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Era o Hotel Cambridge (2016)

O artigo sexto de nossa Constituição Federal estipula que “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a  segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. O Estado tem a obrigação de garantir que sua população tenha moradia, mas o que fazer quando os governos não só se recusam a fazê-lo, como reagem no sentido de silenciar movimentos que tentar garantir seus direitos? Essa é uma das muitas questões levantadas em Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé.

Trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, Caffé registra o cotidiano dos moradores do Hotel Cambridge, edifício abandonado no centro da cidade de São Paulo, destacando as vivências caleidoscópicas de alguns personagens que dão corpo à experiência coletiva. A rotina, as reuniões as tarefas e momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Dentre as personagens, o destaque é Carmem, líder real da Frente de Luta por Moradia (FLM), que aqui tem sua força coordenadora descortinada para o público. Mas a narrativa é polifônica: não só se pauta em muitas vozes, como é perceptível a colaboração dos participantes com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo (José Dumont), que organiza um espécie de vlog  da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Não há um foco pois o protagonista é a luta, sendo cada um apenas uma faceta dela.

“A Propriedade é um roubo” (São Paulo, 2009, foto por Isabel Wittmann)

Nesse sentido o filme se fortalece ao somar às reivindicações dos brasileiros sem acesso a uma casa à dos estrangeiros e refugiados, com suas particularidades. O que os impede de ter um lar muitas vezes é a burocracia e a falta de acolhimento no país onde escolheram morar. Como afirmou Carmem no making of, a questão dos refugiados é a questão decisiva do século XXI. Além disso, muitos lidam com famílias distantes, com a dificuldade do idioma e com as lembranças de guerra e destruição que trazem na bagagem.

Mas se há guerra em suas pátrias, há também guerra no Brasil, como bem frisa um dos personagens. A guerra cotidiana pelo que deveria ser um direito é muitas vezes ignorada por grande parte da população privilegiada, mas é responsável por um dos momentos mais intensos do filme: a chamada “festa”, quando durante  a noite, liderados por Carmem, grupos de pessoas invadem prédios abandonados para ocupa-los. A reação´desencadeada é de truculência: a polícia é acionada utilizando todo seu aparato, com bombas e tiros, agindo como cão de guarda de uma propriedade que não lhes pertence e que não serve a ninguém, à não ser à especulação imobiliária e à consequente gentrificação. Toda essa sequência transmite um enorme senso de urgência e, porque não, de absurdo. E em meio ao caos, os próprios futuros moradores tratam de estabelecer a ordem, limpando espaços sujos e cheios de lixo. Interessante notar que nessa hora os papeis tradicionais de gênero são reafirmados: as mulheres fazem a faxina e os homens cuidam da eletricidade e hidráulica.

O filme conta com a direção de arte competente de Carla Caffé, que é arquiteta e trouxe para o set e para a ocupação alunos da Escola da Cidade, trabalhando de forma colaborativa para criar espaços de convivência que pudessem servir ao filme, mas também aos moradores reais do edifício. Questionando uma arquitetura de espetáculo, Carla confere força à película na forma de uma arte que transcende a si mesma e que se espalha através do construir para as pessoas e do habitar a cidade.

A direção marcante de Eliane Caffé percorre a narrativa retratando seus personagens com proximidade, mas também desvelando múltiplas camadas interpretativas que levantam pontos cruciais nas discussões contemporâneas. Era o Hotel Cambridge abre com o esqueleto do edifício que lhe dá nome se desnudando e fecha com o retrato pungente da exclusão e da negação dos direitos mais básicos, mostrando-se um importante trabalho social e político, além de artístico.

 

Melhores documentários assistidos em 2016

Pelo segunda vez elaboro essa lista de melhores documentários assistidos ao longo do ano. Essa lista existe porque opto por não incluí-los na de melhores filmes no ano, apenas para facilitar meu próprio trabalho. Estão inclusos obras de qualquer época que eu tenha assistido pela primeira vez em 2016. A lista está grosseiramente ordenada em ordem de preferência, disponível também no Letterboxd e os filmes que possuem críticas tem seus links no post.


