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Conspiração e Poder (Truth, 2015)

James Vanderbilt é roteirista, conhecido pelos dois filmes do Espetacular Homem-Aranha e Zodíaco, de David Fincher. Conspiração e Poder é o primeiro filme que dirigiu (além de ter roteirizado, claro) e chama a atenção o elenco de peso que embarcou no projeto. O longa aborda o jornalismo televisivo, especificamente uma história real que ocorreu envolvendo a produção do programa 60 Minutos, um dos mais tradicionais da televisão estadounidense. Em 2004 a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) encontrou indícios de fraude envolvendo o então presidente George W. Bush e sua alocação no exército durante a Guerra do Vietnam. Em plena corrida para a reeleição, qualquer tipo de informação negativa sobre um candidato poderia ter grande peso sobre o resultado. Além de Mapes, a equipe da investigação era composta pelo âncora Dan Rather (Robert Redford), os jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Mike Smith (Topher Grace) e o Tenente Coronel Roger Charles (Dennis Quaid). O roteiro é adaptado diretamente do livro Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, escrito pela própria Mapes.

Trata-se de uma história procedural, que mostra como funcionam as etapas investigativas de uma reportagem de grande porte e a dinâmica de relacionamentos entre os profissionais. Mapes confiou no fator humano durante as etapas de verificação das fontes e, com a pressão para fechar o conteúdo, deu por verdadeiro tudo que lhe foi apresentado. Um item essencial para credibilidade da história veio de fonte duvidosa e, em se tratando de informação que poderia encerrar a presidência de Bush, pressões políticas e econômicas que vinham anônimas de camadas superiores da hierarquia passaram a assombrar o trabalho da equipe.

A busca pela verdade é o mote da trama, mas a abordagem, até mesmo pela fonte do texto, é bastante tendenciosa. Nenhum problema: toda obra de arte é propaganda e escolhe um lado. Mas o ritmo irregular da narrativa não ajuda na imersão total. Além disso, os diálogos extremamente expositivos distraem e atrapalham em diversos momentos. Há um cena, por exemplo, em que Charles explica a Lucy como um telejornal replica o conteúdo do outro, fato que ela obviamente está ciente. Esse é apenas um exemplo entre muitos momentos em que os personagens explicam uns aos outros o que está acontecendo ou fazem perguntas deliberadas para levar a respostas que narram aos fatos, claramente tentando entregar essas informações ao espectador. Isso sem falar na tradicional cena de discurso grandioso, que também acontece.

Em um ano em que Spotlight, outro procedural de jornalismo, ganhou o Oscar de melhor filme, é difícil não comparar as duas películas. Nesse caso, Conspiração e Poder acaba funcionando como uma contra-prova às críticas de que, minimalista e elegante, Spotlight seria um filme sem direção. A qualidade da obra final lá comprova uma direção madura, em oposição à claudicante e insegura aqui. Não que Conspiração e Poder seja um filme ruim, mas ele se beneficia de uma história minimamente interessante e de atuações de peso. Cate Blanchett, mais uma vez, a despeito do roteiro que lhe é entregue, comprova a grande atriz que é.  3estrelas

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Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

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Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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Figurino: Cinderela

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 10/04/2015.

“Tenha coragem e seja gentil.”

