Rocketman (2019)

Uma história de ascensão, queda e ressurgimento. O drama de um homem que queria ser amado, sem saber que já o era. A história do jovem talentoso que precisa encontrar a si mesmo para alcançar o sucesso. Por fim, uma cinebiografia de um artista consagrado. Se tentarmos, é fácil conseguir encaixar Rocketman em determinados tropos narrativos que já nos preparariam para um filme certo, um filme esperado, um filme que já conhecemos de outro lugar. Mas ele não é nenhum desses filmes. Com roteiro de Lee Hall e direção de Dexter Fletcher, é uma explosão de vigor e de desconstrução de gêneros e subgêneros.

O personagem principal é Elton John, interpretado de forma impressionante por Taron Egerton em sua versão adulta. Mas Elton é uma desculpa para explorar os temas citados acima. “Produto juvenil da classe operária”, somos apresentados a ele ainda criança, atendendo pelo nome de Reggie. O pai, Stanley (Steven Mackintosh), é distante e machão, a mãe, Sheila (Bryce Dallas Howard), é aérea e desligada: esse seria um lar sem afeto não fosse pela presença da avó Ivy (Gemma Jones). Foi ela que percebeu seu talento musical e o apoiou nos estudos. É aí que somos surpreendidos pelo primeiro número musical: nos anos 50, com figurinos adequados, as cores esmaecidas e apenas Elton em tons saturados. O pequeno ator Matthew Illesley encarna a versão infantil do herói com graça e dá conta de cantar muito bem suas canções. A surpresa vem do fato de que o musical sai de Reggie e toma as ruas, criando um cenário fantástico.

É comum, claro, que filmes sobre artistas incorporem suas próprias músicas e que eles apareçam tocando-as em um contexto que faz parte da realidade fílmica. Musicais em que os números são apresentados pelos próprios intérpretes, que os realizam para a plateia intra-filme e extra-filme, existem desde que o gênero foi criado com a adição de som à imagem. Isso é chamado de musical de bastidores (BORDWELL, THOMPSON, 2013, p. 522). Depois de Cabaret (1972), com o fim do sistema de estúdios em Hollywood e o aumento de produções que refletiam a realidade social de forma mais direta, passou a ser o tipo de musical a ser produzido de forma quase exclusiva. Mas havia também o musical direto (BORDWELL, THOMPSON, 2013, p. 522): aquele em que a música não faz parte do contexto de realidade e, por isso, leva o espectador para um mundo fantástico, em que as pessoas cantam e dançam no meio da rua, seguindo uma lógica própria daquela narrativa. É fácil entender porque esse tipo de musical, vistoso, escapista, romântico, caiu em desuso por algumas décadas após os anos de 1960.

Filmes como Across the Universe (2007) e mesmo Mamma, Mia! (2008) já exploraram a possibilidade de usar o conjunto de músicas de um artista para contar uma história única, aos moldes de musical direto. Mas Rocketman brinca lindamente com essa divisão: misturando números diretos e de bastidores, explorando a ideia de que é a história de um artista trabalhando, mas, acima de tudo, é uma história fantástica. E faz isso com vigor, com cores intensas e com figurinos deslumbrantes, com o trabalho de encaixar as letras das canções de Elton John de uma forma que façam sentido ao momento da história.

Assim, a primeira vez que vemos Elton adulto, ele traja um conjunto de calças boca de sino e jaqueta com decote profundo e gola exagerada, asas de plumas e um acessório de cabeça com enormes chifres recobertos de strass, todos cor de laranja, além de óculos em forma de coração. Ele abre a porta com força e vemos um grupo de pessoas comuns sentados em círculo. Nessa pequena reunião de AA ele desabafa falando que é um viciado em álcool, cocaína e sexo. Embora a classificação etária no Brasil tenha sido de 16 anos (na maior parte dos países ficou entre 12 e 15 anos), o filme aborda os vícios do músico de forma bastante leve. Por esse comentário inicial seria de se supor que as situações apresentadas seriam mais extremas, mas o que acontece é uma certa estilização das ações, deixando boa parte dos acontecimentos subentendidos. Essa escolha estética não exime a direção de colocar peso necessário em ações pontuais, mesmo que mantendo tudo em suspenso no campo da fantasia.

