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41ª Mostra de São Paulo parte 2: mais dirigidos por mulheres

Mais uma leva de filmes dirigidos por mulheres conferidos na 41ª Mostra Internacional de São Paulo.

Visages, Villages (2017), de Agnès Varda e JR Um grande muro com uma foto gigante de um cabra colada sobre ele. Na sua frente, Agnès Varda e JR, diretores do filmes, fazem chifrinhos com os dedos

 Agnès Varda é sem dúvida uma figura cativante. Aos 89 anos, dos quais mais de sessenta foram dedicados ao cinema, a diretora vive uma fase de reconhecimento pleno e em breve será homenageada com um Oscar honorário por sua trajetória, fato que ironiza, uma vez que mesmo esse seu filme mais recente foi realizado através de financiamento coletivo, como pode ser conferido logo nos agradecimentos dos créditos de abertura. Mas a incansável senhora de cabelo bicolor é uma colecionadora de pessoas e suas histórias, transformando-as em suas deliciosas narrativas audiovisuais.

Em seu novo documentário firmou parceria com o fotógrafo e artista JR. O jovem costuma viajar em seu furgão devidamente adesivado com a imagem de uma câmera fotográfica na lateral e tirar fotos de pessoas comuns, que são impressas e muitas vezes aplicadas a grandes elementos verticais, como muros e paredes, criando murais. Varda resolve acompanha-lo pelos vilarejos do interior da França e coletar os rostos das pessoas que conhece pelo caminho, enquanto entabula diálogos com elas.

A primeira, Jeannine, é uma senhora que mora em um antigo conjunto de casas de mineiros, profissão exercida por seu pai. Ela diz que não pretende sair da casa, por mais que seja pressionada, sendo a última moradora (como uma Clara em seu Aquarius). É homenageada com um painel que cobre toda a fachada. E esse é só um exemplo: Varda está interessada nos pequenos detalhes das vidas das pessoas, mas traz também momentos da sua própria, além de um olho treinado para a visualidade, que compõe cenas belíssimas, com humor e sensibilidade sempre presentes, das pessoas, das obras, das paisagens e de sua combinação.

JR é um bom contraponto a ela: às vezes pesa um pouco a arrogância e o excesso de certezas da juventude, mas seu desejo de embarcar integralmente no projeto se mostra efetivo. Além disso, apesar da diferença geracional, a comunicação entre os dois é bonita de se observar. Mas no final das contas, o filme funciona essencialmente por causa de Varda. Essa figura simpática e carismática, que produz encantamento por onde passa e, apesar de algumas limitações físicas, ainda se preocupa com o criar. O resultado é um filme leve, que faz rir e chorar e a reafirmação de seu talento. O mundo precisa de mais Vardas: pessoas com alma intensa, que respiram arte e sabem transmiti-la.

Nota 5 de 5 estrelas

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

Construindo Pontes (2017), de Heloísa Passos

Dentro de um carro, Heloisa Passos, a diretora, dirigindo, e seu pais sentado no banco de passageiro

 Sem ler nada a respeito do filme, apenas confiando na direção de Heloisa Passos (fotógrafa do recente Mulher do Pai), após as primeiras cenas me peguei pensando que se tratava de um documentário sobre grandes obras de engenharia, especialmente hidrelétricas, e no impacto que elas acarretam, especialmente nos modos de vida tradicionais. Não poderia estar mais errada. Mas certa também.

As pistas entendidas de maneira errada vieram de gravações caseiras com que a diretora foi presenteada que mostram a ação dos explosivos nas cachoeiras de Sete Quedas, no que viria a ser a Usina de Itaipu. Depois vemos a atual área alagada, com um trabalho de som que sobrepõe essa paisagem com o barulho das máquinas que um dia trabalharam no local.

Mas essa introdução serve para localizar o espectador nas pontes que realmente precisam ser construídas: Heloísa é filha de um engenheiro que trabalhou nos grandes projetos dos governos da ditatura militar no Brasil. Seu pai defende que esse foi o único momento em que o país teve um projeto nacional de desenvolvimento. Pessoas foram mortas, sim, mas isso é outra coisa, segundo ele. E aí é que se cria um abismo que separa pai e filha há décadas, afinal, conforme a narração da própria diretora “família é o não dito”.

Com a câmera parada, o cotidiano doméstico e familiar é retratado com certo distanciamento. Talvez o maior problema do documentário seja que não consegue estruturar uma linha de raciocínio por parte dos debatedores. A diretora rebate as falas do pai e ele faz o mesmo com ela, mas nenhum dos dois apresentam argumentos sólidos para seu posicionamento e muitas vezes a sensação é de estar presenciando uma discussão parecida demais com aquelas das redes sociais.

Por outro lado, a impressão de proximidade pode ser muito grande. Provavelmente diversos espectadores verão a si e a seus pais, mesmo que de outras maneiras e em graus diferentes, retratados nos diálogos que se apresentam ou nas tentativas frustradas de levá-los adiante. Em tempos de fortalecimento de discursos extremistas, devemos nos preparar para o diálogo. Ou, dependendo do contexto familiar, para lidar com os silêncios.

