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Serena (2014)

Uma diretora com um filme indicado e um premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro. Uma atriz e um ator que, nos últimos anos, sempre são lembrados nas grandes premiações. Um drama de época em uma linda paisagem bucólica. O que poderia dar errado em SERENA? Aparentemente, tudo.

A trama: em 1929, em pleno período de depressão nos Estados Unidos, Pemberton (Bradley Cooper) é um empreendedor, que tenta avançar a ferrovia para o interior da Carolina do Norte e assim expandir seus negócios madeireiros. Em uma viagem para a cidade conhece Serena (Jennifer Lawrence), uma jovem de grande riqueza. Os primeiros quinze minutos do filme tratam de estabelecer de maneira novelesca a paixão avassaladora que se estabelece entre os dois e que leva a um casamento apressado.

Pemberton leva Serena para o interior. Nada mais contrastante com a pobreza em azul e cinza do lugar que as roupas em ricos tons de amarelo e verde, cobertas por peles, que ela usa. Mas Serena é uma mulher de negócios pronta para ensinar aqueles ao seu redor. Não se intimida diante da dureza do ambiente que a rodeia, nem com a dos homens locais. Veste calças e vai a labuta junto com eles, sendo por vezes condescendente, em outras beirando o heroísmo.

Aí entra o ponto de desequilíbrio da história: Pemberton já tinha um filho com outra mulher, Rachel (Ana Ularu) e o ciúme de Serena por esse herdeiro a consome. Em determinado ponto da trama, a personagem fala “Eu não sou esse tipo de mulher” [que tem medo], mas isso funciona como uma quebra de lógica na narrativa, uma vez que ao invés de haver uma preocupação em mostrar isso em suas ações, coloca-se ela falando algo que pode ser facilmente desmentido pelo que vemos. Mostrar, ao invés de contar, sempre funciona melhor.

Susanne Bier, experiente e renomada diretora dinamarquesa, contou com grandes dificuldades na pós-produção, uma vez que o estúdio tinha ideias diferentes das delas em relação ao produto final. E as divergências transparecem na montagem: não só o filme não tem tensão nem ritmo, como as sequências são desconjuntadas e desconectadas umas das outras, criando uma experiência convoluta ao assisti-lo. As linhas de desenvolvimento de cada personagem, por vezes, sequer se conectam e subtramas políticas e econômicas pouco acrescentam à história. A direção insegura contribui para que a atuação dos dois protagonistas oscile entre o sem viço e o drama excessivo.

Ao primeiro ato apressado, segue-se um em que a personagem-título parece desmoronar diante de nossos olhos. Devorada por uma fúria irracional, nada há da mulher segura que foi apresentada minutos atrás. Para completar, o terceiro ato degringola em um thriller de ação, com mais uma quebra brusca na narrativa.

SERENA se favorece de uma bela fotografia filtrada em azuis e laranjas. O figurino também é bonito e cumpre bem seu papel. Constantemente de calças, é notável que, quando anuncia sua gravidez, Serena veste saia. Em outro momento, mais à frente, utiliza um lenço amarelo vivo ao pescoço, o que destoa do ambiente rústico da floresta por onde caminha. Mas o lenço vai desempenhar um papel essencial em um salvamento e essa foi a forma de a direção de arte chamar atenção para sua presença.

SERENA é o tipo de filme que desperta em você a vaga curiosidade a respeito do que ele poderia ter sido. Mas é vaga, pois não há elementos bons o suficiente para que ela se sustente por mais que alguns instantes.

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Serena

 

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Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014)

A essa altura todo mundo já comentou sobre o novo filme da Marvel/Disney, então não vou me prolongar. Não sou muito fã de filmes de heróis (com exceção de X Men) mas dessa vez , ao contrário do que geralmente acontece, não revirei os olhos, não achei (todas) as piadas forçadas e estava genuinamente interessada nos personagens. É fato que eles não são suficientemente desenvolvidos, mas já o são o suficiente para que eu soltasse “oooh” e me emocionasse com uma árvore ambulante (Groot, dublado por Vin Diesel), que é o personagem mais mágico do filme. Talvez o maior problema para mim seja a falta de desenvolvimento quase total de Gamora (Zoe Saldana). Aliás, certos aspectos de gênero e etnia continuam sendo problemáticos, como em outros filmes do estúdio. A Síndrome de Smurfette se manifesta entre “mocinhos” e “vilões”, por exemplo. Rocket (Bradley Cooper) é o melhor personagem: durão e suave ao mesmo tempo. Star Lord (Cris Pratt) é um personagem retrô: a abertura, em que busca uma relíquia, remete a Indiana Jones e seu estilo bonachão, infantil e canastrão apenas confirmam. Como um todo, o filme é engraçado e fluido e equipe é carismática. No final das contas, trata-se de uma divertida aventura espacial que sabe não se levar a sério e com uma trilha sonora muito gostosa.

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Figurino: Trapaça – Exagero e Exuberância em um Retrato de Época

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 12/02/2014.

