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O 20 melhores filmes de 2017 que não são de 2017

Essa lista, que faço todos os anos, são dos melhores filmes que eu vi pela primeira vez no ano e que não são lançamentos. Como sempre, para facilitar, escolhi apenas filmes ficcionais de longa metragem. Além disso, para abrir espaço à variedade, diretoras e diretores com mais de um filme que preenchessem esse critério tiveram só um listado. Outros filmes com avaliação alta vistos esse ano, mas com direção repetida, serão colocados abaixo. Geralmente a lista tem 30 filmes e esse ano tem apenas 20. Isso é reflexo do pouco tempo que tive para me dedicar a ver os filmes mais antigos. Eu costumava fazer meses temáticos, assistindo a diversos filmes de algum país, escola ou diretor, mas esse ano, com o doutorado, acabei não tendo tempo e assistindo quase que exclusivamente a filmes que são pauta de algum podcast. Isso se refletiu no resultado final, já que nem meus queridinho da Metro ou amados pré-código pude ver com carinho. A lista também pode ser conferida no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast tem links no título e a ordem da disposição é cronológica.

Rua 42 (42nd Street, 1933)

Direção: Lloyd Bacon

★★★★

A Viúva Alegre (The Merry Widow, 1934)

Direção: Ernst Lubitsch

★★★★

À Meia Luz (Gaslight, 1944)

Direção: George Cukor

★★★★

O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953)

Direção: Ida Lupino

★★★★

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) ★★★★

Os Desajustados (The Misfits, 1961)

Direção: John Huston

★★★★

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

Direção: John Ford

★★★★1/2

Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968)

Direção: William Wyler

★★★★1/2

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 1971)

Direção: Don Siegel

★★★★

Victor ou Victoria (Victor/Victoria, 1982)

Direção: Blake Edwards

★★★★

Chocolat (1988)

Direção: Claire Denis

★★★★1/2

Bom Trabalho (Beau Travail, 1999) ★★★★1/2

35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008) ★★★★

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989)

Direção: Spike Lee

★★★★★

Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991)

Direção: Gus Van Sant

★★★★

Earth (1998)

Direção: Deepa Mehta

★★★★1/2

Fogo e Desejo (Fire, 1996) ★★★★

Frágil como o Mundo (2002)

Direção: Rita Azevedo Gomes

★★★★1/2

Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003)

Direção: Kim Ki-Duk

★★★★1/2

Caramelo (Sukkar banat, 2007)

Direção: Nadine Labaki

★★★★

E agora onde vamos? (Et maintenant on va où?, 2011) ★★★★

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011)

Direção: Sarah Polley

★★★★★

Trabalhar Cansa (2011)

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

★★★★

Sinfonia da Necrópole (2014, dir. Juliana Rojas) ★★★★

The Fits (2015)

Direção: Anna Rose Holmer

★★★★1/2

Docinho da América (American Honey, 2016)

Direção: Andrea Arnold

★★★★1/2

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Melhores livros lidos em 2017

Eu estou até com um pouco de vergonha de pensar nessa lista, porque não sei se li muitas coisas interessantes esse ano. Foram muitas leituras, mesmo, mas a maioria de artigos e capítulos isolados. Quadrinhos, mesmo, não li nada. Acho que foi a primeira vez em anos que não li nenhum livro do Calvin e Haroldo! Vamos aos destaques:

Ficção

Hibisco Roxo- Chimamanda Ngozi Adichie

Depois que entrei na fase da Chimamanda, não saí mais. Esse deve ser o melhor livro dela que eu li até agora, na minha opinião. Pesado, ele trata de ralações familiares, tradição e religião por meio da adolescente Kimbili, que se esconde em sua própria timidez para lidar principalmente com o pai, que encarna os elementos citados. Esse foi o primeiro romance da Chimamanda e já mostra todo seu talento. Aproveito para recomendar também o livreto Para Educar Crianças Feministas, que também li esse ano e é curtinho e muito bom. Gostei mais dele do que do Sejamos Todos Feministas.