O mais popular de todos os contos de fadas já foi adaptado para o cinema diversas vezes, mas a animação da Disney Cinderela, de 1950 continua sendo a mais famosa. Agora o próprio estúdio recriou o conto de Perrault em uma versão live action de mesmo título. Ao contrário de outras adaptações recentes, que construíram mundos mais sombrios, como Malévola, esta manteve a atmosfera infantil e mágica. Dirigido por Kenneth Branagh, o filme conta com figurino da veterana Sandy Powell, que trabalhou com Scorsese em seus últimos seis filmes e foi premiada com o Oscar em três ocasiões: Shakespeare Apaixonado, em 1999; O Aviador, em 2005 e A Jovem Rainha Victoria, em 2011.
Todos já conhecem a história: a jovem protagonista, chamada Ella (Lily James) perde a mãe ainda quando criança e seu pai, um mercador constantemente em viagem, volta a casar. Além de sua Madrasta (Cate Blanchett), juntam-se a sua casa duas irmãs, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger). Após a morte de seu pai em terras distantes, Ella, agora apelidada de Cinderela, é maltratada pela Madrasta e pelas irmãs e passa a servi-las como única empregada da casa, uma vez que sua situação financeira piora.
Ella utiliza um vestido simples, azul claro com flores rosas quase imperceptíveis. Tanto a estrutura do tronco em corpete quanto o franzido em forma de V na parte frontal ajudam a criar a impressão de uma cintura mais fina. Nos pés, ela calça uma sapatilha também azul, mas que se desgasta e encarde com o passar do tempo. Esse traje, juntamente com outros do filme, vai mostrar que a fantasia se passa em um período não determinado da história, que faz uso de elementos da moda europeia do século XIX, sem necessariamente fixar-se nessa época e mesclando-os com outros de diferentes épocas.
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A Madrasta é uma mulher intrigante. Seus trajes são uma mistura de épocas: são construídos como se fossem uma versão de 1940 de roupas de 1840. É fácil perceber que ao invés de ter corpetes, possui cintura marcada por cintos, combros estruturadas de maneira ampla e o busto em forma mais cônica, como ditava a moda da década citada do século XX. Diversas vezes sua saia é justa e reta, como uma saia lápis, com outra maior por fora para conferir o volume necessário para passar a ideia de pertencer ao século XIX. Essa imagem é complementada pelos cabelos penteados com curvas e pelos chapéus com abas muito largas.

Traje de luto e, à direita, croqui de Sandy Powell.

Traje de luto e, à direita, croqui de Sandy Powell.

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Vestido de baile e seu croqui correspondente.

Marlene Dietrich e Joan Crowford são citadas como inspiração para a criação das peças. A elegância da Madrasta é completada pelo uso de cores frias em tons de pedras preciosas, como esmeralda e safira, geralmente com preto como complemento. Como acontece frequentemente, a vilã utiliza as roupas mais interessantes.
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As irmãs Drisella e Anastasia funcionam como alívio cômico. Mesmo sendo belas, são gananciosas e competitivas. Suas roupas são sempre iguais, mesmo que uma tente superar a outra. A primeira sempre se veste em amarelo e a segunda, em rosa. Dessa forma as duas também contrastam com o constante azul de Ella. Além disso, a moda que seguem (ou criam) é absurda, beirando o ridículo.
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As irmãs e o croqui do traje idealizado pela figurinista.

As irmãs e o croqui do traje idealizado pela figurinista.

Kit (Richard Madden), o príncipe, veste roupas com inspiração militar, como jaquetas adornadas acompanhadas de calças justas de montaria, geralmente brancas e botas. Azul claro é a cor que mais usa, embora combinada com outras, como o branco, já citado, o dourado e o verde. Sua paleta é bastante clara em comparação ao que era vigente na moda masculina de 1840, como se pegasse emprestado elementos do século XVIII, quando os homens das cortes europeias vestiam-se de forma mais elaborada e colorida.
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A Fada Madrinha (Helena Bonham Carter) marca a presença da magia no filme. Primeiramente aparece como uma idosa pedinte, em um traje com textura e tons orgânicos, que remetem a uma árvore. Depois, já transformada, vestindo algo “mais confortável”, em suas palavras, utiliza um vestido que se estrutura como se fosse do século XVIII, com corpete curto e saia com anquinhas amplas nas laterais, além de gola rendada. O conjunto é iridescente e furta-cor e Sandy Powell afirma que pequenas lâmpadas de LED foram utilizadas sob as camadas de tecido para ampliar o efeito. As pequenas asas nas costas foram pedidas pela atriz.
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Quando chega o grande dia do baile, Ella usa um vestido rosa que havia pertencido à sua mãe. Mas, para evitar que ela vá ao evento, a Madrasta o rasga.
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A Fada Madrinha cria um vestido novo, dessa vez em cor azul. Os ombros largos, adornados com pequenas borboletas, contrastam com a cintura marcada pelo corpete que, oposta à saia volumosa, cria uma silhueta extrema em ampulheta. A saia é composta por uma crinolina (uma espécie de estrutura em forma de gaiola) leve, que sustenta a base. Sobre ela, a anágua, adornada com muitos babados na barra, para que possam ser vistos quando Ella caminha. Por fim, doze camadas de tecido finas, que vão do branco ao azul, passando pelo lilás e que juntas compõem a cor única da saia. Embora com toda essa estrutura e complexidade, o vestido parece leve e move-se de maneira bonita.
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Croqui do vestido de baile de Ella.

