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Ave, César!

É fácil comparar Ave, César!, novo filme dos direitores e roteiristas Joel e Ethan Coen, com Barton Fink– Delírios de Hollywood (1991), seu quarto filme, já que ambos se passam na Capital Records, um estúdio fictício da era de ouro de Hollywood. O segundo abarca os anos de produções de segunda linha, na década de 1940, enquanto agora, na década de 1950, o estúdio cresceu e é apresentado como criador de estrelas e de sucessos de gênero, como uma MGM de um universo alternativo. Mas os vinte e cinco anos entre ambos os filmes parecem marcar também uma mudança no posicionamento dos irmãos em relação à indústria: Barton se via como um escritor brilhante que não fazia parte de Hollywood; já Eddie Manix (Josh Brolin), o atual protagonista, é um homem em uma jornada de auto-descobrimento que o leva a perceber seu amor por ela.

A trama se fragmenta em diversas histórias: o gatilho é o sequestro de Baird Whitlock (George Clooney), um astro trabalhando em um épico sandália e espada à lá Ben-Hur. Com isso somos apresentados a diversas estrelas, que podem ser comparadas à outras da época, como a nadadora dos filmes aquáticos DeeAnna Moran (Scarlett Johansson, emulando Esther Williams), o herói dos faroestes Hobie Doyle (Alden Ehrenreich), o dançarino dos musicais Burt Gurney (Channing Tatum, remetendo a Gene Kelly) e mesmo as colunistas de fofoca Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton, numa versão gêmea de Hedda Hopper). Burt, especificamente, é ridiculamente ótimo. Há muito que Tatum merece um filme musical de dança no estilo clássico para estrelar.

Por fim, o nosso protagonista, Eddie, um homem que todos os dias acorda sabendo que vai ter que limpar a sujeira do estúdio e de suas estrelas, para manter a imagem de todos os envolvidos limpa. Eddie está sendo tentado por um emprego sem esses problemas e com um pagamento melhor. Nesse ponto o filme também conversa com Um Homem Sério (2009), se levarmos em conta que Mannix é um homem preso a um rigoroso padrão bastante próprio e peculiar de moralidade nas suas escolhas, que incluem uma confissão por dia a um padre. Marcado pela culpa católica, ele sente remorso ao mentir para a esposa e também se preocupa em não ofender nenhuma fé ou crença, como mostra em uma ótima sequência que envolve uma reunião com lideranças religiosas diversas.

É importante notar que realmente existiu uma pessoa chamada Eddie Mannix na vida real, mas o filme não se propõe a funcionar como uma biografia dele. Na vida real ele tinha a mesma função, além de ser um dos produtores da MGM, e era notoriamente violento e abusivo, mas aqui ele é apenas um personagem cansado que vem a calhar de ter esse nome. Como outros protagonistas dos Coen, ele é uma pessoa comum, mas peculiar, que está em uma situação que o tira da normalidade. Mas não deixa de ser interessante, porque os demais personagens que funcionam como estrelas reais nesse mundo paralelo, possuem outros nomes.

Um dos aspectos mais divertidos do filme é a maneira como ele descortina a forma como os astros eram construídos: o caubói que era caubói na vida real, a moça não muito polida que se torna uma estrela inocente, o bufão que se apresenta como ator sério, entre outros. Além disso, se os atores são escolhidos pela imagem que projetam, não necessariamente são os melhores em sua arte: com isso inúmeras tomadas precisam ser feitas e o material bruto tedioso e de baixa qualidade é assistido religiosamente por Mannix todos os dias. Por outro lado, ocorre a mitificação da forma como as sequências são filmadas: cenas de nado e dança se desenrolam ininterruptamente em um só take, sem erros e sem mudanças de posição da câmera. É como se os Coen implicassem que o filme nascesse assim: de uma vez só.  As coreografias são lindas e os figurinos vistosos: ao final o espectador compra a ideia desses filmes fictícios apenas com um relance deles. Todos os problemas se resolvem na montagem: é aí que eles mostram que a magia acontece e que o que antes parecia medíocre se transforma em algo grandioso, que certamente agradará à plateia.

