Vingadores: Ultimato (2019)

Contém spoilers moderados!

Eis que onze anos depois do lançamento de Homem de Ferro, filme que deu início ao chamado Universo Cinematográfico Marvel ou, simplesmente, MCU, chegamos a esse filme que funciona como um desfecho para a jornada do grupo de heróis. Foram vinte e dois filmes e nesse ritmo é difícil dizer que ainda há empolgação em cada um dos lançamentos.

Mas certamente Guerra Infinita (2018) conseguiu, com o impacto das consequências das ações perpetradas e o reconhecimento de Thanos como o vilão de peso que ele é, se destacar em meio aos demais, dando uma dimensão ainda mais humana aos heróis e um senso de perda em relação a eles. Além disso, entregou algo que poderia ser entendido como uma esperança: o pager de Nick Fury (Samuel L. Jackson) acionando a Capitã Marvel (Brie Larson), que parecia ser a pessoa certa para resolver aquela situação. E se tem uma coisa que o filme da personagem, Capitã Marvel (2019), acerta é em mostrar todo o seu potencial, toda a sua força, como uma personagem que poderia sozinha derrotar Thanos. Infelizmente parece que os roteiristas de ambos os filmes, que não são os mesmos, não conversaram para garantir uma continuidade da história apresentada e o poder da heroína foi praticamente descartado aqui e junto com ele a coerência da narrativa criada.

A maior parte do filme se passa cinco anos após o momento em que Thanos dizimou metade da vida do universo. Cada personagem tenta seguir com sua vida, vivendo de acordo com aquilo que os guia. Assim, Natasha/Viúva Negra (Scarlett Johansson) se mantém ocupada monitorando o globo terrestre no que seria sus função de Vingadora, Thor (Chris Hemsworth) desistiu de tudo e dedica-se a beber e jogar videogame, Bruce Banner (Mark Ruffalo) se voltou à ciência e Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Steve Rogers, emblematicamente opostos em seus posicionamentos, também o são no luto: o primeiro se recolheu com sua fortuna e família, agora pai, e o segundo tenta ajudar pessoas com traumas em um grupo de apoio.

O retorno de Scott Lang (Paul Rudd) implica na possibilidade de manipular o tempo e reverter o estrago causado pelas Jóias do Infinito. O que se propõe é uma viagem no tempo, para que o grupo de heróis possa recuperá-las antes que Thanos as pegue. Esse momento de sci-fi com aventura é bastante divertido, recolocando os heróis em momentos icônicos de filmes passados, fazendo-nos revisitá-los. Nesse processo, a figurinista Judianna Makovsky certamente também teve sua diversão pensando os uniformes, com suas novas texturas e cores, bem como as placas e luzes que os recobrem. De quebra, com essas passagens por outros tempos, garantiu-se participações especiais importantes e boas cenas de humor. Mas o humor nem sempre funciona: às vezes é forçado, como em outros filmes da franquia. Em particular as constantes piadas envolvendo constranger Thor pelo seu corpo não são engraçadas e se tornam rapidamente repetitivas. Entre erros e acertos, trata-se de um filme mais leve que o Vingadores anterior.

Chegando ao terceiro ato um pouco da graça do começo se dissolve. É claro que o plano não poderia ocorrer sem contratempos e é necessário um enorme embate entre as partes envolvidas para fechar a história. Instaura-se o caos: uma mistura de fanservice com necessidade de estupidificar as decisões tomadas para que haja, ainda, o conflito. Os acontecimentos só foram possíveis porque, convenientemente, os personagens não só tomam decisões erradas como se mostram enfraquecidos. Novamente, como é possível crer que Capitã Marvel sozinha não seja capaz de derrotar Thanos se for levado em conta todo o background da personagem apresentado em seu filme homônimo? A isso se soma o fato de que, na verdade, ela não está só, mas sim acompanhada por tantos outros Vingadores. Ou mesmo como crer que os exércitos de Wakanda, com tecnologia que foi apresentada como a mais avançada da Terra, se dispondo a ajudar todas as Nações Unidas, aqui só faz número? De fato, todo o destaque construído em torno de Capitã Marvel principalmente, mas também de Pantera Negra (Chadwick Boseman) nos filmes anteriores é deixado de lado para devolver os holofotes para os homens brancos que sempre se destacaram na franquia. O fato do filme precisar minimizar os poderes dos próprio heróis para que um deles se destaque mina o sentido do universo cinematográfico proposto. Na hora do embate real esses personagens iriam mesmo usar soquinho, ao invés dos seus poderes? Essa não é uma questão sobre o filme que eu gostaria de ter visto: é, sim, uma questão de coerência com a construção de personagens e suas trajetórias.

Em se tratando de uma franquia em que levamos onze anos para termos o primeiro filme protagonizado por mulheres, que tem uma personagem, a Viúva Negra, que por muito tempo sofreu com a síndrome de Smurfette, sendo escrita como joguete de interesses amorosos que mudavam conforme o vento, além de enquadrada em cena de maneira objetificada, não é possível dizer que o tratamento conferido às mulheres aqui seja decepcionante. Em uma cena próxima ao final, todas as heroínas da série se juntam à Capitã Marvel em uma empreitada em comum. O girl power se mostra vazio tanto no contexto da franquia, quanto no resultado de suas ações, que fracassam logo em seguida.

O roteiro precisa descartar Capitã Marvel para que o destaque seja Homem de Ferro, tentando forçar uma emoção vinda da noção de auto-sacrifício, reforçando sua importância por ter sido o primeiro dos heróis a ter um filme próprio. Por outro lado confere um final adequado e bonito ao Capitão América, permitindo ao personagem se distanciar do nosso tempo e viver o que gostaria de ter vivido, passando para frente sua funções.

Vingadores: Ultimato não é um filme tão bem resolvido como Vingadores: Guerra Infinita e peca em não tentar dar a coerência necessária para um desfecho de história, mas ganha quem o assiste pela aventura e humor, pelo reencontro de tantos rostos conhecidos e já queridos dos fãs da saga e tantos nomes envolvidos que impressionam quando sobem os créditos.

Nota: 3 de 5 estrelas
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