Quando vemos a roupa de Elton nesse primeiro encontro, temos uma noção do tipo de performatividade que ele tinha (e tem) em sua vida. A virada dos anos de 1960 para os da década de 1970 foram cruciais para o entendimento de masculinidades no século passado. Conforme Diane Crane:

No final do século XX, as noções do século XIX de identidades de gênero fixas e intolerância à ambiguidade de gênero estavam gradualmente desaparecendo. A afirmação de Foucault (1979) de que as percepções de gênero não são fixas, mas os efeitos dos discursos médicos e psiquiátricos representam uma mudança na visão de mundo que vem ocorrendo ao longo do século XX. Butler (1990) teoriza que o gênero é comunicado através de performances sociais envolvendo, por exemplo, a adoção de certos estilos de vestimenta e tipos de acessórios e maquiagem, mas o self não é inerentemente masculino ou feminino (CRANE, 2000).

E nesse processo, a cultura pop, a música em especial, teve papel fundamental, com sua “posição antiautoritária” e “a rejeição dos valores corporativos urbanos” (MENDES; DE LA HAYE, 2009, p. 204). O rock, e seus atores, foi importante nesse sentido, uma vez que os homens envolvidos no gênero tomavam emprestados peças que até então eram entendidas como femininas, com inspiração teatral, e seus trajes para show posteriormente serviam de inspiração para que outros jovens se trajassem de forma similar nas ruas.

A cena pop foi uma importante força na moda, especialmente no vestuário masculino. Ideias emprestadas dos trajes de músicos pop surgiam nas ruas com apenas algumas modificações. […] Os expoentes do glam rock […] tomavam elementos anteriormente restritos aos trajes de noite femininos e os retrabalhavam, dando-lhes a forma de trajes sexualmente ambíguos em lurex, cetim e tecidos elásticos com lantejoulas. (MENDES, DE LA HAYE, 2009, p. 214)

Por isso é significativo que em certo momento a mãe de Elton, Sheila, esteja assistindo a uma apresentação de Liberace na televisão. O pianista ficou marcado pelo uso de figurinos extravagantes e cenografia kitsch em suas apresentações, como pode ser visto no filme Behind the Candelabra (2013). Longe de integrar o panteão do rock, ainda assim Liberace foi um precursor em performar uma masculinidade que não fazia parte das hegemônicas, da mesma forma que Elton John o fez posteriormente.

Um estilo que começou como a expressão do niilismo extremo por uma pequena subcultura [musical] britânica foi adotado mundialmente pelos adolescentes como um meio de expressar sua angústia individual (CRANE, 2000).

O glam mudou a forma como os jovens, especialmente os homens, expressavam suas identidades e como a própria masculinidade era codificada, o que também pode ser percebido no filme Velvet Goldmine (1998). Além das performatividades de gênero, a própria expressão da sexualidade poderia ser borrada, como o ótimo musical Rocky Horror Picture Show (1975), contemporâneo a esse movimento, transparece em suas escolhas estéticas e narrativas.

Elton encontra na música parte da sua possibilidade de expressão. A parceria de décadas com Bernie Taupin (Jamie Bell), que escrevia suas letras para que ele musicasse, foi crucial para isso. A amizade é retratada com a possibilidade de camaradagem autêntica e não-tóxica, ao mesmo tempo que não-sexual, entre dois homens. A Elton é dito que para se tornar quem ele quer ser, ele precisa matar quem ele é. Nesse processo ele se afasta de Reggie e se torna o maior vendedor de discos do mundo, multimilionário aos 25 anos. Para isso, faz apresentações que devem ter ficado marcadas na memória de quem as viu, como a que aqui é apresentada com a plateia flutuando, como ele, na boate Troubadour, nos Estados Unidos. Em certo momento as apresentações se encadeiam tanto que o que vemos é ele sentado ao seu piano: a câmera gira ao seu redor, as pateias se sucedem e mudam, mas tudo vira um só borrão. Uma maneira delicada de mostrar o que se tornou sua turnê de uma forma visualmente atraente.