Paris is Burning (1990)

Direção: Jennie Livingston

Intenso, divertido, emocionante e imersivo filme sobre a cena queer novaiorquina no final dos anos 80 e começo dos 90.

A 13ª Emenda (13th, 2016)

Direção: Ava DuVernay

Atual e necessário, o documentário distribuído pela Netflix escancara a emaranhada relação entre racismo e criminalização no Estados Unidos.

As Praias de Agnès (Les plages d’Agnès , 2008)

Direção: Agnès Varda

A diretora, de maneira lúdica, olha em retrospecto para seus feitos e as pessoas que a rodearam. Belíssimo filme que mostra alguém que viveu intensamente.

As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015)

Direção: Gillian Armstrong

Usando de recursos teatrais, o documentário retrata a chegada do grande figurinista Orry-Kelly em Hollywood e o ocultamento do relacionamento que mantinha com uma figura que também se tornou famosa.

Não é Um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015)

Direção: Chantal Akerman

Últimas conversas da cineasta com sua mãe, ajuda a colocar em perspectiva sua temáticas e a forma de abordá-las no contexto de sua filmografia.

O Peso do Silêncio (The Look of Silence, 2014)

Direção: Joshua Oppenheimer

Continuação do impactante O Ato de Matar, dessa vez sob o ponto de vista dos sobreviventes e familiares deles no genocídio na Indonésia.

Eu sou Ingrid Bergman (Ingrid Bergman in Her Own Words, 2015)

Direção: Stig Björkman

Através de cartas e diários e dos relatos de seus filhos, temos contato com aspectos particulares da vida da famosa atriz.

Making a Murderer (2015)

Direção: Moira Demos e Laura Ricciardi

Um interessante exercício narrativo que brinca com as expectativas do público a respeito de um crime (ou dois).

Os Irmãos Lobo (The Wolfpack, 2015)

Direção: Crystal Moselle

Documentário que nasceu da escolha certa de tema: os irmãos Angulo, que cresceram isolados do mundo, à não ser pelo contato com uma vasta coleção de filmes, que se tornou seu referencial de mundo e sua fonte de brincadeiras e entretenimento.

 

She’s Beautiful When She’s Angry (2014)

Direção: Mary Dore

Aborda de forma didática períodos e reivindicações do movimento feminista nos Estados Unidos.

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As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015)

As Mulheres que Ele Despiu é o título da autobiografia jamais publicada do premiado figurinista Orry-Kelly. O documentário homônimo dirigido por Gillian  Armstrong descortina sua vida e obra desde o vilarejo natal na Austrália, passando pelo período em que morou em Nova York e trabalhou na Broadway até chegar à consagração na época de ouro de Hollywood.

Kelly começou a sua carreira como aspirante a ator e foi dessa forma que se mudou para os Estados Unidos. Usou sua experiência com os bastidores do teatro e o contato profissional com as coristas para se alçar primeiro ao papel de cenógrafo e finalmente de figurinista. Foi nessa época, durante a década de 1920, que conheceu o jovem Archie Leach, que também havia migrado em busca de uma carreira dramática. Leach e Kelly rapidamente começaram um relacionamento e moraram juntos por alguns anos. Foi também junto que se mudaram para Los Angeles na tentativa de alcançar maior sucesso. A crise de 1929 e a preocupação com o lucro que os filmes geravam aliadas ao Código Hays e ao Sistema das Estrelas dificultaram a vida de artistas abertamente homossexuais. Kelly jamais ocultou quem era, mas Leach fez concessões e após alcançar o sucesso com o nome de Cary Grant foi gradualmente se afastando das relações homossexuais do passado. O filme foca no relacionamento entre o figurinista e o astro, utilizando-o como pano de fundo para as consequências dele na carreira do primeiro.

Mas para além da vida afetiva, também retrata o gênio dos tecidos, vencedor de três Oscars e que transformou a carreira de atrizes como Bette Davis, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, Jane Fonda e Angela Lansbury, por exemplo. As duas últimas fornecem depoimentos ricos sobre sua convivência com ele nos sets  de filmagem, bem como histórias de bastidores. As falas das estrelas do passado são trazidas com uso de interpretações vocais, que no contexto do documentário funcionam.