Nota: 3 de 5 estrelas  

Praça Paris (2017), de Lúcia Murat

Sentadas uma de frente para a outra estão Glória à esquerda e Camila à direita. Há uma mesa entre as duas, que esticam os braços e unem as suas mãos.

 Glória (Grace Passô) é ascensorista em uma universidade na cidade do Rio de Janeiro. Dos prédios de arquitetura marcante onde trabalha, é possível ver a favela onde reside: são duas cidades em uma só, dois territórios com leis diferentes e com diferentes perspectivas de trajetória para seus moradores. Glória convive com a violência, na forma do abuso sexual impingido pelo seu pai, desde muito cedo. Hoje visita sempre o irmão, Jonas (Alex Brasil), na cadeia, onde cumpre pena pelo seu envolvimento com o tráfico, levando a ele uma marmita com comida caseira que prepara com carinho.

Devido às grandes dores que carrega consigo, Glória passa a se consultar semanalmente com a psicóloga Camila (Joana de Verona), uma portuguesa que veio ao Brasil para pesquisar os efeitos da violência. Seu cotidiano é justamente preenchido pela violência, seja no tiroteio que a impede de voltar para casa, seja na surra levada da polícia, que sabe do papel que seu irmão ocupa, mesmo encarcerado. Mas a conexão entre as duas é difícil: nada que Camila já tenha vivido abarca as experiências de Glória. Em cima de sua mesa é enquadrado um livro sobre psicanálise e empatia, mostrando sua vontade de criar canais de comunicação. Mas ela mesma se descobre perdida, espelhando sua avó, sempre presente, na beira do abismo.

A relação entre as duas, descompassada, não é pautada só nas diferenças étnico-raciais e de classe, mas também em um certo olhar colonial da estrangeira que anedoticamente ainda pensa no Brasil como um lugar exótico de hábitos bárbaros, como confrontada por um comentário de seu namorado. As trajetórias das duas protagonistas se entrelaçam, ao mesmo tempo que se distanciam nos mínimos detalhes: nas roupas, nos meios de transporte, na configuração de suas casas.

O elenco todo é competente, mas Grace Passô se destaca: o que ela consegue fazer apenas com o olhar não é para muitos, especialmente quando transmite os momentos de doçura da personagem. Ela merecia mais espaço na trama, em relação à outra protagonista, igualmente necessária, mas menos interessante.

O filme flerta com o cinema de gênero, construindo suspense na paranoia branca da psicóloga. Ao conviver com os relatos de Glória, passa a acreditar que ela mesma será envolvida por aquelas violências. Não consegue entender os contextos relacionais que os levam a acontecerem. Trancafiada em seu consultório, suando com o ventilador ligado e o ambiente repleto de fumaça de cigarro, vive um noir tropical. A beleza está no fato de que o suspense só é possível se o espectador comprar o discurso que está sendo vendido, como se ao ajudar as pessoas que morem na favela, invariavelmente algo de ruim se voltará contra você. Utilizando no limite estereótipos que podem ser perigosos, o filme se segura na direção para que eles não se confirmem, apoiando-se, também, na cumplicidade de quem o assiste.

Nota 4,5 de 5 estrelas

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra

À esquerda está Clara, sentada em sua cama reclinada com as costa na cabeceira. A blusa levantada mostra a barriga de gestante. Clara, sentada à sua frente, coloca na barriga um aparelho usado para auscultar o bebê

 Juliana Rojas e Marco Dutra já há muito mostram que em se tratando de cinema de gênero, eles sabem o que estão fazendo. Os curtas já eram um indício, mas o longa Trabalhar Cansa foi a confirmação, bem como os trabalhos solo em Sinfonia da Metrópole e Quando Eu Era Vivo. Sempre mesclando o terror com outros gêneros, aqui trazem uma fábula sobre trabalho, cidade, relacionamentos e, claro, maternidade: temas que já haviam sido trabalhados em filmes anteriores.

Ana (Marjorie Estiano) é uma mulher que já passou da 20ª semana de gestação e está em busca de uma babá. Com treinamento em enfermagem, Clara (Isabél Zuaa) acaba sendo a candidata escolhida. Ao chegar para a entrevista já é alertada  para utilizar o elevador de serviço. O emprego é um em que acumula funções: precisa cozinhar e limpar enquanto a criança não nasce. Como Ana é mãe solo, também a acompanha nas consultas médicas e assim as duas descobrem que ela está com a pressão alta e deve se abster de carne até o parto.

A relação entre ambas as mulheres, encaixadas em um sistema de hierarquias étnico-racial e de classe, é complexa e complexificada ainda mais pela posição de patroa e empregada que paira entre a convivência, que obrigatoriamente traz o afeto e a intimidade e, por fim, o romance. Dado o pôster do filme, acredito não ser spoiler dizer que Ana gesta um lobisomem, embora nem ela o saiba. Clara logo percebe que algo está errado, entre o sonambulismo e o desejo por carne manifestado por Ana, e tenta minimizar os problemas acarretados por isso.

