[43ª Mostra de São Paulo] Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Hector Babenco é um cineasta argentino que atuou no Brasil com grandes sucessos, tanto quanto se trata de público, quanto crítica. O filme foi premiado como o Melhor Documentário sobre Cinema no Festival de Veneza, mas não necessariamente fala sobre a obra do diretor, como tal fato pode levar a entender. Dirigido por Bárbara Paz, que também foi sua companheira nos últimos anos de vida, temos um recorte específico do homem por trás da arte.

Babenco estava morrendo. Assim mesmo, no gerúndio. Foram décadas entre o diagnóstico (e o prognóstico negativo) e a derradeira despedida. Em cena, ele mesmo brinca com o fato de que, como uma fênix, sempre ressuscita, até o dia em que não mais o fará. E é em meio a esse processo que Paz resolve registrá-lo, próximo e humano.

Assim aprendemos que se fixou no Brasil porque aqui a realidade, para ele, supera a ficção mais do que na Argentina. Também contou do êxito com O Beijo da Mulher Aranha, em 1985, quando se descobriu doente, o trabalho posterior com Meryl Streep e Jack Nicholson e a forma como filmou Brincando nos Campos do Senhor, lançado em 1991, com mais de 40 pontos espalhados pelo corpo.

Mas no final, pouco disso importa para o documentário. Filmado em preto e branco, retratando com realismo o rosto marcado de Babenco, Paz nos mostra os pequenos momentos quase banais da rotina do casal, como quando ele, impaciente mas carinhosamente a ensina a fazer o foco na câmera ou quando a mão dela dança em cima da dele, parada. Além disso revela o amor dele pelo cinema até o final, quando cantarola Cheek to Cheek, da trilha de O Picolino, no seu quarto do hospital ou quando realiza o desejo de filmar uma última cena de Bárbara, literalmente cantando na chuva.

Babenco é um longo e afetuoso adeus, filtrado pelo amor de sua autora pelo seu retratado. Nele somos confrontados com o desejo pelos pequenos e últimos prazeres, da comida com sabor, dos encontros com amigos, da possibilidade de contar histórias para viver. Com a câmera fechada no rosto de seu personagem, estamos próximos a ele. Ainda assim, é possível que ao fim do documentário não tenhamos aprendido mais nem sobre o diretor nem sobre sua obra. Porque não é disso que se trata. Babenco: Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer Parou é um belo exercício, por vezes tímido e hesitante, mas ao mesmo tempo intenso e carinhoso, sobre o morrer compartilhado.

Nota: 4 de 5 estrelas
Share

[43ª Mostra de São Paulo] Honeyland (2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Roteirizado e dirigido por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, Honeyland é um documentário que mergulha na rotina de Hatidze, uma mulher que vive isolada em uma aldeia no interior da Macedônia, morando com sua mãe em uma casa de pedra. O filme, vencedor do Grande Prêmio do Júri da seção World Cinema de documentários no Festival de Sundance e o candidato da Macedônia do Norte a uma vaga no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, destaca a forma de subsistência de sua protagonista, que cria abelhas e vende mel. Certo dia uma família composta por pai, mãe e sete filhos se muda para o terreno ao lado, com suas 150 vacas e o desejo de também coletar a substância açucarada. A dupla de diretores nos transporta para esse local, nos inserindo nos pequenos detalhes da vida frugal que sua protagonista leva. É curioso divagar como conseguiram encontrá-la para chegar a essa projeto.

Hatidze, a princípio, se alegra com a mudança. Ela fica feliz com o fato de eles serem turcos como ela, gosta da convivência com as crianças e ensina o manejo de abelhas. Mas logo fica claro que as diferenças no modo de vida são grandes demais. Ela se integra à natureza ao seu redor com extremo respeito, de uma forma quase simbiótica. A delicadeza não é reservada apenas ao seu cão e seus gatos, como geralmente se dão as relações humanas, que privilegiam animais domésticos. Ela ajuda uma tartaruga a sair de uma concavidade, usa pequenas folhas para retirar abelhas da água e evitar o seu afogamento, espanta lobos sem feri-los e, principalmente, cria as abelhas de uma maneira que não é predatória.

Sua técnica, ensinada aos vizinhos, consiste em deixá-las encher bem os favos, para só assim retirá-los; e sempre deixar pelo menos metade para elas, para que tenham o que comer e não matem uma à outra. Eles, por sua vez, logo se interessam pelo valor financeiro do mel coletado e, diante do interesse de compradores, não se furtam de colhê-lo muito cedo e de deixar muito pouco para a alimentação de suas produtoras. O valor monetário do mel não parece interessar tanto Hatidze, ainda que consiga sustentar seu modo de vida frugal com tranquilidade. Fica feliz em poder comprar bananas e uma tinta de cabelo e ainda ganhar um leque para sua mãe após uma conversa amigável que entabula com um vendedor. A brutalidade das ações dos vizinhos se estende para a relação diária com as vacas e também entre os humanos, que se agridem verbalmente com constância. Já ela por sua vez, cuida de sua mãe idosa e, embora aconteçam desentendimentos, o carinho está sempre presente.