Garota Exemplar- Gillian Flynn

No mínimo controverso. Amy Dunne é uma protagonista inteligente, ardilosa, vingativa, focada. Alguns podem entendê-la como uma vilã, mas para mim é uma anti-heroína se debatendo nos meandros das mentiras que criam o amor romântico e o casamento enquanto instituição. Já era apaixonada pelo filme de mesmo nome, dirigido por David Fincher, e agora o livro, com seu tom sardônico, me pegou de jeito.

O Conto da Aia- Margaret Atwood

Esse foi o ano de Margaret Atwood na cultura popular. Depois de assistir aos seriados Alias Grace e o próprio O Conto da Aia, decidi que estava na hora de começar a ler seus livros e comecei pelo segundo. Não me arrependi, porque realmente é uma obra fantástica. Criando um país dominado por um regime teocrático em que os direitos, principalmente reprodutivos, das mulheres são sequestrados para o benefício da nação, o livro é um distopia que incomoda por ser perto demais daquilo que nós já vemos ao nosso redor.

Não-Ficção

Diante da Dor dos Outros- Susan Sontag

Cheguei atrasada no bonde e esse é o primeiro livro da Susan Sontag que eu leio. Valeu muito a pena: ela trabalha com clareza suas noções sobre imagens de violência e sua capacidade de nos afetar.

A Câmara Clara- Roland Barthes

Merece ser lido em duplinha com o livro da Sontag, já que Barthes responde, rebate e critica alguns pontos importantes do livro dela. Dessa vez o autor aborda a fotografia, a memória e, também, o afeto.

Quadrinhos

Orange- Ichigo Takano

Vou falar a verdade: esse não é um mangá maravilhoso. É porque eu realmente não li ótimos quadrinhos durante o ano e esse foi o melhor deles. São cinco livrinhos rápidos de ler que contam a história de um grupo de amigos que recebem um carta deles mesmos no futuro com instruções para impedir a morte de um deles. É uma história sensível e que engaja quem lê.

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Filmes assistidos em novembro

Foi-se mais um mês e estamos no último do ano. Devido à Mostra de São Paulo não gravamos o Feito por Elas durante o mês passado, então agora estamos numa loucura de ter episódios reservas, então foeam muitos filmes dirigidos por mulheres assistidos. Já tem aqui um spoiler dos episódios que vem por dezembro e janeiro.  Além disso, junto com mês passado, foram três filmes assistidos para um projeto de podcastque foi engavetado, com 2 episódios já gravados. É uma pena porque a equipe estava bacana e as gravações foram ótimas. Final de semestre, não fui em cabine nenhuma nesses dias, nada de estreias, só trabalhos finais. Então seguem os filmea assistidos no mês com notas subjetivas.

52 Filmes por Mulheres:

Os Golfinhos Vão Para o Leste (Las Toninas Van al Este, 2016) ★★★½

Como Nossos Pais (2017) ★★★½

 

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Napalm (2017) ★★★

Açúcar (2017) ★★½

Henfil (2017) ★★★★

Motorista de Taxi (Taeksi Woonjunsa, 2017) ★★★½

Vazante (2017) ★★½

 

Lucrecia Martel para Feito por Elas

O Pântano (La Ciénaga, 2001) ★★★½

A Menina Santa (La Niña Santa, 2004) ★★★

A Mulher sem Cabeça (La Mujer sin Cabeza, 2008) ★★★

 

Mélanie Laurent para Feito por Elas

Les Adoptés (2011) ★★★½

Respire (2014) ★★★★½

Demain (2015) ★★★½

 

Andrea Arnold para Feito por Elas

Dog (2001) ★★★½

Milk (1998) ★★★½

Wasp (2003) ★★★★

Marcas da Vida (Red Road, 2006) ★★★

Aquário (Fish Tank, 2009) ★★★★

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2011) ★★★★½

Docinho da América (American Honey, 2016) ★★★★½

 

Deepa Mehta para Feito por Elas

Fogo e Desejo (Fire, 1996) ★★★★

Earth (1998) ★★★★½

Às Margens do Rio Sagrado (Water, 2005) ★★★½

 

Minissérie (se tem no letterboxd, pode!)