Nessa ânsia de se encontrar, Elton cai em uma espiral de autodestruição. O stage diving nos mostra ele com olhar vidrado, o corpo sendo passado de mão em mão sem relutar nem tomar iniciativa. Depois, o close no sangue que pinga do nariz. Mesmo nos momentos de maior peso dramático, a direção não perde um senso estético de poesia que perpassa o filme. A sexualidade e a solidão são confrontadas nas falas de Sheila, que acha que, como o filho é gay, nunca vai ser amado. O amor, cuja expressão é ausente em sua infância, vira uma espécie de Santo Graal almejado pelo artista, que não o enxerga próximo de si.

Nesse momento, a história quase cai em um clichê negativo: a de que o artista pop, por usar parafernálias e figurinos extravagantes, não sabe quem é de verdade. Recentemente esse tipo de discurso foi usado em Nasce uma Estrela (2018). Essa ideia, bastante conservadora, parece partir da premissa de que a arte, nesse caso a música, deve ser pura e ausente de distrações externas a ela. Talvez seja possível dizer que isso venha de uma percepção ocidental de que o nosso verdadeiro “eu” é interior, e não exterior e no final das contas, por mais que as roupas sejam entendidas como uma possibilidade de expressão desse “eu”, são relegadas a segundo plano.

O problema de se ver o vestuário como a superfície que representa ou deixa de representar o cerne interior do verdadeiro ser é que tendemos a considerar superficiais as pessoas que levam a roupa a sério (MILLER, 2013, p.23).

No final das contas, esse tipo de crítica ignora que os apetrechos e figurinos, eles mesmos, fazem parte da expressão artística, não sendo externos a ela. No caso de Elton e de outros artistas que flertaram o glam e brincaram com diferentes formas de expressão de gênero, isso é intensificado pelo fato de que a roupa “como tecnologia de gênero que é, ela cria um corpo, codifica identidades, transmite valores específicos de feminilidades e masculinidades e traz à tona a expressão subjetiva das experiências” (WITTMANN, 2019). Que seria de Elton John sem, pelo menos, os seus óculos extravagantes? Felizmente o filme parece não levar a crítica individual de Bernie como um fio condutor, e Elton, superados os problemas mais profundos, segue tendo a mesma presença forte e persona exótica.

Elton John permanece. Matou Reggie, mas o desfecho mostra que uma reconciliação é possível, sem que ninguém se perca nesse caminho de tijolos amarelos. Os letreiros finais parecem dar conta de uma visão mais moralista do que a apresentada no filme: Elton encontrou amor no matrimônio e nos filhos e é nessa composição de família nuclear que firmou sua felicidade.

Mas o filme é muito mais do que a jornada de um homem em busca de si e é mais do que o testemunho da vida e talento de Elton John (embora seja, também, todas essas coisas). Deslocado pro limiar do fantástico, seu protagonista sequer precisaria ser uma pessoa real. Por outro lado, são os elementos dessa biografia que servem de escada para a criação da fantasia, o que dá pistas sobre o quão extraordinária foi a vida desse homem.

O filme, afinal, usa o musical pra quebrar as expectativas em torno de uma cinebiografia tradicional, subvertendo-a, já que, se por um lado a vida é contada pelas músicas, por outro ela também deve se dobrar para caber nesse universo fantástico. Além disso, ele explora diversos elementos que dizem respeito às questões de gênero e sexualidade que estavam postas na época retratada e a forma como Elton desloca sua vida em meio a elas. O protagonista cativa e a atuação de Taron Egerton é impecável. Com uma estética muito bem elaborada, as músicas são trabalhadas lindamente e as roupas são bem exploradas como performatividade, tanto de palco, como de gênero. Rocketman é um musical intenso, que emaranha seus diversos elementos de uma maneira criativa, sempre surpreendendo, sempre enchendo os olhos, tendo em mente que glam nunca é demais.


