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Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017)

I’m broke but I’m happy, I’m poor but I’m kind
I’m short but I’m healthy, yeah
I’m high but I’m grounded, I’m sane but I’m overwhelmed
I’m lost but I’m hopeful, baby
What it all comes down to
Is that everything’s gonna be fine, fine, fine
‘Cause I’ve got one hand in my pocket
And the other one is giving a high five

(Hands in My Pocket- Alanis Morissette)

O ano é 2002. Em uma casa na periferia de uma monótona cidade de interior, uma jovem de dezessete anos discute com sua mãe sobre seus planos para o futuro (ou a falta deles). Quer cursar uma universidade, quer ir para algum lugar onde as coisas são feitas e acontecem, quer respirar arte. As discussões são constantes e o seu pai vem, muito calmo, lhe dizer “não liga, você sabe como sua mãe tem ideias fortes”. Isso é Lady Bird. Mas também é a minha vida. As mesmas datas, as mesmas idades, tudo. No ano seguinte, com muitas negociações, saí do interior para fazer minha faculdade. Minha mãe chorou na despedida e disse que “era minha hora de sair do ninho, porque a gente cria os filhos pra vida”. (E para lá nunca mais voltei, mas essa é uma outra história).

Greta Gerwig já é uma roteirista estabelecida, com filmes como Frances Ha e Mistress America no currículo. Agora se aventura em sua primeira experiência na direção: com grandes pitadas de autobiografia, Lady Bird- É Hora de Voar é um filme que mostra o seu talento costurando as tramas daquilo que criou.

Christine “Lady Bird McPherson é a protagonista vivida por Soirse Ronan. Como muitas adolescentes, ela vive uma rotina tediosa na escola, tem uma melhor amiga maravilhosa com quem se diverte e divide histórias e comidas, se apaixona por um menino gay, não sabe muito bem ainda o que quer fazer da vida. Ela faz seu ensino médio em uma escola particular com bolsa de estudos e não tem celular nem participa da rotina glamourosa que outras colegas tem. Suas roupas são de 2ª mão (e mesmo aos domingos, a roupa de sair parece um uniforme de escola católica).

A vontade de ter aquilo que não pode, como as casas dos bairros ricos ou o namorado blasé, fazem parte do sonho. Para as meninas da sua escola, ficar na cidade e ser mãe é uma escolha. (Para meus colegas de ensino fundamental, na escola pública do interior, isso não era nem uma escolha, era o único caminho lógico possível).

O desejo de sair de casa significa uma sobrecarga financeira para seus pais. Lady Bird não tem noção dos custos e do que aquilo implica em suas vidas. As negociações se fazem presentes e são necessárias e aí que brilham a atuação de Saoirse Ronan, cheia de méritos, mas também de Laurie Metcalf, que interpreta sua mãe, Marion. Já ouvi de algumas pessoas que sua inconsequência é egoísta e que ela não seria uma personagem exemplar. Mas como construir de maneira exemplar um personagem que ainda tenta descobrir quem é e não conhece o mundo? Em Curtindo a Vida Adoidado Ferris Bueller não é nada exemplar e até hoje possui milhões de fãs. O quinteto do Clube dos Cinco é composto de arquétipos que não só não são exemplares como são rasos (e isso não é necessariamente uma crítica negativa, uma vez que que funcionam em sua simplicidade ao retratar vários exemplares da fauna adolescente de qualquer escola). O egoísmo é um reflexo do processo de auto-descoberta: voltar-se a si e se enxergar como pessoa em formação. Talvez essas críticas em parte se devam a dificuldade de ver ser retratada a experiência da passagem do tempo na adolescência em uma personagem feminina, ainda que escrita de forma multidimensional . No primeiro exemplo citado as personagens adolescentes são pouco mais que caricaturas que rodeiam Ferris e, no segundo, uma delas é a única que é punida com uma transformação para deixar de ser como é. Existe uma tendência de enxergar as experiências masculinas como universais.

