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Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Um Cadáver Para Sobreviver chega ao Brasil diretamente em homevideo, disponibilizado na Netflix. Dirigido por Dan Kwan e Daniel Sneinert (conhecidos como Daniels), o filme conta a história de Hank (Paul Dano), um rapaz que conhecemos perdido em uma ilha deserta, sozinho e tentando se matar, até que encontra o corpo já sem vida de Manny (Daniel Radcliffe). Com a ajuda das múltiplas utilidades que descobre ter o morto (e daí vem o título original, referindo-se a um canivete suíço), Hank decide tentar sobreviver e reencontrar Sarah (Mary Elizabeth Winstead) uma moça que acha bonita e que costumava observar no ônibus antes de parar naquele lugar. A amizade entre os dois homens pode parecer improvável, afinal um deles não responde mais por si, mas na imaginação de Hank ganha forma, garantindo-lhe forças para continuar através da construção de um mundo lúdico e de grande beleza.

A narrativa é permeada de humor escatológico e infantil, utilizado sem refinamento, mas esse contrasta com a delicadeza com que todo o resto do mundo de ideias pautadas na esperança é construído. A bem da verdade Hank não conhece Sarah, mas a imagem dela lhe permite sonhar. Trata-se de uma idealização do amor romântico, bem como da mulher que é alvo dele, que leva a comportamentos socialmente questionáveis, ainda que tratados com doçura juvenil. Por isso faz todo sentido a escolha da atriz Mary Elizabeth Winstead para o papel de musa do protagonista, uma vez que ela mesma é colocada como esse ideal inalcançável por muitos jovens autointitulados nerds, especialmente depois do filme Scott Pilgrim contra o Mundo, em que interpreta Ramona, outra amada idealizada pelo protagonista. O filme permite que o espectador tenha empatia por uma pessoa com comportamento perseguidor e o que na vida real seria um senso de merecimento masculino bastante tóxico, mas que aqui é relevada pela forma bonita e distorcida como o próprio personagem enxerga o mundo.

Nesse sentido funciona muito bem com uma sessão dupla com As Vozes (The Voices, 2014), de Marjane Satrapi, outro filme que nos mostra com empatia um homem com comportamentos abusivos em relação às mulheres: dessa vez um serial killer que acredita que não mata por que quer, mas sim porque suas vítimas pedem. Nessa outra película, também mergulhamos em um mundo lúdico, de boas intenções e de beleza, enxergado pelo ponto de vista do protagonista. A diferença principal é que, talvez por ser dirigido por uma mulher, há a preocupação de descortinar o mundo real sombrio do personagem antes do desfecho. É como se em Um Cadáver Para Sobreviver se mostrasse o ponto de vista de Sarah, a mulher perseguida, já que aqui a obsessão de Hank é romantizada.

Com boas pitadas de humor, inventivo e poético, todo o segundo ato do filme é um mergulho em sentimentos ambíguos, por meio de uma expressão artística intensa, providenciada por uma direção de arte hipnótica e encantadora. Poucos filmes se permitem explorar de maneira tão intensa as possibilidades de expressão artística que os objetos em cena permitem. O terceiro ato perde em partes sua força criativa, mas não diminui o resultado final.

Há quem diga que o cinema está morto. O público certamente pode não querer ver a história de um cadáver que literalmente peida em cena, mas se aceitar o desafio pode se impressionar com o cuidado quase que de trabalhos manuais colocado com carinho nessa narrativa. Um Cadáver para Sobreviver peida, mas é mágico.

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A Vingança Está na Moda (The Dressmaker, 2015)

Adaptado do livro homônimo de Rosalie Ham, A Vingança Está na Moda narra a história de Tilly Dunage (Kate Winslet), uma mulher que retorna a Dungatar, seu vilarejo de origem no interior da Austrália na década de 1950, após anos morando na Europa. Tilly foi afastada ainda criança da cidade sob a acusação de ter assassinado um colega de escola. Volta para casa para cuidar de sua mãe, Molly (Judy Davis), que também é, de certa forma, uma pária na cidade, primeiramente por ter sido mãe solteira e agora por ser considerada louca.

Adulta, Tilly pretende se vingar de todos os que lhe causaram sofrimento no passado. A forma como consegue se aproximar deles é através de seu ofício: costureira com conhecimentos do que há de mais avançado na costura francesa, traja vestidos elegantes e modernos que atraem a atenção dos demais. Mas, mais do que isso, seus trajes ajudam a escancarar o provincianismo da população local, ao mesmo tempo alheia às últimas modas e sedenta por assimilá-las como uma forma de demonstrar superioridade. Embora a protagonista não tenha uma boa imagem na cidade, os demais sabem que precisam dela se quiserem ter roupas vistosas para exibir.

