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Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia/ 1962)

Assistido em 15/12/2013

Nesse sábado, dia 14 de dezembro, faleceu Peter O’Toole. Em sua homenagem resolvi tomar vergonha na cara e finalmente assisti o Lawrence da Arábia, em que faz o papel título e provavelmente é seu trabalho mais conhecido.  O clássico, com aproximadamente três horas e quarenta minutos de duração, passa voando.

Trata-se da história romanceada do tenente britânico T. E. Lawrence, que durante a primeira Guerra Mundial esteve entre os povos árabes (supostamente) para libertá-los dos turcos. No começo do filme sua imagem parece mais idealizada, quase como um messias que angaria seguidores, o homem branco que veio para salvar os árabes “bons-selvagens”. Com o passar da trama, seu papel na história passa a se tornar nebuloso, não ficando claro se as ações dele eram premeditadas para beneficiar árabes ou britânicos.

Lawrence nos é apresentado como um personagem que sabe lidar com seus medos e sua dor. Quando encontra pela primeira vez Sherif Ali (Omar Sharif), este lhe aparece como uma espécie de miragem: um beduíno inteiramente vestido de preto. Fala para Ali “nenhum de meus amigos é assassino”, o que não deixa de ser irônico, em se tratando de um militar servindo em uma guerra. Ainda tem a ousadia de dizer que os árabes portam-se como tolos, gananciosos, bárbaros e cruéis. Mas de certa forma o próprio filme desmente isso, mostrando que eles são honrados e a crueldade provem das tramas britânicas. Lawrence funciona como um “último dos moicanos”: encanta-se pelo povo do deserto, passa a viver entre eles e, de certa forma, admirá-los e aprender com eles.

Em certa cena, Lawrence (à esquerda) e Ali (à direita) discutem a viabilidade de uma ação frente a frente, com uma estaca fincada entre ambos, dividindo-os. Lawrence desloca-se para a direita e puxa Ali para junto de si, unindo-os no mesmo lado. Esse é apenas um exemplo do cuidado com que as tomadas são feitas, com enquadramentos precisos. E ao mesmo tempo também ilustra a jornada do protagonista: quando se deslocam, sempre parece ser da esquerda para a direita, em um grande fluxo através do deserto. A fotografia, em geral, é belíssima, mas as cenas feitas utilizando a técnica “noite americana” são, por vezes, tão escuras, que não se distinguem as ações. Já as diurnas são claras, sufocantes, transmitindo com precisão o calor desesperador no deserto. Além disso a trilha sonora é bonita e marcante, digna de um grande épico.

Quando Lawrence troca seu uniforme militar por trajes árabes, chama atenção a alvura de sua roupa em relação ao traje negro de Ali. Mas o traje branco não esconde nada: cada gota de sangue que ele derrama fica marcada no tecido. Ele brinca com a sombra projetada de sua capa e ao longo do filme volta a fazer isso outras vezes. Cada vez o traje é mais fino e transparente, assim como cada vez mais o herói se perde. Quando perguntado sobre o que fazia entre os árabes, responde ” Eu darei a eles sua liberdade”, com toda a arrogância de homem branco que acredita estar acima de toda a situação política local. Como um chefe tribal fala, ser árabe é mais difícil do que parece, pois nesse momento eles não se viam como uma identidade única, e sim como um conglomerado de tribos diversas que por vezes tinham rixas entre si, mas precisavam unir-se contra um inimigo em comum.

É impressionante que a trama inteira transcorre sem a presença de mulheres, com exceção de umas poucas que passam ao fundo, sem importância, fala ou destaque.

O desfecho da história é o retrato da desolação do líder só, destituído de poder e confiança por todos os lados.

A atuação de Peter O’Toole é realmente impressionante, mas confesso que Omar Sharif rouba a cena quando está presente.

Como obra, Lawrence da Arábia e inquestionavelmente um filme incrível.

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Interlúdio (Notorious/ 1946)

Assistido em 22/11/2013

Esse romance dirigido por Hitchcock emula elementos de filme noir (temos os jogos de luz e sombra, a mulher sedutora, a desesperança, entre outros) sem jamais se entregar totalmente ao gênero. Alicia (Ingrid Bergman), tem seu pai julgado por colaboração com a Alemanha nazista. Após o julgamento a vemos beber em uma festa, em que uma silhueta em negro a observa. Trata-se de Devlin (Cary Grant), um agente a paisana responsável por convencê-la a ajudar os Estados Unidos. Sua missão: ir ao Rio de Janeiro e seduzir Sebastian (Claude Rains), um amigo de seu pai que costumava ser apaixonado por ela e obter informações sobre os trabalhos dos alemães. Devlin a acompanha e a proximidade o faz apaixonar-se, amando-a e odiando-a pelo que tem que fazer e pelo que já fez no passado. O título, original, “notorious”, diz respeito a vida amorosa da personagem, sabidamente movimentada.

A estadia no Brasil traz alguns fatos curiosos para nós: a trilha sonora que por vezes parece um sambinha, o garçom que pergunta “quer alguma coisa” em um português inseguro, as placas “Calçados Pinto” e “Rádio Brasil” e, claro, a marcante “fechadura Única”. Por outro lado as pessoas são chamadas de “señor” e señora” e a casa de Sebastian mais parece uma Villa.

Hitchcock tem pleno domínio da técnica em seu filme, que tem belos enquadramentos. Experimenta com a imagem de cabeça para baixo em certa cena em que Alicia acorda de ressaca. Também vemos reflexos dos cavalos numa corrida projetados nos binóculos de quem assiste. Além disso, como a duração dos beijos eram limitadas pelo código Hays, ludibriou a censura com uma cena memorávele em que Bergman e Grant mantém um diálogo sem descolarem os rostos, beijando-se a pequenos intervalos, para não configurar um beijo só.

O uso de cores é bastante interessante: Alicia veste-se de branco quando visita Sebastian pela primeira vez, mostrando sua inocência em relação a tudo que está acontecendo. Depois de casada passa a usar vestidos pretos. Quando anda pela casa, longas sombras são projetadas e quanto mais próximo do fim, mais escuro fica o entorno. No noir de Hitchcock a claridade é mais perigosa que as sombras.

A mãe de Sebastian (Leopoldine Konstantin) tem uma relação estranha de dominação e amor patológico pelo filho. A calma com que discute detalhes sobre o assassinato da nora impressiona. Tratam-se de belíssimas atuações, bem como composições de personagens.

O romance de Hitchcock não é exatamente caloroso: assim como o diretor, é técnico. A ironia da trama é que Alicia ama Devlin verdadeiramente, mesmo com ele a desprezando, tendo batido nela e se odiando por ama-la. Já Sebastian a trata bem, a coloca em um pedestal e se esforça para ser o melhor marido possível. O amor faz escolhas ilógicas. Pobre Sebastian, teve um ótimo desfecho subentendido. E o filme em si é uma grande (e bela) obra.

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