O elenco de peso faz toda diferença. São muitos personagens bons, que aparecem por pouco tempo e sobre quase todos eles só conhecemos o que está limitado pelo contexto espaço-temporal do filme, sem mais background. Mas eles funcionam muito bem e isso também diz muito sobre o minimalismo da escrita do autores, que injeta na história o suficiente para que ela se desenrole sem problemas.

Os irmãos Coen mais uma vez demonstram o cuidado com os detalhes e com a criação do mundo, usando de uma escrita precisa e afiada e criando uma película ao mesmo tempo muito engraçado e lindo de olhar. Apesar de mostrar o humor e a ironia que envolvem o processo de fazer um filme, o resultado se mostra reverente não só com o produto final, mas com a indústria. É uma obra que mostra todo o amor ao cinema, apesar ou por causa de suas peculiaridades. Está longe de ser um trabalho menor: pelo contrário, é perceptível a maturidade com que refletiram sobre passado e presente do cinema no filme. Por fim, é uma declaração a respeito deles mesmos e um atestado de que, depois desses anos todos ocupando uma posição estranha no sistema hollywoodiano, eles estão à vontade.

P.S: Spoiler: É engraçado demais que o fato que arruína uma notícia para a Hedda Hopper alternativa é que um ator justamente seja comunista. Ironia finíssima.

4,5estrelas

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Descompensada (Trainwreck, 2015)

Descompensada é o primeiro filme do diretor Judd Apatow que não é roteirizado por ele mesmo. Dessa vez a escrita fica por conta de Amy Schumer, comediante com a qual não tive contato anterior para saber como é seu trabalho solo. Apatow, por sua vez, cria comédias com as quais não consigo ter muita identificação, então acho que não sou exatamente o seu público alvo. O resultado da união entre os dois é um filme que claramente tem dois autores. O que chama mais atenção é que apesar do roteiro ser de Schumer, a estrutura é similar a de outros trabalhos do diretor: protagonista que não quer encarar a vida adulta e que por algum dispositivo narrativo agora precisa fazer isso. A diferença é que dessa vez a personagem principal é mulher.

Amy (Amy Schumer) é jornalista e leva uma vida agitada de festas e relações casuais com homens. Ela bebe, fuma maconha e não se apega a ninguém. Um flashback mostra seu pai, Gordon (Colin Quinn) ensinando ela e a irmã mais nova, Kim (interpretada quando adulta por Brie Larson) que a monogamia é uma ilusão que não funciona, ensinamento que leva para a vida. Até que Dianna (Tilda Swinton), sua editora, lhe incumbe a tarefa de escrever uma reportagem sobre praticantes de esporte e para isso entrevistar Aaron (Bill Hader), um médico com famosa clientela composta por atletas, acompanhada da possibilidade de uma promoção.

Amy é uma personagem que, por vezes, é bastante desagradável, com atitudes que magoam as pessoas ao seu redor. Mas graças ao carisma de Schumer e ao próprio espírito espontâneo da personagem, ela funciona. O elenco, de uma forma geral, também funciona bem no coletivo. Donald, o estagiário interpretado por Ezra Miller, destoa, mas isso acontece porque suas cenas são escritas de maneira constrangedora. Já John Cena, que interpreta Steve, um interesse amoroso de Amy, tem bons momentos cômicos e a química entre ele e a protagonista funciona. As pequenas participações de LeBron James, Marisa Tomei e Daniel Radcliffe também são muito boas.  A temática da repórter que almeja escrever artigos sérios, mas precisa de uma última reportagem banal para consegui-lo já foi usada em outros filmes: sem pesquisa me veio a memória Como Perder Um Homem em 10 Dias, O Diabo Veste Prada Nunca Fui Beijada, que em maior ou menos grau se encaixam nesse padrão. Mas a reportagem não é o foco da trama aqui e a semelhança acaba se mostrando desimportante.

O maior problema do filme é a forma conservadora como os hábitos de Amy são tratados. Todos ao seu redor querem mudá-la: aparentemente beber, fazer sexo casual, não querer um relacionamento fixo e nem filhos não seriam escolhas adequadas para uma mulher. Kim chega mesmo a falar que não há nada de errado em fazer o mesmo que todos os outros. Ora, é claro que não, se justamente todos os outros concordam e aceitam essas ações. Errado, no contexto do filme, é fazer diferente e querer outras opções para si. A inversão dos papéis de gênero dentro do molde do gênero comédia-romântica é engraçadinho, mas inócuo.