The Dressmaker

Mas Tilly não é mal recebida por todos: o sargento Farrat (Hugo Weaving) se delicia ao avista-la pela primeira vez e reconhecer seu vestido como um new look da Dior, ao que ela prontamente responde que é apenas inspirado, mas quem confeccionou foi ela mesma. Ambos tem em comum o apreço por tecidos bonitos e trajes bem cortados e por isso, além de fatores passados, ele mostra seu apoio.

Mas é Teddy (Liam Hemsworth) o responsável pela recepção mais calorosa, que logo se desdobra em romance. Em um primeiro momento causa estranhamento a escalação do ator, já que seu personagem deveria ter a mesma idade de Tilly. De qualquer forma o romance destoa do restante do filme.

Aliás, o tom do filme, que oscila constantemente, é o seu maior problema. A princípio a trama era para ser repleto de humor ácido, mas este às vezes abre espaço para o já citado romance ou mesmo o drama, sem que a narrativa faça um sentido dessas alternâncias. A diretora Jocelyn Moorhouse parece incerta sobre que tipo filme realmente almeja realizar. Esses fatores, aliados ao roteiro que não se propõe a aprofundar os temas, resultam em uma obra claudicante.

Dito isso, A Vingança Está na Moda não deixa de ser um filme divertido de assistir. Uma parte do deleite provém do figurino, desenhado por Marion Boyce (conhecida pelo ótimo trabalho na série Miss Fisher’s Murder Mysteries). Mas é o elenco, especialmente Kate Winslet e Judy Davis, que consegue dar sabor a um texto que poderia se perder em outra mãos.

3,5estrelas

the dressmaker

 

 

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Ave, César!

É fácil comparar Ave, César!, novo filme dos direitores e roteiristas Joel e Ethan Coen, com Barton Fink– Delírios de Hollywood (1991), seu quarto filme, já que ambos se passam na Capital Records, um estúdio fictício da era de ouro de Hollywood. O segundo abarca os anos de produções de segunda linha, na década de 1940, enquanto agora, na década de 1950, o estúdio cresceu e é apresentado como criador de estrelas e de sucessos de gênero, como uma MGM de um universo alternativo. Mas os vinte e cinco anos entre ambos os filmes parecem marcar também uma mudança no posicionamento dos irmãos em relação à indústria: Barton se via como um escritor brilhante que não fazia parte de Hollywood; já Eddie Manix (Josh Brolin), o atual protagonista, é um homem em uma jornada de auto-descobrimento que o leva a perceber seu amor por ela.

A trama se fragmenta em diversas histórias: o gatilho é o sequestro de Baird Whitlock (George Clooney), um astro trabalhando em um épico sandália e espada à lá Ben-Hur. Com isso somos apresentados a diversas estrelas, que podem ser comparadas à outras da época, como a nadadora dos filmes aquáticos DeeAnna Moran (Scarlett Johansson, emulando Esther Williams), o herói dos faroestes Hobie Doyle (Alden Ehrenreich), o dançarino dos musicais Burt Gurney (Channing Tatum, remetendo a Gene Kelly) e mesmo as colunistas de fofoca Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton, numa versão gêmea de Hedda Hopper). Burt, especificamente, é ridiculamente ótimo. Há muito que Tatum merece um filme musical de dança no estilo clássico para estrelar.

Por fim, o nosso protagonista, Eddie, um homem que todos os dias acorda sabendo que vai ter que limpar a sujeira do estúdio e de suas estrelas, para manter a imagem de todos os envolvidos limpa. Eddie está sendo tentado por um emprego sem esses problemas e com um pagamento melhor. Nesse ponto o filme também conversa com Um Homem Sério (2009), se levarmos em conta que Mannix é um homem preso a um rigoroso padrão bastante próprio e peculiar de moralidade nas suas escolhas, que incluem uma confissão por dia a um padre. Marcado pela culpa católica, ele sente remorso ao mentir para a esposa e também se preocupa em não ofender nenhuma fé ou crença, como mostra em uma ótima sequência que envolve uma reunião com lideranças religiosas diversas.