Trata-se de um filme que abarca dois filmes diferentes em si. O primeiro inclui tudo o que foi comentado até aqui e é simplesmente primoroso. A segunda metade foca em maternidade, infância, folclore e na artificialidade da vida na cidade, marcada por suas fronteiras. Aqui a realização torna-se irregular, especialmente prejudicada pela limitação no que tange aos efeitos visuais e ao ator mirim, mas ainda assim com uma qualidade que impressiona.

Além das atuações, outros elementos que se destacam são o uso das músicas que subitamente levam a película para o campo do gênero musical (obrigada, Rojas!) e o bebezinho animatrônico, que nos conquista logo a um primeiro olhar.

Ousado, sem medo de misturar gêneros, interessante, divertido e emocionante, As Boas Maneiras é um passo à frente no amadurecimento do cinema de gênero produzido no país.

Café com Canela (2017), de Ary Rosa e Glenda Nicácio

É difícil traduzir em palavras a sensação de assistir a esse filme, mas assim que acabou a sessão eu peguei o lápis, desenhei um coração no caderninho que levo para anotações e fechei-o. Certas coisas da subjetividade são difíceis de captar e materializar em palavras. A história é centrada em torno da vida de duas mulheres, Margarida (Valdinéia Soriano), uma ex-professora que se tornou reclusa após a morte de seu filho; e Violeta (Aline Brunne), uma jovem cheia de vida que vende coxinhas que ela mesma faz de porta em porta e cuida de sua avó idosa. Vizinho de Violeta, ainda conhecemos Ivan (Babu Santana), que vive com seu marido e o cachorro chamado Felipe. Na laje da casa de Violeta esses e outros personagens se encontram e conversam sobre suas vidas, a morte e o seguir em frente.
A dupla novata de diretores é saída da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e é lá na região que tudo se passa. O sotaque, as casas, as roupas: tudo nos desloca para um interior repleto de tranquilidade, memória e carinho. Enquanto a casa de Margarida temos café, cigarros e moscas, na de Violeta há barulho e há amor. Margarida esconde os espelhos, Violeta a quer fazer enxergar.
Pequenos gestos cotidianos têm grande significado, como aqueles provenientes das religiões afro-brasileiras praticadas pelas personagens. A ancestralidade está presente de forma marcada. Purificar-se antes de entrar em casa é um rito rápido, mas que é captado com grande beleza. Já a tormenta e a efervescência são capturados com estilo aronofskyano: ferve o café, apaga o cigarro, frita a coxinha, encolhem as paredes. Nem tudo são flores, claro, na trajetória dessas duas mulheres e em certo momento surge um diálogo carregado com a mão dos diretores-roteiristas, explicando de forma didática porque o cinema é tão intenso. Mas apesar disso o filme conquista por sua intimidade sincera. Trata-se de cinema de afeto.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent, 2017), de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

 Posso muito bem na vida e também na pintura privar-me de Deus, mas não posso, sofrendo, privar-me de algo maior que eu, que é a minha vida, a potência de criar. (Van Gogh)

Esse filme é de um trabalho que impressiona: logo na abertura somos informados que ela foi realizada à mão com a pintura de mais de cem artistas, sendo considerada a primeira animação feita com tinta a óleo da história. O estilo emula as próprias pinturas do personagem retratado, Vincent van Gogh, o trágico pintor que faleceu aos trinta e sete anos sem jamais ter vendido um quadro.

A premissa é bastante banal: o carteiro Joseph Roulin, seu amigo, entrega ao deu filho, Armand, uma carta de van Gogh que não foi entregue ao seu irmão Theo. Armand, então, retorna à vila onde o pintor passou seus últimos dias e conversas com as pessoas que conviveram com ele (e eventualmente povoaram suas pinturas). Para ficcionalizar a história, levanta-se a possibilidade de que sua morte não teria sido suicídio, mas sim assassinato. Os argumentos são apresentados por meio de flashbacks em preto e branco. A forma como tenta-se transformar em uma história investigativa acaba não sendo interessante.

O que realmente funciona no filme é seu visual: não é à toa que van Gogh se tornou o pintor famoso que é depois de sua morte. Seu estilo único, nem impressionista nem expressionista, faz explodir cores e, logo, sensações na tela. O filme destaca essas qualidades técnicas e artísticas e demonstra que fazer arte é trágico e inevitável. Viver e senti-la também.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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Filmes assistidos em outubro

Toda vez que eu percebo que acabou mais um mês eu levo um susto. E foi-se outubro! Com ele vieram muitos filmes revistos, mas também muitas coisas lindas descobertas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Essa foi a minha primeira e aos poucos vou postando aqui os texto que produzi. Seguem abaixo os filmes assistidos no mês com suas respectivas notas subjetivas. Não esquece de me seguir no letterboxd!

