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42ª Mostra de São Paulo- A Valsa de Waldheim

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Eleições nacionais. O candidato com passado militar exalta a moral, a família e espírito da nação. Minimiza as mortes do passado alegando que muita gente morreu naquela época. As manifestações contra ele aumentam e seus seguidores ameaçam a vida dos oponentes. Outros usam de argumentos religiosos para defendê-lo. Ele não vence no primeiro turno, mas garante 46% dos votos válidos. No segundo turno as manifestações se ampliam. A mídia internacional cobre, não sem espanto, as escolhas dos cidadãos do país e a espantosa ficha do candidato. Estes rebatem dizendo que vão eleger quem eles quiserem e que tudo não passa de um plano de esquerdistas para acabar com o democracia. Poderia ser o Brasil em 2018, mas é a Áustria em 1986.

As semelhanças entre os fatos apresentados no documentário A Valsa de Waldheim (Waldheims Walzer, 2018) e nosso próprio cenário político são assustadoras. A diretora, Ruth Beckermann, era ativista na época que o filme cobre. Ela filmou alguns protestos e, junto com imagens de arquivo, conseguiu recontar aquele momento da candidatura de Kurt Waldheim. Político de carreira, ex-secretário geral do ONU por quase 10 anos, entre 1972 e 1981, ele foi acusado de ter sido atuante no exército nazista. Arquivos de guerra revelam sua ficha militar, bem como fotos dele em campo  e documentos que provam sua filiação a organizações nazistas e serviços prestados a eles.

Em suas memórias sobre a época, costumava dizer que foi ferido em combate em 1941 e depois afastado. Omitiu o fato de ter trabalhado na Iugoslávia e na Grécia em seções responsáveis por deportar judeus para a morte. Negando veemente esses anos de serviço prestado para o 3º Reich, Waldheim apelou para um discurso populista e nacionalista, que questionava a nacionalidade a pessoas “que não eram austríacas de verdade”. Enquanto manifestantes diziam que não aceitariam essa época de violência de novo, sua constante relativização das mortes do holocausto, sempre comparadas com as mortes de alemães, levaram a discursos antissemitas inflamados da população.

Sob o escudo da moralidade, foi defendido por seus eleitores, que acusavam uma conspiração internacional para derrotá-lo. Beckermann faz uso certeiro das imagens da época, nos deslocando para os debates entre políticos, historiadores, manifestantes e partidários, descortinando o posicionamento de cada peão no complexo tabuleiro político. Embora o formato seja convencional, o filme ganha força na montagem que compõe um panorama bastante claro. O interessante é que em meio a isso tudo, não seja apresentado o candidato concorrente. Talvez porque a documentarista esteja mais preocupada em, ao mesmo tempo descortinar o absurdo daquilo tudo, mas também deixar a narrativa aberta o suficiente para que os espectadores contemporâneos possam preenchê-la com as histórias atuais de direta conservadora que, com seus nacionalismos extremistas, novamente está em ascensão na Europa. O documentário deixa bem claro que não importam as provas: a população seguirá o discurso que lhe parecer mais conveniente. O filme é o candidato austríaco para a vaga no prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2019.

4,5 de 5 estrelas

P.S: O desolador é perceber que com todos os paralelos possíveis de fazer com o Brasil, ainda assim Waldheim sempre negou seu envolvimento com o nazismo. Já o candidato brasileiro da extrema-direita conservadora apoio a tortura como método, o extermínio de dissidências políticas e reverencia a história e as figuras da ditadura militar brasileira. E mesmo com o discurso abertamente violento é a preferência de grande parte da população. Waldheim venceu o segundo turno com 53,9% votos. O que nos aguarda?

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42ª Mostra de São Paulo- El Creador de Universos

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Nesse documentário uruguaio, escrito e dirigido por Mercedes Dominioni, somos apresentados ao jovem Juan, que tem grande interesse por telenovelas. Fascinado com o mundo de narrativas rocambolescas, vilões marcantes e reviravoltas, trata, ele mesmo, de escrever roteiros para suas histórias. Quem embarca nessa aventura de fantasia junto com ele é sua avó, Rosa, que tem mais de 90 anos de idade. Juntos, com o auxílio de uma pequena câmera digital, perucas e alguns adereços, constroem suas próprias narrativas dia após dia.