Alias Grace (2017) ★★★★½

 

Projeto (engavetado) de podcast

Fargo (1996) ★★★★★

 

Mix Brasil

Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991) ★★★★

Tom of Finland (2017) ★★★½

Professor Marston e as Mulheres Maravilha (Professor Marston and the Wonder Women, 2017) ★★★★

 

Documentários

Betting on Zero (2016) ★★★

Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton (2017) ★★★½
Demais

Logan Lucky (2017) ★★★★

31 filmes assistidos

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41ª Mostra de São Paulo parte 4: últimos filmes

O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017), de Raoul Peck

 

Depois do aclamado documentário Eu Não Sou Seu Negro, Raoul Peck retorna com essa cinebiografia correta, que aborda os anos de juventude do filósofo Karl Marx (August Diehl), quando entabulou amizade com Friedrich Engels (Stefan Konarske), com quem futuramente escreveria o Manifesto do Partido Comunista e que possibilitaria a criação de O Capital. A esposa de Marx, Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) aparece com a terceira personagem de importância e com uma trajetória interessante: a moça rica e estudada, de família tradicional, que largou tudo para casar-se com o rapaz pobre, judeu e de posicionamentos políticos controversos.

Pensadores da época cruzam o caminho, diferentes posicionamentos são apresentados, bem como o contexto político que fervilhava em diversos países. O diretor não se furta a retratar até mesmo as controvérsias, como o fato de Engels financiar as obras de Marx com dinheiro obtido das fábricas de sua família, ou seja, ser ele mesmo um capitalista lucrando com a alienação da mão de obra dos trabalhadores e com isso bancando a produção do amigo. A obra tem o estilo de um telefilme, como se fosse uma daquelas produções de época que a BBC costuma fazer, mas seus personagens fascinantes garantem a atenção do espectador.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

O Dia Depois (Geu-hu, 2017), de Hang Song-Soo

 

O cineasta coreano Hang Song-Soo tem lançado um filme atrás do outro utilizando como combustível para a criação suas próprias vivências. O diretor, com quase sessenta anos e casado, mantem um relacionamento com a atriz Kim Min-hee, com quem começou a trabalhar em Certo Agora, Errado Antes, de 2015. Como a arte espelha a vida (e vice-versa), o fato tem servido para inspirar suas obras com divagações sobre relacionamentos, infidelidades e hierarquias de trabalho e idade.

Dessa vez a história é a de um dono de editora, Bongwan (Hae-hyo Kwon), que contrata uma nova secretária, Areum (Kim Min-hee). O primeiro contato é de excesso de intimidade e já envolve convite para almoço e conversas pessoais. Ele pede que ela o trate com mais informalidade, ao mesmo tempo que espera o tratamento de “chefe”. Logo no primeiro dia de trabalho, Areum é abordada pela esposa do chefe, que encontrou um bilhete em sua casa e assim descobriu que ele mantém um caso com uma funcionária. A pessoa do bilhete era a secretária anterior, mas a esposa não tinha como saber da mudança.

Fazendo o uso de seu zoom característico, evitando cortes e trabalhando em longos planos fotografados em preto e branco, Song-Soo traz novamente ótimo diálogos, discutindo as particularidades e momentos da vida ao redor da mesa, em meio a muita comida e muita bebida. O álcool solta a língua de seus personagens, como em outros filmes, e verdades afloram. A temática do relacionamento extraconjugal de um homem mais velho com a moça mais nova emerge novamente, mas dessa vez focado no egocentrismo e na fragilidade do homem, em detrimento das mulheres ao seu redor. Trata-se de um filme fortemente baseado no diálogo e eles conseguem sustentar a narrativa de maneira fluida, permitindo que o espectador mergulhe na banalidade cotidiana daquelas vidas.