No final das contas, Descompensada é uma comédia até divertida, mas funciona muito mais pelo carisma de Amy Schumer do que qualquer outro fator envolvido.

3estrelas

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Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015)

Em E Não Sobrou Nenhum (anteriormente chamado de O Caso dos Dez Negrinhos), de 1939, um dos romances policiais mais famosos da escritora britânica Agatha Christie, dez desconhecidos se vêm confinados em uma casa isolada em uma ilha durante um fim de semana. Eles morrem um a um, gradativamente aumentando a tensão entre os sobreviventes, que precisam descobrir quem é o responsável pelos assassinatos. A premissa da cabana isolada não é nenhuma novidade, mas o diretor e roteirista Quentin Tarantino faz bom uso dela em Os Oito Odiados. Kurt Russel é John Ruth, um caçador de recompensas que transporta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), por quem são oferecidos dez mil dólares viva ou morta, dinheiro o bastante para aguçar a cobiça alheia. Em meio a uma nevasca, juntam-se a eles o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e Chris Mannix ( Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife da cidade vizinha, Red Rock, além do guia da diligência, O.B Jackson (James Parks). Para abrigar-se da neve, param em uma estalagem onde estão o veterano dos confederados General Sandy Smithers (Bruce Dern), o mexicano Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth) e o janota Joe Gage (Michael Madsen), formando, assim o grupo que dá nome ao filme.

western funciona como uma peça de teatro, com poucas mudanças de cenário e diálogos afiados desde o começo. De fato, os três primeiros atos se sustentam basicamente em torno deles e são a melhor parte do filme.

O uso largamente propagandeado de câmeras Panavision 70mm resultaram em uma fotografia muita bonita. Na abertura vemos a diligência cortando a neve, engolida pela natureza ao seu redor, enquanto os créditos rolam de maneira bastante tradicional, acompanhados da trilha sonora de Ennio Morricone.

A largura extrema da razão de aspecto favorece tomadas externas e a captura da paisagem como um personagem da trama. Por isso, depois que o filme se encerra na estalagem, ela poderia ser desperdiçada nas mãos de um diretor menos habilidoso, mas continua servindo ao propósito narrativo aqui. O cenário, construído com muitos móveis entulhados de pequenos objetos, é desvelado ao espectador em detalhes. Mas, mais que isso, essa razão permite a observação de ações paralelas durante os diálogos. A profundidade de campo também é explorada de maneira sugestiva e interessante e o terceiro ato, especificamente, tem uma sequência em que ela é utilizada de maneira alternada com o foco em dois personagens, em um momento de negociação que funciona muito bem.

As referências, como em outros filmes do diretor, são várias. Do grupo heterogêneo em No Tempo das Diligências, passando pelo ameaça interna, ambientação e alguns detalhes provenientes de O Enigma de Outro Mundo até chegar na auto-referência em relação a Cães de Aluguel.

São os diálogos, como já mencionado, que seguram e desenrolam lentamente o filme. O isolamento alimenta a tensão entre os personagens, que é pautada nos conflitos já existentes nesses Estados Unidos pós-Guerra da Secessão. Em cena há representantes da União e dos Confederados. Temos um homem da lei, militares e uma fora-da-lei. Há questões de classe social e também de migração. A sociedade americana está representada no pequeno grupo composto por oito pessoas. Mas o mais importante: ele escancara os conflitos étnico-raciais e de gênero. O racismo torna-se o foco principal. Homens brancos destratando homens negros, destratando homens latinos e todos odiando todos.

E nesse ponto Tarantino perde a mão. Parece que tentou rebater as críticas, especialmente do também diretor e roteirista Spike Lee, de que ele aborda questões raciais de maneira insensível. Mas o fez de maneira a demonstrar ainda mais a falta de cuidado com que trata o tema. O filme não precisa ter caráter de crítica social, mas é isso que ele propõe ao colocar frente a frente Warren, um ex-militar negro, e sulistas racistas e confederados. Na verdade, Tarantino já havia feito coisa similar ao confrontar um grupo de mulheres e um stalker misógino em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos Inglórios e um homem negro escravizado e liberto e escravistas em Django Livre.