Somam-se às vozes das grandes atrizes diretamente afetadas pelo talento de Kelly a visão de grandes figurinistas, como Deborah Nadoolman, Catherine Martin, Michael Wilkinson, Colleen Atwood, entre outros. Utilizando o tradicional formato de cabeças falantes, eles podem analisar com calma e precisão o papel do seu trabalho na sétima arte e como Kelly lidou com obstáculos e criou um estilo seu, bastante particular.

Felizmente o documentário não faz uso apenas de cabeças falantes, que pode se tornar tedioso: utiliza também bonitas encenações que elevam o filme a uma dimensão poética, com destaque para a interpretação de Darren Gilshenan como o próprio Kelly. Tomadas externas se unem a outras gravadas em ambientes internos que misturam uma espécie de encenação teatral com projeções  e elementos cenográficos. O resultado engaja o espectador é visualmente instigante, beirando o experimental.

Orry-Kelly teve uma vida intensa, com suas divas, seus amores e seus três Oscars. Dentre os amores, Cary Grant certamente se destaca e o filme aborda lindamente a trajetória de ambos rumo ao sucesso e à inevitável separação. Como um todo, essa obra é no mínimo interessante, especialmente para quem tem apreço pela Hollywood antiga ou por figurinos. Mas não deixa de ter, também, sua forte carga emocional e engajar por meio dela.

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Paris is Burning (1990)

Paris is Burning é o perfeito retrato de uma cultura em um local e época específicos. O documentário de 1990, dirigido por Jennie Livingston, foi filmado entre 1985 e 1989 nos bailes queer do Harlem, em Nova York. Seus protagonistas são os participantes deles, majoritariamente compostos por homens gays e mulheres trans, negros e latinos.

O filme possibilita a reflexão sobre as exclusões sistêmicas de cunho étnico-racial e de classe a que seus personagens são submetidos. Sonhando com riqueza, aceitação e uma vida melhor, eles competem em desfiles de drag em categorias como “empresário”, “estudante universitário”, “magnata do campo”, entre outras, mostrando que se ainda não ocupavam esses espaços, pelo menos poderiam se mostrar capazes de imitar a aparência que os caracteriza. É a aí que surge o conceito de realness, que é vinculado à passabilidade de cada um e cada uma dentro das categorias escolhidas. Com cortes que mostram os competidores e as pessoas de classe média andando pela cidade, o filme trata de estabelecer que todos igualmente montam um personagem.

Outra competição existente é de vogue, em que dois rivais se enfrentam em uma dança que emula as poses encontradas nos ensaios da famosa revista. Até o final das filmagens o vogue já havia se tornado mainstream e sido absorvido pelo mercado fonográfico. Pouco depois do lançamento do documentário, Madonna lança uma música com esse mesmo nome.

Os competidores são divididos em casas com uma matriarca. A estrutura funciona como a de uma família e fornece uma rede de apoio e uma identidade para cada um. De certa forma eles substituem pela cena LGBT o contato e o carinho familiar que geralmente deixam de ter quando saem do armário. Os personagens são incrivelmente carismáticos em seus relatos de vida e na abordagem de seus sonhos. Apesar de todos os problemas no mundo exterior, no baile eles brilham e são estrelas. É triste pensar que não muitos anos depois muitos deles já não estariam vivos, em virtude especialmente do HIV/AIDS, que roubou uma geração de jovens criativos e com espírito artístico.

Se você gosta de RuPaul Drag’s Race, vai perceber que foi nesse contexto que foram criadas muitas das gírias e expressões que agora, graças ao programa e sua apresentadora, chegaram ao mainstream. A assimilação contemporânea também tem a ver com o declínio da cena no começo dos anos 1990. No filme, a câmera não é invasiva e parece mergulhar quase despercebida em seu universo, capturando reflexões, desabafos, mas também força e alegria. Paris is Burning  é um documentário interessante e apaixonante como seus protagonistas.

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Elena (2012)

“Arte pra mim é tudo, sem a arte eu prefiro morrer”

Esta não é uma crítica.

Talvez não seja mais do que um apanhado de percepções pessoais sobre um filme que também é um apanhado de percepções pessoais.