Referências:

BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema- Uma Introdução. São Paulo: Edusp, 2013.

CRANE, Diana. Fashion and Its Social Agendas: Class, Gender, and Identity in Clothing. Chicago: University of Chicago Press, 2000. Edição do Kindle.

MENDES, Valerie; DE LA HAYE, Amy. A Moda do Século XX. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

MILLER, Daniel. Trecos, Troços e Coisas- Estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

WITTMANN, Isabel. A Roupa Expressa a Identidade: Moda enquanto Tecnologia de Gênero na Experiência Transgênero. Cadernos de Arte e Antropologia. Vol. 8, No 1, 2019.


P.S: é difícil escrever com sobriedade sobre algo que amei tanto que o coração até acelera só de escrever.


4,5 de 5 estrelas
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42ª Mostra de São Paulo- Poderia Me Perdoar?

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

O ano é 1991. Lee Israel é uma autora de livros biográficos de moderado sucesso, que nunca se estabeleceu como uma figura importante no mercado. Até que resolve mudar suas práticas profissionais e fica tão famosa por isso que sua autobiografia, Poderia Me Perdoar?, é adaptada para o cinema em 2018. O roteiro é de Nicole Holofcener e a direção fica por conta de Marielle Heller (de O Diário de uma Adolescente).

Israel é interpretada Melissa McCarthy, que se entrega ao papel sem maneirismos e, com ajuda do figurino, que nos joga diretamente para essa passagem entre décadas e constrói a personagem de maneira tridimensional. Ela é uma mulher de cinquenta e um anos, ranzinza, que gosta de ficar sozinha, não tem paciência para lidar com as demais pessoas e vive com seu gato em um, apartamento grande, decadente e triste. Recusa convites para eventos de colegas, mas quando vai, é para cobrar trabalho de sua agente, que a lembra de sua irrelevância no mercado, não deixa de revirar os olhos diante do pedantismo que enxerga em seus companheiros de profissão. As dívidas se acumulam, seus poucos pertences, que são livros, não valem quase em sebos.

É quando tem uma ideia: acostumada a pesquisar com profundidade a vida de celebridades a ponto de saber seus trejeitos e estilos de escrita, datilografa uma carta falsa entre famosos e descobre que objetos como esse valem uma fortuna. Daí para frente elabora com esmero e humor diversas cartas, fazendo-as circular entre vendedores de memorabilia. Além de Israel, participa da ação Jack Hock, seu amigo e comparsa, interpretado por Richard E. Grant com ares de canastrão e uma certa melancolia pontuada de acidez.

As pessoas estão dispostas a pagar por algo que sintam que as aproximem de seus ídolos. Katherine Hepburn, Noël Howard, Dorothy Parker: as cartas voam da máquina de escrever e o dinheiro flui. É interessante pensar como funciona a mentalidade humana em torno de uma obra. A estátua de Davi, de Michelangelo, por exemplo, exposta na Piazza della Signoria em Florença é, na verdade, uma réplica. Mas nada disso importa e diariamente centenas (milhares?) de pessoas posam para fotos diante dela. O que importa é o senso de autoria, é a percepção de estar diante de algo grandioso e histórico. O que Lee Israel vende é essa historicidade aliada à sensação de espiar a intimidade de alguém famoso. Ela é auxiliada pelo culto à celebridade e pela fascinação projetada sobre famosos. Não necessariamente o que se quer é a verdade. O que importa não é a autoria, mas a ideia que o objeto é capaz de projetar.

Nesse sentido, Israel usa as regras do próprio jogo para ganhar nele, não, claro, livre de punição posterior. Poderia Me Perdoar? atrai, em grande medida, pelo tratamento conferido a seus protagonistas e o resultado é uma biografia interessante e divertida.