Por isso a quantidade de vezes que seus personagens falam “nigger”, expressão de cunho racista, é desconfortável. Sim, todos eles são pessoas desagradáveis e o desenvolvimento deles torna isso claro. Mas as falas são colocadas sem crítica e sem ironia, permitindo uma ambiguidade perigosa ao texto.

O mesmo ocorre, em relação a gênero, especialmente com o tratamento conferido a Daisy. O fato de o diretor se apresentar como aliado de causas anti-racistas e feministas o exime de autocrítica? Daisy é apresentada como assassina, mas seus crimes não são deixados claros. Como outros, ela profere injúrias racistas, mas por estar acorrentada, não pode reagir àqueles ao seu redor de forma violenta. Mesmo que reagisse de alguma forma, é patente que todos os demais tem um prazer especial em dirigir seus atos violentos a ela. Os homens em cena repetidamente a chamam de vadia e empilham a violência física. Sangue é derramado, dentes se vão, seu rosto e cabelos são cobertos por pedaços de outros seres humanos, mas não é dado a ela a chance de se limpar ou de se apresentar humana como os demais. Há um certo prazer na forma lenta como ela é torturada. O mesmo ocorre com as demais personagens femininas, reveladas em flashback.

Aí também questiono porque o diretor tem tanto apelo entre o grande público e o que esse mesmo está entendendo sobre o que assiste em seus filmes. Toda cena que envolvia algum personagem duvidando que Warren, por ser negro, tivesse uma carta escrita de próprio punho por Lincoln, foi recebida com grandes gargalhadas pela plateia. Cada soco desferido no rosto de Daisy foi recebido com vibrações, risadas e exclamações dizendo “Esse é o Tarantino” e “Tarantino é foda”. Com o tratamento ambíguo dado ao texto, o discurso é comprado de forma literal e a tortura vira pornografia que deleita um espectador que compactua com os preconceitos e opressões apresentados.

Assim, o terceiro ato do filme se perde ao se transformar em um banho de sangue que não tem o propósito de comentar nada em específico: serve apenas como catarse para o isolamento dos personagens. Violência é esperada nos filmes de Tarantino, mas a falta de uma amarração faz com que ela enfraqueça o restante do texto. As alianças mudam e os comentários a respeito do racismo são esquecidos. E se nos seus filmes anteriores citados aqui o confronto final era a realização de um sonho de vingança violenta de uma minoria oprimida em relação aos seus opressores, a cena final desse torna-se uma aberração discursiva que não se encaixa nessa lógica. Homens brancos e negros, sulistas e nortistas, se juntam com o intuito de dar a última palavra e dominar a mulher, unidos no mesmo sorriso de escárnio. O que Tarantino tenta dizer? Qual é a conclusão que se espera que tenhamos diante dessa cena, no contexto de sua obra?

Os Oito Odiados não parece ter suas quase três horas de duração. Tem uma bela fotografia e uma trilha sonora competente, com atuação forte de todo o seu elenco, direção de arte impecável e diálogos bem escritos. O filme peca no terceiro ato porque Tarantino parece esquecer que o pastiche pós-moderno que lhe é tão querido só funciona com o uso de ironia para clarear os discursos. Mas mesmo assim é um filme interessante e visualmente bonito.

3,5estrelas

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A Very Murray Christmas (2015)

A Netflix continua minerando os dados de seus usuários e, de alguma forma, chegou conclusão que as pessoas que se interessam por filmes da Sofia Coppola e Bill Murray (posssivelmente Encontros e Desencontros?) também gostam de especiais de Natal. É isso mesmo? Bom, de qualquer forma o serviço de streaming produziu A Very Murray Christmas, um musical de temática natalina dirigido por Coppola e estrelado por Murray. O ator interpreta uma versão dele mesmo, rabugento e antissocial, que faria um show especial, mas vê sua platéia vazia graças a uma enorme tempestade de neve em Nova York. Isolado no hotel em que o espetáculo ocorreria juntamente com alguns hóspedes e funcionários, ele resolve reunir todos no salão para que possam banquetear com as comidas de um casamento que foi cancelado.

O que se segue é um constrangedor karaokê de pessoas famosas. O elenco impressiona: Chris Rock, Amy Poehler, Maya Rudolph, Rashida Jones, Michael Cera, George Clooney, Jason Schwartzman, entre outros, intercalam gags sem timing cômico com canções de Natal.

