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42ª Mostra de São Paulo- Poderia Me Perdoar?

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

O ano é 1991. Lee Israel é uma autora de livros biográficos de moderado sucesso, que nunca se estabeleceu como uma figura importante no mercado. Até que resolve mudar suas práticas profissionais e fica tão famosa por isso que sua autobiografia, Poderia Me Perdoar?, é adaptada para o cinema em 2018. O roteiro é de Nicole Holofcener e a direção fica por conta de Marielle Heller (de O Diário de uma Adolescente).

Israel é interpretada Melissa McCarthy, que se entrega ao papel sem maneirismos e, com ajuda do figurino, que nos joga diretamente para essa passagem entre décadas e constrói a personagem de maneira tridimensional. Ela é uma mulher de cinquenta e um anos, ranzinza, que gosta de ficar sozinha, não tem paciência para lidar com as demais pessoas e vive com seu gato em um, apartamento grande, decadente e triste. Recusa convites para eventos de colegas, mas quando vai, é para cobrar trabalho de sua agente, que a lembra de sua irrelevância no mercado, não deixa de revirar os olhos diante do pedantismo que enxerga em seus companheiros de profissão. As dívidas se acumulam, seus poucos pertences, que são livros, não valem quase em sebos.

É quando tem uma ideia: acostumada a pesquisar com profundidade a vida de celebridades a ponto de saber seus trejeitos e estilos de escrita, datilografa uma carta falsa entre famosos e descobre que objetos como esse valem uma fortuna. Daí para frente elabora com esmero e humor diversas cartas, fazendo-as circular entre vendedores de memorabilia. Além de Israel, participa da ação Jack Hock, seu amigo e comparsa, interpretado por Richard E. Grant com ares de canastrão e uma certa melancolia pontuada de acidez.

As pessoas estão dispostas a pagar por algo que sintam que as aproximem de seus ídolos. Katherine Hepburn, Noël Howard, Dorothy Parker: as cartas voam da máquina de escrever e o dinheiro flui. É interessante pensar como funciona a mentalidade humana em torno de uma obra. A estátua de Davi, de Michelangelo, por exemplo, exposta na Piazza della Signoria em Florença é, na verdade, uma réplica. Mas nada disso importa e diariamente centenas (milhares?) de pessoas posam para fotos diante dela. O que importa é o senso de autoria, é a percepção de estar diante de algo grandioso e histórico. O que Lee Israel vende é essa historicidade aliada à sensação de espiar a intimidade de alguém famoso. Ela é auxiliada pelo culto à celebridade e pela fascinação projetada sobre famosos. Não necessariamente o que se quer é a verdade. O que importa não é a autoria, mas a ideia que o objeto é capaz de projetar.

Nesse sentido, Israel usa as regras do próprio jogo para ganhar nele, não, claro, livre de punição posterior. Poderia Me Perdoar? atrai, em grande medida, pelo tratamento conferido a seus protagonistas e o resultado é uma biografia interessante e divertida.

Nota: 4 de 5 estrelas

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O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017)

Postado originalmente em 10 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

Depois do aclamado documentário Eu Não Sou Seu Negro, Raoul Peck retorna com essa cinebiografia correta, que aborda os anos de juventude do filósofo Karl Marx (August Diehl), quando entabulou amizade com Friedrich Engels (Stefan Konarske), com quem futuramente escreveria o Manifesto do Partido Comunista e que possibilitaria a criação de O Capital. A esposa de Marx, Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) aparece com a terceira personagem de importância e com uma trajetória interessante: a moça rica e estudada, de família tradicional, que largou tudo para casar-se com o rapaz pobre, judeu e de posicionamentos políticos controversos.

Pensadores da época cruzam o caminho, diferentes posicionamentos são apresentados, bem como o contexto político que fervilhava em diversos países. O diretor não se furta a retratar até mesmo as controvérsias, como o fato de Engels financiar as obras de Marx com dinheiro obtido das fábricas de sua família, ou seja, ser ele mesmo um capitalista lucrando com a alienação da mão de obra dos trabalhadores e com isso bancando a produção do amigo. A obra tem o estilo de um telefilme, como se fosse uma daquelas produções de época que a BBC costuma fazer, mas seus personagens fascinantes garantem a atenção do espectador.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)

Dirigido por Theodore Melfi, Estrelas Além do Tempo é uma adaptação do livro Hidden Figures, de Margot Lee Shetterly, que trata da trajetória real de três mulheres negras que trabalharam na NASA durante a corrida espacial, na década de 1960, em plena Guerra Fria. Nesse período as mulheres tinham trabalhos restritos na agência: dividiam-se entre as secretárias e as computadoras, que realizavam os cálculo antes da chegada dos grandes equipamentos da IBM. As protagonistas do filme são a matemática Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), a programadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e a engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe). Esses cargos não são necessariamente aqueles com os quais começam o filme: são aqueles que as vemos trabalhando para alcançar e com os quais se destacaram profissionalmente.