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Happy End (2017) ★★★

Scary Mother (2017) ★★★★

Jericó: O Infinito Vôo dos Dias (Jericó: el infinito vuelo de los días, 2016) ★★★½

Mulheres Divinas (Die göttliche Ordnung, 2017) ★★★★

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017) ★★★★

Canção de Granito (Song of Granite, 2017) ★★

O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, 2017) ★★★½

Zama (2017) ★★★

Esplendor (Hikari, 2017) ★★★

Um Dia Depois (Geu-hu, 2017) ★★★★

Visages Villages (2017) ★★★★★

Construindo Pontes (2017) ★★★

Praça Paris (2017) ★★★★

Estocolmo, Meu Amor (Stockholm, My Love, 2016) ★★

As Boas Maneiras (2017) ★★★★ ½

Café com Canela (2017) ★★★½

Loveless (2017) ★★★★

Operações de Garantia da Lei e da Ordem (2017) ★★★★

Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent, 2017) ★★★★

Amante por um Dia (L’amant d’un jour, 2017) ★★★½

The Square (2017) ★★★★

 

52 Filmes por Mulheres

Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011) ★★★★

 

Projeto de podcast

O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet, 1957) ★★★★★

Psicose (1960) ★★★★★

 

Lançamentos

Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017) ★★★

Blade Runner 2049 (2017) ★★★

First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers (2017) ★★★

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017) ★★★★

O Formidável ( Le Redoutable, 2017) ★★★

 

Demais

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989) ★★★★★

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) ★★★½

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2, 2017) ★★★

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes , 2017) ★★★½

Tatuagem (2013) ★★★★

Confiar (Trust, 2010) ★★★

 

35 filmes assistidos

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41ª Mostra de São Paulo parte 1: dirigidos por mulheres

Entre os dias 19 de outubro e 1º de novembro, São Paulo recebeu a 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema. Ao todo foram 394 títulos, entre longas, curtas e até mesmo 19 obras de realidade virtual, exibidos em 31 salas diferentes. As obras são variadas e a seleção inclui temáticas contemporâneas como relações de gênero, a questão dos refugiados e os problemas ambientais. Dentre as obras selecionadas, 98 são dirigidas por mulheres, incluindo 21 diretoras brasileiras. A cineasta belga Agnès Varda foi homenageada com o Prêmio Humanidade e recebeu uma retrospectiva com 10 filmes sendo exibidos. O diretor francês Paul Vecchiali também foi agraciado com o Prêmio Leon Cakoff e teve oito longas restaurados em exibição, além de seus três últimos lançamentos.

Nos próximos dias postarei os textos elaborados sobre os filmes que assisti, começando por aqueles dirigidos por mulheres. Seguem os primeiros:

Scary Mother (2017), de Ana Urushadze

Com ar preocupado, uma mulher com cabelo solto e bagunçado caminha por uma espécie de ponte. Só é visível o corrimão, mas é possível ver as construções abaixo.

Scary Mother é um filme que abraça as penas da criação, o insuportável processo de criação. Manana (Nato Murvanidze), a protagonista, é uma mulher em torno dos 50 anos, casada e com três filhos. Com postura fechada, ombros curvados e os cabelos sempre soltos caindo sobre o rosto, ela tem dificuldade de conciliar sua escrita com a convivência familiar. As expectativas dos demais parecem ser o que lhe coloca o peso sobre os ombros. O marido diz que uma mulher deve se cuidar e pintar os cabelos. Os filhos não entendem seu silêncio. Seu mundo de imaginação é uma aberração: como consegue ver figuras nos azulejos do banheiro? A mãe é assustadora: claro que é. Assusta ao não se cumprir com os acordos silenciosos da convivência familiar

Quando um homem se isola para criar, ele é um gênio. Quando uma mulher, faz o mesmo, deixando de lado os papéis sociais e domésticos que dela se espera, é louca. O que a família acarreta na trama é o desrespeito pela sua obra, considerada vulgar, profana, inadequada. Literatura e realidade se sobrepõem e se fundem, desconcertando quem a rodeia. Scary Mother é o primeiro trabalho da cineasta Ana Urushadze, que o constrói de forma rígida e intensa, frio e nublado como o clima retratado e intrigante como sua protagonista.

Jericó: o infinito vôo dos dias (Jericó: el infinito vuelo de los días, 2016), de Catalina Mesa

Uma senhora de costas, com cabelos brancos, olha para uma coleção de esculturas de santos perfiladas sobre um armário

 O documentário se passa em uma pequena cidade de mesmo nome na Colômbia. O breve poema escrito em homenagem a ela que aparece na abertura tem como autora uma mulher que compartilha o sobrenome da diretora. Não é explicado, mas talvez daí saia a conexão entre a criadora e o ambiente retratado

As casas, com fachadas multicoloridas, escondem as histórias de suas moradoras já idosas ou chegando lá. Daquela que ainda moça foi aos Estados Unidos e acabou ficando porque “o melhor dinheiro é viajar” àquela que cujo noivo hoje é padre pois sua família, branca, a considerou “negra demais para permitir o casamento”. Relacionamentos, devoção, família e pequenos causos de vida são relatados entre uma atividade cotidiana e outra.

Abusando de planos de estabelecimento preenchidos por músicas regionais, o filme, que tem apenas uma hora e dezessete minutos de duração, poderia tranquilamente ser convertido em um programa de televisão com uma hora de duração. Falta uma estrutura que o guie, mas é compreensível que com personagens tão ricas e histórias tão variadas e saborosas em suas mãos, a cineasta não tenha deixado mais nada de fora.

As Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung, 2017), de Petra Volpe

Uma mulher está em pé em frente ao microfone, com ar temeroso, segurando uma folha de papel como que prestes a discursar. À sua frente três longas mesas cheias de gente que não prestam atenção a ela.