Com o desenrolar do filme a dinâmica entre os convidados parece assentar um pouco melhor, até chegar em uma sequência de sonho em que Murray faz um dueto com Miley Cyrus. As músicas escolhidas são Sleigh Ride, Noite Feliz Let it Snow e o resultado é o melhor número dentre os apresentados. Mas logo em seguida vem a embaroçosa Santa Claus Wants Some Lovin, com George Clooney e tudo volta ao desconforto anterior.

É possível que muitas pessoas apreciem músicas natalinas. Elas costumam carregar uma certa melancolia que casa com o ar nostálgico vinculado ao final de ano. Especiais de Natal recheados de celebridades tentando conferir um ar de carinho e união às Festas são tradicionais. Tentar fazer graça com esse tipo de programa e de canção pode ser bastante difícil e A Very Murray Christmas falha ao tentar satiriza-los sem alcançar a notas certas de humor, tornando-se, por fim, quase tão enfadonho quanto o material original.

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Magic Mike XXL (2015)

Sequência do filme Magic Mike, de 2012, dirigido por Steven Soderbergh, Magic Mike XXL chegou aos cinemas com direção de Gregory Jacobs e com Soderbergh responsável pela fotografia. O primeiro, parcialmente baseado nas experiências do ator Chaning Tatum como dançarino, atraiu uma multidão aos cinemas e arrecadou mais de 15 vezes o que custou, nos Estados Unidos. A sequência, portanto era certa. Acontece que o público que procurou um filme protagonizado por homens strippers (desculpe, male entertainers”)  encontrou nele uma tentativa de romance convencional, um conto de alerta sobre o mundo das drogas nos bastidores do mercado do sexo e um retrato da exploração da mão de obra no mesmo. Os envolvidos tentaram criar um “filme sério”, apesar da temática. Foi um bom, filme? Foi. Mas talvez não exatamente o que era esperado.

Já essa sequência, liberta dessas amarras, parece ter levado mais em conta as expectativas do público: Mike (Channing Tatum) não está mais namorando e os negócios na indústria moveleira, pela qual ele abandonou os palcos no final do primeiro filme, não vão tão bem como o esperado. Dallas (Matthew McConaughey) foi embora do país. Mike, Big Dick Richie (Joe Manganiello), Tarzan (Kevin Nash), Tito (Adam Rodriguez) e Ken (Matt Bomer) estão de volta para uma última apresentação em uma convenção de strippers e decidem que ela vai refletir suas reais vontades, afinal, nenhum deles nunca quis ser um bombeiro ou um policial. O filme possui uma estrutura de road movie aliado ao de assalto ao banco, em que cada personagem trabalha com seu forte pelo bem do grupo. Dessa vez o moralismo presente no primeiro foi deixado de lado: o bom humor predomina e o ponto central do filme são as cenas de dança. Dança, sim, pois os personagens mais parecem dançarinos em suas performances do que strippers propriamente ditos. Em sua jornada, mais importa a interação entre o grupo e a alegria em se apresentar do que a performance em si. Talvez por isso os números finais, discutidos com tanto carinho ao longo do filme, não sejam os melhores: isso não é mais relevante.

O ponto forte do filme é como ele mostra seus protagonistas não mais soterrados em problemas de trabalho, mas encarando-o com bom humor e como uma possibilidade de proporcionar alegria e auto-estima às mulheres. Em determinado momento, dois personagens conversam jocosamente sobre serem como curandeiros. Não é por acaso que a melhor cena, que já está no trailer, é aquela em que Richie, inseguro quanto às suas próprias capacidade, é desafiado pelos demais a fazer uma mulher sorrir. A escolhida trabalha no caixa de um mercadinho de beira de estrada e a técnica é uma dança ao som de Backstreet Boys, realizada enquanto os demais incentivam e comemoram do lado de fora da vitrine. Em outro momento do filme, os rapazes invadem, sem saber, um encontro de amigas, todas mulheres mais velhas, com idade para ter filhas adolescentes, lideradas por Nancy (Andie MacDowell). Nesse momento o foco da conversa é sobre o pouco cuidado que os homens de suas vidas tem com o prazer e a expressão da sexualidade delas. O tempo inteiro o grupo fala sobre a necessidade de dar às mulheres o que elas querem.