Com sua camisa amarela cor de mel e sua saia floral, junto com o lenço colorido amarrado aos cabelo, Hatidze é uma figura marcante, e a fotografia a captura integrada ao espaço natural, seja aparecendo minúscula na imensidão do campo, seja de perfil no lindo céu do entardecer, com as cores do céu marcadas contra o negrume do contorno. Ela é uma figura forte, ainda que sua força venha justamente de sua brandura. Honeyland é um documentário contemplativo e imersivo cuja beleza, em grande medida, provém de sua protagonista.

Nota: 4 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
Share

[43ª Mostra de São Paulo] Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela (Merata: How Mum Decolonised the Screen, 2019)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade.

Merata Mita foi uma mulher fascinante. Além de ativista, vocálica quando se tratava, principalmente, das questões de gênero e dos direitos indígenas, foi a primeira mulher maori a dirigir um longa metragem na Nova Zelândia, década de 1970, isso enquanto criou seus seis filhos. Seu trabalho rompeu as barreiras nacionais e a tornou conhecida em todo o mundo. O documentário que carrega seu nome, Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela, foi dirigido por seu filho mais novo, Hepi Mita.

A narração em off do diretor estreante já avisa: todas as imagens dos filmes dela, para ele, são como memórias, porque estava lá quando elas foram registradas. Esse filme, por sua vez, se beneficia da enorme quantidade dessas imagens, sejam caseiras, sejam dos filmes realizados pela cineasta, a que o jovem teve acesso, tanto por trabalhar como arquivista como pela proximidade familiar.

Merata, em imagens de arquivo, fala do desejo por indigenizar as imagens e de não fugir de temas espinhosos do país. Para ela era necessário abordar assuntos que dividiam a Nova Zelândia, especialmente o racismo contra os maori e a brutalidade policial, uma vez que esses assuntos também dizem respeito não só a eles, mas a todo lugar que foi colonizado e tudo lugar colonizador, como um legado com o qual ainda é preciso lidar.

Justamente pelo enorme interesse que o trabalho da diretora desperta é que o documentário frustra, em certa medida, quem o assiste. Talvez por não ter o distanciamento que precisaria para lidar com o seu objeto, o diretor não deixa claro aspectos cronológicos e parte da carreira dela, especialmente em Hollywood, em que pouco contexto foi dado para o que ela estava realizando.

Por outro lado, naturaliza seu trabalho como se não fosse fruto de um esforço intelectual da parte dela e nascesse da forma como foi apresentado ao mundo. A maternidade, por sua vez, é enaltecida constantemente por ele e seus irmãos, que reforçam o fato de que ela gostava de ser uma mãe. Tal fato deve ser verdade, mas é colocado quase como contraponto a sua carreira, o que faz com que a proposta do filme por vezes pareça a auto-sabotagem.

Por sorte, Merata: Como Minha Mãe Descolonizou a Tela se vale de uma protagonista que desperta interesse o suficiente para se sobrepôr aos pequenos problemas de execução dele mesmo. É impossível não sair do filme querendo ver cada um dos filmes de Merata.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Share

[43ª Mostra de São Paulo] Cães do Espaço (Space Dogs, 2018)

Esta crítica faz parte da cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 17 e 30 de outubro na cidade. 

Com uma narração em off que soa impessoal e distante e imagens criadas para diretamente para o documentário, somos apresentados à história de Laika, a cachorra vira-lata que foi o primeiro ser vivo a ser enviado ao espaço. O programa espacial russo e o estadunidense lutavam para surpassar um ao outro, estabelecendo marcos na corrida espacial resultante de Guerra Fria. Foi no espaço que cachorrinha faleceu e sua capsula queimou quando entrou novamente na atmosfera. Seu corpo incendiado. A voz informa que diz a lenda que seu fantasma caiu sobre a terra e hoje Vagueia pelas ruas de Moscou.

O documentário escrito e dirigido por Elsa Kremser e Levin Peter se debruça sobre o uso que ambos os países, com foco na Rússia, fizeram de animais para experimentos científicos visando o domínio do Cosmos. Duplamente premiado no Festival de Locarno desse ano, Ele une imagens de arquivos de registros dos laboratórios do programa espacial com filmagens atuais das ruas de Moscou e seus habitantes caninos, criando um paralelo entre as torturas infligidas então e o descaso de agora.

A narração distante que eventualmente reaparece, trata as cenas descritas com um distanciamento científico digno de um antigo documentário da National Geographic, contrastando com a beleza sutil com que os animais são fotografados. Os cachorros, sem tutela, andam em grupos, se ajudando mas também competindo entre si. Bebem água da chuva de poças sujas, dormem encostados a paredes de edifícios, pouca comida encontram e precisam caçar outros animais.