Trapaça, novo filme do diretor David O. Russel, saiu na frente em número de indicações na temporada de premiações que estamos atravessando. O figurino de Michael Wilkinson merecidamente foi lembrado nas listas tanto do Oscar quando do Sindicato dos Figurinistas, sendo neste último na categoria Filme de Época. A história de passa em um 1978 de exageros e exuberância, com forte influência da discoteca, e as roupas ajudam a construir os personagens de maneira orgânica, jamais deixando-os caricatos, embora sempre a um passo disso. Aqui todos se vestem com liberdade e os trajes masculinos se apresentam tão interessantes quanto os femininos. O período é recriado através de roupas confeccionadas exclusivamente para o filme, aliadas ao uso de peças de grandes nomes da moda da época.

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Irving Rosenfeld (Christian Bale), conforme é frisado no próprio filme, é um homem confiante, confortável sendo quem é e com um senso de estilo bastante específico. Paletós coloridos, coletes, veludo, listras, xadrez, camisas e lenços ou gravatas com estampas contrastantes: seu guarda-roupa está longe de ser minimalista, mas tudo isso tem a ver com a grande autoestima que o golpista possui.

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Richie DiMaso (Bradley Cooper) não possui o mesmo senso de estilo. Ao começo da trama, quando se apresenta como um agente do FBI, veste-se de maneira simples, usando apenas blazer sem colete, com gravata mal arrumada e botão do colarinho aberto. Ao mergulhar cada vez mais no mundo das artimanhas políticas, passa a vestir-se de forma mais elaborada, acompanhando os que estão ao seu redor e espelhando as roupas de Irving, incorporando estampas cores e peças (colete, especificamente) ao seu vestir, fato ressaltado por este em certa cena do filme. Em determinados momentos, quando ambos estão alinhados para o golpe, a paleta de cores de seus figurinos dialogam, criando afinidade entre os personagens.

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A esquerda, Richie passa a se vestir de modo similar a Irving, nessa cena em tons de marrom, verde e laranja.

O prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) veste-se de maneira vistosa, com uma extravagância contida, adequada ao cargo. Possivelmente é o personagem mais honesto e suas roupas são em tons claros, como cinzas, beges e azuis pálidos, demonstrando sua franqueza e até credulidade. Sua aparência, com lapelas largas e gravatas chamativas, completada pelo cabelo com topete e costeletas, pode parecer exagerada, mas condiz com o período retratado.

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É interessante frisar que a década de 1970 trouxe grande liberdade ao vestir dos homens, com possibilidades de estampas e cores, abandonadas desde o fim da Revolução Francesa. Além disso a vaidade expandia-se para acessórios, como relógios, pulseiras, colares e anéis, todos fartamente utilizados pelos três personagens citados.
Rosalyn (Jennifer Lawrence) transita entre dois mundos. Em casa, deprimida e sem motivações, veste-se de forma desleixada, com vestidos largos, moletons ou mesmo permanecendo de robe. Já quando sai com seu marido, arruma-se ao máximo. Suas roupas não chegam a ser sofisticadas e o macacão com estampa de onça que utiliza na primeira noite fora de casa mostrada no filme é uma prova. Mas certamente ela se esforça para emular um certo refinamento, chegando perto com o vestido branco utilizado no cassino, desenhado por Wilkinson, que mesmo assim tem aparência barata.

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Ao centro, Rosalyn em roupa para ficar em casa. À direita vestida para sair.

A personagem mais complexa é Sydney Prosser (Amy Adams) e isso se reflete em seu vestuário. Em um rápido flashback a vemos chegando do interior para a cidade grande, utilizando roupas simples e sem grandes atrativos: uma saia com blusa e cardigã de tricô. Ao começar a trabalhar em uma grande revista, rapidamente ganha confiança e incorpora peças mais elegantes, passando da camiseta colada e cabelo preso em um rabo de cavalo à camisa branca de botão e cabelos soltos, penteados em ondas.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Quando conhece Irving, passa a utilizar predominantemente vestidos-envelope (caracterizados por tecido trespassado em diagonal no colo e amarrado na lateral) e decotes bastante fundos. Os primeiros foram inventados em 1974 pela estilista Diane von Furstenberg e são a marca registrada de sua grife. Esta e a marca Halston Heritage, que se popularizou na época com roupas de desenho fluido, cederam peças de seus acervos para a produção do filme. A falta de um sutiã ou alguma peça íntima que dê segurança ou sustentação aos decotes da personagem chama a atenção. Sua liberdade em cena demostra em um primeiro momento sua força e, posteriormente, sua fragilidade.