Se por um lado a abordagem nesse sentido é divertida e bastante aberta e o grupo sempre fala que é preciso pensar nas mulheres e nas suas vontades, impressiona o quão pouca voz elas realmente tem. Com exceção da apresentadora Rome (Jada Pinkett Smith), de Zoe (Amber Heard), uma fotógrafa que encontram pelo caminho e a já citada Nancy, poucas das mulheres retratadas se expressam. Isso em uma obra que buscou mostrar diversidade étnica, de idade e de forma física entre elas.

Rome é uma boa substituta para Dallas e tem boa desenvoltura e expressividade. (É preciso ter nome de cidade para ser mestre de cerimônias?). Quando adentramos em seu clube, por exemplo, ela discursa sobre como suas frequentadoras são adoradas como deusas e rainhas: assim mesmo, na voz passiva. A essa massa de mulheres sem nome não é dado o momento de expressar seus desejos reais: são os performers que decidem o que elas querem e, na visão deles, parece que toda mulher quer que um homem a jogue no chão e rebole a pélvis muito próximo de seu rosto. Muitas dessas espectadoras são utilizadas como acessórios ou mesmo móveis (mesas e cadeiras) de apoio nos números dos homens. Em uma cena perto do final, Zoe é chamada por Mike para cima do palco e mesmo tendo negado veementemente, é levada até lá e literalmente jogada ao ar e rodopiada no chão em um número bastante acrobático. Se os strippers  devem fazer o que as mulheres querem, por que não perguntam o que seria isso e não respeitam uma negativa?

Por outro lado, a trama se preocupa em desvelar o lado romântico dos rapazes. Big Dick Richie quer encontrar uma companheira que aceite a anatomia avantajada que lhe conferiu o apelido; Tarzan afirma que largaria sem pestanejar essa profissão se encontrasse uma mulher que quisesse se casar com ele; Mike lida com a decepção do fim do relacionamento anterior; e Richie, novamente tem como sonho fazer uma apresentação em que simula um casamento no palco. Essa última apresentação seria, como as anteriores, um representativo do que as mulheres que os assistem gostariam de ter. Mas os demais itens existem porque é isso que os responsáveis pelo filme imaginam que o público feminino dele deseja: um lado sensível e romântico para nossos heróis performáticos. Mas será?

Em um ano em que o filme 50 Tons de Cinza gerou tanta discussão e muito se falou sobre consentimento, Magic Mike XXL vem sendo aplaudido por uma abordagem feminista. A variedade mulheres representadas é uma surpresa agradável em um filme protagonizado por um grupo numeroso de homens. A forma como elas são incentivadas a explorarem sua sexualidade e seus desejos de maneira aberta, ao mesmo tempo em que os homens, ainda que em um contexto heteronormativo, são repreendidos por não se preocuparem com o prazer delas, é bastante positiva. Mas em se tratando se “fazer a vontade das mulheres”, talvez faltou a percepção de que “mulheres” é um grupo heterogêneo, que implica nos mais diversos desejos, que podem ou não ser abarcados pelo que foi mostrado no filme. De qualquer forma, as que aparecem em cena não são perguntadas sobre suas vontades e nem dão consentimento explícito, a não ser que se considere que ele seja expresso na compra do ingresso do show, aceitando o que dele vier. O irônico disso tudo é que se “as mulheres”, ao invés de serem adoradas (na voz passiva), se expressassem (na voz ativa), talvez os roteiristas, os produtores, o diretor, os atores principais (todos homens) pudessem ter uma melhor percepção da realidade nesse sentido.

Dito isso, quando se preocupa menos em pregar um discurso que nem sempre é capaz de seguir e mais em divertir sem amarras, Magic Mike XXL é um um filme delicioso. A dinâmica do relacionamento entre os cinco personagens é ótima, ainda que alguns merecessem mais desenvolvimento. O humor é leve e funciona como deve e Chaning Tatum dança muito bem. O controle que ele possui sobre sua própria fisicalidade é impressionante. O tom desse filme está mais de acordo com a temática escolhida. Quem sabe em um verão futuro não seja lançado um Magic Mike 3 que confira mais agência às suas personagens femininas?

3,5estrelas

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