É importante notar que realmente existiu uma pessoa chamada Eddie Mannix na vida real, mas o filme não se propõe a funcionar como uma biografia dele. Na vida real ele tinha a mesma função, além de ser um dos produtores da MGM, e era notoriamente violento e abusivo, mas aqui ele é apenas um personagem cansado que vem a calhar de ter esse nome. Como outros protagonistas dos Coen, ele é uma pessoa comum, mas peculiar, que está em uma situação que o tira da normalidade. Mas não deixa de ser interessante, porque os demais personagens que funcionam como estrelas reais nesse mundo paralelo, possuem outros nomes.

Um dos aspectos mais divertidos do filme é a maneira como ele descortina a forma como os astros eram construídos: o caubói que era caubói na vida real, a moça não muito polida que se torna uma estrela inocente, o bufão que se apresenta como ator sério, entre outros. Além disso, se os atores são escolhidos pela imagem que projetam, não necessariamente são os melhores em sua arte: com isso inúmeras tomadas precisam ser feitas e o material bruto tedioso e de baixa qualidade é assistido religiosamente por Mannix todos os dias. Por outro lado, ocorre a mitificação da forma como as sequências são filmadas: cenas de nado e dança se desenrolam ininterruptamente em um só take, sem erros e sem mudanças de posição da câmera. É como se os Coen implicassem que o filme nascesse assim: de uma vez só.  As coreografias são lindas e os figurinos vistosos: ao final o espectador compra a ideia desses filmes fictícios apenas com um relance deles. Todos os problemas se resolvem na montagem: é aí que eles mostram que a magia acontece e que o que antes parecia medíocre se transforma em algo grandioso, que certamente agradará à plateia.

O elenco de peso faz toda diferença. São muitos personagens bons, que aparecem por pouco tempo e sobre quase todos eles só conhecemos o que está limitado pelo contexto espaço-temporal do filme, sem mais background. Mas eles funcionam muito bem e isso também diz muito sobre o minimalismo da escrita do autores, que injeta na história o suficiente para que ela se desenrole sem problemas.

Os irmãos Coen mais uma vez demonstram o cuidado com os detalhes e com a criação do mundo, usando de uma escrita precisa e afiada e criando uma película ao mesmo tempo muito engraçado e lindo de olhar. Apesar de mostrar o humor e a ironia que envolvem o processo de fazer um filme, o resultado se mostra reverente não só com o produto final, mas com a indústria. É uma obra que mostra todo o amor ao cinema, apesar ou por causa de suas peculiaridades. Está longe de ser um trabalho menor: pelo contrário, é perceptível a maturidade com que refletiram sobre passado e presente do cinema no filme. Por fim, é uma declaração a respeito deles mesmos e um atestado de que, depois desses anos todos ocupando uma posição estranha no sistema hollywoodiano, eles estão à vontade.

P.S: Spoiler: É engraçado demais que o fato que arruína uma notícia para a Hedda Hopper alternativa é que um ator justamente seja comunista. Ironia finíssima.

4,5estrelas

hail caesar poster

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Descompensada (Trainwreck, 2015)

Descompensada é o primeiro filme do diretor Judd Apatow que não é roteirizado por ele mesmo. Dessa vez a escrita fica por conta de Amy Schumer, comediante com a qual não tive contato anterior para saber como é seu trabalho solo. Apatow, por sua vez, cria comédias com as quais não consigo ter muita identificação, então acho que não sou exatamente o seu público alvo. O resultado da união entre os dois é um filme que claramente tem dois autores. O que chama mais atenção é que apesar do roteiro ser de Schumer, a estrutura é similar a de outros trabalhos do diretor: protagonista que não quer encarar a vida adulta e que por algum dispositivo narrativo agora precisa fazer isso. A diferença é que dessa vez a personagem principal é mulher.

Amy (Amy Schumer) é jornalista e leva uma vida agitada de festas e relações casuais com homens. Ela bebe, fuma maconha e não se apega a ninguém. Um flashback mostra seu pai, Gordon (Colin Quinn) ensinando ela e a irmã mais nova, Kim (interpretada quando adulta por Brie Larson) que a monogamia é uma ilusão que não funciona, ensinamento que leva para a vida. Até que Dianna (Tilda Swinton), sua editora, lhe incumbe a tarefa de escrever uma reportagem sobre praticantes de esporte e para isso entrevistar Aaron (Bill Hader), um médico com famosa clientela composta por atletas, acompanhada da possibilidade de uma promoção.