Legenda da imagem: Croqui do vestido de baile de Ella.
A cor azul contrasta com as demais convidadas do baile: a riqueza e variedade dos tecidos utilizados nas figurantes é grande, mas eles apenas emolduram a presença de Ella.
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Quanto ao sapatinho de cristal, ele foi desenhado por Sandy Powell e confeccionado pela Swarovski. Cópias extras foram feitas em outros materiais para determinadas cenas. Lily James jamais o calçou, pois são impossíveis de utilizar. O que é visto em seus pés é uma versão em CGI que cobriu uma réplica em couro no mesmo formato. Vale notar que Ella menciona diversas vezes como o sapato é confortável, mas tanto o material, como o formato e especialmente o tamanho do salto, que deixa os pés quase na vertical, passam a impressão oposta.
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Destaque para os animais que foram transformados em lacaios para Ella. Suas librés remetem às suas próprias espécies: casaca longa com calda verde para os lagartos e traje branco com meiões em laranja para o ganso.
O final feliz se traduz em matrimônio e o vestido de casamento de Cinderela é confeccionado em cor clara, com silhueta simples e diversas flores bordadas, de forma a lembrar que ela é uma rainha-camponesa e ligada à natureza ao seu redor.
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Cinderela é um filme infantil que adapta o conto de fadas da forma romantizada que os estúdios Disney costumam fazer. Seguindo essa lógica, o figurino de Sandy Powell é estilizado, mistura elementos de diversos períodos históricos e faz uso de certos exageros para ressaltar a magia presente na trama. O visual é bonito e trabalha alinhado com a direção de arte bastante adequada à atmosfera pretendida.

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Cinderela (Cinderella, 2015)

Na onda dos remakes e reimaginações de contos de fadas (como Malévola), Cinderela, versão live action da famoso conto de Perraut, se mostra mais tradicional em sua abordagem, mas isso não necessariamente é ruim. Dirigido por Kenneth Branagh, a história é praticamente idêntica àquela que os próprios Estúdios Disney, responsáveis pelo filme, produziram em animação em 1950. A jovem protagonista, aqui chamada de Ella (Lily James) perde a mãe ainda muito cedo. O pai se casa novamente e além da Madrasta (Cate Blanchett), ela ganha duas irmãs, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Granger). Com a morte do pai e perda da renda da família, Ella passa a servir as demais.

O mote do filme, repetido talvez de forma excessiva, é “tenha coragem e seja gentil”. A frase foi dita à personagem principal por sua mãe antes morrer. Seguindo essa ideia, Ella continua vivendo na casa que pertenceu aos seus pais, a despeito do tratamento recebido, uma vez que o local lhe traz boas lembranças. Jamais é vingativa com suas irmãs e madrasta, o que pode ser visto por muitos como uma fraqueza, mas na verdade é maneira da personagem se mostrar resiliente.

É importante, especialmente para as meninas, que as histórias infantis tenham protagonista aventureiras como Anna e Elsa, em Frozen e Rapunzel, em Enrolados; ou guerreiras como Mérida, em Valente e Mulan, no filme homônimo. Isso mostra opções de realidade que eram vetadas a elas até pouco tempo e comportamentos que geralmente são deixadas de lado na sua criação. Mas por outro lado não há nada de errado com atributos tradicionalmente tidos como femininos, como a bondade. Pelo contrário, precisamos parar de negativar elementos que são entendidos como femininos em nossa sociedade. No final se cai em um discurso machista novamente, em que só as personagens que têm características que a sociedade entende como masculinas são valorizadas e o que é tido como feminino é hostilizado. As crianças, de todos os gêneros, deveriam ter as duas opções, a doçura e a valentia, como modelos de comportamento. Afinal, a coragem pode de manifestar de formas diferentes na realidade das pessoas.

