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Blade Runner 2049 (2017)

Então Deus lembrou-se de Raquel. Deus ouviu o seu clamor e a tornou fértil. (Gênesis 30:22)

Los Angeles, 2049: uma cidade cinza, chuvosa, mas com menos neon do que alguns anos antes. Como o próprio nome indica, Blade Runner 2049 se propõe a ser uma sequência do clássico de 1982, cuja narrativa se passa cerca de três décadas depois. Se aquele era dirigido por Ridley Scott, esse fica nas mãos de Denis Villeneuve. O roteiro, por sua vez, tem autoria dividida entre Hampton Fancher, que também roteirizou o primeiro filme, e Michael Green, responsável pelo argumento de Alien: Covenant. E isso explica muita coisa, conforme discorrerei abaixo.

Em Blade Runner, Deckard (Harrison Ford) precisa caçar e desativar criaturas humanoides, chamadas de replicantes, que se rebelam contra os criadores. Esses androides chegam a nós personalizados nas figuras de Rachael (Sean Young), Pris (Daryl Hannah), Zhora (Joanna Cassidy) e Roy (Rutger Haeur). Embora seus corpos sejam artificiais, o resultado é bastante próximo ao natural: eles têm sentimentos e aspirações, defendem a sua vida, sangram quando feridos e têm total passabilidade humana. A grande questão do filme é justamente a marcação dos limites do que nos torna humanos, questão essa ampliada na versão Final Cut (2007), em que a própria identidade de Deckard é colocada em cheque.

Ryan Gosling, vestindo uma jaqueta verde com lapela larga de pele falsa de carneiro. Atrás dele uma espécie de aquário mostra um corpo feminino nu sendo gerado.

Já em 2049 temos oficialmente um protagonista replicante. KD6-3.7, ou simplesmente K (Ryan Gosling) é um androide que trabalha como policial e assim como Deckard, persegue e desativa modelos antigos de replicantes que fugiram. Gosling encarna com perfeição o tipo silencioso e estoico que tem preenchido sua filmografia, usando a jaqueta de pele falsa de carneiro que o traz com facilidade para a ambientação noir que já caracterizava o outro filme. Ele é composto por tecnologia mais nova e criada especificamente para torna-los mais obedientes. Humanoides que obedecem cegamente e sem questionamento os humanos. É quando conhece Sapper Morton (Dave Bautista) que seu papel nesse mundo é abalado: o replicante, que vivia isolado em uma fazenda, fala para ele sobre um milagre que o faria mudar de posicionamento. Mais para frente na história descobrimos que tal milagre ocorreu no corpo de Rachael: no passado a replicante engravidou e gerou uma criança. Para a chefa de K, Tenente Joshi (Robin Wright), esse fato mudaria toda a estrutura social daquele universo e “quebraria os muros”.

Esse é o fator que une tematicamente aqui Blade Runner Alien: Covenant, por meio das mãos dos roteiristas: se no primeiro filme se questiona os limites da humanidade, aqui isso teria menos importância, já que seres bio-mecânicos perfeitos teriam capacidade de reprodução, o que os posicionaria em superioridade aos humanos. Em Covenant, o que nos torna humanos é a possibilidade de criação e a criatura supera o criador usando suas próprias potências. Acontece que essa temática é abordada de maneira muito mais interessante e clara no outro filme, com destaque para a incrível atuação de Michael Fassbender. Sem deixar claro as consequências reais da reprodução de replicantes, neste filme a questão é colocada, mas encontra um beco sem saída. Mesmo o fraco A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (remake do anime fortemente inspirado pelo próprio Blade Runner) levanta pontos sobre a existência de uma alma vinculada à memória presente nos corpos artificiais daquela diegese, que manteria esses corpos no limite da humanidade. K chega a falar que replicantes, por serem criados, não têm almas. Quem tem alma é quem nasce, e, portanto, essa criança representaria uma grande mudança, uma pessoa replicante provida de alma. Mas o conceito de alma aplicado a replicantes novamente não é desenvolvido. É uma característica que, presente ou não em seus corpos, não havia sido mencionada anteriormente no filme de 1982, nem volta a ser mencionada nesse. Certamente o interesse em dar continuidade aos questionamentos lançados em 1982, e que até hoje ressoam, está dado, mas os pontos apresentados são lançados sem serem levados adiante, deixando de ser plenamente explorados.