Elena é dirigido por Petra Costa e trata de sua convivência com sua irmã, treze anos mais velha. Elena queria ser artista e cedo ganhou dos pais uma câmera. Graças a isso, Petra pode se debruçar sobre imagens que descortinam seu crescimento: a irmã ainda pré-adolescente rodopiando a dançar; aos treze, embalando-a no colo e dormindo junto a ela; aos dezesseis atuando e dirigindo filmes caseiros em que ambas se divertiam. Elena aparece como uma figura sensível, sedenta por se expressar artisticamente e por esticar os braços e alcançar as estrelas. Elena dança com a Lua.

Além das duas irmãs, a mãe também aparece como uma personagem forte. A socióloga deixa escapar uma juventude de melancolia que se fez presente até conhecer o pai delas. Menciona os momentos em que desenhava para expressar a tristeza.

Elena queria ser atriz e foi aceita na universidade de Nova York. Era perfeccionista e dedicada, mas se sentia só e triste, muito triste. Petra, tão pequena, não entendia o que estava acontecendo. As imagens de arquivo são etéreas, como se pertencessem a um passado que o tempo trata de dissolver. A estética do filme é muito bonita ao captar a mente de suas protagonistas assim, vagando pelas lembranças.

É fácil de se identificar com as personagens. O filme me afetou de uma maneira bastante pessoal. Um dia eu já fui Elena. Começou cedo, bem cedo. Às vezes eu acordava e só de olhar tudo ao meu redor, doía. Doía respirar, doía olhar o mundo, doía sentir aquele vazio. Então, anos depois, também me mudei para uma cidade fria em que não conhecia as pessoas. Queria ficar só, mas quanto mais só, mais triste. Andava pelas ruas escondendo as marcas nos braços. De noite saía do apartamento pequeno demais e olhava as estrelas. Mas eu também gritava por dentro através da minha arte. Só que não atuava, nem dançava: eu escrevia. Derramava palavras que me machucavam mas me faziam bem. Escrever virou uma necessidade. Quanto pior ficava, mais escrevia e só conseguia escrever assim. Às vezes era difícil conter as lágrimas e elas rolavam por horas sem parar, manchando as páginas marcadas pelas letras. E eu achava que assim elas ficavam até mais bonitas. Mas por algum motivo, eu permaneci.

Um dia, quando tinha lá meus vinte três ou vinte e quatro anos e bem mais de uma década de papeis manchados de lágrimas, decidi que eu precisava parar com esse ciclo. Sei que não funciona assim com todo mundo. Mas eu decidi que não escreveria mais aquelas poesias que precisavam de dor para nascer. Percebi que eu precisava continuar escrevendo, mas precisava de novas inspirações. Escrevi sobre livros que me encantaram, sobre jogos que me divertiram, sobre filmes que me levaram a outros lugares. E com os anos a escrita tomou um novo sentido para mim.

Às vezes aquela tristeza imensa e sem motivo ainda se esgueira, se infiltrando nas rachaduras do cotidiano, acenando e tentando trazer de volta tudo que a acompanha. Mas deixo-a lá, porque tanta coisa na minha vida já mudou.

Elena se apresenta como um documentário que é quase ficção, construído por memórias, pelo que foi , pelo que poderia ter sido e pelo que ficou. É um projeto visivelmente pessoal, que transborda na tela repleto da subjetividade da autora. Elena é poesia visual.

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INFERNO

as chamas
me chamam
me queimam
me abrasam
me coram
me sinto tão sem vida
me sinto tão morta
me sinto tão só
me sinto tão assassina
(matei a vida
matei a alegria
matei o riso
matei a ênclise)
fujo pelos cantos
como uma sombra
sem rumo
como um cão
sem dono
a uivar sua dor
para uma lua
indiferente
rasgo minhas vestes
rasgo minha carne
(atiro-a aos chacais)
no desespero
dos que não sabem
como andar para frente
esses meus erros
esses meus medos
essas minhas dúvidas
essas minhas perdições
essas minhas crises
essa minha falta de senso
que queimem no inferno!
eu estou lá agora…

31/05/2003

Elena