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It: A Coisa (It, 2017)

Como muitas avós já diziam, de boas intensões o inferno está cheio. It, nova adaptação do romance homônimo de Stephen King, é um bom exemplo do ditado popular. Inegavelmente bem realizado, dirigido por Andy Muschietti (de Mama) e com roteiro, entre outros, de Cary Fukunaga, o filme se desenrola com elegância, mas não consegue traduzir seu conteúdo para o século XX nem dar peso aos sustos que prepara.

A história, que no livro ocorre na década de 1950, foi transferida para 1988, na cidade de Derry, como sempre no Maine, estado natal do escritor. O local é habitado por adultos apáticos, que, ao invés de lidarem com a dor, parecem querer esquecer os desaparecimentos de crianças que tem ocorrido. Os pais, especificamente, se materializam como figuras de autoridade prontas para oprimir. É o que fazem os de Bill (Jaeden Lieberher), que, ao contrário, se atormenta pelo fato de seu irmãozinho menor ter sumido enquanto brincava na chuva com um barquinho de papel que ele fez.

Bill faz parte do auto-entitulado “Clube dos Perdedores”, um simpático grupo de outsiders que engloba arquétipos típicos desse tipo de representação, passando pelo menino hipocondríaco, o cdf gordinho, o judeu, o negro e outros. Todos estão acostumados a conviver com valentões que os perseguem, manifestando masculinidade tóxica, que posteriormente é justificada na própria violência dos adultos. E embora sua composição seja arquetípica, a caracterização dos personagens lhes conferem estofo o suficiente para torná-los verossívmeis para além dos estereótipos, resultando em intereções críveis, incluindo os palavrões e piadas típicos dos treze anos que têm e tantas vezes omitidos em outras obras. Além dos garotos, há uma menina no grupo, Bev, interpretada por Sophia Lillis, uma impressionante cópia mirim de Amy Adams. O motivo que a torna excluída na escola é a fofoca que corre a respeito dos meninos com que já ficou.

O saudosismo retrô que alimenta a obra cria uma visão de anos 80 em que as crianças são independentes e o tempo inteiro desbravam a cidade sozinhas, sem interferência dos seus responsáveis. E se o seriado Stranger Things bebeu da fonte de It, o telefilme de 1990, o filme parece se retroalimentar dele, utilizando a mesma estratégia de misturar referências para um público que tem contato com outras obras e mesmo compartilhando um ator em comum.

Em se tratando de medo, deve-se destacar o trabalho físico de Bill Skarsgård, que encarna o vilão chamado de It. Com ótimas expressões faciais estranhas e sinistras, aliadas à maquiagem, ele se torna uma presença marcante no filme. Mas, infelizmente, não é suficiente para garantir o clima de terror. A premissa da história é que It aparece para cada um como aquilo que essa pessoa mais teme, afetando com o medo e capturando suas vítimas. Pensar sobre o que mais afeta subjetivamente um indivíduo poderia render um terror psicológico denso, daqueles que rastejam por debaixo da pele do espectador arrancando arrepios. Mas Andy Muschietti parece tão preocupado com a estética do filme, que esqueceu de focar no medo que o fincaria no gênero de terror. O que sobra são uma sequência de sustinhos inócuos, que não sustentam a atmosfera a longo prazo e cansam, assim como o uso excessivo de planos inclinados, que depois de um tempo não mais destacam momentos de desconforto, tonando-se uma decisão estética vazia.

Mas o que realmente incomoda no filme é o tratamento conferido à Bev, dentre todas as crianças. A todas elas são oferecidas características que as diferenciam e medos diversos que as aterrorizam. Bev é a Smurfette do grupo e, com o tratamento preguiçoso que recebem personagens caracterizadas dessa forma, o que a define é especificamente o fato de ser mulher. Nenhum dos garotos é definido somente por ser garoto: todos eles são elaborados com personalidades e traços particulares. (Talvez pode-se dizer que Mike sofra por ser negro e sentir o racismo e a xenofobia de ser recém chegado a uma cidade em que o restante da população é branca, mas mesmo seu maior medo não tem relação direta com o fato).

Mas Bev é marcada pelas violências de cunho sexual que a atingem. Não lhe é permitido ter medos variados e pueris como as demais crianças: seu medo parte do terror perpretado por quem deveria cuidar dela. E por isso, quando It se manifesta para ela, o faz de forma muito mais violenta e agressiva do que é com as demais. Se um ou outro vêm-no na forma de um quadro cubista com um retrato de feições distorcidas ou um leproso, para Bev é um jorro de sangue que cobre todo seu rosto, paredes, chão e teto do banheiro, uma vez que com a menstrução que chegou “deixou de ser uma garotinha”. Além disso é atacada por tentáculos de cabelo, o mesmo que cortou porque de cabelo curto parece mais com um menino. Ao contrário das demais crianças, o medo de Bev vem de dentro, não de fora. Ela é punida e definida na trama em virtude de sua genitália. E mesmo se mostrando uma personagem destemida, é ela quem, afinal, funciona como a donzela em perigo. São clichês de construção de personagem que poderiam ser facilmente resolvidos. O filme não precisa funcionar como se tivesse sido feito nos anos 80 apenas porque se passa na época.