A dinâmica das cenas é interessante, nos deslocando para a mente inventiva do garoto, que teme, por exemplo, fazer dezoito anos porque então poderia ser preso falsamente acusado por alguém. Os demais membros da família também tomam parte da brincadeira em certos momentos, mas é o laço entre neto e avó que se fortalece no exercício criativo. Juan se envolve tanto com sua estética de telenovela que, diante da equipe do próprio documentário, por vezes parece estar sempre atuando, ampliando seus gestos e falas com dramaticidade.

O que o filme delineia sem jamais abordar diretamente é que Juan é diagnosticado com Síndrome de Asperger e como suas criações ajudam-no a colocar ordem sua própria vida, com dias certos para cada atividade da filmagem. O que está, sim, constantemente presente, é o afeto entre avó e neto, que guia as atividades.

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Entremarés

Crítica escrita para a parceria entre Elviras- Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e o Tudo Sobre Mulheres- VI Festival de Cinema Feminino de Chapada dos Guimarães.

Com muita calma, uma senhora segura uma rede de pesca entre suas mãos e remenda os pontos danificados. A pesca como uma rede de conexões entre as pessoas, especialmente as mulheres. Os nós que interligam todos. As laçadas que estruturam a comunidade. O conjunto que cria o tecido da sociabilidade local. Assim começa Entremarés, documentário dirigido por Anna Andrade que apresenta as mulheres da Ilha de Deus, em Recife, local de preservação do manguezal em perímetro urbano.

A imagem aérea descortina uma ilha rodeada por açudes e preenchida por moradias. Ali, o trabalho vinculado ao caranguejo, ao camarão e ao sururu atravessa a rotina, é o que sustenta a comunidade e cria as relações. Ginha, Rita e Sandra são as protagonistas e destacam que, fazendo o que fazem, conseguem o que têm. “Meu pai deixou minha mãe com seis crianças e mais um na barriga, com nove anos eu já ia pegar sururu para dar de comer”. O trabalho é árduo e repetitivo. Os açudes pululam com os animais que, depois, irão ser vendidos, garantindo, também, carne e frango e, dessa forma, se aumenta a variedade de alimentação. “O camarão precisa comer três veze ao dia, feito gente”. A comparação existe porque graças a ele, em Ilha de Deus se fala que ninguém passa fome.  

O lugar é movimento: vento, crianças jogando futebol no campinho, o carro das frutas, o trem que corta a água, as pessoas andando na rua. A câmera, sempre parada, destaca o ritmo da vida local. O tremido dela na mão só vem na hora da pesca, que é o congraçamento e o trabalho conjunto. Ela balança na ação aparentemente caótica, mas coordenada do coletivo, no momento em que as conexões se criam.

Os próprios prédios do recente conjunto habitacional conferem um ritmo à paisagem local, pequenos e alinhados simetricamente. O ritmo se repete no trabalho: silenciosas, as mulheres separam cuidadosamente o sururu em grandes baldes. Os corpos curvados, a expressão concentrada. As vozes em off dão dimensão da rotina, narrando a delicadeza e o esforço dos afazeres trabalhosos. A geração seguinte tem o que a elas foi negado. “Notebook, tablet, Barbie, minha filha tem de tudo”.

Nos entrelaços da ilha, são as mulheres que criam a trama das relações sociais. Não é à toa, a ponte que liga o local ao resto da cidade se chama “Vitória das Mulheres”. Em meio ao mangue, a cidade ao longe, a comunidade resiste com seus modos de vida tradicionais. O trabalho de Anna Andrade trata de destacar o cuidado e a singeleza que permeiam a força das moradoras.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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Construindo Pontes (2017)

Publicado originalmente em 3 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sem ler nada a respeito do filme, apenas confiando na direção de Heloisa Passos (fotógrafa do recente Mulher do Pai), após as primeiras cenas me peguei pensando que se tratava de um documentário sobre grandes obras de engenharia, especialmente hidrelétricas, e no impacto que elas acarretam, especialmente nos modos de vida tradicionais. Não poderia estar mais errada. Mas certa também.