Dos animais das imagens de arquivos descobrimos que, nos Estados Unidos, as experimentações eram feitas com primatas , muito próximos de nós, que recebiam apenas números, e não nomes, para que as pessoas não se afeiçoassem. Na União Soviética, diversos cachorrinhos vira-latas foram recolhidos da rua e submetidos a treinamentos extenuantes para selecionar os aptos a ir ao espaço. Com pelos raspados, tubos e sondas os perfurando, foram lançados e os que sobreviveram colocados para reproduzir como forma de demonstrar a sua integridade física e gerar filhotes cósmicos.

A paralelo feito entre os dois momentos é pungente e perturbador. Diversas cenas causam incômodo, tristeza e mesmo indignação. O acerto do documentário é conseguir estabelecer claramente os objetivos egoístas da humanidade e as relações entabuladas com outras espécies marcadas por um especismo latente. Animais domésticos são abandonados e animais exóticos são explorados, tudo em um senso de superioridade humana.

Nota: 4 de 5 estrelas
Share

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

A cidade de Toritama, no agreste pernambucano, tem apenas 40 mil habitantes mas produz cerca de 20% do jeans nacional, o que equivale a 20 milhões de peças por ano. Apelidada de capital do jeans, ela é a locação para o documentário Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019), dirigido por Marcelo Gomes. Com uma narração em off que dialoga com quem assiste, o diretor retrata com proximidade e não sem espanto alguns aspectos da realidade econômica local.

Segundo ele, décadas antes visitara a cidade junto com seu pai, que trabalhava para o governo. Tanto o pai como a mãe são nascidos na região. O que existia, então, era milho, feijão, bode, pouca gente na rua e um grande silêncio que marca a vida no interior. Hoje o rugir das máquinas de costura toma conta de tudo e o transeunte distraído é saudado com um enorme outdoor fincado no chão seco, que contrasta com as pequenas casas do local. Motos carregadas com pilhas de jeans e carrinhos puxados a mão por seus responsáveis correm pelas ruas poeirentas. Salas e garagens se transformam em pequenas fábricas, chamadas de facções, onde homens e mulheres se enfileiram realizando seus movimentos repetitivos, quase como que num transe. Em um momento oportuno, a voz do narrador-diretor se cala e ele deixa a câmera falar: os bebês ficam ao chão entre as pernas dos adultos e um menino se estica querendo brincar com uma máquina, como se estivesse se preparando, com curiosidade, para sua vida futura.

Toritama é um oásis do que há de pior no capitalismo. Não aquele desfrutado em países do norte global por poucos CEOs: aquele real, vivido na pele da classe trabalhadora nos países em desenvolvimento, marcado pela precarização. As pessoas retratadas aprendem os discursos e estão prontas a repeti-los: aquela vida é ótima, cada um é seu próprio chefe, todos ganham pela própria produção. Mas ninguém ali tem vínculo empregatício, em caso de doença ou mesmo lesão (afinal, é muito esforço repetitivo), não há qualquer garantia. As pessoas se mostram orgulhosas de serem, nas suas palavras, donas do próprio tempo. Mas a realidade é que vizinhos concorrem com vizinhos e a solução é trabalhar 12, 14 horas por dia, 7 dias por semana, para dar conta da demanda, ganhando alguns centavos por peça costurada, sem que, na prática, sobre tempo para si. Idosos, que deveriam estar aproveitando o descanso de uma vida de trabalho, executam suas tarefas nas calçadas em frente às suas casas. O cenário lembra o ideário das oficinas da revolução industrial na época do vapor, mas é vendido como o ápice da liberdade profissional.

A demanda por mais mão-de-obra atrai trabalhadores de outros locais e começa a se formar novos núcleos de habitações precárias no cinturão da cidade, em áreas sem urbanização. Com uma calça jeans pronta sendo vendida a 30 reais nas feiras da cidade, é de se questionar o que acontecerá com esses moradores quando outro lugar conseguir pagar ainda menos a seus trabalhadores para produzir calças a 29 reais, estourando essa bolha.

A vida dedicada, todos os dias, a uma fábrico do qual não se desfruta explode catarticamente na possibilidade de, uma vez ao ano, viajar para a praia para passar o carnaval. Não é um desejo, é uma necessidade, como se a ação fizesse valer o ano inteiro de trabalho. Nesse momento, Gomes divide sua câmera com Leo, um dos interlocutores do documentário, e compartilhamos desse momento de descanso. O Carnaval, aqui, ao contrário do que indicado por Roberto DaMatta, não chega a ser um ritual de rebelião contra a ordem estabelecida: é, antes, uma necessidade que disfarça um pedido de socorro na rotina estafante.

Marcelo Gomes, acostumado aos filmes ficcionais, entrega um documentário intenso, que não julga as pessoas retratadas, mas parece jogar para quem o assiste as reflexões necessárias. Com imagens lindas e um cuidado enorme ao retratar as pessoas, Estou me Guardando é angustiante e revela a perversidade de um sistema de produção que se disfarça de liberdade.

4,5 de 5 estrelas
Share