Suiça, 1971: o letreiro inicial do filme relata que, de forma impressionante, as mulheres do país ainda não possuem direito ao voto. O movimento sufragista intensifica sua campanha e nós acompanhamos suas atividades sob o ponto de vista de Nora (Marie Leuenberger), uma dona de casa casada e mãe de dois filhos, moradora de uma pequena vila, que não tinha envolvimento anterior com política, mas não se opõe a ideia de conseguir novos direitos. Seus problemas começam quando seus recém adquiridos desejos políticos entram em choque com a rotina estabelecida para as mulheres.

Nesse momento é possível perceber que o próprio movimento trabalhista local, composto majoritariamente por homens, mas também por uma mulher que se coloca em lugar diferenciado, se opõe à ampliação dos direitos femininos porque isso abalaria o status quo. Mas as mulheres se unem em torno da causa, prontas para desestabilizar o que for preciso.

Pense Estrelas Além do Tempo e Guerra dos Sexos com uma pitada de Orgulho e Esperança: As Mulheres Divinas é um desses filmes bem realizados que não são tecnicamente ousados, mas que acalentam pela força da narrativa e pela importância de seu tema, vindo na esteira de obras que obrigatoriamente nos deixam com um sorriso no rosto e o coração aquecido.

Zama (2017), de Lucrecia Martel

um grupo de cavaleiros atravessa um charco em meio a palmeiras.

 Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho) é um funcionário da coroa espanhola na Argentina, a quem foram prometidas riqueza e honrarias que jamais se concretizaram. Morando em um local ermo, tenta manter a aparência europeia com uma peruca desgrenhada, utilizada apenas quando necessária, e uma casaca mal cortada. A solidão e o ridículo são suas companheiras, enquanto constantemente solicita poder voltar para casa. Os planos são trabalhados com academicismo e o desenrolar da história é lento.

O personagem-título é retratado como uma figura sem grandes méritos e o empreendimento “civilizatório” da colonização aparece fracassado, perdido na inutilidade da função burocrática de seus responsáveis. Curiosamente, apesar desse posicionamento marcado, pouca voz é dada aos povos de outras etnias retratados: pessoas negras e indígenas perpassam a trama sem agência real ou como a confirmação dos medos e preconceitos trazidos da Europa.

Filmes recentes, como O Abraço da Serpente e Z: A Cidade Perdida, apesar de também terem seus problemas, especialmente no que tange à exotização, abordam de maneira mais interessante o contato entre homens brancos e populações ameríndias. O filme ganha fôlego no terceiro ato, com a materialização da ameaça que ronda à boca pequena sob o nome de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele), mas, como um todo, o resultado final é árido e até mesmo enfadonho.

Nota: 3 de 5 estrelas

Esplendor (Hikari, 2017), de Naomi Kawase

 Pessoas atravessando a rua. Uma mulher sorrindo na calçada. Um homem de paletó espera o taxi com expressão de raiva. A sequência pode não ser exatamente assim, mas são descrições como essa que abrem o novo filme de Naomi Kawase. As pessoas familiarizadas com a textos para fins de acessibilidade rapidamente a reconhecerão. Misako (Ayame Misaki) é uma criadora de áudio descrição para cinema. Ela narra o que aparece na cena, para que pessoas cegas possam apreender o contexto dela. Em uma reunião com um grupo de teste, para aprovar o trabalho que está criando, Misaya (Masatoshi Nagase) critica o resultado do trabalho, explicando que ela não está apenas falando sobre o que a cena mostra, mas projetando suas próprias emoções, não permitindo que eles tirem suas conclusões. Outro personagem revela que ele é um fotógrafo famoso que ainda enxerga, embora com dificuldade, pois gradativamente está perdendo a visão.

A trama é centrada nessa perda e em como ela o afasta da sua arte. Mas a diretora usa a trajetória do personagem para comentar sobre a relação pessoal que entabulamos com o cinema e como o utilizamos para nos conectarmos com outras pessoas, mesmo que fictícias. O cinema, visual ou narrado, é sentido por cada um de uma maneira diferente.

A câmera do personagem é apresentada como aquilo de mais próximo ao seu coração que ele tem. “Se afastar daquilo que mais ama é insuportável”, diz Misako. Mas talvez se o filme fosse realizado por pessoas cegas, e não videntes, a cegueira não seria tão central ao drama, pois não seria apenas isso a definir o protagonista. A amizade entre os dois personagens forma uma dinâmica interessante, unindo a profissão e os interesses de ambos, mas o romance que se delineia parece desencaixado de contexto.

Em se tratando de visual, a diretora se esmera: o rosto de Ayame Misaki é sempre enquadrado de forma elegante e as cenas são muito bonitas, regadas de luz. Também não se pode acusa-la de não ser constante em seu estilo, bastante açucarado. Mas em se tratando da temática abordada, o filme é impressionantemente pouco acessível. A diretora cria um comentário metalinguístico sobre o processo de fazer cinema e sobre como cada um tem sua percepção individual sobre a arte apreciada. Propõe que, por conseguinte, esta não deve ser guiada, embora seja isso que ela tente fazer, conduzindo-nos pelos caminhos emocionalmente confusos de sua criação.