Amy é uma personagem que, por vezes, é bastante desagradável, com atitudes que magoam as pessoas ao seu redor. Mas graças ao carisma de Schumer e ao próprio espírito espontâneo da personagem, ela funciona. O elenco, de uma forma geral, também funciona bem no coletivo. Donald, o estagiário interpretado por Ezra Miller, destoa, mas isso acontece porque suas cenas são escritas de maneira constrangedora. Já John Cena, que interpreta Steve, um interesse amoroso de Amy, tem bons momentos cômicos e a química entre ele e a protagonista funciona. As pequenas participações de LeBron James, Marisa Tomei e Daniel Radcliffe também são muito boas.  A temática da repórter que almeja escrever artigos sérios, mas precisa de uma última reportagem banal para consegui-lo já foi usada em outros filmes: sem pesquisa me veio a memória Como Perder Um Homem em 10 Dias, O Diabo Veste Prada Nunca Fui Beijada, que em maior ou menos grau se encaixam nesse padrão. Mas a reportagem não é o foco da trama aqui e a semelhança acaba se mostrando desimportante.

O maior problema do filme é a forma conservadora como os hábitos de Amy são tratados. Todos ao seu redor querem mudá-la: aparentemente beber, fazer sexo casual, não querer um relacionamento fixo e nem filhos não seriam escolhas adequadas para uma mulher. Kim chega mesmo a falar que não há nada de errado em fazer o mesmo que todos os outros. Ora, é claro que não, se justamente todos os outros concordam e aceitam essas ações. Errado, no contexto do filme, é fazer diferente e querer outras opções para si. A inversão dos papéis de gênero dentro do molde do gênero comédia-romântica é engraçadinho, mas inócuo.

No final das contas, Descompensada é uma comédia até divertida, mas funciona muito mais pelo carisma de Amy Schumer do que qualquer outro fator envolvido.

3estrelas

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Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Em E Não Sobrou Nenhum (anteriormente chamado de O Caso dos Dez Negrinhos), de 1939, um dos romances policiais mais famosos da escritora britânica Agatha Christie, dez desconhecidos se vêm confinados em uma casa isolada em uma ilha durante um fim de semana. Eles morrem um a um, gradativamente aumentando a tensão entre os sobreviventes, que precisam descobrir quem é o responsável pelos assassinatos. A premissa da cabana isolada não é nenhuma novidade, mas o diretor e roteirista Quentin Tarantino faz bom uso dela em Os Oito Odiados. Kurt Russel é John Ruth, um caçador de recompensas que transporta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), por quem são oferecidos dez mil dólares viva ou morta, dinheiro o bastante para aguçar a cobiça alheia. Em meio a uma nevasca, juntam-se a eles o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix ( Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife da cidade vizinha, Red Rock, além do guia da diligência, O.B Jackson (James Parks). Para abrigar-se da neve, param em uma estalagem onde estão o veterano dos confederados General Sandy Smithers (Bruce Dern), o mexicano Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o janota Joe Gage (Michael Madsen), formando, assim o grupo que dá nome ao filme.

western funciona como uma peça de teatro, com poucas mudanças de cenário e diálogos afiados desde o começo. De fato, os três primeiros atos se sustentam basicamente em torno deles e são a melhor parte do filme.

O uso largamente propagandeado de câmeras Panavision 70mm resultaram em uma fotografia muita bonita. Na abertura vemos a diligência cortando a neve, engolida pela natureza ao seu redor, enquanto os créditos rolam de maneira bastante tradicional, acompanhados da trilha sonora de Ennio Morricone.

A largura extrema da razão de aspecto favorece tomadas externas e a captura da paisagem como um personagem da trama. Por isso, depois que o filme se encerra na estalagem, ela poderia ser desperdiçada nas mãos de um diretor menos habilidoso, mas continua servindo ao propósito narrativo aqui. O cenário, construído com muitos móveis entulhados de pequenos objetos, é desvelado ao espectador em detalhes. Mas, mais que isso, essa razão permite a observação de ações paralelas durante os diálogos. A profundidade de campo também é explorada de maneira sugestiva e interessante e o terceiro ato, especificamente, tem uma sequência em que ela é utilizada de maneira alternada com o foco em dois personagens, em um momento de negociação que funciona muito bem.

As referências, como em outros filmes do diretor, são várias. Do grupo heterogêneo em No Tempo das Diligências, passando pelo ameaça interna, ambientação e alguns detalhes provenientes de O Enigma de Outro Mundo até chegar na auto-referência em relação a Cães de Aluguel.