Nota: 4 de 5 estrelas

Estocolmo, Meu Amor (Stockholm, My Love, 2016), de Mark Cousins

 

Mark Cousins é um cineasta e crítico de cinema mais conhecido por sua produção sobre a própria sétima arte. É provável que seu trabalho mais notório seja o documentário serial A História do Cinema: Uma Odisseia, um delicioso compilado de 15 episódios com uma hora de duração cada, em que aborda a história do cinema de forma pouco óbvia, fugindo dos grandes clássicos e focando em filme menos conhecidos de países diversos. Em virtude de sua visão bastante particular do que caracteriza um cinema historicamente relevante, resolvi arriscar com esse filme, seu primeiro de ficção. E o resultado não foi positivo.

Ele é protagonizado pela cantora Neneh Cherry, que interpreta Alva Achebe uma mulher que anda pelas paisagens de Estocolmo refletindo sobre a sua vida, suas perdas, vivências e aprendizados, além da história da própria cidade, enquanto visita construções marcantes e locais ao ar livre. A primeira metade do filme é narrada em off em primeira pessoa sem descanso: a personagem divaga, em frases poéticas, sobre o que aconteceu na sua vida, compartilhando tudo com o espectador. Em determinado momento afirma já ter falado demais e por isso vai só olhar e escutar. Daí em diante sua voz some até quase o final do filme e só a vemos andando, enquanto frases que refletem seus pensamentos aparecem na tela sob a forma de legendas que pairam sobre as imagens. O texto de Cousins é facilmente reconhecível.

Árvores, crianças, caramujos, rios, igrejas, mesquitas, praças, risadas, pássaros, trilhas, chuva, carros, monumentos, musgo: uma sucessão de imagens que funcionam quase como slides. É quase um Rio, Eu Te Amo que ao invés de ser patrocinado por um órgão público de turismo, é realizado por alguém que almeja soar poético. “Isso é felicidade?”, pergunta a legenda. Se depender do estado de espírito ao assistir ao filme, definitivamente não.

Nota: 2 de 5 estrelas

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41ª Mostra de São Paulo parte 3: candidatos ao Oscar

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

 Candidato islandês a uma vaga no Oscar do ano que vem, esse filme mistura o drama com o humor de maneira eficiente tendo como fio condutor uma família suburbana. Primeiro conhecemos o filho, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), que precisa voltar a morar com os pais depois que sua esposa descobre que ele ainda guarda (e se masturba assistindo) filmes pornográficos feitos com uma namorada anterior. Comportando-se como vítima da situação, o rapaz persegue-a e tem comportamento violento.

Sua mãe, Inga (Edda Björgvinsdóttir), age de forma passivo-agressiva com o casal de vizinhos que pede para que apare a árvore de seu terreno, que faz sombra no quintal deles. Já o pai, Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) é incapaz de se posicionar diante dos acontecimentos da vida e parece preferir fugir para o ensaio de seu coral a qualquer sinal de conflito.

A trilha sonora martela suspensa enquanto a trama flerta de forma cada vez mais intensa com o absurdo. Desde o começo somos apresentados às imperfeições dos protagonistas e a polidez das relações entabuladas no subúrbio vai aos poucos revelando as pequenas obsessões pessoais, as loucuras e frustrações, que explodem de forma catártica no terceiro ato.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Happy End (2017), de Michael Haneke

A imagem na vertical: Eve (Fantine Harduin), de 13 anos, filma cenas cotidianas por meio de seu celular, em um aplicativo similar ao Snapchat. Reclama do comportamento da mãe, tortura seu hamster de estimação. Câmeras de segurança em uma obra flagram o momento em que um muro de contenção desmorona. Fazendo uso de diversos planos longos, com câmera parada e muitas vezes distantes do que se desenrola, a ponto de o espectador sequer ouvir os diálogos, em Happy End, Haneke continua interessado na forma em que as pessoas interagem com o vídeo e nos seus múltiplos desdobramentos.

