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Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Em E Não Sobrou Nenhum (anteriormente chamado de O Caso dos Dez Negrinhos), de 1939, um dos romances policiais mais famosos da escritora britânica Agatha Christie, dez desconhecidos se vêm confinados em uma casa isolada em uma ilha durante um fim de semana. Eles morrem um a um, gradativamente aumentando a tensão entre os sobreviventes, que precisam descobrir quem é o responsável pelos assassinatos. A premissa da cabana isolada não é nenhuma novidade, mas o diretor e roteirista Quentin Tarantino faz bom uso dela em Os Oito Odiados. Kurt Russel é John Ruth, um caçador de recompensas que transporta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), por quem são oferecidos dez mil dólares viva ou morta, dinheiro o bastante para aguçar a cobiça alheia. Em meio a uma nevasca, juntam-se a eles o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix ( Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife da cidade vizinha, Red Rock, além do guia da diligência, O.B Jackson (James Parks). Para abrigar-se da neve, param em uma estalagem onde estão o veterano dos confederados General Sandy Smithers (Bruce Dern), o mexicano Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o janota Joe Gage (Michael Madsen), formando, assim o grupo que dá nome ao filme.

western funciona como uma peça de teatro, com poucas mudanças de cenário e diálogos afiados desde o começo. De fato, os três primeiros atos se sustentam basicamente em torno deles e são a melhor parte do filme.

O uso largamente propagandeado de câmeras Panavision 70mm resultaram em uma fotografia muita bonita. Na abertura vemos a diligência cortando a neve, engolida pela natureza ao seu redor, enquanto os créditos rolam de maneira bastante tradicional, acompanhados da trilha sonora de Ennio Morricone.

A largura extrema da razão de aspecto favorece tomadas externas e a captura da paisagem como um personagem da trama. Por isso, depois que o filme se encerra na estalagem, ela poderia ser desperdiçada nas mãos de um diretor menos habilidoso, mas continua servindo ao propósito narrativo aqui. O cenário, construído com muitos móveis entulhados de pequenos objetos, é desvelado ao espectador em detalhes. Mas, mais que isso, essa razão permite a observação de ações paralelas durante os diálogos. A profundidade de campo também é explorada de maneira sugestiva e interessante e o terceiro ato, especificamente, tem uma sequência em que ela é utilizada de maneira alternada com o foco em dois personagens, em um momento de negociação que funciona muito bem.

As referências, como em outros filmes do diretor, são várias. Do grupo heterogêneo em No Tempo das Diligências, passando pelo ameaça interna, ambientação e alguns detalhes provenientes de O Enigma de Outro Mundo até chegar na auto-referência em relação a Cães de Aluguel.

São os diálogos, como já mencionado, que seguram e desenrolam lentamente o filme. O isolamento alimenta a tensão entre os personagens, que é pautada nos conflitos já existentes nesses Estados Unidos pós-Guerra da Secessão. Em cena há representantes da União e dos Confederados. Temos um homem da lei, militares e uma fora-da-lei. Há questões de classe social e também de migração. A sociedade americana está representada no pequeno grupo composto por oito pessoas. Mas o mais importante: ele escancara os conflitos étnico-raciais e de gênero. O racismo torna-se o foco principal. Homens brancos destratando homens negros, destratando homens latinos e todos odiando todos.

E nesse ponto Tarantino perde a mão. Parece que tentou rebater as críticas, especialmente do também diretor e roteirista Spike Lee, de que ele aborda questões raciais de maneira insensível. Mas o fez de maneira a demonstrar ainda mais a falta de cuidado com que trata o tema. O filme não precisa ter caráter de crítica social, mas é isso que ele propõe ao colocar frente a frente Warren, um ex-militar negro, e sulistas racistas e confederados. Na verdade, Tarantino já havia feito coisa similar ao confrontar um grupo de mulheres e um stalker misógino em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos Inglórios e um homem negro escravizado e liberto e escravistas em Django Livre.

Por isso a quantidade de vezes que seus personagens falam “nigger”, expressão de cunho racista, é desconfortável. Sim, todos eles são pessoas desagradáveis e o desenvolvimento deles torna isso claro. Mas as falas são colocadas sem crítica e sem ironia, permitindo uma ambiguidade perigosa ao texto.

O mesmo ocorre, em relação a gênero, especialmente com o tratamento conferido a Daisy. O fato de o diretor se apresentar como aliado de causas anti-racistas e feministas o exime de autocrítica? Daisy é apresentada como assassina, mas seus crimes não são deixados claros. Como outros, ela profere injúrias racistas, mas por estar acorrentada, não pode reagir àqueles ao seu redor de forma violenta. Mesmo que reagisse de alguma forma, é patente que todos os demais tem um prazer especial em dirigir seus atos violentos a ela. Os homens em cena repetidamente a chamam de vadia e empilham a violência física. Sangue é derramado, dentes se vão, seu rosto e cabelos são cobertos por pedaços de outros seres humanos, mas não é dado a ela a chance de se limpar ou de se apresentar humana como os demais. Há um certo prazer na forma lenta como ela é torturada. O mesmo ocorre com as demais personagens femininas, reveladas em flashback.