À distância, vemos Ryan |Gosling pequeno em uma ponte e um holograma de mulher com cabelos roxos gigante a sua frente. Ela aponta para ela e a ponta do seu dedo é do tamanho de sua cabeça.

Explorados são os corpos femininos em cena. Aparentemente nos próximos trinta e dois anos a visão que se tem dos papéis femininos na sociedade não vão melhorar. Talvez até mesmo retrocedam. Os dois corpos femininos mais importantes para a história se chamam Luv (Sylvia Hoeks) e Joi (Ana de Armas), nomes que representam especificamente o que trazem à vida de seus mestres (amor- love; e alegria- joy). Sim, porque ambas não são humanas: são criadas para servir homens. Luv não chega a ser uma vilã: é uma assistente e uma companhia, mas também é uma capanga a mando de Wallace (Jared Leto, cuja atuação caricata é marcadamente um ponto mais fraco do filme), o fabricante da nova geração de replicantes. Em determinado momento, Luv chama K de cachorro mau, mas ela é que se comporta como um cão de guarda raivoso e rancoroso, mas ao mesmo tempo obediente, que ainda assim, de forma completamente sem propósito, lhe rouba um beijo em meio a uma luta.

A situação de Joi é mais complexa: ela é uma tecnologia nova, uma forma holográfica provida de inteligência artificial criada para servir seu amo. Estabelecendo uma hierarquia entre corpos humanoides de forma similar ao já citado Ghost in the Shell, a versão do produto apresentada no filme devota-se a K: uma mulher para servir a um homem, que por sua vez serve aos humanos de verdade. A primeira vez que a vemos ela veste uma roupa de dona de casa dos anos 50 e prepara uma refeição para ele. Ela fala para ele tudo que ele gostaria de ouvir, alimentando o seu sonho de ser alguém especial, como um Pinóquio que quer ser um menino de verdade. Para K, o conforto de ter sua importância no mundo sempre reafirmada é amor. E para que esse amor possa ser concretizado, Joi contrata mais um corpo feminino servil, Mariette (Mackenzie Davis), uma replicante garota de programa, para que se alinhe com sua própria projeção corporal e a represente no momento do sexo. Algo similar ocorre em Ela, quando a conexão emocional de Theodore com a inteligência artificial Samantha é concretizada por meio de um corpo feminino alugado. A diferença é que Samantha não era corporificada e Theodore era humano. Aqui nós temos três corpos sintéticos interagindo no sexo, mas os dois que se apresentam como femininos é que devem satisfazer o masculino. Se há uma hierarquia entre a materialidade dos corpos na sua humanidade ou desumanidade (humanos, replicantes e hologramas), há, também, uma claramente pautada no gênero.

Rya Gosling e Sylvia Hoeks (Luv) caminha em direção a uma escada em um grande salão rodeado por aquários contendo corpos humanos

E se a cidade deixou de ter tantas influências japonesas nas décadas que se passaram, os imensos painéis luminosos também foram parcialmente trocados, substituídos por mais hologramas de corpos femininos oferecendo mercadorias que muitas vezes são eles mesmos, como ocorre com Joi. Infelizmente, apesar da fotografia belíssima de Roger Deakins, o filme também não consegue repetir a estética única e marcante do original. Ao se afastar dos elementos que a definiam para criar um futuro mais avançado, o que apresenta é uma estética genérica, que remeta ao filme de 1982 sem alcançar o seu patamar de referencial. Mas a direção de arte se esmera com uso de elementos amarelos contrapondo o cinza.