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A princípio Sydney aparece alinhada com Irving, tanto na vida pessoal quanto na execução dos golpes. Isso se reflete em suas roupas: desde o primeiro momento em que se conhecem, em uma festa na casa de um amigo dele, ambos de branco, suas roupas possuem paletas de cores relacionadas. O primeiro momento em que a roupa de um não chama visualmente a do outro é quando Richie aparece como suposto cliente. Em um traje turquesa de Diane von Furstenberg, ela difere completamente dos tons de cinza e bordô de Irving. Esse alinhamento volta a ocorrer no momento em que Richie já está incorporado aos seus planos e estão fazendo o primeiro contato com o prefeito. Mas dessa vez são os três que parecem combinar, com detalhes em tom de marrom e bege, embora Irving ainda se afaste ao usar o terno bordô.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Todos os personagens de Trapaça vestem-se para projetar a imagem do que querem ser através da roupa. Embora utilize-se roupas criadas na época retratada, percebe-se que elas foram escolhidas a dedo para realçar o exagero pretendido na visão de David O. Russel sobre o período. Michael Wilkinson amarrou com grande destreza esse mundo de grandiosidade teatral e riqueza.

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Trapaça (American Hustle/ 2013)

Assistido em: 10/02/2014.

Quase todo ano é aquela polêmica: David O. Russel dirige um filme, este recebe trocentas indicações ao Oscar e o mundo se divide entre os que concordam e os que não concordam. A bola da vez é Trapaça, filme sobre golpistas profissionais que se passa em 1978. Com narrações em off em que cada personagem explica como foi parar onde está, a trama começa com Christian Bale (que ganhou cerca de 20 quilos para o papel) interpretando Irving Rosenfeld, um homem que ganha dinheiro de comissão por empréstimos prometidos e nunca entregues. Em uma festa na casa de um amigo, conhece Sydney Prosser (Amy Adams), que torna-se sua parceira dentro e fora dos mundos dos golpes. O que nos é revelado pouco depois é que ele é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma mãe solteira cujo filho adotou e que permanece a maior parte do tempo deprimida em casa. Certo dia Irving e Sydney são procurados por um potencial cliente, que revela-se um agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper). Richie oferece a eles a chance de permanecerem livres se o ajudarem a aplicar um golpe em pelo menos cinco políticos corruptos ou mafiosos visando prendê-los em flagrante, entre eles o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que supostamente aceitaria propinas. Acontece que o sistema também é falho: composta por pessoas gananciosas e ambiciosas, a Lei pode ser pior que o político corrupto. E a boa intenção e até ingenuidade de Carmine é comovente.

design de produção da película é impecável: aqui temos um mundo altamente estilizado remetendo ao período, recheado de papéis de parede espalhafatosos, decorações de gosto duvidoso e, claro, figurinos (criados por Michael Wilkinson) exagerados, que , aliados aos penteados, colocam os personagens sempre a um passo do caricatural, mas jamais chegando lá. A trilha sonora também é bastante boa e contribui com o clima das cenas.

A primeira metade do filme é bastante divertida, nos posicionando diante desse leque tão variado de personalidades. Na segunda metade a história passa a ficar truncada. O excesso de detalhes e explicações, bem como a maneira como a ação se desenrola, aos tropeços, prejudicam o ritmo e tornam-no cansativo.

As atuações são um forte do filme. O destaque, sem dúvida, fica por conta de Amy Adams, que transita entre a auto-confiança e a fragilidade de sua personagem de forma linda. Muitos comentaram sobre a pouca idade de Lawrence para o seu papel, mas não concordo com isso: faz todo sentido que uma mulher jovem aceite um casamento praticamente sem amor, visando proteger seu filho. Bale e Renner também estão ótimos.

Trapaça está longe de ser um filme fantástico: trata-se de um mediano, com algumas interpretações competentes e um design de produção em que os envolvidos visivelmente se divertiram trabalhando (com ótimos resultados). Mas para melhor filme de 2013, passa longe.

Para ler uma análise mais detalhada do figurino desse filme, acesse aqui.

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O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook/ 2012)

Assistido em: 16/01/2013
Comédia romântica com uma pitada de drama sobre um homem (Bradley Cooper) que sai de um hospital psiquiátrico após ficar internado e medicado por transtorno bipolar e que vai tentar reorganizar sua vida, voltando à casa de seus pais. O pai é interpretado por Robert De Niro, bem como há tempo não estava. Na vizinhança ele conhece uma mulher (Jennifer Lawrance) que está tendo dificuldades para lidar com sua viuvez. Ainda há o amigo, também com problemas psiquiátricos, interpretado pelo sumido Chris Tucker.

No início é muito difícil gostar de ou ter empatia por qualquer dos personagens. Eles são problemáticos demais. Mas conforme a história avança, vão se humanizando. É uma comédia romântica acima da média e pouco clichê, mas digamos que com oito indicações ao Oscar (melhor filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, montagem e roteiro adaptado) confesso que esperava algo bem mais interessante. Talvez seja um problema de gênero, mas também achei a direção fraca. Não que não tenha gostado, mas realmente não acho que é para tanto. Mas aí entram os irmãos Weinstein, não é mesmo? De qualquer forma o filme parece feito sob medida para o carisma de Jennifer Lawrence, que está ótima! Fiquei até curiosa para ler o livro.

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