Spartacus (1960)

Assistido em 08/08/2013

Eis um belo e esquizofrênico épico! Grandioso em sua realização como só os épicos do período em que foi feito conseguem ser, tem cenários e figurinos impressionantes. As pinturas matte, apesar de bem executadas, não são tão bem feitas quanto outras da época. A história por vezes parece ter se criado entre o jogo de tensões entre o roteirista Dalton Trumbo, o diretor Stanley Kubrick e o produtor e protagonista Kirk Douglas. Apesar disso, o filme flui bem e tem um ritmo que mantém o expectador preso à trama, em suas mais três horas de duração.

Spartacus (Kirk Douglas) é um escravo trácio retirado da mineração para ser treinado como gladiador por Batiatus (Peter Ustinov). Lá ele conhece e se apaixona por Virinia (Jean Simmons), que viria a ser sua esposa. Acaba por liderar um levante que parte libertando escravos. Crassus (Laurance Olivier) é um senador romano que se encarrega de vencer o exército de libertos. Um de seus próprios escravos, o cantor Antoninus (Antony Curtis), fugiu com os demais. O grupo planeja atravessar um terço da Itália, libertando quem encontrar pelo caminho, para chegar a um porto e voltar para suas casas, para desagrado da tirana Roma.

Ao ver Ustimov em tela, tive uma estranha sensação de familiaridade e ao consultar sua filmografia percebi que isso deve ao fato de ele ter encarnado em vários filmes Hercule Poirot, o famoso detetive de Agatha Christie que protagonizou tantas histórias queridas de adolescência; além de ser o escravo Kaptah na adaptação cinematográfica de 1954 de O Egípcio, de Mika Waltari (um dos meus livros preferidos durante minha infância). Fora isso, tanto Kirk Douglas quanto Lawrence Olivier entregam boas atuações. E impressiona a beleza de Tony Curtis em cena.

Uma cena que foi deletada na época do lançamento e trazida de volta após a restauração da película em 1991 mostra Crassus comentando com Antoninus, enquanto este o banha,  sobre seu apreço por ambos ostras e lesmas e perguntando se o mesmo gostava de um ou de outro e se via problemas em quem gostasse. É espantosa a filmagem dela, dado o contexto da época. O tom do texto e a forma como os atores atuam, a torna ao mesmo tempo tensa e engraçada. Os momentos que retratam os escravos libertos descansando, comendo, dançando e brincando nos intervalos da marcha são muito bonitos. No terceiro ato, quando as tropas romanas se organizam para batalha, o balé dos agrupamentos mudando de posição é assombroso, assim como a quantidade de figurantes em cena.

Talvez esse não seja um filme autoral de Kubrick e percebe-se em tela o resultado das tensões de bastidores. Mas é um filme extremamente bem executado e vale a pena suas horas de duração.

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A Jovem Rainha Victoria (The Young Victoria/2009)

Assistido em 06/07/2013

A rainha Victoria (Emily Blunt), que reinou no Reino Unido no século XIX, mostrou-se ser uma personagem interessante para uma cinebiografia. Ainda mais uma tão belamente executada como esta.

Quando Victória nasceu, era a quinta na linha de sucessão ao Trono: seu pai era o quarto filho do rei e ela a única neta. Se qualquer um dos irmão mais velhos de seu pai tivesse um filho homem, ela já não seria rainha. Mas, obviamente, tal fato não veio a acontecer. Seu tio mais velho subiu ao trono e anos depois morreu sem herdeiros. O segundo tio já havia falecido quando ela era pouco mais que um bebê (assim como seu pai). Subiu ao trono seu terceiro tio, William IV, que teve apenas um filha, falecida ainda bebê. Dessa forma, ainda na infância Victoria se tornou a única herdeira direta ao trono. Caso morresse também, a coroa teria que passar para algum primo distante e haveria uma crise na sucessão. Por esse motivo, sua mãe, a princesa alemã Victoria de Saxe-Coburg-Saafeld instituiu o chamado sistema Kensington: Victoria só poderia descer escadas de mãos dadas com um adulto, suas comidas seriam sempre provadas, dormiria no quarto dela (da mãe) e seria tutelada em casa. Suas companhias seriam bonecas e seu cachorro Dash. Victoria descreve sua infância como sendo melancólica.