Greta Gerwig constrói Lady Bird de forma sincera: ela é como ela é. Não é perfeita, pode ser irritante em certos momentos, mas é concebida através de experiências reais muito próximas, como alguém palpável. Sua história de crescimento é pautada em experiências bastante particulares, mas dialoga com realidades diversas. Sacramento poderia ser Passa-Vinte, ou Uarini ou Coruripe. Ou Blumenau. Lady Bird- É hora de Voar é engraçado, singelo, delicado, emocionante e especialmente fácil de gerar identificação. Quem não o considerou crível ou o achou genérico nunca foi uma menina de 17 anos numa cidade de interior usando universidade como desculpa, louca pra sair de lá e conhecer o mundo.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 4 de 5 estrelas

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O Motorista de Taxi (Taeksi Woonjunsa, 2017)

Postado originalmente em 9 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


O candidato sul-coreano a uma vaga no Oscar de 2018, dirigido por Hoon Jang, é baseado na história real do massacre de Gwangju, ocorrido em 1980 na cidade de mesmo nome. O levante lutava pela democracia, contra o ditador Chun Doo-hwan, mas a mídia local ocultava os acontecimentos, enquanto o exército reprimia violentamente os manifestantes. Peter (Thomas Kretschmann), um jornalista alemão, entre no país vindo do Japão, se passando por missionário, com a proposta de filmar o que aconteceu e levar essas imagens ao mundo. Para isso ele precisa de um motorista que o leve de Seul, a capital, até a outra cidade. A oferta em dinheiro é grande: o valor que Kim (Song Kang-ho), um motorista de taxi viúvo e com uma filha, deve de aluguel.

O repórter havia contratado um motorista de uma empresa particular, mas ouvindo a oferta, Kim ocupa a vaga, sem saber ainda qual seria o trabalho e suas consequências. Serve como contrapartida humorística ao peso da história: ele é tolo e despolitizado. Cai em um turbilhão de violências promovidas pelos militares e só assim se dá conta da escala do que está presenciando. Junto com ele, o espectador se inteira da realidade do que está acontecendo naquele momento. O Motorista de Taxi é muitas vezes melodramática, mas é simpático e envolvente.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017)

Postado originalmente em 9 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Um Cadáver Para Sobreviver chega ao Brasil diretamente em homevideo, disponibilizado na Netflix. Dirigido por Dan Kwan e Daniel Sneinert (conhecidos como Daniels), o filme conta a história de Hank (Paul Dano), um rapaz que conhecemos perdido em uma ilha deserta, sozinho e tentando se matar, até que encontra o corpo já sem vida de Manny (Daniel Radcliffe). Com a ajuda das múltiplas utilidades que descobre ter o morto (e daí vem o título original, referindo-se a um canivete suíço), Hank decide tentar sobreviver e reencontrar Sarah (Mary Elizabeth Winstead) uma moça que acha bonita e que costumava observar no ônibus antes de parar naquele lugar. A amizade entre os dois homens pode parecer improvável, afinal um deles não responde mais por si, mas na imaginação de Hank ganha forma, garantindo-lhe forças para continuar através da construção de um mundo lúdico e de grande beleza.

A narrativa é permeada de humor escatológico e infantil, utilizado sem refinamento, mas esse contrasta com a delicadeza com que todo o resto do mundo de ideias pautadas na esperança é construído. A bem da verdade Hank não conhece Sarah, mas a imagem dela lhe permite sonhar. Trata-se de uma idealização do amor romântico, bem como da mulher que é alvo dele, que leva a comportamentos socialmente questionáveis, ainda que tratados com doçura juvenil. Por isso faz todo sentido a escolha da atriz Mary Elizabeth Winstead para o papel de musa do protagonista, uma vez que ela mesma é colocada como esse ideal inalcançável por muitos jovens autointitulados nerds, especialmente depois do filme Scott Pilgrim contra o Mundo, em que interpreta Ramona, outra amada idealizada pelo protagonista. O filme permite que o espectador tenha empatia por uma pessoa com comportamento perseguidor e o que na vida real seria um senso de merecimento masculino bastante tóxico, mas que aqui é relevada pela forma bonita e distorcida como o próprio personagem enxerga o mundo.