As pistas entendidas de maneira errada vieram de gravações caseiras com que a diretora foi presenteada que mostram a ação dos explosivos nas cachoeiras de Sete Quedas, no que viria a ser a Usina de Itaipu. Depois vemos a atual área alagada, com um trabalho de som que sobrepõe essa paisagem com o barulho das máquinas que um dia trabalharam no local.

Mas essa introdução serve para localizar o espectador nas pontes que realmente precisam ser construídas: Heloísa é filha de um engenheiro que trabalhou nos grandes projetos dos governos da ditatura militar no Brasil. Seu pai defende que esse foi o único momento em que o país teve um projeto nacional de desenvolvimento. Pessoas foram mortas, sim, mas isso é outra coisa, segundo ele. E aí é que se cria um abismo que separa pai e filha há décadas, afinal, conforme a narração da própria diretora “família é o não dito”.

Com a câmera parada, o cotidiano doméstico e familiar é retratado com certo distanciamento. Talvez o maior problema do documentário seja que não consegue estruturar uma linha de raciocínio por parte dos debatedores. A diretora rebate as falas do pai e ele faz o mesmo com ela, mas nenhum dos dois apresentam argumentos sólidos para seu posicionamento e muitas vezes a sensação é de estar presenciando uma discussão parecida demais com aquelas das redes sociais.

Por outro lado, a impressão de proximidade pode ser muito grande. Provavelmente diversos espectadores verão a si e a seus pais, mesmo que de outras maneiras e em graus diferentes, retratados nos diálogos que se apresentam ou nas tentativas frustradas de levá-los adiante. Em tempos de fortalecimento de discursos extremistas, devemos nos preparar para o diálogo. Ou, dependendo do contexto familiar, para lidar com os silêncios.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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Visages Vilages (2017)

Postado originalmente em 3 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 


Agnès Varda é sem dúvida uma figura cativante. Aos 89 anos, dos quais mais de sessenta foram dedicados ao cinema, a diretora vive uma fase de reconhecimento pleno e foi homenageada com um Oscar honorário por sua trajetória, fato que ironiza, uma vez que mesmo esse seu filme mais recente foi realizado através de financiamento coletivo, como pode ser conferido logo nos agradecimentos dos créditos de abertura. E agora esse mesmo filme foi indicado na categoria de Melhor Documentário, sua primeira indicação ao Oscar. Mas a incansável senhora de cabelo bicolor é uma colecionadora de pessoas e suas histórias, transformando-as em suas deliciosas narrativas audiovisuais.

Em seu novo documentário firmou parceria com o fotógrafo e artista JR. O jovem costuma viajar em seu furgão devidamente adesivado com a imagem de uma câmera fotográfica na lateral e tirar fotos de pessoas comuns, que são impressas e muitas vezes aplicadas a grandes elementos verticais, como muros e paredes, criando murais. Varda resolve acompanha-lo pelos vilarejos do interior da França e coletar os rostos das pessoas que conhece pelo caminho, enquanto entabula diálogos com elas.

A primeira, Jeannine, é uma senhora que mora em um antigo conjunto de casas de mineiros, profissão exercida por seu pai. Ela diz que não pretende sair da casa, por mais que seja pressionada, sendo a última moradora (como uma Clara em seu Aquarius). É homenageada com um painel que cobre toda a fachada. E esse é só um exemplo: Varda está interessada nos pequenos detalhes das vidas das pessoas, mas traz também momentos da sua própria, além de um olho treinado para a visualidade, que compõe cenas belíssimas, com humor e sensibilidade sempre presentes, das pessoas, das obras, das paisagens e de sua combinação.

JR é um bom contraponto a ela: às vezes pesa um pouco a arrogância e o excesso de certezas da juventude, mas seu desejo de embarcar integralmente no projeto se mostra efetivo. Além disso, apesar da diferença geracional, a comunicação entre os dois é bonita de se observar. Mas no final das contas, o filme funciona essencialmente por causa de Varda. Essa figura simpática e carismática, que produz encantamento por onde passa e, apesar de algumas limitações físicas, ainda se preocupa com o criar. O resultado é um filme leve, que faz rir e chorar e a reafirmação de seu talento. O mundo precisa de mais Vardas: pessoas com alma intensa, que respiram arte e sabem transmiti-la.

Selo "approved Bachdel Wallace Test"

Nota 5 de 5 estrelas

 

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