Os corpos femininos não são os únicos que são explorados. Apenas duas pessoas negras aparecem na história: dois homens que tentam garantir seu sustento usando-se dos restos da sociedade de tecnologia, Mister Cotton (Lennie James) e Doc Badger (Barkhad Abdi). Utilizei o verbo “servir” diversas vezes até agora, pois a servidão dos replicantes é clara: são criados e programados para não terem livre arbítrio e sua única opção é obedecer aos humanos. Robôs e androides em ficção científica são constantemente utilizados como metáforas para a marginalização. Historicamente pessoas brancas desumanizaram pessoas não-brancas com o objetivo de coloca-las em posição de servidão. Joshi garante que a humanização dos replicantes, marcada na possibilidade de gerar vida, quebraria os muros que sustentam aquela sociedade. Esses muros são o confinamento da escravidão dos corpos desumanizados. Jeff Yang, em sua conta de twitter, publicou uma thread em que comenta sobre o filme tratar da servidão e usar como protagonista um homem branco, perdendo a chance de aprofundar uma camada de subtexto que já está lá, mas que poderia ressoar assuntos contemporâneos de racismo e violência policial, especialmente levando-se em conta que K é programado para ser um. Esse fato se encaixa na tendência de filmes de ficção científica e fantasia trabalharem metáforas e alegorias sobre a exclusão de minorias, sejam elas raciais, sexuais ou de gênero, ao mesmo tempo em que as excluem literalmente de seu protagonismo.

A silhueta de Ryan Gosling, em marrom, se distanciando de quem a olha enquanto se embrenha em um deserto com chão, céu e névoa amarelos

Villeneuve tenta esconder o racismo e misoginia do discurso presente no filme desconstruindo a história do escolhido: por mais que Joi afirme e K acredite na sua especialidade, ela é desmentida no final, em uma tentativa de assegurar que o futuro pertencerá às mulheres. Acontece que não só essa reviravolta é bastante previsível, como não altera o fato de que o tempo de tela e a trajetória a ser acompanhada pelo espectador ainda são do homem branco. As trajetórias das mulheres presentes giram em torno dos homens: elas se esforçam para preservar um sistema que a eles pertence e os favorece, basicamente não tendo desejos próprios.

Blade Runner 2049 é de uma qualidade técnica que impressiona. As atuações são muito boas e a fotografia é linda: basicamente cada frame do filme pode ser capturado, impresso e emoldurado. Mas o tratamento conferido ao roteiro não é problemático apenas nos aspectos já levantados: ele cria um distanciamento e uma certa frieza entre espectador e protagonista que torna difícil engajar com a história e criar empatia. Não há um fator humano que nos ligue aos acontecimentos, que se desenrolam sucessivamente sem grandes surpresas nem emoções. Os temas centrais ao filme sem dúvida são interessantes e têm permeado o nosso imaginário coletivo, o que fica patente com a grande quantidade de filmes de ficção científica com que ele dialoga. Porém nesses outros filmes em que são abordados, são discutidos de maneira mais interessante. Sua narrativa não ignora nem desmerece o legado daquela presente em Blade Runner. Consegue amplia-la, mas sem acrescentar muita coisa de substancial, que faça diferença. No filme anterior, manequins e bonecos rodeiam as replicantes destacando, em contraste, a humanidade delas. Não deixa de ser irônico que uma obra que se proponha a discutir esse mesmo tema seja tão bonita mas com tão pouco conteúdo e alma, cumprindo sem querer o papel de destacar a humanidade, ainda que falha, de seu antecessor.

Nota: 3 de 5 estrelas

Poster do filme contendo os personagens K, Deckard, Joi e Wallace, nessa ordem de cima para baixo e também em tamanho (cada vez menores), sobre o nome do filme. O fundo é laranja e ciano.

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Filmes assistidos em setembro

Fim de mês e sigo tendo pouco tempo pros filmes que não sejam para pauta ou algo relacionado. Além de alguns lançamentos (links nos títulos) esse mês escrevi sobre os museus enquanto espaço de validação artística e o que isso implica (esse texto foi postado muito antes de toda a polêmica atual envolvendo museus e exposições e portante, nem toquei nesse tema). Também concluí meu segundo ano de projeto #52FilmsByWomen e escrevi sobre os resultados dessa experiência. Agora dou por início o terceiro ano. Seguem abaixo os filmes assistidos no mês com suas respectivas notas subjetivas. Não esquece de me seguir no letterboxd!