Como cinema, trata-se de uma narrativa tradicional, até mesmo conservadora, que contrasta com a ousadia de suas sujeitas. Como mensagem política, já se torna importante pelo fato de ser uma rara obra inteiramente protagonizada por mulheres negras, ainda que dirigida por um homem. Mas é como retrato de uma época, um lugar e uma conjuntura de fatores relacionais que intensificavam posicionamentos em uma sociedade já hierarquizada, que se torna um filme necessário.

É preciso entender o papel das protagonistas dentro de um olhar interseccional. A trama se passa um local de trabalho que não dava abertura às mulheres, como se explicita na cena em que Katherine é avisada que mulheres não podem participar das reuniões em que as decisões são tomadas, mesmo que essas afetem seu trabalho posterior. Mas, ao mesmo tempo, também é uma sociedade com segregação racial legalmente vigente. Dessa forma, como mulheres negras, passam por situações que não necessariamente afetam as demais mulheres, brancas, ainda que essas também estejam em posições subalternas aos homens do local. Isso é explicitado por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst), que não demonstra empatia com as especificidades da vivência de suas colegas. Nem todas as mulheres da época estavam na mesma luta e nem todas estavam cientes ou, se estavam, apoiavam as das demais. Por esse motivo, também é destacada a importância de aliados: pessoas que apoiem a causa e façam o possível para ajudar, sem tirar o protagonismo de quem luta, apenas fazendo uso de seu local de privilégio, como Al Harrison (Kevin Costner).

E em se tratando de luta, Katherine, Dorothy e Mary são mulheres ativas, não reativas, que individualmente se engajaram mostrando que o seu trabalho poderia ter papel político, ainda que isso não necessariamente fosse perceptível em um primeiro momento. Ocupar as áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), tradicionalmente fechadas a presença feminina, exige passar por diversos obstáculos. Por isso é uma delícia assistir a história se desenrolar e torcer por elas.

A empatia que a trama causa vem não só do roteiro, como também do trabalho impecável do elenco. As três nos engajam em seus dramas específicos, mas Janelle Monae, a novata dentre as atrizes, é uma grata surpresa, imprimindo atitude à sua personagem e roubando as cenas em que aparece. Mas é a trajetória de Katherine que acaba se tornando a mais interessante de assistir.

O figurino é outro aspecto técnico que se destaca, uma vez que cada uma é apresentada com roupas de estilo próprio, explicitando suas diferenças, e as cores em tons de joias as destacam em diversas cenas em que aparecem rodeadas por uma massa de gente, todos homens usando camisa branca e gravata preta.

Estrelas Além do Tempo pode não ser um filme inovador, mas é importante que a história que ele retrata seja conhecida pelo grande público. É feel good e é isso que importa: torcer e ficar com um grande sorriso ao seu final, além de feliz por saber que essas heroínas existiram, estiveram lá e abriram as portas para tantas outras mulheres que vieram depois delas.

 

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Conspiração e Poder (Truth, 2015)

James Vanderbilt é roteirista, conhecido pelos dois filmes do Espetacular Homem-Aranha e Zodíaco, de David Fincher. Conspiração e Poder é o primeiro filme que dirigiu (além de ter roteirizado, claro) e chama a atenção o elenco de peso que embarcou no projeto. O longa aborda o jornalismo televisivo, especificamente uma história real que ocorreu envolvendo a produção do programa 60 Minutos, um dos mais tradicionais da televisão estadounidense. Em 2004 a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) encontrou indícios de fraude envolvendo o então presidente George W. Bush e sua alocação no exército durante a Guerra do Vietnam. Em plena corrida para a reeleição, qualquer tipo de informação negativa sobre um candidato poderia ter grande peso sobre o resultado. Além de Mapes, a equipe da investigação era composta pelo âncora Dan Rather (Robert Redford), os jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Mike Smith (Topher Grace) e o Tenente Coronel Roger Charles (Dennis Quaid). O roteiro é adaptado diretamente do livro Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, escrito pela própria Mapes.

Trata-se de uma história procedural, que mostra como funcionam as etapas investigativas de uma reportagem de grande porte e a dinâmica de relacionamentos entre os profissionais. Mapes confiou no fator humano durante as etapas de verificação das fontes e, com a pressão para fechar o conteúdo, deu por verdadeiro tudo que lhe foi apresentado. Um item essencial para credibilidade da história veio de fonte duvidosa e, em se tratando de informação que poderia encerrar a presidência de Bush, pressões políticas e econômicas que vinham anônimas de camadas superiores da hierarquia passaram a assombrar o trabalho da equipe.