Nota: 4 de 5 estrelas

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O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017)

Postado originalmente em 10 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

Depois do aclamado documentário Eu Não Sou Seu Negro, Raoul Peck retorna com essa cinebiografia correta, que aborda os anos de juventude do filósofo Karl Marx (August Diehl), quando entabulou amizade com Friedrich Engels (Stefan Konarske), com quem futuramente escreveria o Manifesto do Partido Comunista e que possibilitaria a criação de O Capital. A esposa de Marx, Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) aparece com a terceira personagem de importância e com uma trajetória interessante: a moça rica e estudada, de família tradicional, que largou tudo para casar-se com o rapaz pobre, judeu e de posicionamentos políticos controversos.

Pensadores da época cruzam o caminho, diferentes posicionamentos são apresentados, bem como o contexto político que fervilhava em diversos países. O diretor não se furta a retratar até mesmo as controvérsias, como o fato de Engels financiar as obras de Marx com dinheiro obtido das fábricas de sua família, ou seja, ser ele mesmo um capitalista lucrando com a alienação da mão de obra dos trabalhadores e com isso bancando a produção do amigo. A obra tem o estilo de um telefilme, como se fosse uma daquelas produções de época que a BBC costuma fazer, mas seus personagens fascinantes garantem a atenção do espectador.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)

Dirigido por Theodore Melfi, Estrelas Além do Tempo é uma adaptação do livro Hidden Figures, de Margot Lee Shetterly, que trata da trajetória real de três mulheres negras que trabalharam na NASA durante a corrida espacial, na década de 1960, em plena Guerra Fria. Nesse período as mulheres tinham trabalhos restritos na agência: dividiam-se entre as secretárias e as computadoras, que realizavam os cálculo antes da chegada dos grandes equipamentos da IBM. As protagonistas do filme são a matemática Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), a programadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e a engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe). Esses cargos não são necessariamente aqueles com os quais começam o filme: são aqueles que as vemos trabalhando para alcançar e com os quais se destacaram profissionalmente.

Como cinema, trata-se de uma narrativa tradicional, até mesmo conservadora, que contrasta com a ousadia de suas sujeitas. Como mensagem política, já se torna importante pelo fato de ser uma rara obra inteiramente protagonizada por mulheres negras, ainda que dirigida por um homem. Mas é como retrato de uma época, um lugar e uma conjuntura de fatores relacionais que intensificavam posicionamentos em uma sociedade já hierarquizada, que se torna um filme necessário.

É preciso entender o papel das protagonistas dentro de um olhar interseccional. A trama se passa um local de trabalho que não dava abertura às mulheres, como se explicita na cena em que Katherine é avisada que mulheres não podem participar das reuniões em que as decisões são tomadas, mesmo que essas afetem seu trabalho posterior. Mas, ao mesmo tempo, também é uma sociedade com segregação racial legalmente vigente. Dessa forma, como mulheres negras, passam por situações que não necessariamente afetam as demais mulheres, brancas, ainda que essas também estejam em posições subalternas aos homens do local. Isso é explicitado por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst), que não demonstra empatia com as especificidades da vivência de suas colegas. Nem todas as mulheres da época estavam na mesma luta e nem todas estavam cientes ou, se estavam, apoiavam as das demais. Por esse motivo, também é destacada a importância de aliados: pessoas que apoiem a causa e façam o possível para ajudar, sem tirar o protagonismo de quem luta, apenas fazendo uso de seu local de privilégio, como Al Harrison (Kevin Costner).

E em se tratando de luta, Katherine, Dorothy e Mary são mulheres ativas, não reativas, que individualmente se engajaram mostrando que o seu trabalho poderia ter papel político, ainda que isso não necessariamente fosse perceptível em um primeiro momento. Ocupar as áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), tradicionalmente fechadas a presença feminina, exige passar por diversos obstáculos. Por isso é uma delícia assistir a história se desenrolar e torcer por elas.