52 Filmes por Mulheres:

Cemitério Maldito (Pet Sematary, 1989) ★★★

O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hicker, 1953) ★★★★

Nunca fui Santa (But I`m a Cheerleader, 1999) ★★★

 

Ava DuVernay para Feito por Elas:

A Décima Terceira Emenda (13th, 2016) ★★★★★

 

Júlia Murat para Feito por Elas:

Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011) ★★★★

Pendular (2017) ★★★½

 

Documentários:

Gaga: Five Foot Two (2017) ★★★

 

Lançamentos:

As Duas Irenes (2017) ★★★★

Na Praia à Noite Sozinha (Bamui haebyun-eoseo honja, 2017) ★★★

Mãe! (Mother!, 2017), ★★★★

Doentes de Amor (The Big Sick, 2017) ★★½

 

Demais:

A Bruxa (The Witch, 2015) ★★★★★

Chumbo Grosso (Hot Fuzz, 2007) ★★★½

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017) ★★★

Nise: O Coração da Loucura (2015) ★★★

Baleias de Agosto (The Whales of August, 1987) ★★★

Lady Macbeth (2016) ★★★

Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose, 1997) ★★★½

Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016) ★★★★

 

20 filmes assistidos

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#52FilmsByWomen ano 2: a conclusão

Em 1º de outubro de 2015 eu comecei o desafio #52FilmsByWomen (ou 52 Filmes por Mulheres). Senti que precisava conhecer mais filmes que fugissem de um olhar androcentrado e que existiam muitas mulheres com filmografias incríveis para desbravar. Ontem concluí, portanto, o segundo ano do desafio. No primeiro foram 72 longas assistidos e dessa vez foram 91. Somo assim, 163 longas em dois anos, que sobem para 185 quando levo em conta os curtas, mas esses não estou computando na minha “contagem oficial”. É claro que o aumento no número se deve à continuidade do trabalho no Feito por Elas. Também escrevi sobre a questão do trabalho dessas cineastas em relação ao orçamento que têm disponível.

Alguns desses filmes foram revisões, muitos deles para o próprio podcast. Foi bom poder rever Persépolis (2007, Marjane Satrapi), A 13ª Emenda (13th, 2016, Ava DuVernay), Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014, Ava DuVernay), Mensagem para Você (You’ve Got Mail, 1998, Nora Ephron) e As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999, Sofia Coppola), entre outros.

Finalmente conheci o trabalho de Ida Lupino, uma daquelas pioneiras que a gente só pode agradecer pela existência. Tive a alegria de entrevistar Júlia Murat e Eliane Caffé, que me encantaram com seus trabalhos, além de Cristiane Oliveira, de quem já aguardo novos filmes. Me entusiasmei com Chantal Akerman, Claire DenisSarah Polley. Me encantei com a criatividade de Juliana Rojas e e me apaixonei tanto por Maya Deren que Maya se tornou o nome da cachorrinha que adotei no começo do ano. (Melhor homenagem, convenhamos!)

O que esse desafio segue me proporcionando é uma diversidade de narrativas, com filmes dos cinco continentes protagonizados por personagens de diversas etnias, meios sociais e perspectivas de mundo, com pontos de vista autobiográficos, biográficos e descolados desse contexto. Narrativas documentais e ficcionais, filmes água com açúcar, engraçados, inspiradores, intensos e dolorosos. Tudo isso mostrando, mais uma vez, que há um mundo muito maior no cinema do que a narrativa dramática tradicional que gira em torno do homem branco heterossexual.

Novamente vou listar aqui os filmes que mais gostei de ter visto pela primeira vez. Tomei a liberdade de aumentar de 10 para 15 (devido ao grande número de filmes maravilhosos). Estão ordenados cronologicamente, porque sou incapaz de ranqueá-los. Como algumas diretoras se destacaram no meu coração, também optei por só incluir um de cada uma.

Melhores filmes (ordem cronológica):

Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles (1975, Chantal Akerman)

Sonho de Valsa (1987, Ana Carolina)

Chocolat (1988, Claire Denis)

Caramelo (Sukkar banat, 2007, Nadine Labaki)

Floresta dos Lamentos (Mogari no mori, 2007, Naomi Kawase)

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011, Sarah Polley)

Trabalhar Cansa (2011, Juliana Rojas)

A Viagem (Cloud Atlas, 2012, Lana e Lily Wachowsky)

Hannah Arendt- Ideias Que Chocaram o Mundo (Hannah Arendt, 2012, Margaret von Trotta)

As Vozes (The Voices, 2014, Marjane Satrapi)