A busca pela verdade é o mote da trama, mas a abordagem, até mesmo pela fonte do texto, é bastante tendenciosa. Nenhum problema: toda obra de arte é propaganda e escolhe um lado. Mas o ritmo irregular da narrativa não ajuda na imersão total. Além disso, os diálogos extremamente expositivos distraem e atrapalham em diversos momentos. Há um cena, por exemplo, em que Charles explica a Lucy como um telejornal replica o conteúdo do outro, fato que ela obviamente está ciente. Esse é apenas um exemplo entre muitos momentos em que os personagens explicam uns aos outros o que está acontecendo ou fazem perguntas deliberadas para levar a respostas que narram aos fatos, claramente tentando entregar essas informações ao espectador. Isso sem falar na tradicional cena de discurso grandioso, que também acontece.

Em um ano em que Spotlight, outro procedural de jornalismo, ganhou o Oscar de melhor filme, é difícil não comparar as duas películas. Nesse caso, Conspiração e Poder acaba funcionando como uma contra-prova às críticas de que, minimalista e elegante, Spotlight seria um filme sem direção. A qualidade da obra final lá comprova uma direção madura, em oposição à claudicante e insegura aqui. Não que Conspiração e Poder seja um filme ruim, mas ele se beneficia de uma história minimamente interessante e de atuações de peso. Cate Blanchett, mais uma vez, a despeito do roteiro que lhe é entregue, comprova a grande atriz que é.  3estrelas

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Quase Famosos (Almost Famous/ 2000)

Tenho uma história interessante com esse filme e revê-lo foi uma ótima experiência. Durante minha adolescência, naquele final de década de 90 e início de anos 2000, numa pacata cidade de interior sem muitas opções de lazer para gente da minha idade, costumávamos, eu e meus amigos, nos reunirmos nas casas uns dos outros e eventualmente alugávamos filmes para assistir. Assim eu vi do horroroso Revelação (um suspense com Harrison Ford que tinha a pachorra de se comparar a Psicose) ao até hoje amado Virgens Suicidas (meu preferido da Sofia Coppola). Em uma dessas sessões, assistimos Quase Famosos. Bem, eu assisti parcialmente: meu pai chegou para me buscar faltando apenas 10 minutos para o fim do filme. E levei treze anos para revê-lo  e recuperar esse trechinho perdido e mesmo depois de todo esse tempo ainda me lembrava de tudo. Que experiência linda foi essa!

Para começar, o filme de Cameron Crowe é o retrato saudosista e utópico de um época que não vivi. Baseado em história real, conta como o jovem William (Patrick Fugit) se tornou repórter da revista Rolling Stone aos quinze anos, fazendo uma reportagem de capa sobre a banda fictícia Stillwater (que é claramente o Led Zeppelin. Viajando na turnê com os artistas e convivendo com suas groupies, William descobre amizade, amadurescimento e amor, enquanto presencia o fim da ingenuidade do rock, tudo isso regado por uma trilha sonora incrível. Dificilmente alguém dessa idade não ficaria encantado com a ideia de viajar com uma banda de quem fosse ídolo. Esse processo o leva à percepção da humanidade e dos defeitos deles. E embora tudo pareça muito divertido, os bastidores nunca foram lugares amigáveis para as mulheres, que aparecem divididas entre as namoradas traídas e as groupies tratadas como objeto e mercadoria de troca. Nesse contexto, Penny Lane (Kate Hudson) pode ser uma verdadeira manic pixie dream girlmas de alguma forma ela se sobressai ao próprio estereótipo e, ao invés de ser irritante, é amável.

No final da década de 1990 houve um retorno da influência da moda do início dos 1970. Desse modo é interessante perceber como essa moda, então contemporânea, influencia o figurino que retrata aquele período, num processo de retroalimentação: os anos 70 influenciam os anos 2000 que influenciam a visão que temos dos anos 70. Assim, muitas roupas usadas pelos personagens não são um retrato fiel do período, mas sim nos mostram como víamos a época com os filtros da virada do milênio. Percebe-se Penny Lane, excluídos os itens necessários para mostrar o glamour de ser groupie,  veste roupas que nós, adolescentes em 1999 e 2000 usávamos: calças de cintura baixa (e não alta), batas bordadas,  tops, colares e correntinhas misturados, óculos de sol com lentes coloridas, calçados com plataforma e a lista segue.

Quase Famosos é um filme leve e delicioso, sobre aproveitar a vida e as chances e (re-)assisti-lo despertou-me um duplo saudosismo: saudades de uma época que não vive e saudades de uma época que vive e me diverti muito.

quase famosos

 

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