Dito isso, o filme funciona bem enquanto desligamos as críticas sociais (o quê? ela é tratada como serva, mas ganha servos para ir ao baile? O palácio tem toda essa riqueza, mas e o resto da população?). Elas realmente não vêm ao caso nesse contexto da história e, ignorando esse fator, ela funciona bem.

Se por um lado Cate Blanchett rouba a cena como a Madrasta, por outro Richard Madden, que interpreta Kit, o príncipe, parece feito de plástico com a aparência que lhe deram. Os cabelos alisados e os dentes excessivamente brancos são artificiais demais. Apesar disso a produção do filme é caprichada, com cenários e figurinos deslumbrantes e bom uso de CGI (embora às vezes um pouco exagerado).

O romance entre Ella e Kit é crível e bastante inocente e a sequência do baile seguida pela sua transformação de volta ao normal ao badalar da meia noite é muito boa. Com seu vestido azul cheio de camadas, que se move de forma suave e bonita, Cinderela se destaca em meio aos demais convidados do baile. A riqueza de detalhes na composição dos figurantes funciona ao realçar ainda mais a sua presença. Mas a beleza não é seu atributo mais valorizado. Sua irmã Anastasia, por exemplo, é considerada mais bonita. O que a diferencia é justamente o fato de tentar se apegar aos ditames da mãe e ter coragem para enfrentar seu cotidiano e gentileza ao lidar com aqueles que estão ao seu redor.

O conto de fadas mais popular e mais adaptado de todos é refeito, aqui, de forma bastante bonita. Não há nada de novo, mas nem sempre há algo de errado com a velha mágica.

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Para ler uma análise detalhada do figurino do filme, acesse aqui.

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Blue Jasmine (2013)

Assistido em 16/01/2014

Blue Jasmine, novo longa do diretor e roteirista Woody Allen, tem uma ponto forte: a atuação de Cate Blanchett. Blanchett interpreta Jasmine, uma mulher que teve uma crise nervosa, perdeu suas propriedades e se muda temporariamente para a casa de sua irmã, Ginger (Sally Hawkins). Ginger não pertence ao mesmo estrato social que Jasmine frequentava e mora em um bairro pobre em San Francisco. Divorciada, com dois filhos, namora com Chili (Bobby Cannavale), a quem Jasmine considera um grosseirão, que não está aos pés da irmã. Ela está sem dinheiro porque Hal (Alec Baldwin), seu marido, se aventurou nas finanças de maneira irregular com dinheiro alheio e não terminou bem. Como bem apontado por Lola Aronovich, trata-se de Um Bonde Chamado Desejo, mas sem a questão do desejo em si.

Os paralelos são grandes e ainda assim o filme se sustenta por si só. O uso de flahbacks nos mostra o passado da protagonista e os motivos dos conflitos entre as irmãs. Jasmine se reaproxima de Ginger porque agora precisa dela, enquanto não precisava, tinha certa vergonha dos modos e da vida da irmã. Aqui que a interpretação de Blanchett faz diferença: transtornada, falando sozinha, a atriz não parece estar atuando. O papel poderia ter se tornado teatral, como, inclusive, acontece com a versão de Vivian Leigh, mas que em nada desmerece o filme original. Mas não, tudo aqui flui adequadamente.

Jasmine vê em Dwight (Peter Sarsgaard) a chance de recomeçar a vida, como acontece com Mitch no filme anterior. Mas aqui, são suas próprias ações e mentiras que fazem seu castelo de cartas de sonhos e expectativas desmoronar.

A ideia de inserir um background maior aos personagens funciona, mas se Allen dedicasse mais tempo a seus roteiros, alguns deles teriam funcionado melhor, especialmente Dwight e Al (Louis C.K.). De qualquer forma, a participação masculina aqui é secundária. O que importa mesmo são as duas irmãs. E em torno delas o filme funciona muito bem.

P.S. Por melhor que seja o filme, assista Uma Rua Chamada Pecado, título brasileiro de Um Bonde Chamado Desejo.

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