São os diálogos, como já mencionado, que seguram e desenrolam lentamente o filme. O isolamento alimenta a tensão entre os personagens, que é pautada nos conflitos já existentes nesses Estados Unidos pós-Guerra da Secessão. Em cena há representantes da União e dos Confederados. Temos um homem da lei, militares e uma fora-da-lei. Há questões de classe social e também de migração. A sociedade americana está representada no pequeno grupo composto por oito pessoas. Mas o mais importante: ele escancara os conflitos étnico-raciais e de gênero. O racismo torna-se o foco principal. Homens brancos destratando homens negros, destratando homens latinos e todos odiando todos.

E nesse ponto Tarantino perde a mão. Parece que tentou rebater as críticas, especialmente do também diretor e roteirista Spike Lee, de que ele aborda questões raciais de maneira insensível. Mas o fez de maneira a demonstrar ainda mais a falta de cuidado com que trata o tema. O filme não precisa ter caráter de crítica social, mas é isso que ele propõe ao colocar frente a frente Warren, um ex-militar negro, e sulistas racistas e confederados. Na verdade, Tarantino já havia feito coisa similar ao confrontar um grupo de mulheres e um stalker misógino em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos Inglórios e um homem negro escravizado e liberto e escravistas em Django Livre.

Por isso a quantidade de vezes que seus personagens falam “nigger”, expressão de cunho racista, é desconfortável. Sim, todos eles são pessoas desagradáveis e o desenvolvimento deles torna isso claro. Mas as falas são colocadas sem crítica e sem ironia, permitindo uma ambiguidade perigosa ao texto.

O mesmo ocorre, em relação a gênero, especialmente com o tratamento conferido a Daisy. O fato de o diretor se apresentar como aliado de causas anti-racistas e feministas o exime de autocrítica? Daisy é apresentada como assassina, mas seus crimes não são deixados claros. Como outros, ela profere injúrias racistas, mas por estar acorrentada, não pode reagir àqueles ao seu redor de forma violenta. Mesmo que reagisse de alguma forma, é patente que todos os demais tem um prazer especial em dirigir seus atos violentos a ela. Os homens em cena repetidamente a chamam de vadia e empilham a violência física. Sangue é derramado, dentes se vão, seu rosto e cabelos são cobertos por pedaços de outros seres humanos, mas não é dado a ela a chance de se limpar ou de se apresentar humana como os demais. Há um certo prazer na forma lenta como ela é torturada. O mesmo ocorre com as demais personagens femininas, reveladas em flashback.

Aí também questiono porque o diretor tem tanto apelo entre o grande público e o que esse mesmo está entendendo sobre o que assiste em seus filmes. Toda cena que envolvia algum personagem duvidando que Warren, por ser negro, tivesse uma carta escrita de próprio punho por Lincoln, foi recebida com grandes gargalhadas pela plateia. Cada soco desferido no rosto de Daisy foi recebido com vibrações, risadas e exclamações dizendo “Esse é o Tarantino” e “Tarantino é foda”. Com o tratamento ambíguo dado ao texto, o discurso é comprado de forma literal e a tortura vira pornografia que deleita um espectador que compactua com os preconceitos e opressões apresentados.

Assim, o terceiro ato do filme se perde ao se transformar em um banho de sangue que não tem o propósito de comentar nada em específico: serve apenas como catarse para o isolamento dos personagens. Violência é esperada nos filmes de Tarantino, mas a falta de uma amarração faz com que ela enfraqueça o restante do texto. As alianças mudam e os comentários a respeito do racismo são esquecidos. E se nos seus filmes anteriores citados aqui o confronto final era a realização de um sonho de vingança violenta de uma minoria oprimida em relação aos seus opressores, a cena final desse torna-se uma aberração discursiva que não se encaixa nessa lógica. Homens brancos e negros, sulistas e nortistas, se juntam com o intuito de dar a última palavra e dominar a mulher, unidos no mesmo sorriso de escárnio. O que Tarantino tenta dizer? Qual é a conclusão que se espera que tenhamos diante dessa cena, no contexto de sua obra?

Os Oito Odiados não parece ter suas quase três horas de duração. Tem uma bela fotografia e uma trilha sonora competente, com atuação forte de todo o seu elenco, direção de arte impecável e diálogos bem escritos. O filme peca no terceiro ato porque Tarantino parece esquecer que o pastiche pós-moderno que lhe é tão querido só funciona com o uso de ironia para clarear os discursos. Mas mesmo assim é um filme interessante e visualmente bonito.

3,5estrelas

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