Com uma boa fotografia, um elenco carismático, uma boa atuação por parte do vilão e uma trama envolvente, It: A Coisa peca ao não atualizar seu terror e seu roteiro para os dias de hoje, entregando um tratamento indisculpavelmente misógino e preguiçoso de uma das protagonistas e falhando em criar uma atmosfera de medo, que se perde em sustos inócuos, de curta duração.

 

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Beasts of No Nation (2015)

Beasts of No Nation é um filme que gerou muitos comentários, por ter sido lançado em poucas salas de cinema e diretamente na plataforma de streaming de vídeo Netflix. A Netflix já há alguns anos investe em conteúdo próprio, como as séries House of Cards e Orange is the New Black e o documentário Virunga, que cravou uma indicação ao Oscar neste ano. Esse é o primeiro filme de ficção a ser distribuído como conteúdo original na plataforma.

A trama é adaptada do romance de mesmo nome do escritor nigeriano Uzodinma Iweala. O roteiro e a direção ficam por conta de Cary Joji Fukunaga, de Jane Eyre e da primeira temporada de True Detective. O filme narra a história de Agu (Abraham Attah), um menino que vive com sua família em uma localidade africana não identificada. Seus pais e irmãos são mortos por milícias governistas, por serem confundidos com rebeldes e Agu se vê sozinho na mata tentando sobreviver. Ele é, então, encontrado pelos soldados do Comandante (Iris Elba), que jamais é identificado pelo nome. Junto com outras crianças, Agu é treinado para se tornar um soldado e o Comandante lhes aparece ao mesmo tempo como uma figura de autoridade paterna, um abusador e um tirano sanguinário.

A apresentação do protagonista, brincando com outras crianças atrás da carcaça de uma televisão, é eficaz em estabelecer sua infância então recheada de fantasia antes do horror começar. Por outro lado descortina o olhar do expectador, que tudo vê através de seu aparelho de televisão. O filme se desdobra com um gosto amargo de tortura voyeurística. É claro que quem o assiste vai se comover com o que ocorre com Agu: a guerra é cruel e sua realidade é dura. Mas as relações que levam a isso não são explicitadas.

Agu aprende a matar e a primeira morte de sua responsabilidade não vem como um ponto de virada na história. Ela simplesmente acontece. Filmes sobre o horror da guerra e desumanização dos soldados não são raros, mas aqui a trajetória de Agu é externada mais através das cenas chocantes que o expectador vê do que por sua própria subjetividade. O recurso da narração em off  é utilizado para externar os pensamentos do protagonista, que são até mesmo poéticos, mas não complementam nem explicam suas ações e nem suas motivações.

Não há preocupação em explorar os aspectos políticos da guerra. Ao deixar de apresentar o país onde a trama se passa, não é necessário explicar as questões pós-coloniais que envolvem os grupos em conflito. Também não é necessário expôr que países ou pessoas da Europa e outros lugares estão orquestrando a situação. No final das contas parece uma saída simplista e covarde apresentar todos como pessoas africanas lutando barbaramente umas com as outras, como se não houvesse a herança da exploração europeia e dos conflitos étnicos provenientes da colonização. A violência que é mostrada dessensibiliza quem a assiste, pois não parece ter motivo algum. O único momento em que um pessoa branca aparece no filme é em um carro da ONU, que passa enquanto ela tira fotos das crianças armadas. O distanciamento parece ser proposital, para mostrar que o resto do mundo simplesmente não se importa, mas nessa narrativa descontextualizada, lava as mãos de implicações maiores.

Não gosto de pensar em filmes no sentido de “e se tivesse sido diferente”, mas nesse caso, a falta de um contexto histórico-político leva a interpretações perigosas e mesmo racistas. De toda forma, ele poderia ser compensado por uma trajetória pessoal fortemente marcada, o que não acontece.

Idris Elba está ótimo em seu papel, apresentando as diferentes facetas de seu personagem. Mas quem rouba mesmo a cena é o pequeno Abraham Attah que, na medida do possível com o material que lhe é dado, constrói uma interpretação bonita e cheia de sentimento.

A direção e a fotografia de Fukunaga são competentes e seu jogo de câmera tem a elegância já presente em outros de seus trabalhos. Visualmente impactante, Beasts of No Nation poderia ter sido um grande filme de guerra se tivesse um roteiro melhor desenvolvido. É uma pena que não tenha sido assim.

2,5estrelas

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