Os protagonistas aqui são uma família de classe média encabeçada por Anne Laurent (Isabelle Huppert). Conflitos, divergências e todo tipo de hipocrisia vêm à tona, mostrando as incoerências e a frieza que perpassam os relacionamentos. Nesse sentido o filme dialoga muito bem com Elle, de Paul Verhoeven. Mas o diálogo é mais complexo com as obras do próprio autor, como Caché e Amor. Com esse último, o filme cria um universo compartilhado, com o qual Haneke parece brincar. Além das tensões internas à família, existe uma de caráter racial que é abordada tangencialmente, como um breve comentário. A sensação é que muito do filme funciona dessa forma: breve, superficial. Mesmo os personagens principais são adicionados aos poucos, e próximo ao final não há tempo de desenvolvê-lo satisfatoriamente. As dinâmicas que entabulam são interessantes e o humor, essencial para a trama, é bastante ácido e afiado. Rir do desconcertante é inevitável, mas não há espaço para muito mais que isso.

Embora lide com a temática das tecnologias da comunicação, a crítica presente na obra é rasa: Haneke desloca o uso de tecnologias de captura e compartilhamento de imagens para o campo do que é negativado, como se elas criassem distanciamento entre as pessoas e as transformassem em voyeurs de um lado e animais de laboratório de outro, mas não parece entender os mecanismos de compartilhamento e a recompensa em forma de interação que obrigatoriamente se fariam presentes. Se Eve compartilha sua rotina, quem a assiste, quantos likes ganha e que comentários recebe? O compartilhamento pelo compartilhamento é vazio, existe a expectativa de um público, mas Haneke não parece se interessar por esses processos: na visão pessimista típica da década de 1990 que apresenta, filma-se para ninguém e o resultado fica no vácuo. Happy End não é dos seus melhores trabalhos, mas comenta diversos aspectos da sua filmografia de forma divertida e tem, provavelmente, o melhor uso de Chandelier, da Sia, no cinema.

Nota: 3 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Canção de Granito (Song of Granite, 2017), de Pat Collins

 Cinebiografia do cantor de músicas folclóricas Joe Heaney, o filme é o candidato indicado pela Irlanda ao Oscar 2018. Com uma bela fotografia em preto e branco registra diversos momentos da vida de seu protagonista, interpretado, também, por três atores diferentes, desde sua infância até a maturidade. Espelhada em sua trajetória, acaba sendo possível captar o papel que os judeus ocupam naquela sociedade tão tradicionalmente católica. A paisagem do campo também é apresentada como um elemento de força.

Joe tem contato com a música desde a infância e sua relação com ela é de quase devoção: quando canta, fecha seus olhos e praticamente entre em transe. O formato é experimental e além das recriações dramáticas, mescla o uso de filmagens documentais. Infelizmente, para além da criatividade artística ou da beleza visual, o filme não consegue engajar na sua trama, que intercala músicas muito parecidas umas com as outras com imagens quase paradas. A sensação pode ser de repetição constante.