Nesse sentido funciona muito bem com uma sessão dupla com As Vozes (The Voices, 2014), de Marjane Satrapi, outro filme que nos mostra com empatia um homem com comportamentos abusivos em relação às mulheres: dessa vez um serial killer que acredita que não mata por que quer, mas sim porque suas vítimas pedem. Nessa outra película, também mergulhamos em um mundo lúdico, de boas intenções e de beleza, enxergado pelo ponto de vista do protagonista. A diferença principal é que, talvez por ser dirigido por uma mulher, há a preocupação de descortinar o mundo real sombrio do personagem antes do desfecho. É como se em Um Cadáver Para Sobreviver se mostrasse o ponto de vista de Sarah, a mulher perseguida, já que aqui a obsessão de Hank é romantizada.

Com boas pitadas de humor, inventivo e poético, todo o segundo ato do filme é um mergulho em sentimentos ambíguos, por meio de uma expressão artística intensa, providenciada por uma direção de arte hipnótica e encantadora. Poucos filmes se permitem explorar de maneira tão intensa as possibilidades de expressão artística que os objetos em cena permitem. O terceiro ato perde em partes sua força criativa, mas não diminui o resultado final.

Há quem diga que o cinema está morto. O público certamente pode não querer ver a história de um cadáver que literalmente peida em cena, mas se aceitar o desafio pode se impressionar com o cuidado quase que de trabalhos manuais colocado com carinho nessa narrativa. Um Cadáver para Sobreviver peida, mas é mágico.

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A Vingança Está na Moda (The Dressmaker, 2015)

Adaptado do livro homônimo de Rosalie Ham, A Vingança Está na Moda narra a história de Tilly Dunage (Kate Winslet), uma mulher que retorna a Dungatar, seu vilarejo de origem no interior da Austrália na década de 1950, após anos morando na Europa. Tilly foi afastada ainda criança da cidade sob a acusação de ter assassinado um colega de escola. Volta para casa para cuidar de sua mãe, Molly (Judy Davis), que também é, de certa forma, uma pária na cidade, primeiramente por ter sido mãe solteira e agora por ser considerada louca.

Adulta, Tilly pretende se vingar de todos os que lhe causaram sofrimento no passado. A forma como consegue se aproximar deles é através de seu ofício: costureira com conhecimentos do que há de mais avançado na costura francesa, traja vestidos elegantes e modernos que atraem a atenção dos demais. Mas, mais do que isso, seus trajes ajudam a escancarar o provincianismo da população local, ao mesmo tempo alheia às últimas modas e sedenta por assimilá-las como uma forma de demonstrar superioridade. Embora a protagonista não tenha uma boa imagem na cidade, os demais sabem que precisam dela se quiserem ter roupas vistosas para exibir.

The Dressmaker

Mas Tilly não é mal recebida por todos: o sargento Farrat (Hugo Weaving) se delicia ao avista-la pela primeira vez e reconhecer seu vestido como um new look da Dior, ao que ela prontamente responde que é apenas inspirado, mas quem confeccionou foi ela mesma. Ambos tem em comum o apreço por tecidos bonitos e trajes bem cortados e por isso, além de fatores passados, ele mostra seu apoio.

Mas é Teddy (Liam Hemsworth) o responsável pela recepção mais calorosa, que logo se desdobra em romance. Em um primeiro momento causa estranhamento a escalação do ator, já que seu personagem deveria ter a mesma idade de Tilly. De qualquer forma o romance destoa do restante do filme.

Aliás, o tom do filme, que oscila constantemente, é o seu maior problema. A princípio a trama era para ser repleto de humor ácido, mas este às vezes abre espaço para o já citado romance ou mesmo o drama, sem que a narrativa faça um sentido dessas alternâncias. A diretora Jocelyn Moorhouse parece incerta sobre que tipo filme realmente almeja realizar. Esses fatores, aliados ao roteiro que não se propõe a aprofundar os temas, resultam em uma obra claudicante.

Dito isso, A Vingança Está na Moda não deixa de ser um filme divertido de assistir. Uma parte do deleite provém do figurino, desenhado por Marion Boyce (conhecida pelo ótimo trabalho na série Miss Fisher’s Murder Mysteries). Mas é o elenco, especialmente Kate Winslet e Judy Davis, que consegue dar sabor a um texto que poderia se perder em outra mãos.

3,5estrelas

the dressmaker

 

 

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