Nota: 3 de 5 estrelas

Operações de garantia da lei e da ordem (2017), de Júlia Murat e Miguel Antunes Ramos

O trabalho de revisar os acontecimentos políticos do Brasil a partir de 2013 seria hercúleo, mas esse documentário consegue dar conta de coloca-los em perspectiva de maneira eficiente. Partindo das diversas manifestações que se alastraram pelo país naquele ano e de uma fala da então presidenta Dilma Rousseff, que pedia as mesmas fossem realizadas de forma pacífica e ordeira, ele mostra o gradual cerceamento de direitos e os métodos utilizados para desestruturar os movimentos, do enfraquecimento das ações individuais e coletivas até a restrição da liberdade, passando pela infiltração de policiais visando criar falsos flagrantes.

Ao invés de utilizar relatos e análises posteriores, que poderiam gerar um filme burocrático, os diretores realizam uma complexa montagem de vídeos retirados da programação jornalística dos canais de televisão aberta, opondo-os à cobertura das mídias independentes, especialmente transmissões ao vivo. Dessa forma, a importância dos segundos como ferramenta de divulgação de conteúdo é realçada, em comparação aos discursos recorrentes dos veículos tradicionais. Esses, frisam constantemente a necessidade de movimentos ordeiros, respeitosos, despolitizados e “bonitos”, como é mencionado em determinado momento. A ação da polícia e do jornalismo tradicional no sentido de incriminar qualquer tipo de movimento que fuja desse padrão fica patente.

O desfecho não existe: essa história ainda está em andamento. Em 12 de maio de 2016 assistimos Michel Temer empossar seus novos ministros e desde então testemunhamos o trabalho de desmonte que tem sido realizado. As reações passionais da plateia ao filme demonstram sua eficiência: são gritos, xingamentos, risadas nervosas e suspiros. Não é fácil de assisti-lo, mas é necessário.

Nota: 4 de 5 estrelas

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Blade Runner 2049 (2017)

Então Deus lembrou-se de Raquel. Deus ouviu o seu clamor e a tornou fértil. (Gênesis 30:22)

Los Angeles, 2049: uma cidade cinza, chuvosa, mas com menos neon do que alguns anos antes. Como o próprio nome indica, Blade Runner 2049 se propõe a ser uma sequência do clássico de 1982, cuja narrativa se passa cerca de três décadas depois. Se aquele era dirigido por Ridley Scott, esse fica nas mãos de Denis Villeneuve. O roteiro, por sua vez, tem autoria dividida entre Hampton Fancher, que também roteirizou o primeiro filme, e Michael Green, responsável pelo argumento de Alien: Covenant. E isso explica muita coisa, conforme discorrerei abaixo.

Em Blade Runner, Deckard (Harrison Ford) precisa caçar e desativar criaturas humanoides, chamadas de replicantes, que se rebelam contra os criadores. Esses androides chegam a nós personalizados nas figuras de Rachael (Sean Young), Pris (Daryl Hannah), Zhora (Joanna Cassidy) e Roy (Rutger Haeur). Embora seus corpos sejam artificiais, o resultado é bastante próximo ao natural: eles têm sentimentos e aspirações, defendem a sua vida, sangram quando feridos e têm total passabilidade humana. A grande questão do filme é justamente a marcação dos limites do que nos torna humanos, questão essa ampliada na versão Final Cut (2007), em que a própria identidade de Deckard é colocada em cheque.

Ryan Gosling, vestindo uma jaqueta verde com lapela larga de pele falsa de carneiro. Atrás dele uma espécie de aquário mostra um corpo feminino nu sendo gerado.

Já em 2049 temos oficialmente um protagonista replicante. KD6-3.7, ou simplesmente K (Ryan Gosling) é um androide que trabalha como policial e assim como Deckard, persegue e desativa modelos antigos de replicantes que fugiram. Gosling encarna com perfeição o tipo silencioso e estoico que tem preenchido sua filmografia, usando a jaqueta de pele falsa de carneiro que o traz com facilidade para a ambientação noir que já caracterizava o outro filme. Ele é composto por tecnologia mais nova e criada especificamente para torna-los mais obedientes. Humanoides que obedecem cegamente e sem questionamento os humanos. É quando conhece Sapper Morton (Dave Bautista) que seu papel nesse mundo é abalado: o replicante, que vivia isolado em uma fazenda, fala para ele sobre um milagre que o faria mudar de posicionamento. Mais para frente na história descobrimos que tal milagre ocorreu no corpo de Rachael: no passado a replicante engravidou e gerou uma criança. Para a chefa de K, Tenente Joshi (Robin Wright), esse fato mudaria toda a estrutura social daquele universo e “quebraria os muros”.