Nota: 2 de 5 estrelas

Loveless (2017), de Andrey Zvyagintsev

 Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes e candidato da Rússia a uma vaga para o Oscar de melhor filme estrangeiro, Loveless tem muito a dizer sobre as relações entre pessoas naquele país e a situação dele mesmo. Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin) estão se divorciando. Ela já tem um namorado mais velho e bem de vida, que mora em um apartamento grande e moderno; e ele arrumou uma namorada mais jovem, que está grávida e mora em um apartamento apertado com sua mãe. O apartamento deles mesmo, espaçoso, mas escuro e confuso como um labirinto, está à venda, para que possam dividir o dinheiro. As arquiteturas referenciam as relações. No meio disso tudo, quem sofre é o filho de ambos Alyosha (Matvey Novikov). O pai quer se livrar da responsabilidade e diz que ele tem que ficar com a mãe. Esta argumenta que ela quer seguir com sua vida tanto quanto ele. Ninguém quer ficar com o menino, que chora apavorado com as constantes brigas, escondido atrás da porta. Até que, sem amor, foge de casa.

A montagem paralela nos mostra que nesse meio tempo cada um dos pais estava com seus respectivos parceiros e ninguém se importou de cuidar do menino. A paisagem é nevada e na televisão anuncia ainda mais frio chegando. Daí em diante foca-se em encontrar a criança. A polícia diz que pouco pode fazer. Voluntários se oferecem. Alyosha tem um único amigo, que indica onde costumavam ir: se o lar do menino ruiu, o esconderijo deles é um conjunto de habitações abandonadas.

A mãe parece se importar mais com o conforto financeiro que adquire com o novo parceiro e com sua própria aparência. O pai, covarde, não consegue ficar só, e repete com a nova namorada os erros que já havia cometido antes. Utilizando um estilo frio, mas deslumbrante, Zvyagintsev revela os medos e egoísmos que pautam a estrutura falida da família tradicional que sustenta a economia. Boris não pode nem mesmo ser divorciado, senão perderia o emprego. Um colega de trabalho especula sobre o apocalipse, como que em um vislumbre das mudanças que irão acontecer.

Mas os pais não são de todo odiosos e também entrevemos suas fraquezas. Ela se faz presente especialmente próximo ao final, quando o destino dos dois é selado de maneira ambígua com um grito de dor, ficando a cargo do espectador decidir o que aconteceu.

Reestabelecida a rotina, mais uma criança cresce para ser negligenciada. E se as relações pessoais são decadentes, elas refletem as internacionais entabuladas pelo país. Na televisão, comenta-se sobre a crise na Ucrânia, a guerra, o mal comportamento do exército russo. Ao ar livre Zhenia encarna a própria Mãe Rússia, que literalmente corre sem sair do lugar. Loveless é um filme difícil de digerir, duro e pesado, mas extremamente poderoso.

Nota: 4 de 5 estrelas

O Motorista de Taxi (Taeksi Woonjunsa, 2017), de Hoon Jang

O candidato sul-coreano a uma vaga no Oscar de 2018 é baseado na história real do massacre de Gwangju, ocorrido em 1980 na cidade de mesmo nome. O levante lutava pela democracia, contra o ditador Chun Doo-hwan, mas a mídia local ocultava os acontecimentos, enquanto o exército reprimia violentamente os manifestantes. Peter (Thomas Kretschmann), um jornalista alemão, entre no país vindo do Japão, se passando por missionário, com a proposta de filmar o que aconteceu e levar essas imagens ao mundo. Para isso ele precisa de um motorista que o leve de Seul, a capital, até a outra cidade. A oferta em dinheiro é grande: o valor que Kim (Song Kang-ho), um motorista de taxi viúvo e com uma filha, deve de aluguel.

O repórter havia contratado um motorista de uma empresa particular, mas ouvindo a oferta, Kim ocupa a vaga, sem saber ainda qual seria o trabalho e suas consequências. Serve como contrapartida humorística ao peso da história: ele é tolo e despolitizado. Cai em um turbilhão de violências promovidas pelos militares e só assim se dá conta da escala do que está presenciando. Junto com ele, o espectador se inteira da realidade do que está acontecendo naquele momento. O Motorista de Taxi é muitas vezes melodramática, mas é simpático e envolvente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

The Square (2017), de Ruben Östlund

 O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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