Aí também questiono porque o diretor tem tanto apelo entre o grande público e o que esse mesmo está entendendo sobre o que assiste em seus filmes. Toda cena que envolvia algum personagem duvidando que Warren, por ser negro, tivesse uma carta escrita de próprio punho por Lincoln, foi recebida com grandes gargalhadas pela plateia. Cada soco desferido no rosto de Daisy foi recebido com vibrações, risadas e exclamações dizendo “Esse é o Tarantino” e “Tarantino é foda”. Com o tratamento ambíguo dado ao texto, o discurso é comprado de forma literal e a tortura vira pornografia que deleita um espectador que compactua com os preconceitos e opressões apresentados.

Assim, o terceiro ato do filme se perde ao se transformar em um banho de sangue que não tem o propósito de comentar nada em específico: serve apenas como catarse para o isolamento dos personagens. Violência é esperada nos filmes de Tarantino, mas a falta de uma amarração faz com que ela enfraqueça o restante do texto. As alianças mudam e os comentários a respeito do racismo são esquecidos. E se nos seus filmes anteriores citados aqui o confronto final era a realização de um sonho de vingança violenta de uma minoria oprimida em relação aos seus opressores, a cena final desse torna-se uma aberração discursiva que não se encaixa nessa lógica. Homens brancos e negros, sulistas e nortistas, se juntam com o intuito de dar a última palavra e dominar a mulher, unidos no mesmo sorriso de escárnio. O que Tarantino tenta dizer? Qual é a conclusão que se espera que tenhamos diante dessa cena, no contexto de sua obra?

Os Oito Odiados não parece ter suas quase três horas de duração. Tem uma bela fotografia e uma trilha sonora competente, com atuação forte de todo o seu elenco, direção de arte impecável e diálogos bem escritos. O filme peca no terceiro ato porque Tarantino parece esquecer que o pastiche pós-moderno que lhe é tão querido só funciona com o uso de ironia para clarear os discursos. Mas mesmo assim é um filme interessante e visualmente bonito.

3,5estrelas

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Nebraska (2013)

Nebraska é um filme lindo que se vale de maneira eficaz em parte da farsa e em parte do realismo. O diretor Alexander Payne explora temas relacionados à velhice e o retorno à terra natal, mas não de maneira trágica e sim pontuando-os com momentos de humor.

Woody Grant (Bruce Dern) é um idoso que recebeu uma propaganda de revistas falando que tem direito a um prêmio de um milhão de dólares. Para isso precisa ir ao Nebraska verificar se é mesmo um dos ganhadores. Acreditando no golpe de marketing, torna-se obcecado por ir até lá, para desespero de sua esposa Kate (June Squibb). O filme começa com seu filho mais novo, David (Will Forte), buscando-o em uma delegacia, pois estava andando na beira de uma rodovia, para chegar ao Nebraska a pé. O olhar de dolorido de David ao buscá-lo é pungente. Após ficar claro que nem sua vida profissional nem a pessoal encontram-se em boa situação, David decide tirar uns dias e levá-lo até lá, passando, no caminho, pela cidade de sua infância. Posteriormente juntam-se a eles sua mãe e seu irmão Ross (Bob Odenkirk). A reunião da família com o passado, em cidade pequena, com parentes e amigos há muito não vistos, desperta uma série de ações e descobertas.

Primeiramente há tudo que os pais não contam aos seus filhos sobre suas próprias juventudes. Pais parecem que sempre foram adultos. Descobrir o passado é como descobrir uma parte de nossa própria formação. Aliás, a língua ferina de Kate ao lembrar de certos parentes é um dos pontos altos do filme.

O passado pode trazer uma nostalgia melancólica. Quando visitam sua antiga casa, que havia sido construída com as próprias mãos pelo pai de Woody, este fala que trata-se de um punhado de madeira e algum mato. A casa destruída é como o passado deles ali. Acontece que nos apegamos a certos objetos porque nos trazem determinadas memórias significativas, mas no final são apenas objetos. A conexão com essas pessoas mostra que o tempo passou e nada mais é o mesmo. É difícil ter ou manter raízes quando se sai do local de onde você veio.

Quando dinheiro é colocado na equação, subitamente amigos e parentes aparecem para cobrar supostas dívidas. Conversas desconfortáveis sobre qual carro David dirige e sobre emprego são suscitadas. Esses estranhos conhecidos sempre cobrarão o seu emprego, seu carro, seu estado civil. Mas nada disso importa.

Com uma execução quase minimalista, o filme possui belíssima fotografia em preto e branco, que contribui para ampliar o senso de realidade, mesmo nas partes com teor farsesco. As atuações são muito boas. Nebraska não é um filme megalomaníaco: ele se propõe a contar um pedaço de uma história e pontuar certos momentos da vida e faz isso com enorme beleza. Embora, como falado, apresente uma visão bem humorada, ainda assim desperta grande emoção.

Nebraska

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