limites da nossa imaginação. Mesmo as grandes premiações, com exceções das específicas da área, geralmente tem entre seus indicados apenas filmes que se enquadram nesses dois grupos. Figurinos masculinos ou figurinos contemporâneos raramente despertam o mesmo tipo de comoção. Trabalhá-los significa se entregar a sutilezas que podem passar despercebidas por grande parte do público. Um belo exemplo é O Espião que Sabia Demais (Tinker Taylor Soldier Spy), mistério de espionagem de 2011 adaptado da novela de John le Carré, dirigido por Tomas Alfredson, e com figurino assinado por Jacqueline Durran.

A história se passa em Londres durante a Guerra Fria, na década de 70. Antes de morrer, o líder de um grupo de investigação, Control (John Hurt), revela a suspeita de que um de seus espiões de gabinete seja um infiltrado, passando informações sigilosas para a União Soviética. George Smiley (Gary Oldman) é trazido de volta de sua aposentadoria para investigar os suspeitos. Os personagens principais são exclusivamente masculinos, mas Durran trabalha suas roupas de maneira que cada um tenha uma estética diferenciada. A paleta de cores é bastante restrita: aqui os anos 70 não são feitos de cores fortes e estampas psicodélicas. Tratam-se de senhores de meia idade, com ternos de outras décadas e tonalidades escuras de cinza, marrom e azul-marinho, que casam com toda a ambientação cinzenta e nebulosa. Tudo parece indicar um período de dúvidas, desconfortos, suspeitas e poucas alegrias.

Control aparece algumas vezes e sempre mostra que está à vontade em seu local de trabalho. Certa hora sua gravata tem uma estampa que remeta à textura da espuma de isolamento acústico da sala de reuniões. Em outro momento seu terno é da cor das paredes da sala onde toma decisões. Suas roupas dialogam com sua labuta. Sua casa aparece caótica e quando está nela, ele veste roupão e usa o cabelo despenteado, mesmo quando recebe visitas. Sua vida é seu trabalho e nele que se mostra à vontade.

FIG 01

Smiley é um homem sério e dedicado às suas tarefas. Suas roupas, sisudas, podem ter sido adquiridas em qualquer momento nas duas décadas anteriores e não demonstram nenhum tipo de preocupação em expôr sua personalidade. Não é um homem afeito a mudanças, como fica claro. Sempre veste terno completo (calça, colete e blazer) cinza escuro e um sobretudo claro, além de seus marcantes óculos de aros grossos.

FIG 02

Seu ajudante na investigação, Peter Guillam (Benedict Cumberbatch) é mais jovem e se permite algumas indulgências em relação à moda. Suas calças são boca de sino, seus ternos tendem a ser em cores mais claras e utiliza gravatas azuis claras combinando com o lenço da lapela. Visivelmente ele se preocupa com a própria imagem e não se abstém desses detalhes, mesmo que todos ao seu redor o façam.

FIG 03

Onde o trabalho de Durran fica mais interessante é na composição dos suspeitos. Todos são homens do serviço secreto: precisam ser estáveis e fiéis ao seu Estado, rigorosos e constantes. Uma maneira utilizada para demostrar isso é a partir de suas vestimentas, que não possuem variações na forma, embora cada um siga um estilo que reflita sua própria individualidade. Mas um deles deve ter autoconfiança o suficiente para aceitar o papel de agente duplo e ao mesmo tempo ter uma flexibilidade na forma de agir, adaptando-se e variando conforme as situações, para garantir que não seja descoberto. À partir desse momento haverá revelações do enredo, já que analisarei a forma como o figurino revela o infiltrado.

Roy Bland (Ciarán Hinds) é o mais calado entre os suspeitos. A única característica forte dele é sempre usar insípidos conjuntos de calça social e blazer marrons, com gravatas da mesma cor, sem nenhum tipo de variação.

FIG 04

Toby Esterhase (David Dencik) mantém-se fiel ao hábito de sempre utilizar gravatas borboletas, apresentando um visual retrô.

FIG 05

Percy Alleline (Toby Jones) é mais extravagante e sempre aparece vestindo camisas com padronagens listradas e gravatas com estampas contrastantes.

FIG 07

Assim, por mais mais que os três se vistam de maneira formal , cada um tem uma maneira diferente de lidar com o traje de trabalho, mas se mantêm sempre dentro de um padrão.

E aí chegamos a Bill Haydon (Colin Firth). Haydon aparece em um flashback em uma festa em que está usando uma gravata do mesmo tom de vermelho do vestido de Ann, esposa de Smiley, demonstrando uma ligação maior entre os dois. Ao longo da trama utiliza eventualmente peças que sobressaem-se no conjunto: gravata com estampa paisley, meia vermelha ou uma botina no lugar de sapatos. São detalhes que deixam transparecer uma certa ousadia. Mas ele não mantêm um padrão determinado como os demais: oras veste terno completo, oras aparece sem colete; às vezes está de marrom, às vezes cinza. Não há uma cor ou um corte que o represente especificamente. A cada cena seu estilo muda, sendo apenas pontuado por algum elemento mais chamativo. Ao final, quando descobrimos que ele é o infiltrado, tudo faz sentido, pois essa é a maneira de marcar a sua falta de comprometimento.

FIG 07

FIG 08

Dessa forma, Jaqueline Durran, que já se mostrou competente em obras como Desejo e Reparação e, mais recentemente, Anna Karenina, consegue imprimir suficiente diferenciação entre personagens que a um primeiro olhar podem parecer muito parecidos e ainda demostrar, através da forma como lidam com a estabilidade de suas próprias imagens, aquele que não é fiel ao Serviço Secreto. É deveras um trabalho feito de sutilezas.

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O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy/2011)

Assistido em 16/08/2013

Primeiro filme em língua inglesa de Tomas Alfredson, O Espião que Sabia Demais se passa em Londres, nos 70, durante a paranoia da Guerra Fria. Control (John Hurt) era o responsável por um departamento no auto escalão do MI-6, Serviço Secreto britânico. Antes de morrer, compartilhou com  Jim Prideaux (Mark Strong) a desconfiança que um de seus cinco espiões de gabinete seria um infiltrado que passaria informações para a União Soviética. Prideaux era um agente de campo e em uma ação em Budapeste foi dado como morto. George Smiley (Gary Oldman) é trazido de volta de sua aposentadoria, para, juntamente com Peter Guilam (Benedict Cumberbatch), investigar quais de seus outros quatro colegas é o agente duplo: Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) ou Bill Haydon (Colin Firth).

Os anos 70 de Alfredson não são nem coloridos nem psicodélicos: trata-se de um recorte de um tempo cinzento e nebuloso, repleto de senhores de terceira idade negociando com políticos e e analisando papeladas, enquanto outros, como Prideaux e Ricki Tarr (Tom Hardy) se arriscam em campo. O suspense se constrói com sutileza. Não se trata de um filme de ação nem de espiões vigorosos lutando entre si: são conversas, olhares, suspeitas e palavras não pronunciadas.  O mistério é bom, o elenco é fantástico e acredito que o filme não tenha recebido a atenção que merecia à época. Foi ótimo revê-lo.

Para ler uma análise detalhada do figurino de O Espião Que Sabia Demais, acesse esse post.

tinker tailor soldier spy

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