The Fits (2015, Anna Rose Holmer)

Grave (2016, Julia Ducournau)

Era o Hotel Cambridge (2016, Eliane Caffé)

Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017, Patty Jenkins)

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017, Sofia Coppola)

Melhores documentários:

Histórias que Contamos (Stories We Tell, 2012, Sarah Polley)

The Barkley Marathons: The Race That Eats Its Young (2014, Annika Iltis)

As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015, Gillian Armstrong)

Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015, Chantal Akerman)

Waiting for B. (2015, Abigail Spindel)

Et la femme créa Hollywood (2016, Clara Kuperberg, Julia Kuperberg)

Weiner (2016, Elyse Steinberg)

Divinas Divas (2016, Leandra Leal)

Bright Lights: Starring Carrie Fisher and Debbie Reynolds (2016, Alexis Bloom)

Laerte-se (2017, Lygia Barbosa e Eliane Brum)

Mais uma vez essa foi uma experiência incrível e cheia de boas descobertas. Quem quiser acessar a lista completa de filmes assistidos no desafio esse ano bem como suas notas, clique aqui. O primeiro ano também está disponível, bem como a avaliação. E estou pronta para começar a o terceiro ano de desafio!

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Mãe! (Mother!, 2017)

O novo filme do cineasta Darren Aronofsky, Mãe!, é compreensivelmente divisivo, mas o mínimo que se pode dizer é que não é uma obra da qual se escapa indiferente. Intenso e com um uso de imagens fortes, o filme enreda o espectador em uma trama que se apresenta na forma de camada sobre camada de alegorias.

Em sua superfície nós temos uma história de casal: ela (Jennifer Lawrence) é casada com um escritor (Javier Barden). Eles moram em uma casa antiga, que pertencia a ele e que ela está reformando aos poucos, cômodo por cômodo. Ela acorda e passeia pela casa em busca dele, com uma camisola branca transparente. Os cômodos são imensos, angulares. Sua juventude contrasta com a aparência da casa e, junto com a transparência de sua roupa, intensificam a sensação de vulnerabilidade que transmite quando vemos pelo lado de fora o total isolamento do imóvel.

É aqui que o marketing do filme se aproximou de O Bebê de Rosemary, vendendo um paralelo entre os dois que jamais se concretiza. Ela é jovem, dedicada à casa e nada sabemos sobre seus próprios desejos e aspirações. Doa-se e seu tempo a ele, escolhe as cores (tons de verde sem vida ou ocre amarelado) e pinta as paredes. Atua como uma musa, mas o escritor não parece inspirado a escrever e nem a tocar nela. Mas apesar dos problemas na rotina do casal, o terror que aparece em nada dialoga com o filme de Roman Polanski.

O terror é perder o controle, ou melhor, perceber que nada que seja sua vontade é respeitado em momento algum. Em determinado momento o escritor recebe a visita de um homem que afirma ser um médico (Ed Harris). Convida-o para ficar e pernoitar e descobre que ele está morrendo. No outro dia o estranho já trouxe sua esposa (Michelle Pfeiffer) e eles já conversam sobre os filhos. A jovem jamais é consultada sobre as etapas dos acordos, mas serve a todos em todas as refeições, correndo atrás de sua bagunça e sujeira. Ela é desconsiderada e humilhada pelas visitas.

O desconforto e a claustrofobia são captados pela câmera na mão, constantemente dançando ao redor de Lawrence, projetando-se por sobre seu rosto e eventualmente o captando em close. Embora a casa seja grande, dessa forma temos a plena noção da falta de espaço para a protagonista: tudo próximo demais, apertado demais, sufocante. Ela não tem um espaço para chamar seu e está aprisionada nesse mundo que na verdade é do marido, que nunca a deixa sair.

A casa é apresentada como um organismo que pulsa: ela consegue sentir o coração através de suas paredes. O trabalho de som confere lugubridade ao destacar os ruídos de passos e madeira estalando. Mas a visitante afirma que aquilo tudo é só um cenário, que o que mantém o casamento são os filhos. Quando a protagonista engravida, justificando o título do filme, é perceptível que as notícias relacionadas a sua gestação estão sempre em segundo plano em relação ao trabalho do escritor. Ela se torna irrelevante diante do poema perfeito que ele consegue escrever justo quando anuncia sua gravidez. A Criação destrói o relacionamento, porque ele não sabe viver sem o reconhecimento dos fãs.