Esse é o fator que une tematicamente aqui Blade Runner Alien: Covenant, por meio das mãos dos roteiristas: se no primeiro filme se questiona os limites da humanidade, aqui isso teria menos importância, já que seres bio-mecânicos perfeitos teriam capacidade de reprodução, o que os posicionaria em superioridade aos humanos. Em Covenant, o que nos torna humanos é a possibilidade de criação e a criatura supera o criador usando suas próprias potências. Acontece que essa temática é abordada de maneira muito mais interessante e clara no outro filme, com destaque para a incrível atuação de Michael Fassbender. Sem deixar claro as consequências reais da reprodução de replicantes, neste filme a questão é colocada, mas encontra um beco sem saída. Mesmo o fraco A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (remake do anime fortemente inspirado pelo próprio Blade Runner) levanta pontos sobre a existência de uma alma vinculada à memória presente nos corpos artificiais daquela diegese, que manteria esses corpos no limite da humanidade. K chega a falar que replicantes, por serem criados, não têm almas. Quem tem alma é quem nasce, e, portanto, essa criança representaria uma grande mudança, uma pessoa replicante provida de alma. Mas o conceito de alma aplicado a replicantes novamente não é desenvolvido. É uma característica que, presente ou não em seus corpos, não havia sido mencionada anteriormente no filme de 1982, nem volta a ser mencionada nesse. Certamente o interesse em dar continuidade aos questionamentos lançados em 1982, e que até hoje ressoam, está dado, mas os pontos apresentados são lançados sem serem levados adiante, deixando de ser plenamente explorados.

À distância, vemos Ryan |Gosling pequeno em uma ponte e um holograma de mulher com cabelos roxos gigante a sua frente. Ela aponta para ela e a ponta do seu dedo é do tamanho de sua cabeça.

Explorados são os corpos femininos em cena. Aparentemente nos próximos trinta e dois anos a visão que se tem dos papéis femininos na sociedade não vão melhorar. Talvez até mesmo retrocedam. Os dois corpos femininos mais importantes para a história se chamam Luv (Sylvia Hoeks) e Joi (Ana de Armas), nomes que representam especificamente o que trazem à vida de seus mestres (amor- love; e alegria- joy). Sim, porque ambas não são humanas: são criadas para servir homens. Luv não chega a ser uma vilã: é uma assistente e uma companhia, mas também é uma capanga a mando de Wallace (Jared Leto, cuja atuação caricata é marcadamente um ponto mais fraco do filme), o fabricante da nova geração de replicantes. Em determinado momento, Luv chama K de cachorro mau, mas ela é que se comporta como um cão de guarda raivoso e rancoroso, mas ao mesmo tempo obediente, que ainda assim, de forma completamente sem propósito, lhe rouba um beijo em meio a uma luta.

A situação de Joi é mais complexa: ela é uma tecnologia nova, uma forma holográfica provida de inteligência artificial criada para servir seu amo. Estabelecendo uma hierarquia entre corpos humanoides de forma similar ao já citado Ghost in the Shell, a versão do produto apresentada no filme devota-se a K: uma mulher para servir a um homem, que por sua vez serve aos humanos de verdade. A primeira vez que a vemos ela veste uma roupa de dona de casa dos anos 50 e prepara uma refeição para ele. Ela fala para ele tudo que ele gostaria de ouvir, alimentando o seu sonho de ser alguém especial, como um Pinóquio que quer ser um menino de verdade. Para K, o conforto de ter sua importância no mundo sempre reafirmada é amor. E para que esse amor possa ser concretizado, Joi contrata mais um corpo feminino servil, Mariette (Mackenzie Davis), uma replicante garota de programa, para que se alinhe com sua própria projeção corporal e a represente no momento do sexo. Algo similar ocorre em Ela, quando a conexão emocional de Theodore com a inteligência artificial Samantha é concretizada por meio de um corpo feminino alugado. A diferença é que Samantha não era corporificada e Theodore era humano. Aqui nós temos três corpos sintéticos interagindo no sexo, mas os dois que se apresentam como femininos é que devem satisfazer o masculino. Se há uma hierarquia entre a materialidade dos corpos na sua humanidade ou desumanidade (humanos, replicantes e hologramas), há, também, uma claramente pautada no gênero.

Rya Gosling e Sylvia Hoeks (Luv) caminha em direção a uma escada em um grande salão rodeado por aquários contendo corpos humanos

E se a cidade deixou de ter tantas influências japonesas nas décadas que se passaram, os imensos painéis luminosos também foram parcialmente trocados, substituídos por mais hologramas de corpos femininos oferecendo mercadorias que muitas vezes são eles mesmos, como ocorre com Joi. Infelizmente, apesar da fotografia belíssima de Roger Deakins, o filme também não consegue repetir a estética única e marcante do original. Ao se afastar dos elementos que a definiam para criar um futuro mais avançado, o que apresenta é uma estética genérica, que remeta ao filme de 1982 sem alcançar o seu patamar de referencial. Mas a direção de arte se esmera com uso de elementos amarelos contrapondo o cinza.