A empatia que a trama causa vem não só do roteiro, como também do trabalho impecável do elenco. As três nos engajam em seus dramas específicos, mas Janelle Monae, a novata dentre as atrizes, é uma grata surpresa, imprimindo atitude à sua personagem e roubando as cenas em que aparece. Mas é a trajetória de Katherine que acaba se tornando a mais interessante de assistir.

O figurino é outro aspecto técnico que se destaca, uma vez que cada uma é apresentada com roupas de estilo próprio, explicitando suas diferenças, e as cores em tons de joias as destacam em diversas cenas em que aparecem rodeadas por uma massa de gente, todos homens usando camisa branca e gravata preta.

Estrelas Além do Tempo pode não ser um filme inovador, mas é importante que a história que ele retrata seja conhecida pelo grande público. É feel good e é isso que importa: torcer e ficar com um grande sorriso ao seu final, além de feliz por saber que essas heroínas existiram, estiveram lá e abriram as portas para tantas outras mulheres que vieram depois delas.

 

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Conspiração e Poder (Truth, 2015)

James Vanderbilt é roteirista, conhecido pelos dois filmes do Espetacular Homem-Aranha e Zodíaco, de David Fincher. Conspiração e Poder é o primeiro filme que dirigiu (além de ter roteirizado, claro) e chama a atenção o elenco de peso que embarcou no projeto. O longa aborda o jornalismo televisivo, especificamente uma história real que ocorreu envolvendo a produção do programa 60 Minutos, um dos mais tradicionais da televisão estadounidense. Em 2004 a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) encontrou indícios de fraude envolvendo o então presidente George W. Bush e sua alocação no exército durante a Guerra do Vietnam. Em plena corrida para a reeleição, qualquer tipo de informação negativa sobre um candidato poderia ter grande peso sobre o resultado. Além de Mapes, a equipe da investigação era composta pelo âncora Dan Rather (Robert Redford), os jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Mike Smith (Topher Grace) e o Tenente Coronel Roger Charles (Dennis Quaid). O roteiro é adaptado diretamente do livro Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, escrito pela própria Mapes.

Trata-se de uma história procedural, que mostra como funcionam as etapas investigativas de uma reportagem de grande porte e a dinâmica de relacionamentos entre os profissionais. Mapes confiou no fator humano durante as etapas de verificação das fontes e, com a pressão para fechar o conteúdo, deu por verdadeiro tudo que lhe foi apresentado. Um item essencial para credibilidade da história veio de fonte duvidosa e, em se tratando de informação que poderia encerrar a presidência de Bush, pressões políticas e econômicas que vinham anônimas de camadas superiores da hierarquia passaram a assombrar o trabalho da equipe.

A busca pela verdade é o mote da trama, mas a abordagem, até mesmo pela fonte do texto, é bastante tendenciosa. Nenhum problema: toda obra de arte é propaganda e escolhe um lado. Mas o ritmo irregular da narrativa não ajuda na imersão total. Além disso, os diálogos extremamente expositivos distraem e atrapalham em diversos momentos. Há um cena, por exemplo, em que Charles explica a Lucy como um telejornal replica o conteúdo do outro, fato que ela obviamente está ciente. Esse é apenas um exemplo entre muitos momentos em que os personagens explicam uns aos outros o que está acontecendo ou fazem perguntas deliberadas para levar a respostas que narram aos fatos, claramente tentando entregar essas informações ao espectador. Isso sem falar na tradicional cena de discurso grandioso, que também acontece.

Em um ano em que Spotlight, outro procedural de jornalismo, ganhou o Oscar de melhor filme, é difícil não comparar as duas películas. Nesse caso, Conspiração e Poder acaba funcionando como uma contra-prova às críticas de que, minimalista e elegante, Spotlight seria um filme sem direção. A qualidade da obra final lá comprova uma direção madura, em oposição à claudicante e insegura aqui. Não que Conspiração e Poder seja um filme ruim, mas ele se beneficia de uma história minimamente interessante e de atuações de peso. Cate Blanchett, mais uma vez, a despeito do roteiro que lhe é entregue, comprova a grande atriz que é.  3estrelas

truth

 

 

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