Nessa camada o filme aborda o tratamento conferido às mulheres. Quando a protagonista reclama do que acontece em sua casa, é chamada de puta. Há um claro desequilíbrio hierárquico dentro do relacionamento, frisado pela diferença de idade e pela incapacidade do escritor de ouvir as suas necessidades. A distância entre os membros do casal principal é destacada no figurino cinza e sem vida, ao contrário do azul que marca os visitantes. Aronofsky só dá conta de lidar com esse tema de forma superficial, mas o faz com tal intensidade que se torna convincente.

Pouco abaixo dessa superfície é possível ver o próprio diretor expresso na figura do escritor. Em um relacionamento com Lawrence há cerca de um ano, é difícil não enxergar no casal ficcional aquele da vida real, ainda que o roteiro tenha sido escrito anteriormente. Talvez seja um inferno se relacionar com um homem que muitos tratem como um gênio e ser vista como uma musa. A diferença de idade e de experiência na indústria chama a atenção em se tratando dos dois. A forma como a atriz é colocada em cena no filme chama atenção: a câmera ama seu rosto. Mesmo nos momentos mais desesperadores parece que ela nunca foi filmada tão bela. Mas deve-se dizer, aliás, que faz um trabalho impressionante de atuação, com força e expressividade. É possível que esse tenha sido o seu trabalho mais difícil, até mesmo em termos físicos e aqui enxergamos novamente um esforço digno de premiações.

Mergulhando nas camadas inferiores do filme se descortinam alegorias bíblicas. Novamente, quando percebemos sua padronagem elas perdem em parte sua força, porque não são exatamente novidade. Daqui para frente possíveis spoilers podem aparecer. Retomando os temas já abordados em Noé, Aronofsky encara o Criador, representado no poeta, como uma figura detestável e egocêntrica que cria os humanos à sua imagem e semelhança para adorá-lo incondicionalmente. Incapazes de qualquer gratidão, depredam a casa daqueles que o acolhem, mas mesmo o criador não se preocupa com isso. A jovem é a Deusa, a Mãe, a Natureza que tenta prover por nós. A visitante, Eva, quer espiar o ambiente de trabalho do Criador e traz consigo seu marido, Adão. Com isso desgraça aquilo que o Criador tinha de mais importante para si.

Aronofsky não parece muito certo sobre o que quer dizer com suas figuras femininas. Se por um lado em Noé a possibilidade de recomeço está no feminino e aqui o discurso principal é de que a sociedade trata a natureza tão mal quanto trata as mulheres (e vice-versa), Eva é apresentada como uma figura rancorosa, folgada e cheia de intrigas. O autor afirmou que quando pensa na personagem bíblica, pensa em uma pessoa perniciosa, maliciosa. Interessante forma de imaginar uma mulher miticamente culpabilizada por sua curiosidade e sede de conhecimento. Ademais, algumas pessoas podem argumentar que projetar a protagonista como mãe e cuidadora pode ser relegar o feminino somente a um papel do qual tentamos desvincula-lo. Mas nesse caso deve-se atentar para o fato de que a personagem só é uma mulher na sua aparência, sendo a força criadora e fundamental da vida.

Quando o bebê nasce a Mãe não quer entregá-lo ao Criador: ele é seu e ele não tem direito de pega-lo para si. Mas ele é incapaz de de viver sem compartilhar tudo, mesmo o que é dela, com seus seguidores. Entrega o recém-nascido que é carregado, idolatrado, imolado e canibalizado num ritual de comunhão. O corpo de Cristo.

O apocalipse uma hora vem. O caos e o terror causados pelas criaturas e a indiferença do criador são o que fazem o coração da casa e de sua cuidadora pararem de bater. A essa altura as metáforas já explodiram e saíram de controle. É preciso um novo coração para recomeçar.