Os corpos femininos não são os únicos que são explorados. Apenas duas pessoas negras aparecem na história: dois homens que tentam garantir seu sustento usando-se dos restos da sociedade de tecnologia, Mister Cotton (Lennie James) e Doc Badger (Barkhad Abdi). Utilizei o verbo “servir” diversas vezes até agora, pois a servidão dos replicantes é clara: são criados e programados para não terem livre arbítrio e sua única opção é obedecer aos humanos. Robôs e androides em ficção científica são constantemente utilizados como metáforas para a marginalização. Historicamente pessoas brancas desumanizaram pessoas não-brancas com o objetivo de coloca-las em posição de servidão. Joshi garante que a humanização dos replicantes, marcada na possibilidade de gerar vida, quebraria os muros que sustentam aquela sociedade. Esses muros são o confinamento da escravidão dos corpos desumanizados. Jeff Yang, em sua conta de twitter, publicou uma thread em que comenta sobre o filme tratar da servidão e usar como protagonista um homem branco, perdendo a chance de aprofundar uma camada de subtexto que já está lá, mas que poderia ressoar assuntos contemporâneos de racismo e violência policial, especialmente levando-se em conta que K é programado para ser um. Esse fato se encaixa na tendência de filmes de ficção científica e fantasia trabalharem metáforas e alegorias sobre a exclusão de minorias, sejam elas raciais, sexuais ou de gênero, ao mesmo tempo em que as excluem literalmente de seu protagonismo.

A silhueta de Ryan Gosling, em marrom, se distanciando de quem a olha enquanto se embrenha em um deserto com chão, céu e névoa amarelos

Villeneuve tenta esconder o racismo e misoginia do discurso presente no filme desconstruindo a história do escolhido: por mais que Joi afirme e K acredite na sua especialidade, ela é desmentida no final, em uma tentativa de assegurar que o futuro pertencerá às mulheres. Acontece que não só essa reviravolta é bastante previsível, como não altera o fato de que o tempo de tela e a trajetória a ser acompanhada pelo espectador ainda são do homem branco. As trajetórias das mulheres presentes giram em torno dos homens: elas se esforçam para preservar um sistema que a eles pertence e os favorece, basicamente não tendo desejos próprios.

Blade Runner 2049 é de uma qualidade técnica que impressiona. As atuações são muito boas e a fotografia é linda: basicamente cada frame do filme pode ser capturado, impresso e emoldurado. Mas o tratamento conferido ao roteiro não é problemático apenas nos aspectos já levantados: ele cria um distanciamento e uma certa frieza entre espectador e protagonista que torna difícil engajar com a história e criar empatia. Não há um fator humano que nos ligue aos acontecimentos, que se desenrolam sucessivamente sem grandes surpresas nem emoções. Os temas centrais ao filme sem dúvida são interessantes e têm permeado o nosso imaginário coletivo, o que fica patente com a grande quantidade de filmes de ficção científica com que ele dialoga. Porém nesses outros filmes em que são abordados, são discutidos de maneira mais interessante. Sua narrativa não ignora nem desmerece o legado daquela presente em Blade Runner. Consegue amplia-la, mas sem acrescentar muita coisa de substancial, que faça diferença. No filme anterior, manequins e bonecos rodeiam as replicantes destacando, em contraste, a humanidade delas. Não deixa de ser irônico que uma obra que se proponha a discutir esse mesmo tema seja tão bonita mas com tão pouco conteúdo e alma, cumprindo sem querer o papel de destacar a humanidade, ainda que falha, de seu antecessor.

Nota: 3 de 5 estrelas

Poster do filme contendo os personagens K, Deckard, Joi e Wallace, nessa ordem de cima para baixo e também em tamanho (cada vez menores), sobre o nome do filme. O fundo é laranja e ciano.

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Filmes assistidos em setembro

Fim de mês e sigo tendo pouco tempo pros filmes que não sejam para pauta ou algo relacionado. Além de alguns lançamentos (links nos títulos) esse mês escrevi sobre os museus enquanto espaço de validação artística e o que isso implica (esse texto foi postado muito antes de toda a polêmica atual envolvendo museus e exposições e portante, nem toquei nesse tema). Também concluí meu segundo ano de projeto #52FilmsByWomen e escrevi sobre os resultados dessa experiência. Agora dou por início o terceiro ano. Seguem abaixo os filmes assistidos no mês com suas respectivas notas subjetivas. Não esquece de me seguir no letterboxd!

52 Filmes por Mulheres:

Cemitério Maldito (Pet Sematary, 1989) ★★★

O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hicker, 1953) ★★★★

Nunca fui Santa (But I`m a Cheerleader, 1999) ★★★

 

Ava DuVernay para Feito por Elas:

A Décima Terceira Emenda (13th, 2016) ★★★★★

 

Júlia Murat para Feito por Elas:

Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011) ★★★★

Pendular (2017) ★★★½

 

Documentários:

Gaga: Five Foot Two (2017) ★★★

 

Lançamentos:

As Duas Irenes (2017) ★★★★

Na Praia à Noite Sozinha (Bamui haebyun-eoseo honja, 2017) ★★★

Mãe! (Mother!, 2017), ★★★★

Doentes de Amor (The Big Sick, 2017) ★★½

 

Demais:

A Bruxa (The Witch, 2015) ★★★★★

Chumbo Grosso (Hot Fuzz, 2007) ★★★½

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017) ★★★

Nise: O Coração da Loucura (2015) ★★★

Baleias de Agosto (The Whales of August, 1987) ★★★

Lady Macbeth (2016) ★★★

Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose, 1997) ★★★½

Além das Palavras (A Quiet Passion, 2016) ★★★★

 

20 filmes assistidos

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