Conforme chegava perto da maioridade, sua aversão ao sistema Kensington crescia. A mãe, influenciada pelo administrador da casa, John Conroy, queria que ela assinasse um acordo deixando o trono para um regente até ter idade ou maturidade para assumir. Comentava-se que, claro, o regente seria ela própria, e Conroy através dela. Victoria recusava-se a assinar. O tio, William, já adoentado, precisava sobreviver até seu aniversário de 18 anos e o fez: Victoria tinha 18 anos e 7 meses quando foi alçada a Rainha. Seus primeiros anos de governo foram turbulentos, já que se desentendeu politicamente com o primeiro-ministro que subiu ao poder, apegando-se demais aos conselhos do anterior, Lord Melbourn (Paul Bettany). Os ideia republicanos se fortaleciam. Falava-se que era nova demais para governar e ainda havia o problema da sucessão: deveria casar-se o mais rápido possível para gerar herdeiros. O candidato apresentado por sua mãe e Conroy era seu primo Albert de Saxe-Coburg and Gotha (Rupert Friend). Outros candidatos da realeza europeia apareceram, mas, após cerca de dois anos de corte, Victoria optou por Albert, ambos com 20 anos. Em seus diários, tecia elogios a sua beleza  e doçura e falava dos anos felizes que teriam pela frente. Aparentemente ela teve a sorte que poucas moças da nobreza tiveram naquela época: casar apaixonada.

O filme retrata todo esse período, com atuação ótima de Emily Blunt e figurinos incríveis. O romance é apresentado de forma leve e bonita. Ao final somos informados que o casamento durou vinte e um anos, quando Albert morreu de febre tifoide. Victoria vestiu luto até o fim da sua vida e passou a viver em quase reclusão, aparecendo apenas quando necessário em eventos oficiais. Seu reinado durou sessenta e três anos: o mais longo do Reino Unido (mas falta pouco para Elizabeth II ultrapassá-la). Tudo muito bonito. Só esqueceram de falar do colonialismo britânico.

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Hitchcock (2012)

Assistido em 14/06/2013

Em 1959 Hitchcock já era há muito um diretor consagrado e intitulado o mestre do suspense. Com um programa de televisão e muitos filmes de sucesso, aos sessenta anos de idade ele decide que precisa de algo novo: algo que traga frescor a sua obra e seja desafiador. Ao ler o livro Psycho, percebe que esse será seu novo filme. Mas o estúdio não recebe bem a ideia de adaptar a história que conta com nudez e violência do jovem que veste roupas femininas e é obcecado pela mãe. Hitchcock faz um acordo: eles distribuiriam o filme e ele o financiaria, hipotecando sua própria casa. E essa é a história abordada nesse filme: os bastidores da criação do clássico Psicose. Obviamente não é recomendado assisti-lo sem ter visto o outro primeiro, pois partes importantes de sua trama são reveladas.

Hitchcock é interpretado por Anthony Hopkins, sob uma grossa camada de maquiagem para torná-lo mais parecido com o roliço diretor. A maquiagem, inclusive, foi indicada ao Oscar, mas acaba gerando um sensação de algo está errado com o rosto do ator (algo semelhante ao que ocorre em Looper). Helen Mirren está ótima como sua esposa Alma.  A protagonista de Psicose, Janet Leigh, é interpretada por Scarlett Johansson e Anthony Perkins, apesar de aparecer pouco, é interpretado com absoluta precisão por James D’Arcy.

Não sei até que ponto o filme é real aos acontecimentos, mas é interessante saber como Alma se envolvia no processo de seleção das histórias que seriam adaptadas, bem como ajudava na revisão do roteiro e na montagem. Mas a parte da história que se desvia para falar de sua relação com um amigo escritor e o ciúme de seu marido é bastante desnecessária (o mesmo pode-se dizer sobre inserções de Ed Gein, o serial killer da vida real que inspirou a história) . O filme também deixa bem clara a absoluta obsessão de Hitchcock por suas atrizes principais.