Como já havia em outras obras da filmografia do diretor, há algo de primitivo e catártico em Mãe!. Como muitos de seus filmes, retrata a obsessão que beira à loucura em busca da perfeição. Não é um filme fácil de assistir. Não pelo seu texto, que é bastante claro e até mesmo óbvio: uma vez que entendemos o que está sendo dito, a história se torna banal. Os discursos em termos de gênero, por sua vez, podem ser duvidosos. Mas história e roteiro nem sempre são os pontos mais importantes quando se trata de cinema. Um sem número de filmes com roteiros simples ou familiares ao espectador se tornam obras intrigantes ao trabalharem de forma interessante seus aspectos audiovisuais (afinal, isso é o cinema). É o caso aqui:  a narrativa é instigante graças à intensidade estética e às atuações. Sem espaço para sutilezas, em Mãe! Aronofsky sustenta uma narrativa cheia de excessos, violenta e que aflige quem a assiste, criando de forma biblicamente apropriada sua mitologia pessoal.

#acessível: nota 4 estrelas de 5

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Pendular (2017)

When the routine bites hard
And ambitions are low
And the resentment rides high
But emotions wont grow
And were changing our ways,
Taking different roads
Then love, love will tear us apart again

(Love will tear us apart- Joy Division)

Em seu novo filme, a cineasta Júlia Murat se debruça sobre um ambiente de proximidade, retratando um casal de artistas. A protagonista sem nome (Raquel Karro), bailarina, se muda com seu companheiro (Rodrigo Bolzan), escultor, para um enorme galpão de indústria. O espaço é logo transformado em lar, com os objetos pessoais do casal dispostos em prateleiras cuidadosamente etiquetadas por ele. O roteiro assinado por Murat e Matias Mariani (talvez não por acaso seu marido) descortina a intimidade de ambos os personagens, das conversas mais banais às particularidades que só se tornam claras com uma convivência intensa.

É dessa intimidade que surgem as rusgas. Morar e trabalhar juntos é a primeira delas: com uma fita adesiva vermelha é marcado no chão o espaço que cada um vai ocupar. A construção é ampla, mas escura e a sensação é de confinamento, intensificada pelas portas que são grades. A necessidade de espaço pessoal se manifesta no desejo por mais espaço físico para si. Quando dividem o espaço com a fita, são as territorialidades do afeto que se delineiam. Essa é uma das muitas metáforas visuais usadas na narrativa para pontuar momentos do relacionamento. Murat trabalha os espaços com poesia, manipulando a forma como percebemos o amplo e o diminuto, sempre iluminados por luzes diversas que contribuem para com essa percepção.

Entre o casal nem tudo é compartilhado e se por um lado certos questionamentos ficam sem respostas, por outros decisões são tomadas sem diálogo. O filme deixa claro que a intimidade pode extrair o melhor e o pior de todos. Se por uma lado adivinhamos reações, antecipamos brincadeiras e completamos pensamentos, por outro conhecemos o que o outro tem de pior, suas reações mais animalescas e isso pode doer. Certa hora alguém diz: “Não é porque sabe que entende”.

Em determinado momento o casal discute qual seria a ex libris que poderia usar em seus livros. Ela sugere a imagem de uma bailarina se equilibrando em um cabo de aço. O aço presente na obra dele, a dança está presente na dela, mas o mais interessante é pensar no equilíbrio. O equilíbrio aparece nas esculturas dele, inicialmente pesadas e estáveis mas cada vez mais leves e em busca de movimento. Mas também marca a rotina dela, que brinca e experimenta o mundo ao seu redor com o corpo. A corporalidade de ambos é importante, como quando seus corpos brilhando nus são fotografados. Mas nela se intensifica: músculos, ossos, curvaturas e respirações são explorados. Pés descalços, barriga estirada, pernas jogadas para longe em busca novamente do equilíbrio. O trabalho de Korra impressiona. A protagonista está sempre nessa busca, tentando equilibrar-se nas cadeiras, nas superfícies em que dança, nas coreografias que cria, ao mesmo tempo em que equilibra o afeto. O equilíbrio é movimento, na dança e na relacionamento. A dança e a escultura se entrelaçam como expressão dele.

Não há preocupação em trazer respostas a todas as perguntas que o filme levanta. A direção de Murat mostra sua segurança ao construir vazios imensos de solidão e cheios preenchidos com corpos inquietos que constroem a intimidade. Pendular é um filme que pulsa.

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