Uma cena que mostra que a equipe estava com dificuldades para gravar em certo momento em que a câmera passa por cima da escada despertou meu interesse, mas ao final, não se mostrou como foi feito na gravação original. Deixou-me com vontade de saber mais das partes técnicas das gravações. Esse é o resumo dessa película: as atuações são todas muito boas, mas pouco mostram realmente do processo de produção do maior sucesso de Hitchcock. Ao final ficamos com vontade de ver mais, pois é um filme bastante agradável.

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Coco Antes de Chanel (Coco avant Chanel/ 2009)

Assistido em 10/06/2013

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A história da jovem Gabrielle, apelidada Coco, que é orfã de mãe e foi abandonada pelo pai. Saiu do interior da França para Paris e lá se encontrou entre tecidos e chapéus. O filme trata da vida de Chanel antes de se tornar ícone e, posteriormente, mito. Com grande sensibilidade a diretora Anne Fontaine rege a trama com uma fotografia e trilha sonora belíssimas. O cuidados com os detalhes sutis perpassam na tela: quando Coco é criança no orfanato e observa os trajes das feiras, quase conseguimos sentir a textura dos tecidos pesados e as dobras de seus véus. Posteriormente já adulta e interpretada por Audrey Tautou, a narrativa mostra como ela, ao entrar em contato com as classes mais abastadas de Paris, rejeitou seus excessos de acessórios e ornamentos e buscou no guarda-roupa masculino de então o que considerava uma elegância equilibrada. Ela mesma travestiu-se desses elementos antes de conseguir estabelecer-se como estilista.

Interpretada de maneira humana, séria e com poucos sorrisos, Coco era uma mulher que não acreditava nem no amor, nem no casamento. Mesmo assim amou, e muito. Mas o filme ganha pontos ao não deixar que a personagem seja definida pelos homens que gravitam ao seu redor.

Em um filme com tal temática, o figurino tem papel fundamental e aqui o vemos muito bem executado, representando bem o período e transparecendo as texturas. A paleta de cores monocromática, pendendo para o preto e branco, torna-o ainda mais interessante. Sem dúvida é um filme que vale a pena ser visto pela qualidade técnica presente nele, bem como pela personagem interessante e multifacetada e forte que o protagoniza.

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Camille Claudel, 1915 (2013)

Assistido em 12/05/2013

Esse é aquele tipo de filme que traz má fama ao cinema francês :P. Foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês e resolvi assisti-lo por que tratava dessa figura interessantíssima que é a Camille Claudel, talentosa escultora que foi aluna e amante de Rodin. O filme se passa em 1915, quando Camille (Juliette Binoche), já com cinquenta anos, está há dois confinada em um manicômio, tomada por esquizofrenia e depressão. Ela pensa que querem roubar seus trabalhos para que Rodin possa apresentá-los como seus e acha que todos estão tentando envenená-la. Entre os gritos de outras loucas, ela mesma enlouquece naquele confinamento. O ambiente é cinza: todos se vestem em tons de preto, cinza e marrom e mesmo as pedras e vegetação não fogem dessa cor. Juliette Binoche interpreta muito bem o desespero e a aflição. O problema é que fora isso isso, pouco ou quase nada acontece no filme. Chama atenção que em determinado momento, seu irmão, Paul Claudel, fala sobre ela com um padre e diz que a sua loucura se manifesta no sonhos de grandeza e no sentimento de importância. Em seguida ele, recém convertido ao catolicismo, fala sobre seu desejo de ser a voz de Deus através de seus escritos, sendo ele próprio megalomaníaco. E essa pessoa é que julga que ela é incapaz de deixar o manicômio. Como alguém com sonhos de grandeza pode julgar os mesmos de outra pessoa como loucura? Infelizmente, mesmo em um filme biográfico, uma mulher tão forte como Camille acaba sendo definida pelos homens que a rodeiam, seja seu ex-amante ou seu irmão.

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